domingo, 18 de dezembro de 2016

Mengo 1970: uma montanha-russa sem fim – Parte 1

Muito bacana o trabalho postado pelo blog Flamengo Alternativo
(http://flamengoalternativo.wordpress.com). Reproduzo a integra do texto abaixo:

Eram tempos bicudos aqueles fins de anos 60. Enquanto Neil Armstrong pisava o solo lunar, o Flamengo encerrava o ano de 1969 de maneira nada épica. Fora, como os três ou quatro anteriores, um ano esquecível – a não ser por casuais grandes resultados, exceções que confirmaram a regra. O time foi segundo colocado no Carioca, fez campanha discreta na Taça Guanabara e amargou uma medonha penúltima colocação no Torneio Roberto Gomes Pedrosa (à frente apenas do Vasco), somando parcas três vitórias em 16 jogos. Uma chacoalhada no clube era mais que necessária, era imperiosa.

Para a tarefa, o presidente rubro-negro André Richer tinha em mente um homem exato. Ou melhor, um Homão: Dorival Knippel, o Yustrich, ex-goleiro do clube nos anos 30 e 40, apelidado no aumentativo como que para lembrar que com ele o trabalho era pesado. Em janeiro de 1970, o novo treinador substituía Elba de Pádua Lima, o Tim, de estilo diametralmente oposto ao seu: exímio estrategista e bastante cordial no tratamento aos jogadores, mas que, em termos de disciplina, era mais de “deixar o barco correr solto”.

Reza a lenda que quando Yustrich chegou, recebeu do Departamento de Futebol um organograma, o qual rasgou sumariamente antes de afirmar: “O organograma sou eu”. Era a senha para que o clube embarcasse numa verdadeira montanha-russa de emoções, repleta de altos e baixos, ao longo daquele ano. Com o Homão no comando, chegava a vez da linha dura e de um estilo de jogo baseado na velocidade e no preparo físico, seguindo o modelo que já vinha sendo adotado pelos europeus desde a Copa de 62. Num futebol brasileiro ainda lento e cadenciado, a correria, o fôlego e a marcação por pressão no campo do adversário aplicados pelo novo Flamengo impressionavam.

O primeiro grande teste veio logo em fevereiro, no Torneio Internacional de Verão disputado no Maracanã. Além do Fla, participaram do quadrangular o arquirrival Vasco, os argentinos do Independiente e a seleção da Romênia.  Os rubro-negros estrearam no dia 15 goleando os romenos – que fariam jogo duro contra Pelé e cia. na Copa do México, meses mais tarde. Flavius Domide abriu a contagem para os europeus, mas dois gols de Arílson, um de Doval e um de Dionísio viraram o placar para 4 a 1. Na véspera, Vasco e Independiente tinham ficado no 1 a 1.

No dia 18, depois de ver os cruzmaltinos saírem da briga com uma derrota para a Romênia por 2 a 0, o time de Yustrich fez exibição sensacional contra o Independiente, que contava com nomes como o goleiro Santoro, o meia Pastoriza, o centroavante Yazalde e o ponta Tarabini, todos de seleção argentina, além dos defensores uruguaios Pavoni e Garisto. Com apenas 11 minutos de jogo, o Fla já vencia por 3 a 0, gols de Fio, Doval e Dionísio. Ao fim do primeiro tempo, o placar marcava 5 a 1 (Doval, de novo, e Liminha ampliaram, com De la Mata descontando). Na etapa final foi a vez de Dionísio marcar outro para fechar a contagem em humilhantes 6 a 1.

Quatro dias depois, o adversário era o Vasco. Ao Flamengo bastava o empate para levantar o título, mas – só para não perder o hábito – o time venceu de novo: 2 a 0, gols de Liminha e Arílson, diante de 114.928 torcedores. No jogo de fundo, a Romênia fez 3 a 0 no Independiente e ficou com a segunda colocação. O campeão teve como time-base Sidnei; Murilo, Washington, Tinho e Paulo Henrique; Liminha e Zanata; Doval, Dionísio, Fio e Arílson. Também atuaram o goleiro Marco Aurélio, Onça, Tinteiro, Rodrigues Neto, Ademir, Nei, Luis Carlos e Bianchini. Os dois últimos acabaram negociados após a competição com Vasco e São José-SP, respectivamente.

Depois da conquista, o Fla teve mais um adversário gringo pela frente: o Peñarol de Mazurkiewicz, Pedro Rocha, Matosas, Cortés – todos da seleção uruguaia que seria semifinalista no México -, além do chileno Figueroa, futuro Internacional, em amistoso no Maracanã, em 1º de março. Com um jogador a menos durante quase toda a partida – Fio fora expulso logo aos 28 minutos – os comandados de Yustrich arrancaram um corajoso 0 a 0. Outro resultado encorajador foi a vitória de 2 a 1 sobre o Grêmio em pleno estádio Olímpico também em amistoso, no dia 17.

A próxima atração seria a Taça Guanabara, à época uma competição separada do Campeonato Carioca. Em ano de Copa do Mundo, a Taça foi espichada de modo a ocupar a maior parte do primeiro semestre, já que o Carioca fora empurrado para o pós-Mundial, assim como o Robertão – os clubes não admitiam a hipótese de jogarem as competições mais importantes do calendário desfalcados de suas estrelas convocadas.

O resultado foi aquela que pode ser considerada, sem exagero, a maior edição do torneio em todos os tempos. Naquele ano, pela primeira vez, todas as 12 equipes que participavam do campeonato do então estado da Guanabara disputariam o torneio “aperitivo”. A tabela dividia os clubes em dois grupos, que jogariam entre si no primeiro turno, com os quatro melhores de cada seguindo adiante. No segundo, com a pontuação novamente zerada, os quatro de uma chave enfrentariam os da outra. O pior seria eliminado, e o turno final teria seis times, jogando todos contra todos. Seria um campeonato de fôlego. E fôlego parecia não faltar ao Flamengo.

Tanta bravura e dedicação demonstrada pelos devotados comandados de Yustrich tinham um preço, no entanto. Em parte pela carga de treinamentos, em parte pela violência dos adversários, o elenco passou a sofrer sucessivas baixas. Na estreia na Taça, um 0 a 0 com o Botafogo em autêntica batalha campal, o Flamengo perdeu Washington (atingido no calcanhar pelo centroavante alvinegro Roberto Miranda), Tinho e Dionísio (seu artilheiro até então, cobiçado pelo Corinthians) por lesão. Depois perderia Doval também contundido, Nei teve de operar o joelho, Arílson foi convocado por Zagallo para a preparação da Seleção para a Copa, sem falar em Brito, já ausente do time pelo mesmo motivo desde janeiro.

Aos poucos, o treinador rubro-negro fazia um trabalho de reposição de peças. Lançava garotos, como o centroavante Adãozinho; aproveitava ex-juvenis como Zanata, Tinteiro e Ademir; e utilizava atletas que ele mesmo havia trazido, como o goleiro Adão e o ponta-esquerda Caldeira. Assim, o time fazia o possível, na base da luta, da garra e da disposição, para não deixar cair o ritmo. O que vinha conseguindo, até a primeira derrota: 0 a 1 para o America, em 29 de março, num jogo em que o Flamengo teve Murilo e Caldeira expulsos. A este tropeço seguiu-se outro: 0 a 1 para o Bonsucesso. E outro: 1 a 2 para o Coritiba, em amistoso na capital paranaense. E as mesmas vozes que exaltavam Yustrich passaram a condenar seus métodos.

Mas a sequência de maus resultados parou por aí. O Flamengo perdeu quando pôde, e saiu do princípio de crise com uma vitória magra, pelo placar mínimo, sobre um bom time do Olaria, na abertura do segundo turno. E pareceu embalar de vez em uma vitória redentora sobre o Fluminense com gol de Adãozinho, em 19 de abril, em partida na qual brilhou um jogador que no começo do ano esteve até para deixar a Gávea – mas, felizmente para os rubro-negros, não apareceram interessados em seu passe: o zagueiro paraguaio Reyes.

Reyes, no entanto, se envolveria em lance pitoresco que entrou para o folclore do futebol carioca no jogo seguinte, contra o Bangu. Com a bola dominada, o zagueiro era marcado à distância pelo atacante banguense Dé, que chupava uma pedra de gelo para amenizar o forte calor que fazia naquele 25 de abril. Para o espanto geral, o “Aranha” atirou a pedra contra a bola, tirando-a do controle de Reyes, e marcou o segundo para os alvirrubros numa surpreendente goleada de 4 a 0.

Apesar do vexame, não houve maiores dramas. Um empate sem gols com o Vasco na última rodada serviu para garantir o Fla no turno final. E aí não houve mais quem segurasse, em, talvez, um dos mais antigos exemplos da mística do “deixou chegar”.

O time estreou batendo o mesmo cruzmaltino por 2 a 0, dois gols de Fio no segundo tempo, quando o time já jogava com um a menos – Tinho fora expulso aos 35 minutos da etapa inicial. Depois, vingou-se do Bangu, fazendo 3 a 1, com dois de Arílson – de volta após ter sido cortado da lista final dos 22 de Zagallo – e mais um do futuro “Maravilha”. Na terceira rodada, foi a vez do Botafogo: 2 a 1, gols de Zanata de pênalti e Doval. A próxima vítima foi o America, em nova vingança: 2 a 0, gols de Ademir e Rodrigues Neto, no resultado que permitiu ao Flamengo jogar pelo empate contra o Fluminense, na última rodada, para levantar o caneco.

E, diante de 106.515 torcedores, ele veio: 1 a 1. Os rubro-negros saíram na frente com Fio aos 43 do primeiro tempo. Permitiram a igualdade tricolor com Jair, aos três da etapa final. Perderam Ademir e Arílson lesionados. Mas com raça, fibra e espírito de luta, bem ao estilo Yustrich, garantiram o resultado e conquistaram a primeira Taça Guanabara da história do clube. A massa vibrou. O Homão – rígido quando necessário, mas emotivo na mesma medida – chorou.

Parecia que clube, elenco, técnico e torcida viveriam uma lua-de-mel eterna. Mas ainda haveria muitas subidas e descidas íngremes e vários loopings no trajeto da verdadeira montanha-russa que foi o Mengão-70. O segundo semestre, ou o próximo capítulo, será contado no post seguinte.

O jogo do título da Taça Guanabara:

FLAMENGO 1 x 1 FLUMINENSE
Taça Guanabara – turno final – última rodada
Data: 31 de maio de 1970
Local: Maracanã
Público: 106.515 pagantes
Renda: Cr$ 568.746,50
Árbitro: José Mário Vinhas.
Gols: Fio aos 43 do 1º tempo (1-0); Jair aos 3 do 2º tempo (1-1).

Flamengo: Adão; Murilo, Washington, Reyes e Paulo Henrique; Liminha e Zanata; Ademir (Rodrigues Neto), Adãozinho, Fio e Arílson (Caldeira). Técnico: Yustrich.

Fluminense: Jairo; Oliveira, Galhardo, Assis e Toninho; Denílson e Didi; Cafuringa, Flávio, Jair e Lula. Técnico: Paulo Amaral.

Fla x Flu, Final da Taça GB de 1970

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