segunda-feira, 31 de outubro de 2016

FLAMENGO: A Maior Torcida do Brasil, desde sempre!

Vamos surfar aqui uma onda que subiu a partir de uma matéria inicialmente publicada no jornal Diário de Pernambuco, mas que ganhou repercussão mesmo quando o SPORTV divulgou. No site da emissora saiu a matéria: "Pesquisa com clubes em 69 mostrava Santos "mais querido", à frente do Fla". Ué? Mas o Flamengo não foi o maior desde sempre? Como diz o título? Sim, e quem chegar até o final deste texto facilmente entenderá o porquê. 

Integra da matéria publicada no "Canal Campeão": O jornal “Diário de Pernambuco” levantou o assunto nesta semana e o "Redação SporTV" repercutiu nesta sexta-feira. O programa trouxe a primeira pesquisa nacional, encomendada ao Ibope pelo jornal carioca “O Globo” em 1969, sobre a popularidade dos clubes brasileiros. A diferença em relação às pesquisas mais recentes já estava na pergunta feita pelo instituto de pesquisa: “No seu entender, qual o clube de futebol mais querido do Brasil?”. A mesma pergunta foi feita sobre o clube mais querido do estado de cada entrevistado. Nacionalmente, a resposta mais repetida foi “Santos”, com 49%.

Diferente das pesquisas atuais que indagam para qual time torce o entrevistado, na pesquisa de 69 a pergunta tratava do tema de forma mais abrangente. “O Globo” publicou reportagem com os dados nacionais da pesquisa no dia 4 de março daquele ano, enquanto reproduziu a pesquisa feita em 11 estados no dia 9.

A pesquisa nacional mostrava o Santos como clube mais querido do Brasil para 49%, seguido pelo Flamengo (20%) e Corinthians (14%). Em 1969, o Santos tinha uma verdadeira seleção, escalada com: Gilmar; Carlos Alberto Torres, Mauro, Calvet e Dalmo; Zito e Mengálvio (Coutinho); Dorval, Pepe, Coutinho (Toninho Guerreiro) e Pelé; todos sob o comando do técnico Lula, jogando no esquema 4-2-4.

Confira a pesquisa Ibope de 1969:


O ano de 1969 ficou marcado também pelo feito dos mil gols alcançado por Pelé. No Maracanã, diante do Vasco, no dia 19 de novembro, o Rei do Futebol cobrou pênalti aos 33 minutos do segundo tempo e venceu Andrada, para entrar para a história com o milésimo gol na carreira, e com a camisa do Santos.

- Alguém vai dizer: “Poxa, mas o Santos?”. A pergunta explica a resposta. Aquela época era o Santos com Pelé, Toninho Guerreiro, era uma equipe que encantava o Brasil. E com outro detalhe: 1969 foi o ano em que Pelé fez o milésimo gol, com a camisa do Santos. Nacionalmente houve uma mobilização pelo Santos, uma atração, e criou-se uma expectativa se Pelé marcaria esse gol na Fonte Nova, em Salvador, por exemplo. Aparecem o Palmeiras, com a Academia, o Botafogo de Jairzinho, Roberto, Paulo Cesar. O Fluminense e Atlético-MG um pouco menores, mas o Atlético do Lola, o Fluminense tinha Cláudio Garcia, Samarone, e era objeto de atenção do Nelson Rodrigues sempre em sua coluna - relembrou o comentarista Paulo Cesar Vasconcellos.

O Ibope fez a mesma pergunta em 11 capitais do país: “Na sua cidade, qual é o clube de futebol mais querido?”. No Rio de Janeiro, o Flamengo ficou à frente com 56%. Em São Paulo, o Corinthians obteve 50% das respostas. Em Belo Horizonte, o Atlético-MG tinha a preferência maciça dos entrevistados, com 89%. Em Porto Alegre, o Inter somava 60%.

Confira a pesquisa em 11 estados:


- A pesquisa ainda não flagra a ascensão do Cruzeiro, que se dá exatamente nesse momento. A briga em Minas até então era América e Atlético. O Cruzeiro é uma ascensão fulminante mais recente, com Tostão e Dirceu Lopes - citou o jornalista Arthur Dapieve.

André Rizek, apresentador do Redação SporTV, citou a mudança no formato da comunicação para demonstrar a diferença de realidades no futebol da década de 60 e dos dias de hoje, com emissoras de TV dedicadas ao esporte, por exemplo.

- Numa época que não é como hoje, com notícias nacionais. Você vê que os gaúchos não aparecem ali ainda (na pesquisa nacional). Não é como hoje, com um canal como o SporTV, que pessoas do Brasil inteiro têm acesso, que é um canal de rede 24 horas. Na época, a rede era o rádio. A televisão começava a ter a força que tem hoje.

Complementarmente, destaco a matéria sobre o mesmo assunto no Blog Teoria dos Jogos: "Pesquisas antigas e a importância de se fazer as perguntas corretas".

Tudo começou com o jornalista Cássio Zírpoli, autor de um blog no Diário de Pernambuco cuja pegada é parecida à do Blog Teoria dos Jogos no que se refere às pesquisas de torcida. O enfoque: pesquisas realizadas pelo Ibope em Pernambuco e em regiões metropolitanas, entre os anos de 1969 e 1971. A descoberta do material é atribuída ao colaborador do Blog Teoria dos Jogos e pesquisador Clayton Silvestre – que já nos havia o disponibilizado há alguns anos. À época e por questões de pauta, não a publicamos, mas agora a repercussão veio com força pelo fato de o Redação Sportv tê-la explorado em sua edição desta manhã. E pelos resultados da pesquisa terem supostamente colocado o Santos na condição de maior torcida do Brasil no passado.

Você está certo disto?

Pra início de conversa, é importante contextualizar o que representava o Santos Futebol Clube em 1969. Supercampeão em tempos de grandes esquadrões, o Peixe era de longe o maior clube do Brasil. Tudo graças aos inúmeros títulos enfileirados por aquele time dos sonhos capitaneado por Pelé, que incluíam duas Copas Libertadores, dois Mundiais Interclubes, seis títulos nacionais, quatro Rio-São Paulo e uma sequência infindável de títulos paulistas. Os muitos anos de preponderância tornavam natural a relevância, inclusive em termos de tamanho de torcida. Por muito tempo o Santos foi, sim, o queridinho no coração de muitos brasileiros.

Daí a ter detido a maior torcida do país, vai uma distância. Fruto de distorções bastante comuns em se tratando de vieses em pesquisas do gênero. A questão aqui é: numa pesquisa de opinião, quando não se fazem as perguntas corretas, os resultados saem inequivocamente defeituosos. Vejamos se não:


O grande pecado da pesquisa de 1969 foi não ter perguntado: “qual é o seu time?”, como convencionalmente se faz. Ao perguntar “no seu entender, qual o clube de futebol mais querido em todo o Brasil?” o que o Ibope fez foi, indiretamente, arguir: “Para qual time você acha que as outras pessoas torcem”? E aí, os números saíram totalmente desalinhados da realidade. Alinharam-se com o que se verificava no país em termos de conquistas e idolatria.

Tanto é que a ordem das coisas se restabeleceu quando a pergunta passou a ser “no seu entender, qual o clube de futebol mais querido do seu estado?”. Aí sim as pessoas deixaram de responder pelos outros, passando a expor sua verdadeira preferência particular. Com isto, o Santos retornou a um padrão intermediário, ainda que muito superior ao que se verifica hoje:


Em tempos atuais, soa impensável o Peixe deter a segunda maior torcida do estado de São Paulo – atrás apenas do Corinthians. Tão impensável quanto imaginar que, mesmo com apenas 21% de seu estado de origem, pudesse fazer frente ao Corinthians e seus 50% no mesmo estado. Que dirá ao Flamengo, desde sempre hegemônico no Rio e em tantas outras regiões não contempladas porque a pergunta se restringia aos times do próprio estado.

A conclusão a que chegamos é que perguntas mal formuladas levarão a resultados descolados da realidade.

Sendo assim, como analisar em retrospecto a questão das maiores torcidas do passado? Isto, logicamente, o Blog Teoria dos Jogos já fez, em postagem datada de 26 de agosto de 2014. E lá, concluímos ser possível fazê-lo ao: 1) analisarmos as tabulações por faixas etárias de pesquisas atuais; 2) Nos basearmos em pesquisas antigas (desde que fizessem as perguntas corretas); 3) Verificarmos o que diziam publicações de época. Este último elemento, de fato, aponta para um Santos mais preponderante. Algo que não resiste à análise dos dois primeiros elementos, desde muito apontados para a supremacia de Flamengo e Corinthians em termos nacionais.

Eis o que o mesmo blog, Teoria dos Jogos, já havia publicado no passado, em em 26 de agosto de 2014: "As maiores torcidas do Brasil do passado"

À medida com que se aproxima o fim de um ciclo, aprofunda-se a busca de respostas relacionadas a indagações históricas. Há quase três anos o Blog Teoria dos Jogos se propôs a mapear as torcidas nacionais com base em pesquisas locais, geralmente sem nenhum eco na grande mídia. Embora o processo não tenha se completado, evolui a cada dia. O objetivo será publicar uma compilação definitiva daquilo que seria a “maior pesquisa de torcidas do país”.

Antes, entretanto, é preciso dizer que vivemos uma fase de pesquisas nacionais. As eleições presidenciais redirecionam o foco dos institutos, fazendo que o âmbito regional ceda espaço para números do país como um todo. É o que aconteceu há algumas semanas, quando o Datafolha trouxe à tona sua mais recente pesquisa. E acontecerá amanhã, com a divulgação da aguardada pesquisa Lance-Ibope 2014.

Ainda assim, o perfil das torcidas nacionais nos reserva análises bastante interessantes. Uma delas diz respeito à configuração das massas algumas décadas atrás. Muito se fala em Flamengo e Corinthians nos dias de hoje, mas será que isto sempre foi assim? Quais eram as maiores torcidas do Brasil no passado?

Existem três formas de se tentar responder à pergunta. Vejamos:

1) Com base nas tabulações por faixa etária nas pesquisas atuais

Um dos hábitos do Blog Teoria dos Jogos é divulgar a maioria das pesquisas em tabulações por gênero, renda, escolaridade e faixa etária. O objetivo é projetar o futuro das torcidas, mas agora a ótica é oposta. Para termos uma ideia da configuração das massas no passado, torna-se importante analisar a faixa etária mais avançada das pesquisas de hoje em dia. Tomemos o Datafolha-2014 como exemplo:


O perfil apontado é relativamente semelhante ao atual, mas com menor dispersão entre as torcidas: as maiores eram menores e as menores, maiores. Verificam-se ascensões e a formação de um bloco único do terceiro ao décimo segundo, com torcidas de tamanho relativamente parecido. Por fim, e surpreendentemente, o Datafolha apontaria para uma reversão na liderança. Será mesmo que a maior torcida do Brasil no passado era outra?

Muita calma nesta hora. Primeiro porque a margem de erro dentro de faixas específicas é muito maior do que a margem da pesquisa como um todo. Segundo porque, à medida com que se envelhece, existe uma tendência a perder o encanto com o futebol. Vejam que o percentual “sem time” sai de 12% (abaixo dos 24 anos), escala a 18%, 24% e 28% até atingir 32% acima dos 60 anos. As razões para o desapego podem ser encontradas em estudos relacionados à Psicologia, mas é possível que algumas torcidas se dissipem mais do que outras neste processo.

2) Com base em pesquisas do passado

Antes do diário Lance firmar parceria com a Ibope – rendendo pesquisas em 1998, 2001, 2004, 2010 e 2014 – era a revista Placar quem o fazia. Como o ocorreu em 1993, com os seguintes resultados:


O problema é que, em tempos de menor solidez institucional, havia bem menos comprometimento com o trato das informações. A pesquisa de 1993, por exemplo, só englobou regiões metropolitanas e não ouviu mulheres. Não é preciso dizer muito acerca da falta de confiabilidade. O que dizer então da pesquisa Gallup-1983, requentada na mesma edição da Placar?


É certo que no auge da “era Zico” a torcida do Flamengo viveu um boom, mas soa exagerado que tenha atingido 31% das preferências nacionais. O mesmo se pode dizer do ínfimo percentual sem clube (3%).  Quase nada se sabe a respeito das metodologias adotadas por um instituto que sequer atua mais no Brasil, comprometendo qualquer análise.

3) Com base em publicações do passado

Em busca das relíquias nos acervos digitais de nossas grandes publicações, encontramos a seguinte matéria da revista Veja em sua edição de estreia (01/09/1968):


A reportagem era sobre o advento da Taça de Prata e sua tabela dirigida, havendo maior número de jogos em regiões onde o futebol era mais tradicional e rentável. Aos mais populares, restava “excursionar”, explorando nacionalmente seu apelo. Eis o papel atribuído a Flamengo e Santos – no auge da “era Pelé”. Sem nenhum estudo ou embasamento técnico, a revista cravava uma situação com base no pior levantamento existente: o “olhômetro”. Ainda que uma má pesquisa seja preferível a nenhuma pesquisa.

CONCLUSÃO do Blog Teoria dos Jogos
Todos os métodos de análise a posteriori se mostram falhos por razões expostas em cada tópico. Entretanto, tudo leva a crer que o ordenamento pouco se alterou nos últimos 50 anos. Pode ser que o Flamengo, tido e havido como maior torcida do Brasil, enfrentasse menos facilidade no passado, mas sua hegemonia sempre foi tratada como unanimidade. Independente da “fila”, a torcida do Corinthians sempre foi grande, tornando improvável que não tenha ocupado o segundo lugar neste período. São Paulo, Palmeiras e Vasco possuíam enormes contingentes, ainda que dessem margem à aproximação de Santos, Botafogo e Fluminense. Tudo indica que o Internacional era mais popular que o Grêmio, enquanto o Atlético-MG estava à frente do Cruzeiro. Havia, ainda, maior espaço para agremiações locais, dividindo um bolo que hoje tende a se concentrar cada vez mais.

CONCLUSÃO do BLOG A NAÇÃO

(1) O resultado trazido nacionalmente em 1969 traz uma proporção de distribuição das torcidas de Flamengo e Corinthians muito similar à verificada nas 27 capitais do Brasil em levantamento feito pelo SPC e pelos Dirigentes Lojistas. Excluindo-se as distorções a favor do Santos pelas distorções provocadas pela forma que a pergunta foi feita, e pelo contexto histórico de ser o Santos de Pelé, que lotava o Maracanã para vê-lo jogar, o Flamengo já era absolutamente dominante.

(2) Já foi tratado aqui neste blog, que embora seja fato que o time de Zico nos anos 1980 infle um pouco os resultados das pesquisas feitas no início daquela década, o Flamengo não se tornou o maior por causa daquele time nem do Zico, já o era desde sempre!

(3) Chama muita atenção também, que o percentual de torcedores do Flamengo na cidade do Rio de Janeiro em 1969 (que então era o Estado da Guanabara), já era praticamente o mesmo do que foi verificado em todas as outras pesquisas do gênero feitas nas últimas décadas. A torcida do Flamengo sempre foi mais da metade dos torcedores do Rio! Isto é uma verdade muito importante ressaltada nesta pesquisa de 1969, e que passou desapercebida, ou intencionalmente escondida, por todos os que divulgaram estes números.

(4) Como é incontestável também que o processo histórico de fim da bipolaridade econômica Rio-São Paulo, com o início de um período incontestavelmente hegemonicamente paulista no Brasil, levou o Vasco a perder espaço nacionalmente para os grandes times paulistanos. Processo que pode sim, um dia, levar o Corinthians a vir a ultrapassar o Flamengo na preferência futebolística nacional. Mas os números nos induzem a crer que, ao invés do que a massiva propaganda paulista nos meios de comunicação tenta afirmar, esta possibilidade ainda está muito distante de ser realidade.

(5) Em termos de tamanho (quantidade de pessoas e não percentual) o resultado mais confiável trazio a público no período mais recente é o ilustrado no gráfico abaixo:



Veja tudo relacionado a este tema que já saiu aqui no blog: A Maior Torcida do Brasil


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