segunda-feira, 30 de julho de 2018

The Black Vulture - El Jote Negro




The Black Vulture - El Jote Negro
Nascido para ser o Maior do Brasil

Entre os muitos caminhos que são necessários serem percorridos para se tentar entender como e por que o Flamengo se tornou a maior paixão popular do Brasil, um dos caminhos destas reflexões precisa recair sobre o símbolo do clube: o Urubu. Em inglês: the black vulture. Em espanhol: el jote negro. É impossível responder à pergunta e percorrer tais caminhos sem se escarafunchar com a cultura, a sociedade, as desigualdades, os dilemas, as diferenças, as identidades, as divergências, e todos os sentimentos que emanam de tudo isto em meio à confusa complexidade que é o Brasil. Por que o símbolo do urubu? Porque a associação, pejorativa e preconceituosa, construída por seus rivais para tentar abafar e apequenar o massivo cresimento do Flamengo, nasceu fazendo associação ao negro da ave e ao ato de revirar o lixo atrás das carcaças que darão subsistência. A associação era expressamente com o pobre, que pelo histórico da sociedade escravocrata brasileira é em sua maioria de pele negra (o fim da escravidão no Brasil é uma realidade um tanto recente, tendo acabado apenas em 1888, apenas 7 anos antes da fundação do Clube de Regatas do Flamengo). É fundamental entender esta associação com o urubu para entender a grandeza do Flamengo, porque o espírito que fez o clube tão grande - já presente na identidade do clubes desde sua criação, muito antes do nascimento do símbolo e mascote - está associado até às entranhas com o mesmo espírito que transformou a difamação e o preconceito que partiam de seus oponentes em motivo de orgulho, identidade e força motriz. São pouquíssimos e raríssimos aqueles que conseguem quebrar a associação pejorativa, desmontá-la, e reergue-la como bandeira de identidade e imagem de sua própria auto-estima.

Mais complexo ainda é entender como um clube nascido e erguido - e sustentado por mais de cem anos desta forma - em meio à elite econômica, intelectual e cultural da cidade do Rio de Janeiro, conseguiu se tornar um agregador de multidões em todos os rincões do país. Desde sua fundação o Flamengo foi um clube de elite. Em pleno século XXI, sua sede fica localizada num dos metros quadrados mais caros não só do Rio de Janeiro como de todo o Brasil, entre os bairros da Gávea, do Leblon, do Jardim Botânico e da Lagoa, envolto por edifícios cujos apartamentos mais baratos custam pelo menos um milhão de dólares. Como clube de regatas, em 1895, foi fundado por jovens ricos, filhos de algumas das famílias mais abastadas da cidade que àquela época, e assim permaneceu até 1960, foi a capital, o distrito federal, do Brasil. O remo era um esporte altamente classista, numa sociedade recém saída do período Colonial. Somente em 1912 o Flamengo passou a ter um time de futebol, um esporte da elite, um costume importado da potência mais rica do planeta no Século XIX, a Inglaterra. Uma prática, um esporte, que até meados da década de 1920, ao menos no Brasil, sequer aceitava a presença de praticantes da raça negra (na Europa esta aceitação só veio a ocorrer na virada entre a década de 1960 e 1970). Ainda assim, o futebol caiu no gosto popular mundialmente, por causa de dois motivos especificamente: (1) é a única modalidade em que a incidência de casos nos quais o mais fraco vence ao mais forte é enorme (isto permite aos mais pobres sonhar em superar aos mais ricos, aos excluídos sonhar em superar seus subversores), e (2) é uma modalidade que para ser praticada não exige infra-estrutura sofisticada, sua prática pode ser improvisada em qualquer lugar, por qualquer um, independente de suas condições de acesso a recusos financeiros. Estes dois fatores explicam a paixão que o futebol move no planeta inteiro. Esta é a primeira fatia da explicação, ainda faltando buscar a compreensão de como um clube da "elite branca" passou a ter sua imagem associada ao "negro pobre". E isto já havia ocorrido muito antes do símbolo do urubu ter sido associado ao clube da Gávea.

O embrião - a raiz - desta metamorfose está associada à forma como o futebol do Flamengo nasceu. O clube foi fundado em torno a uma garagem de remo, por adolescentes em busca de auto-afirmação, uma natureza comum à vida de qualquer jovem, independente de seu status econômico, sua raça ou sua naturalidade. Quando o time de futebol do Fluminense, campeão da cidade do Rio de Janeiro em 1911, rompeu com a diretoria do clube e buscou abrigo na garagem de remo da Praia do Flamengo, buscou abrigo num clube que não só não tinha estádio de futebol para atuar, vivendo de favores, como sequer tinha campo para treinar. Nos seus primeiros meses de vida, os jogadores que defendiam a camisa do Flamengo treinavam em praça pública, num campo construído pela prefeitura da cidade para ser usado pela população. Era pouco provável que aquilo fosse dar certo. Só foi adiante, porque o futebol destes tempos era totalmente amador, não havia salários, o jogador de futebol tinha uma profissão que o sustentava, ou ao menos estava estudando para vir a ter uma profissão. O Flamengo nasceu em meio a este espírito de liberdade adolescente, casando a aventura de um projeto de garagem à rebeldia de quem tem a coragem para o rompimento com a diretoria e o poder daqueles que os sustentavam. Foi a combinação destes espíritos e atitudes que fundaram o futebol rubro-negro, aqueles que praticavam o esporte que dava a oportunidade do mais fraco vencer ao mais forte, do mais pobre superar ao mais rico. Pensava-se pela cidade que um clube como aquele jamais daria certo. Era comum encontrar quem ironizasse e desdenhasse aquele clube que se acreditava estar fadado ao insucesso. Mas desde seus primórdios aquele vermelho e preto nunca foi só caos, nunca foi só ordem. Foi exatamente se equilibrando entre o caos e a ordem que se moldou o espírito da maior de todas as paixões no Brasil, arrebatando multidões.

O futebol foi crescendo e conquistando adeptos no Rio de Janeiro na primeira metade do século XX. Além do Fluminense, o clube da aristocracia, entrou no cenário também o Vasco da Gama, clube dos ricos comerciantes portugueses, numa época na qual a memória do colonialismo opressor ainda estava muito viva na coletividade social da cidade e do país. Aquele espírito jovem e adolescente que floresceu na garagem de remo da Praia do Flamengo queria seu espaço, queria se impor frente ao poder econômico dos aristocratas e dos colonizadores. Foi este espírito que aguerridamente foi provando que era capaz de vencer aos mais poderosos. Embora nascido no bairro rico, sim, porém a sede do Flamengo funcionava num símbolo de contra-cultura, a República Paz e Amor, um centro de abrigo a jovens estudantes de todas as partes do Brasil que migravam à capital federal em busca de um ensino superior de maior qualidade. Aquele espírito jovem de luta e busca de afirmação era quem estava vencendo à aristocracia e aos resquícios dos colonizadores europeus. E este foi um dos caminhos para conquistar o coração das massas no Rio de Janeiro, um símbolo como capital daquele país ainda jovem, que havia relativamente pouco tempo que estava independentizado. O Rio de Janeiro da primeira metade do século XX construiu os símbolos nacionalistas nascentes, os sonhos de progresso, os sonhos culturais em tornos dos quais se formava a identidade nacional, ritmados pelo samba e pela bossa nova, dois ritmos cariocas que conquistaram os ouvidos e os corações do mundo inteiro. A partir dos Anos 1930, estes alicerces de identidade nacional viajavam pelo país inteiro pelas ondas do rádio, e com estas transmissões, os sonhos deixavam de ser locais e atingiam um país de dimensões continentais. Um país com uma fragílissima identidade nacional, na verdade uma soma de vários países que fatores históricos mantiveram um tanto a contra-gosto unidos como uma entidade federativa só, um país único (o Brasil não é para amadores, entendê-lo exige reflexões nem um pouco simples de serem compeendidas). Em meio a este caldeirão alquímico de identidade nacional emergente, cada vez mais e mais o Flamengo encontrava uma identidade popular e crescia no gosto da massa. Aquele espírito penetrava em todas as camadas, que se identificavam com aquela alma jovial que emanava da República Paz e Amor, na Praia do Flamengo número 66. Antes do urubu, o Flamengo já era tanto dos ricos quanto dos pobres, e exatamente por ter caído tão no gosto da camada social menos favorecida, que desdenharam e o provocaram com a associação ao urubu.

Para entender o espírito que construiu o Flamengo, mais do que uma razão qualquer específica, fazendo dele o clube de futebol mais idolatrado no Brasil, é preciso voltar a esta análise do símbolo do urubu. A adoração popular às cores vermelha e preta cresceu de tal forma, e se intensificou em tal escala, que a associação entre o flamenguista e o pobre nasceu quase que de forma natural, embora jamais, em nenhum momento de sua história, o clube tenha rompido e deixado de conviver com sua presença no coração da elite econômica da cidade do Rio de Janeiro. Para conter a força de crescimento do clube, seus adversários buscaram atacá-lo, desmerce-lo, desprestigiá-lo. E então buscaram associá-lo ao urubu, à ave de rapina que vive em meio ao lixo. Poucos são aqueles que são capazes de conseguir o que os flameguistas então conseguiram: reverter a agressão pejorativa e transformá-la em força motriz para crescer ainda mais. Foi aquele espírito jovial presente desde sua fundação, que está enraizado na identidade do clube, que conseguiu tal façanha. Não é algo simples. Não é algo fácil. Uma prova: o próprio brasileiro tem dificuldade de lidar com algo similar, pois não sabe reagir quando os adversários na América do Sul usam pejorativamente a associação do brasileiro ao macaco como forma de provocação (em espanhol, a língua de seus vizinhos geográficos, a palavra para macaco é "mono"). O nascimento desta provocação remonta a 1920 na Argentina, quando o jornal “La Crítica” inaugurou a expressão “Macaquitos”, um termo preconceituoso, proferido para menosprezar o talento dos jogadores brasileiros. Naquele ano o time brasileiro passou por Buenos Aires na volta do Chile, onde disputou o Campeonato Sul-Americano. O jornal então trouxe uma charge com o desenho de macacos trajando o uniforme da Seleção Brasileira dando boas-vindas aos ilustres visitantes que havia aportado na cidade. O brasileiro nunca deixou de se indignar com torcedores adversários imitando ou fazendo som de macaco nas arquibancadas durante jogos de futebol. O brasileiro nunca conseguiu fazer com o macaco, o que o flameguista fez com o urubu. O espírito da nação rubro-negra responderia: "só não somos mono campeões, porque a Seleção Brasileira sozinha tem mais títulos nos últimos 50 anos que todos os vizinhos juntos". O espírito da nação brasileira... este só reclama, não é capaz de transformar a agressão em força própria.

Para provocar o torcedor do Flamengo, as torcidas adversárias nas arquibancadas do Maracanã, sempre que o time rubro-negro levava um gol, gritavam: "ela, ela, ela, silêncio na favela!". Levou alguns anos para algum rubro-negro encontrar a inspiração, mas um dia, quando o Flamengo fez um gol, o lado rubro-negro das arquibancadas do Maracanã bradou: "favela, favela, festa na favela!". E todos os outros rubro-negros responderam a plenos pulmões, transformando o cântico num hit, algo que só um espírito coletivo de mentalidade aberta, ousada, e com auto-confiança suficientes é capaz, a metamorfose que permite reverter o desdém pejorativo do outro em fortaleza própria. O símbolo do urubu é a materialização deste espírito. Entender porque o Flamengo é o maior do Brasil é bastante complexo: o Flamengo nunca foi o mais rico, e sempre se impôs; o Flamengo sempre foi invejado e odiado, e isto nos fez, construiu a identidade rubro-negra. Grandes clubes, há vários. Diferenciado, há apenas um. O espírito em sincronia de uma multidão dá a estas cores a dimensão diferenciada que ela tem. O povo, rico ou pobre, preto ou branco, religioso ou ateu, carioca ou não, dá vida própria a estas cores. Dá-lhe alma. Dá-lhe espírito. Como afirmou Ruy Castro em sua obra O vermelho e o negro: "O Flamengo é o cimento que dá coesão nacional, do Oiapoque ao Chuí". Suas cores materializam e encarnam a máxima de Nélson Rodrigues de que o futebol, e só ele, faz com que um sujeito perca qualquer sentimento de sua própria identidade e torne-se também multidão. A soma de todos os fatores acima listados conquistaram cada vez mais a multidão. O urubu foi o catalisador final.

Um conto curioso sobre a complexidade e a singularidade deste processo que fez do Flamengo um movedor de multidões: eu tive a oportunidade de publicar em 2010 o livro "A Nação - Como e por que o Flamengo se tornou o clube com a maior torcida do Brasil". Depois do livro, surgiu um blog, cuja intenção inicial era tão só manter atualizado o tema central do livro. Através do blog tive a oportunidade de ser procurado pelo jornalista Jamie McGregor, que mantinha na Grã-Bretanha um site com o curioso nome "Na Cama com Maradona". Ele me procurou para uma conversa, via VOIP, usando a internet, querendo entender os motivos que transformaram o Flamengo na maior torcida do Brasil. Foi uma experiência bastante curiosa! É natural, diante de uma explicação de algo que transcende sua realidade, que qualquer um busque paralelizar com a sua própria realidade. Para um europeu do século XXI, é difícil entender o materializar qualquer sentimento associado a uma cultura que viveu marginalizada e oprimida durante décadas, o cidadão em meio a uma sociedade desenvolvida e abastada, tem dificuldade em pensar as lógicas de sociedades subdesenvolvidas e menosprezadas. As referências não são as mesmas. É difícil materializar como todo um contexto complexo não associado ao mais forte economicamente pode se sobrepor e conquistar a maioria. Diante de qualquer explicação minha sobre como e por que o Flamengo se tornou a maior torcida do Brasil, Jamie McGregor buscava uma comparação com alguma das grandes forças que levaram clubes europeus a se tornarem os maiores em seus respectivos países, contava-me histórias sobre a história dos gigantes europeus quase tentando me convencer de que os motivos que levaram o Flamengo a conquistar as multidões poderiam ser os mesmos que levaram o Manchester United a arrebatar corações ingleses, ou à Juventus ter arrebatado corações italianos, ao Bayern a ter arrebatado a maior paixão entre os alemães, ou a Real Madrid e Barcelona a terem bipolarizado os corações espanhóis. Foi difícil, mas ao final parece que ele conseguiu perceber os detalhes complexos da mensagem que eu queria passar. O resultado ele publicou num artigo, que eu republiquei aqui: Red and Black Nation. Não tive a oportunidade de falar com ele sobre a identidade entre o clube e seu símbolo, o urubu. Não sei se um estrangeiro seria capaz de capturar o espírito e a alma que estão por trés desta simbologia...

Saudações Rubro-Negras

Marcel Pereira

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