sábado, 4 de fevereiro de 2017

Melhor do Mundo na Gávea: a aventura de um húngaro no Flamengo

Republico aqui no blog A NAÇÃO mais um brilhante trabalho do blog de Emmanuel do Valle, chamado FLAMENGO ALTERNATIVO, de quem me tornei grande fã.

Já tinha replicado aqui no blog os textos anteriores do FLAMENGO ALTERNATIVO sobre o argentino Doval, o zagueiro paraguaio Reyes, e sobre a Montanha-Russa do Flamengo 1970. Agora replico esta pérola, a história detalhada de quando o húngaro Florian Albert, o Melhor Jogador do Mundo, vestiu a camisa do Flamengo. Eis a integra do texto a seguir:

A notícia correu pelas redações dos jornais chegando logo aos olhos e ouvidos dos torcedores naquele início de setembro de 1966: Flórián Albert, atacante da seleção da Hungria que menos de dois meses antes se destacara na Copa do Mundo da Inglaterra, viria jogar no Flamengo emprestado por seu clube, o Ferencváros, e pela Federação Húngara.

A expectativa de ver vestindo rubro-negro o jogador que destroçara a Seleção Brasileira de Vicente Feola nos gramados ingleses logo tomou conta da cidade. E seria enfim concretizada na tarde de 15 de janeiro do ano seguinte em um amistoso contra o Vasco na Gávea.

Albert, que no fim daquele ano receberia o prêmio Bola de Ouro, da revista francesa France Football, como o melhor jogador da Europa, seria o primeiro detentor do troféu a atuar, ainda que somente em partidas amistosas, por um clube brasileiro. Uma experiência da qual o húngaro nunca se esqueceu.


A vinda de Albert vinha sendo negociada alguns meses antes pelo diretor de futebol rubro-negro, o sueco Gunnar Goransson – um representante no Brasil da Facit (empresa de seu país que fabricava máquinas de escrever e outros utensílios de escritório) que se apaixonara pelo Flamengo e passara a integrar a diretoria do clube. Não era, no entanto, o primeiro astro europeu trazido por Goransson para visitar o clube e treinar nele: no ano anterior, o lendário goleiro soviético Lev Yashin – outro ganhador da Bola de Ouro, em 1963 – passara alguns dias na Gávea, treinando e trocando experiências.

No mesmo ano em que Yashin ganhou o prêmio da France Football, aportou na Gávea outro jogador trazido por Goransson, o veloz e driblador ponta-direita Roger Magnusson, seu compatriota sueco, de apenas 18 anos, para um estágio no clube. Mais tarde, depois de passar também pelo Colônia alemão e pela Juventus italiana, o jovem faria história no Olympique de Marselha, onde ganharia o apelido de “Garrincha sueco”. E naquele mesmo segundo semestre de 1966 em que negociava a vinda de Albert, o dirigente traria também outros dois compatriotas seus: o defensor Kurt Axelsson (que mais tarde disputaria a Copa do Mundo de 1970) e o ponta-esquerda Roland “Rimbo” Lundblad.

Inicialmente, chegou-se a cogitar a liberação de Albert ao Flamengo por sete meses, a partir de meados de outubro de 1966. Mas, mais tarde, a federação húngara – que chegara a voltar atrás e vetar a viagem – decidiu limitá-la a apenas um mês, após a virada do ano. O jogador estaria liberado para treinar com o elenco rubro-negro e atuar em amistosos pelo clube, e o empréstimo seria gratuito já que, pelo regime socialista, Albert era futebolista amador.


Ao Flamengo, caberia apenas arcar com as despesas de hospedagem do jogador e de sua esposa, a atriz Irén Bársony. Em troca da permissão, Albert escreveria para a imprensa húngara suas impressões sobre o futebol e os métodos de treinamento brasileiros assim que retornasse – o que o atacante tiraria de letra: sua profissão de carteira era o jornalismo. Colaborava, inclusive, com a agência de notícias húngara MTI.

Pelo Ferencváros, Flórián Albert já tinha conquistado duas vezes a liga húngara e se consagrado o artilheiro do campeonato nacional por três vezes. Também seria fundamental para levantar o título da Copa das Feiras – competição antecessora da Copa da UEFA e da atual Liga Europa – em 1965, deixando pelo caminho potências como Roma, Athletic Bilbao e Manchester United, antes de derrotar a Juventus na decisão por 1 a 0, mesmo jogando apenas uma partida, e no estádio do adversário, em Turim. No ano seguinte, seria o artilheiro da Copa dos Campeões ao lado do português Eusébio com sete gols marcados, além de eleito o melhor jogador húngaro da temporada.

Já pela seleção da Hungria, Albert despontou no time medalha de bronze nos Jogos Olímpicos de Roma em 1960. Marcou cinco gols naquele torneio, incluindo dois na goleada de 7 a 0 sobre a França. Brilhou também em sua primeira Copa do Mundo, no Chile em 1962, quando marcou quatro gols e terminou entre os artilheiros da competição, além de ser eleito a revelação do Mundial com apenas 21 anos de idade.

Depois de disputar a Eurocopa de 1964 e ser incluído na seleção do torneio, voltaria a se destacar numa Copa do Mundo dois anos depois, na Inglaterra. Comandou em campo a vitória da Hungria sobre o Brasil por 3 a 1, na primeira derrota brasileira em um Mundial após o bicampeonato 1958/1962. Aparecendo às vezes na armação do meio-campo, às vezes na área para finalizar, seria um tormento constante para a atarantada defesa da Seleção, juntamente com seus companheiros como o velocíssimo ponta János Farkas e o goleador Ferenc Bene. Naturalmente, ganhou o respeito da imprensa e da torcida brasileiras.

E esse respeito era recíproco, de acordo com as declarações de Albert à imprensa de seu país antes de embarcar para o Brasil: “Se os brasileiros estão interessados em mim, estou ainda mais interessado em estudar seu futebol”, afirmou. Nascido em um país sem saída para o mar, Albert manifestou ainda outro interesse em relação à escola brasileira do esporte: “Também quero ver os meninos jogando futebol nas praias do Rio, centro do talento futebolístico do Brasil”.


Albert desembarcou em voo da Air France no Galeão por volta das 22h do dia 7 de janeiro, acompanhado da esposa. No dia 9 foi apresentado ao clube, aos dirigentes e à dupla sueca Kurt Axelsson e “Rimbo” Lundblad. Após bater bola com os dois no gramado da Gávea por cerca de 15 minutos, atendeu à imprensa e revelou ser um sonho defender o Flamengo, o qual conhecera e do qual se tornara um grande admirador em 1954, quando o esquadrão de Evaristo, Joel, Jadir, Pavão e Zagallo, comandado por Fleitas Solich, esteve em Budapeste e goleou por 5 a 0 o Kinizsi, nome do Ferencváros naquele período, com o garoto Florian assistindo a tudo nas arquibancadas.

Também posou com a camisa 9 do clube para os fotógrafos, e comentou a última Copa do Mundo, lamentando que o futebol técnico de brasileiros e húngaros tivesse sido sobrepujado pelo jogo de mais força física de ingleses e alemães, mas prevendo melhor sorte para o Brasil no Mundial do México, dali a três anos. Também lamentou não estar em sua melhor forma física, já que não atuava há quase três meses, desde o fim da temporada em seu país, e reclamou um pouco do forte calor do alto verão carioca. Curiosamente, porém, recusou um guaraná que lhe foi servido, surpreendendo ao dizer que preferia uma boa cerveja para se refrescar.

No dia seguinte, data da reapresentação do elenco no retorno das férias, teve contato com os demais jogadores – entre eles o lateral-esquerdo Paulo Henrique, adversário na Copa – e participou de atividades físicas. Durante o período em que esteve na Gávea, Albert se empenhou tanto em todas as sessões de treinamento das quais tomou parte que mal teve disposição para atender aos compromissos sociais aos quais fora convidado.


Na sexta-feira, após exercício puxado, compareceu só a uma homenagem que receberia na Confederação Brasileira de Desportos (CBD), por meio de seu presidente João Havelange. Cansado, acabou “dando bolo” na Estação Primeira de Mangueira, que também preparara uma recepção ao húngaro em sua quadra. Albert acabou representado por sua esposa, que, também ex-bailarina, arriscou um tanto desajeitadamente alguns passos de samba.

Para mostrar Albert aos torcedores cariocas, o Flamengo acertou com o Vasco a realização de dois amistosos: o primeiro na Gávea no dia 15 e o segundo que acabou sendo realizado no estádio botafoguense de General Severiano no dia 19. Apesar de ser colocada em disputa uma taça – batizada Rivadávia Correia Meyer em homenagem a um dirigente do Botafogo, em retribuição à cessão do estádio do clube para a segunda partida –, o ambiente antes, durante e depois dos jogos fez jus inteiramente ao termo “amistoso”, transcorrendo em total clima de cordialidade entre os clubes, o que talvez pareça hoje difícil de acreditar.

No domingo, 15 de janeiro, às 16h30, as duas equipes entraram em campo sob a arbitragem de Arnaldo César Coelho. O time do Fla, dirigido pelo argentino Armando Renganeschi, ainda mantinha boa parte do setor defensivo das últimas duas temporadas: Murilo, Ditão, Jaime e Paulo Henrique continuavam formando o quarteto da retaguarda, com o capitão Carlinhos de primeiro volante. No gol, Marco Aurélio ganhava uma chance no lugar do antigo titular Valdomiro.

Do meio para a frente, as alterações eram muitas. O paranaense Pedrinho entrava como meia-armador, substituindo Nelsinho, sem condições físicas. Na frente, o ex-juvenil Denis (que voltava de empréstimo ao Danubio uruguaio) começava na ponta-direita, o campineiro Osvaldo Ponte Aérea entrava na esquerda e, pelo meio, substituindo a dupla Almir-Silva, que marcou época entre os torcedores do Fla (o Pernambuquinho cumpria suspensão após o tumulto da decisão do Campeonato Carioca do ano anterior contra o Bangu, enquanto o Batuta tinha sido negociado com o Barcelona), apareciam Albert e um jovem que surgia como promessa da base rubro-negra chamado César (o futuro Maluco do Palmeiras, irmão de Caio Cambalhota e Luisinho Lemos).

O Vasco, por sua vez, tinha como atração maior um antigo ídolo rubro-negro, Zizinho, que estreava como técnico da equipe. Reunia também alguns bons jogadores, como Oldair, Bianchini, Ananias, Nado, Adílson (irmão de Almir) e o uruguaio Danilo Meneses. Havia ainda a previsão de mais novidades, já que os dois clubes acordaram um número ilimitado de substituições.


Apesar do forte calor, Albert logo disse ao que viera, criando a jogada do gol de abertura do placar aos 31 minutos de jogo, após tabelar com Osvaldo e iludir a defesa vascaína, antes de servir com um passe espetacular o paranaense Pedrinho, que não desperdiçou. Na etapa final, César fez grande jogada driblando três marcadores e sofrendo pênalti, convertido por Osvaldo aos 12 minutos. A torcida presente em bom número à Gávea aplaudiu o bom futebol mostrado pela equipe, e em especial pelo craque húngaro, que chegara a acertar uma bola na trave em cabeçada.

No dia seguinte à primeira partida, Albert foi homenageado mais uma vez, em coquetel na embaixada da Hungria, ao qual compareceu juntamente com Gunnar Goransson, representando o Flamengo. Na véspera do segundo jogo, o atacante fez um treino leve junto com todo o elenco, após o qual expressou sua profunda gratidão ao Flamengo pela acolhida e pela experiência. Havia dúvidas sobre se participaria da partida inteira, já que esta seria realizada à noite, e ele já tinha voo marcado naquela madrugada seguinte. Nesse caso, um jovem atacante chamado Fio, recém-promovido dos juvenis, já estava de prontidão para substituí-lo.


Na quinta, 19 de janeiro, Flamengo e Vasco voltaram a campo, agora em General Severiano, em jogo iniciado às 21h. No time do Fla, a única alteração era a entrada do gaúcho Luís Carlos Freitas no lugar de Ditão na zaga. Em uma partida com nível técnico e inspiração inferiores aos do primeiro encontro, o Vasco abriu o placar aos 27 minutos: Bianchini lançou Adílson na área, e o atacante foi derrubado por Murilo. Pênalti que Oldair converteu. Na etapa final, o momento de maior emoção veio aos 30 minutos, quando Albert deixou o campo ovacionado pelo público presente, sendo substituído por Fio.

De lá, partiu direto para o Galeão, onde a esposa o esperava. Apenas no aeroporto soube que o Vasco havia marcado o segundo gol, aos 42 minutos, por meio do ponta-esquerda Morais em posição muito contestada pela defesa do Flamengo. Com a igualdade nos placares (uma vitória de 2 a 0 para cada lado), a taça foi – de comum acordo entre rubro-negros e cruzmaltinos – oferecida ao Botafogo. Era, afinal, o que menos importava. O húngaro agradeceu mais uma vez a oportunidade e declarou que suas quase duas semanas passadas na cidade foram “inesquecíveis”.

Do Rio, embarcou para Lisboa, onde participaria de um amistoso em benefício do zagueiro português Vicente – que, logo após participar da Copa da Inglaterra meses antes, sofrera um acidente e perdera a visão de um dos olhos. A partida também contou com a presença de Pelé. De lá, fez escala em Paris e Viena antes de retornar a Budapeste e ao seu Ferencváros. E, como prometido, publicou suas impressões dos dias de Rio e Flamengo na revista húngara Labdarúgás.


Ao retornar à Europa, Albert viveria uma grande temporada. Apesar de eliminado da Copa das Feiras ainda nas oitavas de final diante do Eintracht Frankfurt alemão, em partidas disputadas no fim de fevereiro, o atacante terminaria como o artilheiro da competição, com oito gols. Em junho, reencontraria o Flamengo, agora como adversário, defendendo um combinado Vasas-Ferencváros num amistoso em Budapeste. E em novembro, conquistou a liga de seu país e foi eleito o melhor jogador húngaro da temporada.

Mas um prêmio ainda maior o aguardava: no fim do ano, em 22 de dezembro, Albert seria eleito o melhor jogador europeu de 1967, recebendo a Bola de Ouro da revista francesa France Football. Na soma da votação, que contou com a participação de jornalistas esportivos de 24 países do Velho Continente, o húngaro recebeu 68 pontos, superando por larga margem os 40 do inglês Bobby Charlton, ganhador no ano anterior. Entre outros nomes superados por Albert estavam os alemães Franz Beckenbauer e Gerd Müller, o português Eusébio, o norte-irlandês George Best e o italiano Sandro Mazzola.

Albert e a Bola de Ouro da France Football

Albert encerraria a carreira em 1974, depois de ter conquistado mais um título húngaro (em 1968) e de ter participado da Eurocopa de 1972. Em 1994, seria condecorado com a ordem do mérito em seu país, mas a homenagem mais tocante viria do Ferencváros, que em 2007 rebatizou seu estádio em homenagem ao velho ídolo. Quatro anos depois, em outubro de 2011, viria a falecer em Budapeste após sofrer complicações em uma cirurgia cardíaca, aos 70 anos de idade.


Meses antes de falecer, o ex-jogador foi entrevistado em Budapeste pelo portal Globoesporte.com. Relembrou histórias e casos curiosos de sua passagem pela cidade e pela Gávea, manifestou seu carinho pelo clube (“Além da camisa do Ferencváros e da seleção da Hungria, a única outra que vesti foi a do Flamengo”) e fez questão de ressaltar sua sensação com o feito: “Sim, eu fui o primeiro Bola de Ouro a jogar no Brasil e isso me orgulha muito”.


Veja também aqui no blogLev Yashin no Flamengo, em 1965



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