segunda-feira, 26 de junho de 2017

Caso Héverton: a verdade que nunca apareceu


Na última rodada do Campeonato Brasileiro de 2013, em jogo contra o Grêmio, a Portuguesa mandou a campo no 2º tempo o meia Héverton (ele entrou em campo aos 32 minutos da segunda etapa). O fato nunca teria se registrado na história, não fosse um detalhe: ele havia sido suspenso pelo STJD dois dias antes. O julgamento ampliou a suspensão pela expulsão a dois jogos, acrescentando um a mais sobre a suspensão automática de um jogo, que já havia sido cumprida. A escalação irregular resultou em perda de quatro pontos e no consequente rebaixamento da Portuguesa de Desportos para a Série B em 2014. O caso foi investigado pelo Ministério Público de São Paulo e pelo Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado do MP-SP (GAECO). É preciso juntar todos os capítulos públicos desta estranha história, pelos que não vieram a público não o que ser dito...

Ao fim da 37ª rodada, a classificação do Campeonato Brasileiro de 2013 apontava: 11º- Flamengo 48 pts; 12º- Bahia 48 pts; 13º- Portuguesa 47 pts; 14º- Internacional 47 pts; 15º- Criciúma 46 pts; 16º- Coritiba 45 pts; 17º- Vasco 44 pts; 18º- Fluminense 43 pts; 19º- Ponte Preta 36 pts; e 20º- Náutico 17 pts. Os quatro últimos colocados disputariam a Série B em 2014.

A matéria no GloboEsporte.com, antes daquela rodada, descrevia o quadro do que estava em jogo: "Seis times se acotovelam contra o rebaixamento. Outros quatro alimentam esperanças com o G-3. E o Brasileirão chega a sua última rodada com muito a ser definido. É bem verdade que o campeonato já tem campeão, já tem dois rebaixados, já tem dois times garantidos na Libertadores, mas não deixa de ter a agonia daqueles que frequentam a parte inferior da tabela e a confiança daqueles que habitam o bloco superior. Neste domingo, haverá torcedores deprimidos e eufóricos, por seu time ou pelos rivais, e isso já basta para movimentar os últimos jogos da principal competição do país. A luta contra o rebaixamento é particularmente interessante. Do sexteto ameaçado, quatro já foram campeões brasileiros: Fluminense, Vasco, Coritiba e Inter. A eles, somam-se Criciúma e Portuguesa, mas a queda da Lusa só seria possível com uma revolução cósmica - a conjunção de cinco resultados mais a retirada de uma diferença de 11 gols de saldo. Impossível. Destaque para o drama dos cariocas. Flu e Vasco não conseguirão se salvar juntos. É certo que pelo menos um deles cairá. O Tricolor tem situação pior na tabela, mas joga contra uma equipe já relaxada, o Bahia, sem riscos de queda, ao passo que o Cruz-Maltino está melhor colocado, mas encara um oponente que busca a vitória para ir à Libertadores - o Atlético-PR".

Todos os jogos seriam no domingo no mesmo horário, à exceção de Flamengo x Cruzeiro, antecipado para as 19h de sábado (jogo finalizado por volta das 21h do mesmo dia). Os dois times não tinham mai aspirações a nada, e tampouco corriam risco de nada. Todos os demais jogos foram na tarde de domingo.

A mesma matéria do GloboEsporte.com destacava a razão da antecipação do jogo para sábado: "(Flamengo e Cruzeiro) será o jogo com mais clima de festa na última rodada. O jogo dos campeões. O campeão brasileiro por antecipação - e haja antecipação - enfrentará o recente campeão da Copa do Brasil. O Flamengo, que já está livre do rebaixamento, promete até apresentar a taça mais uma vez aos torcedores e vai entrar em campo praticamente com a força máxima - o zagueiro Wallace, suspenso, e Chicão, ainda no departamento médico, não estarão em campo. O Cruzeiro também terá desfalques por contusão - o volante Nilton, além dos meias Ricardo Goulart e Éverton Ribeiro, já estão, com certeza, fora de combate. A grande motivação para as duas equipes será terminar a temporada com uma vitória para coroar o bom fim de ano. Principalmente o clube mineiro, que ganhou com sobras o Brasileirão e, se mantiver o elenco, tem tudo para dar alegrias à sua torcida, especialmente na Libertadores".

Na véspera da rodada decisiva, um julgamento no STJD mudaria o rumo de todos os acontecimentos daquele fim de semana. O jornal Extra, às vésperas do jogo, publicou a notícia sobre o resultado: "O técnico do Flamengo, Jayme de Almeida, ganhou um desfalque de última hora para o duelo com o Cruzeiro. O lateral-esquerdo André Santos, que foi expulso no segundo jogo da final da Copa do Brasil, contra o Atlético-PR, foi julgado na tarde de ontem pelo Superior Tribunal de Justiça Desportiva e recebeu um jogo de suspensão. Como a Copa do Brasil se encerrou naquela partida, o jogador rubro-negro terá de cumprir a punição na última rodada do Campeonato Brasileiro". O jogo entre Flamengo e Atlético Paranaense, que decidiu a Copa do Brasil, aconteceu no Maracanã na noite de 27 de novembro, uma quarta-feira. A expulsão do lateral aconteceu aos 45 minutos do 2º tempo, após o gol do Flamengo que sacramentou o título, com a vitória por 2 x 0.



Certamente há uma desatenção imperdoável do Departamento de Futebol do Flamengo, sim. Era o fim do primeiro ano de mandato da nova diretoria rubro-negra liderada pelo presidente Eduardo Bandeira de Melo. Porém, é fato que é extremamente incomum uma suspensão de uma competição (Copa do Brasil) ter que ser cumprida numa outra competição (Campeonato Brasileiro), ainda mais com um julgamento realizado dez dias após a final da Copa do Brasil, e na véspera de uma última rodada de Campeonato Brasileiro. Ou seja, se o julgamento ao invés de ter sido na sexta, tivesse sido na segunda-feira seguinte, a suspensão teria que ser cumprida ou no primeiro jogo seguinte de Copa do Brasil (o padrão) ou na 1ª rodada do Brasileiro seguinte (ainda mais incomum). Tudo neste caso foi extremamente fora do padrão, o que não diminui, mas só aumenta a suspeita de movimentos estranhos...

No mesmo julgamento em que André Santos foi suspenso, também foi decidida a suspensão do jogador Héverton, da Portuguesa, que entrou em campo nos minutos finais do jogo do time paulista, que a esta altura da rodada já podia ser considerado totalmente sem risco de rebaixamento. Se a Portuguesa não tivesse perdido os pontos por esta escalação, e só o Flamengo tivesse perdido pontos pela escalação de André Santos, Vasco e Flamengo é que teriam sido os rebaixados.

O meia Heverton entrou em campo aos 32 minutos do 2º tempo. Era um jogador coadjuvante naquele elenco, e por toda esta confusão, acabou se tornando protagonista. Segundo levantamento publicado pelo GloboEsporte.com: "Héverton Durães Coutinho Alves mal entrou em campo durante o Campeonato Brasileiro (de 2013) ... Expulso contra o Bahia, ele recebeu dois jogos de gancho e não deveria ter enfrentado o Grêmio. Mas acabou atuando 12 minutos diante dos gaúchos (...) Na Lusa desde 2008, Héverton já passou por altos e baixos no Canindé. Na Série B de 2009, ele e o atacante Edno foram os alvos de ameaça e intimidação de quatro torcedores que entraram no vestiário do estádio armados após a derrota do time para o Vila Nova (...) Duas temporadas depois, no Campeonato Paulista de 2011, ele voltou a sofrer com a ira da torcida. Após a derrota para o São Paulo, dois torcedores conselheiros do clube, invadiram o vestiário do Canindé e partiram para cima de Héverton (...) Emprestado, jogou pelo Atlético-PR e depois rumou para o Seongnam, da Coreia do Sul. O tempo longe da Lusa foi positivo para o meia, que retornou ao clube, em julho de 2012, com moral. Durante as partidas do Brasileirão, Héverton era pedido recorrente nas arquibancadas do estádio. (...) (No Brasileiro 2013), em função de diversas lesões, o jogador se tornou coadjuvante na Portuguesa – até a expulsão contra o Bahia (...) No Brasileirão, foi relacionado para apenas 14 jogos e atuou só em 6, entrando sempre no segundo tempo. Marcou um gol, na derrota por 2 a 1 para o Goiás. Héverton só jogou cerca de 97 minutos no Campeonato Brasileiro. No dia 24 de novembro, Héverton entrou em campo aos 19 minutos da etapa final, quando a Lusa já perdia por 1 a 0 para o Bahia, pela 36ª rodada. Após o apito final, com a derrota concretizada, o meia resolveu reclamar com o árbitro Ricardo Marques Ribeiro e recebeu o cartão vermelho direto por, segundo a súmula da partida, ter dito: ‘Porra, caralho, você é um merda, está com medo dos caras. Só isso de acréscimo?’. O jogador cumpriu suspensão automática no duelo seguinte, contra a Ponte Preta. Foi julgado pela expulsão (em 06/12), e, por unanimidade, pegou gancho de dois jogos. Sem saber da nova punição, a Portuguesa o levou para o último compromisso do Brasileirão, diante do Grêmio, em partida que pouco valia para ambos. Eram 90 minutos que faltavam para o grupo rubro-verde ir para as férias satisfeito com a permanência na elite nacional. O empate sem gols foi bastante festejado".

Na noite de domingo, ao fim da 38ª rodada, o que se tinha era que Fluminense e Vasco estavm rebaixados. O Fluminense venceu o Bahia por 1 x 0, gol de Samuel, mas precisava, além de vencer o Bahia, de uma série de outros resultados, que não aconteceram, para se manter na série A e evitar o rebaixamento à Segunda Divisão. Com a perda de pontos imposta à Portuguesa, a "salvação" do Fluminense fez com que inicialmente as suspeitas de manipulação levantadas acusassem a milionária parceria do clube com a empresa de planos de saúde, Unimed, como responsável por haver "comprado" o salvamento tricolor.

Em matérias publicadas na revista Veja e no jornal Estado de São Paulo em 27 de janeiro de 2014: "O promotor Roberto Senise Lisboa, responsável pelo inquérito aberto pelo Ministério Público (MP) para avaliar irregularidades no rebaixamento da Portuguesa à série B do Campeonato Brasileiro, afirmou, em entrevista para a Rádio Bandeirantes, que há fortes indícios de alguém ter recebido dinheiro dentro do clube para que o meia Héverton fosse escalado nos minutos finais da última rodada da competição de 2013, contra o Grêmio, mesmo estando suspenso por dois jogos. Senise Lisboa disse que o MP ainda não tem as provas de que alguém da Portuguesa foi pago para ajudar a omitir o resultado do julgamento que puniu o atleta, mas enfatizou que considera esquisito o clube falar que não sabia da suspensão do jogador".

Em julho de 2014, o Blog do Paulinho trouxe mais um capítulo polêmico, indicando que o promotor Roberto Senise Lisboa tinha envolvimento em casos de corrupção. Foi publicado que: "o responsável pelo “Caso Lusa”, em que se investigava a possível venda do rebaixamento da equipe paulista em benefício do Fluminense, é agora suspeito de vender acordos em troca de propinas. Entre os pagadores estariam a FAAP, importante faculdade da capital e também a Casas Bahia, a qual teria lhe pagado R$ 428 mil para que um caso que ele investigava fosse encerrado por ausência de provas. A denúncia foi feita, inclusive com supostas gravações de confissão de Senise, pela ex-esposa do promotor. Fato é que duas investigações em que Senise tomou a frente, relacionadas ao mundo do futebol, empacaram no meio do caminho. Primeiro a de lavagem de dinheiro da Casas Bahia, suposta “cliente” de propinas do promotor, no São Caetano, com provas substanciais (...) Por fim, a mais recente, em que Senise deu declarações que indicavam “certeza” da venda da Lusa para a uma empresa (que seria a UNIMED), em troca da quitação de dívidas de um dirigente (o suspeito era Manuel da Lupa, ex-presidente). Ou seja, teoricamente, uma espécie de venda de dificuldades para conseguir, nos tais acordos, algumas facilidades".

Em 12 de novembro de 2014, o promotor Roberto Senise Lisboa, que comandava o inquérito civil instaurado pelo Ministério Público de São Paulo para apurar responsabilidades no “caso Héverton” afirmou que 5 pessoas da diretoria da Portuguesa em 2013 eram investigadas pelo erro que levou o clube a escalar o jogador de maneira irregular no Brasileiro anterior. Ele apontou o ex-presidente Manuel da Lupa, o advogado Valdir Rocha e o ex-vice-presidente de futebol, Roberto dos Santos, além de outros dois funcionários não nominados, como os possíveis responsáveis pela omissão que causou o rebaixamento da Lusa. Disse Senise, em entrevista ao repórter Bruno Laurence, da TV Globo: "Bom ficar claro que não é uma falha apenas do Manuel da Lupa, há outros que podem estar implicados. O Manuel da Lupa, o doutor Valdir (Rocha), advogado e diretor jurídico, Roberto dos Santos, vice de futebol, e dois funcionários do departamento de futebol. Por enquanto, a investigação gira em torno desses nomes". Ao longo de 2014, por mais de uma vez o promotor foi à imprensa alardear ter provas levantadas na investigação.

Entre os poucos fatos que se conseguiu alguma prova: os Departamentos Jurídico e de Futebol da Portuguesa não avisaram a Comissão Técnica. O então treinador da Portuguesa, Guto Ferreira, foi ouvido pela promotoria e sustentou que sempre trabalhou com a informação de que Héverton poderia jogar. Corroborou à versão do técnico o fato de Héverton ter ficado concentrado desde sexta-feira após o treino junto à equipe, tendo dividido quarto com o volante Willian Arão (então jogador da Lusa), além de que no sábado, dia seguinte ao julgamento no STJD, ele participou durante a tarde do último rachão do elenco da Portuguesa em 2013. Tudo isto, antes de Flamengo e Cruzeiro entrarem em campo e se consolidar o ato de irregularidade da escalação de André Santos.

Um novo capítulo da polêmica emergiu de depoimento do centroavante Gilberto, então na Portuguesa em 2013, que durante sua apresentação como novo contratado do Vasco em 2015 declarou que estava suspenso naquela última rodada e que funcionários da Portuguesa tentaram colocá-lo em campo na rodada final do Brasileirão de 2013, mas ele se recusou a jogar. Declaração forte, mas que não tinha como ser provada. Era a opinião de um contra a do outro. Ele foi intimado a depor, e, de fato, não pôde apresentar provas físicas.

Em 28 de julho de 2016, o então presidente da Portuguesa, Manuel da Lupa, falou pela primeira vez sobre o caso. Segundo ele, nada de anormal aconteceu. Mas certamente é uma opinião que pode ser considerada suspeita, dado que se houve a "compra da escalação de Héverton", certamente ele estaria criminalmente afetado.

E os culpados nunca sabem de nada e sempre alegam inocência! Sua descrição dos fatos: "Eu viajei para o casamento de uma prima na sexta-feira (dia 6). A Portuguesa tinha que tomar de 8 a 0 do Grêmio no Canindé, o que era praticamente impossível. Não tinha possibilidade de a Portuguesa cair. Viajei tranquilo, fui ao casamento em Mato Grosso do Sul. Quando eu cheguei ao aeroporto, liguei para meu filho e perguntei quanto tinha sido o jogo da Portuguesa. Ele disse 0 a 0. 'Estamos na primeira divisão'. Fui trabalhar na Portuguesa na segunda. Na terça, veio tudo isso. Liguei para o Osvaldo Sestário (advogado que representou a Portuguesa no julgamento de Héverton), transtornado: 'Que porra aconteceu?'. Primeiro, o Sestário deixou transparecer que a cagada tinha sido dele. Depois ele falou que avisou o Valdir (Rocha, advogado da Portuguesa). Sestário sempre trabalhou com a gente na Portuguesa, não tenho absolutamente nada para falar sobre ele. Às vezes não sai a coisa como você quer. Valdir alega que não recebeu o comunicado. Uma vez, o Edno foi julgado no Rio e ninguém sabia o resultado. O que o Luis Iaúca (ex-vice de futebol da Lusa) fez? Não deixou o cara concentrar. Isso é o mínimo que um cara inteligente faz. Não deixou concentrar. Depois fomos saber que o Edno tinha sido absolvido. Mas não corremos risco. O Héverton concentrou? Sim, o Héverton concentrou. O que aconteceu no resultado do julgamento? Não sabemos? Pode tirar o cara da concentração. É o mínimo. O que mudaria o Héverton jogar ou não? Não mudou nada. Jogou dez minutos. Foi cagada do departamento de futebol da Portuguesa. Infelizmente. Aí você vai dizer: e o jurídico? Jurídico tem também sua culpa. Não tem dúvida. No dia do jogo, já tinha acontecido a eleição (Ilídio Lico, seu sucessor, havia sido eleito naquela semana). Os caras (da nova administração) começaram a ir no vestiário, era Casa da Mãe Joana. Fiquei meio puto, mas não queria arrumar confusão. (...) Esse negócio do Héverton, juro pelo meus filhos... Só fiquei sabendo na terça-feira, quando me falaram. O que aconteceu foi descuido. Não acho que alguém ganhou algum centavo. É conversa mole falar que não sabia que seria julgado. Sempre sabe, sempre foi assim. Vem a pauta para o jurídico, o jurídico manda para a comissão técnica, para o encarregado, sempre foi assim. O julgamento foi em uma sexta, o jogo seria no domingo. (...) Foi uma falha coletiva. Acha que eu pegaria algum centavo para deixar o time cair? Tem que ser muito imbecil. Que houve falha interna, eu tenho que admitir. (...) Acho que foi cagada interna. Não acredito que tenha gente envolvida".

O MP investigou: atirou no que viu e acertou no que não viu. A única prova identificada pelo inquérito foi um esquema de evasão fiscal de R$ 600 mil envolvendo a Portuguesa e o banco português Banif, nada que tivesse relação com o "Caso Hérverton". Muito se falou, acusações foram feitas e investigações foram abertas mas, em 23 de dezembro de 2016, foi oficialmente encerrado o procedimento aberto pelo Ministério Público de São Paulo para apurar suspeitas de que foi de propósito a escalação irregular do meia da Portuguesa contra o Grêmio pela última rodada do Campeonato Brasileiro de 2013, fato que provou o rebaixamento da Portuguesa para a série B no ano seguinte. No MP-SP, o promotor do caso, Roberto Senise Lisboa, não encontrou evidências suficientes para prosseguir com as investigações e finalizou sua parte. Ele então remeteu o caso para o GAECO (grupo de investigação e combate ao crime o organizado), que em dezembro encerrou as investigações, novamente sem nenhuma conclusão: "Não houve provas suficientes que levassem à conclusão da prática de ação ou omissão dolosa no intuito de beneficiar ou prejudicar determinada agremiação esportiva. As provas até então produzidas não indicaram indícios de que funcionários dos clubes envolvidos, ou mesmo terceiras pessoas, tenham contribuído ou sido coniventes com atos supostamente ilícitos, ou mesmo negligenciado de forma fraudulenta, imbuídos de interesses financeiros escusos". Estas foram as palavras no documento de arquivamento do MP.

Há um contexto claro na história toda: é bastante óbvio o grande impacto econômico que representaria o rebaixamento de dois clubes do Rio de Janeiro para que jogassem a Série B em 2014. Ao fim da 37ª rodada, Fluminense ou Vasco, ou os dois, estariam entre os rebaixados. Os grandes clubes cariocas sempre foram os que tiveram maior presença de torcedores espalhados pelo país, herança dos tempos em que a cidade era Distrito Federal, à época do crescimento do futebol como paixão nacional. Um campeonato sem dois cariocas representava menos audiência na televisão (a Rede Globo era a detentora dos direitos de transmissão), menos exposição das marcas de empresas patrocinadoras, menos circulação de capital e recursos. Muitos interesses econômicos e cifres elevadíssimas por trás das consequências do que ocorreria naquele fim de semana de 7 e 8 de dezembro de 2013. Não há dúvida que algo de anormal aconteceu. Garantir pelo menos um carioca no campeonato do ano seguinte era uma forma de mitigar perdas econômico-financeiras. Natural que a suspeita ronde este caminho.

De antemão, sabia-se do risco de queda de Vasco e/ou Fluminense. Houve tempo hábil para a construção de uma farsa, com ou sem o consentimento dos clubes, afinal, como já dito, as perdas financeiras não atingiam exclusivamente estas instituições. Não seria de todo absurda a hipótese de que outros interessados pudessem ter pago aos dirigentes da Lusa sem que os dirigentes dos dois clubes cariocas sequer tomassem conhecimento. Sem que estes fatos sejam de fato perfeitamente esclarecidos, as acusações de envolvimento do Flamengo nunca se calarão. Se houve envolvimento do clube, os dirigentes agiram extremamente rápido para construir a fraude... tiveram de menos de 24 horas para identificar que o suspenso Héverton estava relacionado, para contatar todos os responsáveis dentro da Portuguesa que garantiriam que ele entraria em campo, além de mobilizar os recursos que caso o Fluminense não tivesse vencido seu jogo, nem necessitariam ser pagos para garantir sua permanência na 1ª divisão. Impossível não é! Se fizeram, foram extremamente rápidos, precisos e eficientes.

Uma vez identificados cinco personagens suspeitos dentro da Portuguesa de Desportos como potenciais receptores de propina para propositalmente causarem o rebaixamento do clube, não seria difícil obter provas, bastaria quebrar os sigilos telefônicos e bancários. Se houve provas, elas foram propositalmente apagadas. Quem apagou? Quem viabilizou que fossem apagadas? Quem tenha feito, depois ainda teve que levantar uma volumosa quantidade de recursos para silenciar vários responsáveis pelas investigações dentro do Ministério Público de São Paulo, além de já ter pago um alto volume aos dirigentes da Portuguesa. Certamente não foi uma frande barata. Fluminense, Vasco e Flamengo não gozavam de situação financeira confortável em 2013, certamente não conseguiriam realizar uma operação deste tamanho sem recorrer a um grande empréstimo bancário naquele período. Para uma empresa privada diretamente interessada nas consequências financeiras do ato, em teoria, era mais fácil viabilizar tal operação. E para algo desta dimensão, e deste nível de repercussão, só há uma estratégia factível para omissão da verdade: o mínimo possível de pessoas tendo ciência dos fatos. Esconderam bem, porque nunca ninguém que soube a verdade, abriu o bico.




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