terça-feira, 10 de maio de 2022

A NAÇÃO (2ª edição) - Capítulo I: A raiz vermelha e preta


A NAÇÃO

Como e por que o Flamengo se tornou

o clube com a maior torcida do Brasil



Capítulo I – A raiz vermelha e preta


O que é a multidão? Trata-se de um conceito quantitativo, visual. É diferente do que é a massa. Toda sociedade está dividida entre a massa e os extremos, representados pelas minorias do alto da pirâmide, que tiveram acesso a uma educação de boa qualidade, ou as do extremo oposto, que vivem renegadas e lutando para se manter. Massa é o conjunto de pessoas comuns, que não se diferenciam da média, cujo sentimento de bem-estar floresce da percepção de identidade com os demais. Este é um conceito que é indiferente a qualquer estratificação em classes sociais, pois surgirá dentro de todas as classes. A massa atropela tudo que é diferente ou individualizado. Quem não é ou não pensa como a maioria acaba correndo o risco de ser excluído. É um fenômeno social e não econômico.

O futebol tem um dom próprio. Ele faz as minorias, que estão fora da massa, sentirem-se parte da multidão. Também afasta qualquer indivíduo da solidão do sentir-se minoritário, dando-lhe uma identidade. A massa ganha uma personalidade própria, afastando o sentimento de ser apenas mais um. Ela se sente mais viva. Com o clube de futebol não há só um processo de gostar ou simpatizar com um ou com outro. O sujeito é – do verbo ser – um Flamengo, um Fluminense, um Botafogo, um Vasco, um América. Quem melhor definiu tal conceito em poucas palavras foi o brilhante dramaturgo e cronista Nélson Rodrigues, em um de seus artigos, nos anos 60: “Lá fui eu me meter nas arquibancadas do Maracanã. Era uma das quase duzentas mil pessoas presentes. Aconteceu então que, imediatamente, perdi qualquer sentimento de minha própria identidade. Ali, tornei-me também multidão. Esqueci a minha cara, senti a volúpia de ser ninguém. Se, de repente, o povo começasse a virar cambalhotas e a equilibrar laranjas, e a ventar fogo, eu faria exatamente como os demais. E, então, senti que a multidão não só é desumana, como desumaniza. Lá estávamos eu e os outros desumanizados. Pouca diferença faria se, em vez de duzentas mil pessoas, fossem duzentos mil búfalos, ou javalis, ou hienas”.

No mundo inteiro, o senhor das multidões – o futebol – ganhou um brilho facilmente reconhecido internacionalmente nas cores verde e amarelo. Em solo brasileiro, ele ganhou tonalidade própria: vermelho e preto. O Flamengo foi fundado como clube de regatas em 1895 na praia do Flamengo, número 22. O Rio de Janeiro daqueles tempos, quando da fundação do clube, tinha cerca de 750 mil habitantes. Era a maior cidade do Brasil, mas uma metrópole muito distinta da que chegou ao século XXI. Fazia só seis anos que a república fora proclamada. A cabeça do brasileiro estava imersa em um mar de baixa autoestima, cheia de complexos de inferioridade. O Brasil havia sido o último país do mundo a abolir o sistema escravagista, fora o último latino-americano a libertar-se do poder político de além-mar. Tivera uma independência forjada, sem luta, sem conquista, e todos os seus vínculos na Europa tinham sido construídos a partir de regiões pobres do velho continente, longe da prosperidade avassaladora que emergira com o desenvolvimento industrial. O passado brasileiro parecia não mais do que uma condenação. Nesse contexto sociocultural, após a Proclamação da República, uma fração da elite brasileira trata de trabalhar para fazer do Rio de Janeiro uma utopia que mantivesse a unidade territorial nacional e fosse uma ferramenta útil na construção de um país novo, com ordem, e na busca do progresso.

A baía de Guanabara era como um símbolo de unidade e coesão herdado dos portugueses. Suas águas tinham um papel primordial na formação do país, pois de lá tinham zarpado as frotas que reprimiram movimentos separatistas e mantiveram a unidade nacional do Brasil. Não por coincidência, foi em suas águas que, através de competições de regatas, começou a emergir aquele que moveria multidões e se transformaria, por mais de um século, na maior paixão nacional, uma parte importante do cimento que deu coesão ao país. A cidade do Rio de Janeiro da década de 1890 vivia uma relação de amor com a baía, e o centro era o coração comercial da República. Tudo girava em torno do porto que ganhara importância na cidade e no país a partir de 1808, com a instalação do império português no Rio de Janeiro.

Toda a corte – desde a família real, passando pela nobreza politicamente mais chegada a D. João VI e pelas Forças Armadas, em um total de 15 mil pessoas – deixou Lisboa às pressas, escapando da invasão de Napoleão Bonaparte, e se mudou, de uma só vez, para o Rio de Janeiro, onde ficou por quatorze anos. Em 1822, D. João voltou para Portugal. Mas a nobreza, aqui já instalada, com negócios escoando pelo porto do Rio muito mais lucrativos do que aqueles que outrora tivera em terras lusitanas, não queria voltar. E não voltou. Assim fez-se a Independência sem mortes, o primeiro “acordão” da história do país. D. João VI se foi, mas aqui deixou seu filho primogênito, D. Pedro I, como monarca do império independente de Portugal, junto a uma força militar mais poderosa que a de Portugal e à nobreza burguesa, que construiu a alma da cidade em torno do escoamento comercial que fluía pela baía.

É impossível entender a unidade territorial brasileira sem espelhar tais reflexões nas águas da baía de Guanabara. Quando a família real portuguesa se mudou para o Brasil, em 1808, veio buscar muito mais do que a proximidade de Minas Gerais, subsolo de onde reluziu o ouro que deu aos portugueses as riquezas que os espanhóis já haviam encontrado a céu aberto nos monumentos colossais do império inca.

Por que o Rio de Janeiro? Porque além da proximidade da rota do ouro, a baía de Guanabara era a maior fortaleza natural do litoral brasileiro. Mais do que pela vasta dimensão e pela ampla profundidade sob águas calmas, perfeita para as necessidades de navegação à vela do século XIX, sua geografia oferecia proteção militar. A abertura estreita para o oceano Atlântico, de menos de dois quilômetros de extensão, fazia dos navios inimigos alvo fácil para a artilharia em terra. Um bastião quase que impenetrável, de difícil acesso até para as mais modernas armas de guerra daquela época. Ao mesmo tempo, cercada de montanhas, facilitava a observação do fluxo de grandes embarcações.

No Centro, em torno da atividade mercantil do porto, nasceu a cidade. Os bondes a estenderam para o corredor da baía de Guanabara situado entre o porto e o mar, onde cresceram os bairros da Glória, do Flamengo e de Botafogo. Lá, sob a brisa refrescante entre as águas e a Mata Atlântica que cobria os morros, instalou-se a população de maior poder aquisitivo. No outro extremo, a ferrovia levou o trabalhador braçal para o subúrbio.

O Rio de Janeiro fincou sua raiz cosmopolita ainda no século XIX. Entre 1814 e 1822, foi oficialmente a capital do império português. Por isso, a independência foi sem o derramamento de sangue visto na América espanhola. Em 1834, D. Pedro declara o Rio de Janeiro município neutro, desvinculando-o da província fluminense e tornando-o uma cidade-estado. É no Rio que emerge o embrião que marcará a cultura brasileira.

Ainda na época do império, a música brasileira já começava a influenciar o mundo. O maxixe e as marchinhas, ritmos nascidos no Rio de Janeiro, viram moda na Europa, destacando a virtude musical do Brasil e, em especial, a do carioca.

Após a Proclamação da República, a elite brasileira se volta para construir um futuro que libertasse o país de seu passado. Era necessário desenvolver a autoestima nacional. A cidade do Rio se tornará peça fundamental para um desligamento simbólico do passado que condenava o Brasil. Foi uma ironia forçada pelo destino, pois a princípio não era isso o que se desejava. A primeira Carta Constituinte já previa a construção de uma nova capital federal no planalto Central. O Brasil olhava para o Rio de Janeiro com uma enorme desconfiança; afinal, ali estavam todos os alicerces da monarquia de onde partira todo o esquema de repressão portuguesa às revoltas nas várias províncias que buscaram independência. Afastar-se da capital do império seria o desligamento simbólico pensado inicialmente. Mas o custo de se transferir a capital federal para o centro do país, em pleno planalto Central, era muito elevado. Não havia no país recursos econômicos que viabilizassem tal mudança. Além do mais, o Rio, como cidade-estado desde 1834 (Município Neutro), oferecia todas as vantagens estratégicas para abrigar o Distrito Federal sem que houvesse uma disputa entre as províncias, o que poderia implicar a perda da coesão do território nacional. Assim, manteve-se a capital onde estava.

O Brasil queria ser grande e obter progresso. Entre 1892 e 1913, o Rio de Janeiro passou por uma completa remodelagem. Buscava-se dar à cidade a dimensão de grandeza que se esperava para o futuro do país. Em 1892, é construído o túnel Velho, abrindo caminho em direção às áreas ainda desocupadas do Leme e de Copacabana. Em 1896, inaugura-se o prédio da Academia Brasileira de Letras. Em 1898, são concluídas as obras da igreja da Candelária e, em 1904, da avenida Central (Rio Branco). Em 1909, é inaugurado o Teatro Municipal e, um ano depois, a Biblioteca Nacional. Em 1913, a cereja final é colocada com a conclusão das obras que viabilizaram a primeira viagem de um bondinho sustentado por cabos até a parte superior do morro do Pão de Açúcar, onde se desenhou um mirante, para que as belezas dos contornos naturais da cidade pudessem ser vistas de cima.

A operação, forjada no início do século XX, para utilizar o Rio de Janeiro como espelho da nação e certidão de brasilidade foi extremamente bem-sucedida. Era onde os diferentes brasis se encontravam. O Rio de Janeiro foi construído para ser o epicentro da brasilidade, com sua cultura miscigenada e seus sonhos de futuro grandioso. Algo muito além do simples fato de ser a capital federal. Moldou-se a cidade para ser o caldeirão de convergência das diferentes culturas que coabitam o Brasil. Sentir-se como alguém do Rio não dependia de naturalidade, até porque era onde as elites do país se encontravam para legislar e executar o poder político. Sentir-se como parte do Rio dependia tão só de um estado de espírito e da adoção de suas modas e seus trejeitos. Toda esta operação foi muito bem-sucedida, e é em meio a ela que nasce o Clube de Regatas do Flamengo em 1895.

O Rio de Janeiro, um lugar diferenciado, onde se encontravam belezas típicas de um país tropical e a modernidade urbana, era sedutor. Em 1912, no ano de partida do futebol rubro-negro, a artista francesa Jeanne Catulle batizou a cidade de Ville Merveilleuse. E a Vila Maravilhosa cresceu, até, em 1935, a marchinha de Carnaval, composta por André Filho, eternizar: “Cidade Maravilhosa/ Cheia de encantos mil/ Cidade Maravilhosa/Coração do meu Brasil”.

Capital da República, o Rio propagou-se como o coração econômico do Brasil, atraindo pessoas de todo o país. Entretanto, apesar de possuir belos palacetes e casarões, tinha graves problemas urbanos e sanitários. O Centro era uma imundice. A rede de água e esgoto era insuficiente e precária, o sistema de coleta de lixo bastante desorganizado. Havia muita mendicância e os chafarizes nas praças eram espaços abertos de banhos públicos, onde se viam filas de pessoas esperando a vez para se refrescar em uma água de cor cinza esverdeada.

Os cortiços, espalhados pela Zona Portuária, eram densamente povoados, um aglomerado de desordem e caos, que chegavam a abrigar quase uma centena de pessoas em um conjunto de casebres avizinhados em pouco mais do que um corredor. Nesse ambiente impuro, proliferavam muitas doenças como a tuberculose, o sarampo, o tifo e a hanseníase, popularmente conhecida como lepra. Alastravam-se grandes epidemias de febre amarela, varíola e peste bubônica, com alta taxa de mortalidade de crianças e adultos.

Entre 1901 e 1910, no Rio de Janeiro, só a tuberculose matou 18,6 mil pessoas, e outras 12 mil morreram nas epidemias de malária, febre amarela, varíola, tifo e beribéri. Mas esse não era um problema exclusivamente brasileiro. Curiosamente, comparando-se a morte por tuberculose a cada cem mil habitantes frente às duas maiores cidades do mundo naqueles tempos, o Rio ultrapassou Londres, mas teve menos mortes do que Paris.

Foi com a chegada de Rodrigues Alves à presidência da República, entre 1902 e 1903, que se fixaram as diretrizes para o saneamento amplo e a modernização da cidade. Foram dados plenos poderes ao prefeito Pereira Passos e ao ilustríssimo dr. Oswaldo Cruz para a execução de um grande projeto sanitário.

O prefeito pôs em prática um amplo reordenamento urbano, conhecido como “bota abaixo”, em razão da ordem para demolição dos velhos prédios e cortiços, que deram lugar a grandes avenidas, edifícios e jardins. Milhares de pobres foram desalojados, tomando o rumo da periferia e dos morros da cidade, um pequeno embrião do que, décadas depois, vieram a ser as favelas.

Já o médico Oswaldo Cruz, à frente da Secretaria de Saúde, deu início a uma revolução no serviço de saúde pública do país, levando adiante uma ampla pesquisa para o desenvolvimento de vacinas. Em novembro de 1904, foi decretada a obrigatoriedade da vacinação. A população, sentindo-se intimidada pela obrigatoriedade imposta, recebeu a notícia com truculência, provocando quebradeiras generalizadas que se espalharam pela cidade durante uma semana inteira, episódio que ficou conhecido como Revolta da Vacina.

Foi todo esse contexto que serviu de berço para aquele que ao longo dos anos viria a se tornar o estandarte das multidões. O carioca jamais teve medo das multidões, muito pelo contrário, ele sempre temeu ruas desertas e vazias. No Rio de Janeiro, as concentrações multitudinárias sempre foram algo diferenciado. O estrangeiro que chegava sempre se sentia atraído pelas aglomerações autorreguladas pacificamente, quase sem riscos e com poucas perturbações. O calor tropical dava sua pitada a esta mistura, à medida que empurrava o cidadão para a rua, levando os cidadãos, acalorados, a construir as relações sociais do portão de sua casa para fora. Ao contrário do frio, que concentra as pessoas em ambientes fechados e protegidos, estimulando relações sociais da porta de casa para dentro.

Nesse ambiente, lançou-se a semente que construiu a raiz vermelha e preta. Foi em um domingo, 17 de novembro de 1895, quando os jovens José Agostinho Pereira da Cunha, Nestor de Barros, Mário Spíndola, Domingos de Azevedo Marques, Lucci Collás e Felisberto Laport fundaram o Grupo de Regatas do Flamengo. As praias de Botafogo, Gragoatá e Icaraí já tinham seus clubes de regatas, a praia do Flamengo também tinha que se fazer representar.

Remo era o esporte predileto da cidade, praticado pela elite. O Flamengo nasceu dentro de uma das regiões com maior concentração de renda no Rio de Janeiro do final do século XIX. Tinha vizinho ilustre e tudo: no número 14, em uma casa grande, de dois pisos e vastamente arborizada, vivia Ruy Barbosa – jurista, político, escritor, diplomata e financista ortodoxo. Os remadores do Flamengo, quando saíam para pôr os barcos na baía de Guanabara, com o dia ainda amanhecendo, podiam ver Ruy sentado no jardim, já lendo.

Nascer em meio à sociedade mais rica poderia ter sido um empecilho para o rubro-negro atingir a multidão. Em outra cidade talvez fosse, mas não no Rio de Janeiro. Pelas particularidades geográficas do Rio – apertado entre a montanha e o mar – frente a qualquer metrópole no mundo, as classes sociais na cidade se avizinharam, gerando uma convivência que facilitou a propagação do espírito flamenguista.

O Rio de Janeiro é de difícil compreensão porque não é uno. Assim como no caso do Brasil, em que há vários países dentro do país, no Rio há várias cidades dentro da cidade. Tudo se deve à forma como se desenvolveu: diferentes vilas, isoladas, que cresceram e se uniram. O Centro era a região do comércio mercantil, porto para o tráfico de escravos e o contrabando, epicentro das rotas comerciais entre Portugal e Angola, ponto estratégico para os interesses econômicos portugueses sobre o território espanhol, onde se podia vigiar a rota comercial do Rio da Prata que subia pelo Atlântico. A Zona Sul era o balneário, onde viviam as famílias dos ricos comerciantes, longe da desordem portuária e do calor escaldante. Já a Zona Norte dava o abastecimento alimentar à cidade; era sitiada por quatro grandes engenhos de açúcar e cachaça – Engenho Velho, Engenho Novo, Engenho da Rainha e Real Engenho, que depois passou a se chamar Realengo. Entre estes ramos foram crescendo distintos bairros, com suas particularidades e pirâmides sociais próprias. O tempo conservou as distâncias culturais destes gânglios sociais. Há quem afirme que há mais similaridades culturais entre um argentino e um chileno do que entre um carioca da Zona Sul e um da Zona Norte. Assim como no caso do Brasil, apenas palavras não conseguem descrever tais diferenças, só vivenciando cada uma dessas diferentes energias para ser capaz de compreender tais particularidades.

No final do século XIX, só havia dois programas esportivos para um dia de domingo: ir às regatas na baía de Guanabara ou a uma corrida de cavalos no Jockey da Mangueira, no terreno onde hoje é o estádio do Maracanã, que, por décadas, foi o palco principal do turfe nacional. Só muitos anos depois, o Jockey Clube se mudou para a região limítrofe entre os bairros da Gávea, do Jardim Botânico e da Lagoa, no terreno em frente ao campo do Flamengo.

E se a baía era o caso de amor da cidade, foi de suas águas que emergiu a maior relação de amor que tal cidade já viu. A nação dentro da nação. O vermelho e o preto distribuído pelo território do verde e do amarelo.

O primeiro estatuto do Clube de Regatas do Flamengo – documento que oficializou o nascimento do clube – foi redigido no largo do Machado, em uma reunião à noite, no meio da praça, sob as luzes dos lampiões. A reunião varou a madrugada, no silêncio da noite de um fim de outono que já antecipava o verão, sob a brisa refrescante que ventava desde a praia do Flamengo, que estava a três quadras dali.

Oficializada a criação e definida a sede, faltava comprar os instrumentos de competição. Os primeiros sócios ratearam entre todos eles o custo das duas primeiras embarcações, a Scyra e a Pherusa, que competiram pela primeira vez em uma regata no Gragoatá. O começo foi duro e árduo, mostrando que o projeto só vingaria à base de muita superação. A embarcação do Flamengo não conseguiu completar a prova, tendo que ser rebocada até a praia pelos barcos do Clube de Regatas Botafogo. Nada que o espírito juvenil e aventureiro dos fundadores do clube não pudesse superar. E aquele grupo de jovens seguiu tentando, vencendo toda e qualquer adversidade, desde seus primórdios.

Um bom exemplo disso foi a aventura dos remadores Antônio Rebello Junior, o Engole Garfo; Alfredo Correia, o Boca Larga; e Ângelo Gamarro, o Angelú, que tentaram fazer a travessia do Rio até Santos a remo. A dupla Engole Garfo e Boca Larga já era de renome, sendo a mais respeitada pelo remo carioca. A largada para a aventura foi acompanhada com louvor por centenas de curiosos nas areias da praia do Flamengo.

A Capitania dos Portos tentou impedir a loucura dos remadores rubro-negros, mas foi driblada com uma mudança de última hora do ponto de saída. A notícia de que os três já haviam zarpado para Santos correu a cidade, que, incrédula, imaginava não passar de um boato. O fato só se confirmou quando a Marinha mandou, oficialmente, um barco ir atrás dos remadores no dia seguinte. Só os alcançaram no meio do caminho da travessia. Quando voltaram, mesmo sem a conclusão do percurso, os três foram carregados como heróis nos braços do povo, que se aglomerou para recebê-los no píer. Assim nascia o espírito das multidões, tingido em rubro-negro: juvenil e desbravador, buscando a superação sempre.

Mas antes de vencer heroicamente seus adversários e impor-se como potência das regatas da cidade, o Flamengo demorou a emergir como força do remo. Só foi conquistar um Campeonato Carioca de Remo em 1916, curiosamente, depois da conquista de seu primeiro Campeonato Carioca de Futebol, em 1914. Até 1915, antes da flotilha rubro-negra içar o clube à galeria dos campeões da cidade, os títulos cariocas de remo estavam assim divididos: Gragoatá, Santa Luzia e Vasco da Gama tinham conquistado quatro campeonatos cada; o Boqueirão do Passeio tinha sido campeão duas vezes; e Internacional, Guanabara e Botafogo possuíam um título. Já em 1917, o Flamengo faturou o bicampeonato de remo, mostrando que chegara para ficar no seleto grupo dos grandes campeões. Voltou a ser campeão em 1920, desta vez, para ser o primeiro campeão de terra e mar, pois o time de futebol também faturou o título carioca.

Contudo, era o Vasco quem dominava as regatas. A turma do Flamengo, com menos recursos, lutava por sobreviver e tentar se impor. Até 1933, foram treze conquistas. Flamengo, Santa Luzia, Gragoatá e Boqueirão contavam com quatro, cada; o Guanabara possuía três; e Botafogo, Internacional e São Cristóvão tinham um, cada. E o remo rubro-negro viveu um longo período em jejum, com as regatas tendo uma longa hegemonia do Vasco entre 1934 e 1959, quando, em 26 competições, os vascaínos faturaram 22, série somente interrompida pelo tetracampeonato rubro-negro entre 1940 e 1943. A rivalidade se mudou da baía de Guanabara para a lagoa Rodrigo de Freitas, e a disputa passou a ficar acirradíssima: entre 1960 e 1964, o Botafogo venceu três campeonatos e Flamengo e Vasco conquistaram um título, cada. Até que, em 1965, começou a era rubro-negra no remo. O clube foi pentacampeão entre 1965 e 1969; perdeu o título de 1970 para o Vasco; depois foi onze vezes seguidas campeão, entre 1971 e 1981; perdeu o título de 1982 novamente para o Vasco; e venceu quinze vezes consecutivas, entre 1983 e 1997.

Foi no remo que surgiu o embrião – a raiz – da pulsação vermelha e preta que contagiou a cidade. Na introdução de seu livro Histórias do Flamengo, o jornalista Mário Filho escreveu, ainda em fins dos anos 40: “Ninguém discute que o Flamengo seja o clube mais popular do Brasil. Quem é Flamengo prefere dizer o mais querido. Está certo: escolhe-se um clube como se escolhe uma mulher. Para toda a vida ou até que Deus separe. É mais difícil deixar de amar a um clube do que a uma mulher. Qualquer um de nós conhece mais bígamos ou polígamos do que torcedores que mudaram de clube. Ou que o traíram, mesmo que em pensamento. Talvez porque um clube nunca se entrega a um torcedor. O torcedor é que se entrega ao clube ou ao amor por ele. Também pode ser porque o sex appeal do clube não se desgasta com os anos. Daí que exista um amor como de lua de mel: violento, absorvente, exaustivo”.

Mário Filho contava também que, quando a vitória era de campeonato, o Fluminense fazia um corso, com os carros de capota arriada, como se fosse um domingo de carnaval, mas sem confete nem serpentina. Era uma passeata elegante, comportada, bem-educada, como se dizia noutros tempos. Terminava com um grande baile de gala nas Laranjeiras. Não era aquela algazarra do Flamengo, aquele carnaval, carnaval mesmo, fora de época. Quando era vitória do Flamengo, tudo acabava em reco-reco na garagem de remo, na mais pura algazarra. A alegria daquele espírito revolucionário de jovens que desafiavam os poderosos era a força motriz que levou o vermelho e negro a mover multidões. Aquelas fanfarras na garagem geravam muitos comentários nos meios de alta roda do futebol. Era comum encontrar na aristocracia quem desdenhasse e ironizasse aquele clube. Sempre houve comentários debochados, daqueles que deixam escapar um sorriso irônico pelo canto da boca. Pensava-se que um clube como aquele jamais daria certo. Mas aquele vermelho e preto nunca foi só caos, como nunca foi só ordem. E foi exatamente se equilibrando entre o caos e a ordem que se fez a maior dentre todas as paixões, o alicerce social que atraía e unia diferentes multidões.

São muitas, no entanto, as razões da popularidade rubro-negra. Ainda segundo Mário Filho, uma vez, o capitão do time de futebol campeão de 1912, Alberto Borgerth, disse-lhe que ela viera dos treinos na praia do Russel. A Prefeitura mandara fazer no local um campo de futebol, com gramado, balizas e tudo mais, dando pela primeira vez uma ideia da importância que adquirira o futebol no cenário esportivo do começo do século XX. Era um campo mais para a garotada – como outros – não era para um time da Primeira Divisão, como o Flamengo.

Só que o Flamengo não tinha campo e era obrigado a treinar em praça pública. À tardinha, os jogadores saíam do número 22 da praia do Flamengo – um misto de garagem de remo e cabeça de porco –, onde mudavam de roupa, e vinham pela calçada, com as chuteiras rangendo no cimento, até chegarem ao campo do Russel. A garotada acompanhava o time, apontando o Píndaro, o Baena, o Gallo, o Borgerth, o Gustavinho. Para Alberto Borgerth, ali estava a explicação de tudo. Assim, a falta de um campo fez o Flamengo misturar-se ao povo, aproximar-se dele. Os garotos, em busca de ídolos, iam ao encontro deles no campo do Russel. Podiam tocá-los, podiam devolver-lhes as bolas que iam fora. E haviam de contar em casa, na escola, que tinham conhecido o Neri, que tinham batido nas costas do Amarante, que tinham apertado a mão do Baiano.

Para começar a compreender como o Flamengo ganhou tamanha popularidade, deve-se ir fundo na análise do espírito que permeava o clube. O caso rubro-negro é uma daquelas excelentes metáforas da eterna batalha entre o velho e o novo, entre o status quo e o revolucionário. Um capítulo na história onde se encontram a voluntariedade da juventude e a inflexibilidade do velho, geralmente carregado em vícios. A inquietação do jovem choca-se com o medo que o tradicional tem das ideias novas e de suas possíveis consequências para sua hegemonia. No Rio de Janeiro, o Fluminense nasceu como símbolo da aristocracia da República recém-proclamada; o Vasco representava o colonizador português: opressor, explorador, ditatorial. O Botafogo não se originou nem da aristocracia e muito menos da elite colonizadora, mas não tinha aquela espiritualidade diferenciada, e jamais ganhou grande popularidade. O espírito Flamengo era diferente, tinha uma alma vibrante, petulante e juvenil, que logo cativaria seguidas gerações.

O espírito com que nasceu o Flamengo revivia as repúblicas de estudantes. Não era à toa que Gentil Monteiro fundara na praia do Flamengo, 22 (que muito depois virou 66) a República Paz e Amor, para dirigir o time e até moldá-lo. Ao lado ficava um colégio de freiras. As boas irmãs não podiam chegar à janela dos fundos. No quintal da garagem, os remadores nus jogavam pelota. Para não viverem de janelas fechadas, as freiras mandaram levantar sobre o muro um tapume de zinco. Então, na hora do recreio, os remadores ainda nus deram para trepar nas árvores, agarrando-se nos galhos mais altos, de onde espiavam as meninas e bebiam um pouco daquela quietude de claustro. As freiras levantavam os olhos, benziam-se apressadas e fugiam, arrastando as meninas que não podiam ver aqueles faunos enormes, musculosos, cabeludos, pendurados nas árvores, não como frutos, mas como macacos. As irmãs, fora rezar pela salvação das almas daqueles demônios do 22, o que mais podiam fazer? E aqueles demônios, as freiras bem o sabiam, também eram bons rapazes, ou tinham, lá no fundo, sentimentos nobres. Quando houve a grande ressaca, as ondas da altura de uma casa foram bater, com toda a fúria, no colégio de freiras. E quem as salvou, as freiras e as meninas, carregando-as no colo, foram aqueles rapazes do Flamengo, justamente aqueles que eram como símios trepados nas árvores que derramavam sombra no quintal do colégio.

A anedota passava de boca em boca numa cidade que dava a vida por uma piada. Qual era a última? E alguém vinha com uma boa do pessoal do Flamengo. Todos sabiam que certas coisas só o Flamengo fazia ou era capaz de fazer. As bombas que explodiam debaixo dos bondes, na galeria Cruzeiro, justamente na hora em que as senhoras e as moças iam para o passeio vespertino na avenida, provocando gritinhos, correrias e colocando à mostra tornozelos avaramente escondidos e até um pedaço de coxa, coisa que não se via nunca naquela época, eram obra de quem? Do pessoal do Flamengo, daqueles diabos, alguns chamavam até de moleques, que viviam metidos no Café Rio Branco, na rua São José.

Mário Filho contava que a República Paz e Amor era um verdadeiro cortiço, onde os quartos eram alugados pelos remadores. O casarão era tomado por baratas e percevejos, e vez por outra apareciam lacraias, algumas chegando a medir dez centímetros. Um dos personagens deste ambiente era o cachorro Cachaça, que vivia perambulando pela República e foi adotado pelo Flamengo. Vez por outra, os remadores o levavam ao bar da esquina e o embebedavam. Cachaça adorava.

Em “Histórias do Flamengo”, Mário Filho conta um monte de histórias que a “Turma do 22” aprontava e que moldaram a raiz do espírito Flamengo. Outro personagem dos contos de Mário Filho sobre a República Paz e Amor era o Campista. Gentil Monteiro achava que enquanto houvesse um Campista por ali, ladrão nenhum se atrevia a roubar a República. Eram enormes os olhos do Campista, aqueles olhos não haviam sido feitos para aquelas pálpebras. As pálpebras bem que queriam fechar quando o sono chegava, mas deixavam metade do olho de fora, a menina do olho sumia, ficava apenas o branco à mostra. Claro, de longe se via. O Campista dormia tomando conta do Flamengo, assustando os ladrões que subiam na janela. Você merece uma estátua, Campista, dizia o Gentil Monteiro. Modesto, ele sorria. Não por aquilo, só se fosse pelo que ele havia feito em Campos durante a enchente. Aquilo sim foi uma grande façanha, ele contava: salvou a biblioteca inteira do seu pai numa bacia. Se o Campista tivesse contado isso antes de ser o Campista, teria sido o Bacia. Já o Revasco virou o Cobra, porque apareceu com uma história. Na fazenda do pai dele havia uma cobra que se tomou de paixão pelo Revasco: aonde ele ia, ela ia atrás. O pai do Revasco tinha uma fazenda na ilha de Marajó, segundo o Chermont, enorme, cheia de bicho ensinado. Um jacaré puxava carro. Havia coisa mais extraordinária ainda: um boi que caçava. O boi não caçava propriamente, fazia o papel de cachorro, com a vantagem de que ninguém desconfiava dele. A especialidade do boi era caçar marrecos. O bicho se metia no mato e o Chermont ia atrás com uma espingarda. Via um marreco, olhava para trás, piscava o olho, o Chermont podia descarregar a espingarda. Ali sim, no 22, era o lugar onde se encontrava uma boa história.

O bairro do Flamengo nesses tempos vinha crescendo muito. Cada casa já tinha seu próprio galinheiro. O pessoal da Paz e Amor vivia em cima do muro pescando as galinhas dos vizinhos, com anzol, caniço e milhos para isca. Quando não tinha galinha, laçava pombos no quintal para substituir as proteínas no almoço. Assim se comia muito e nunca se gastava dinheiro. Nos fundos da República ficava o palácio do Catete, onde morava o Presidente do Brasil. Daí, a pescaria às vezes era de luxo, mutuns, faisões e, mais raramente, se conseguia até capturar um pavão.

Todo domingo tinha futebol na República Paz e Amor. A bola sempre caía no quintal do palácio. Os seguranças já estavam acostumados a ver aqueles vultos saltando muro e, só de calça e sem camisa, atravessar correndo o jardim. Só começaram a criar problema depois que deram por falta de mutuns.

As companhias de bondes também sofriam diante da República Paz e Amor. Na hora da saída da turma do Flamengo era um fuzuê. Uma parte segurando o bonde, enquanto a outra, ainda dentro de casa, terminava de se arrumar. Os pontos eram marcados pela pintura do poste, na calçada. Um dia, cansada das reclamações, a Light tirou a pintura que indicava parada de bonde. De madrugada, a turma do 22 ia lá e pintava de novo. A Light mandava tirar e eles voltavam a pintar. Durou semanas o imbróglio. Até que a Light passou um comunicado a todos os motoristas para que não parassem, estivesse ou não pintado o poste em frente ao 22. Passou o primeiro e não parou, passou o segundo... a turma do Flamengo decidiu agir: colocou a carroça de recolhimento de lixo em cima do trilho. O condutor achou que era blefe, não freou. A colisão atirou lixo para todos os lados. Os jornais abriram títulos: “Mais uma dos canadenses” (a Light, que anos depois foi estatizada, era uma empresa de capital canadense). Deu a maior confusão. A Saúde Pública acionou a Light pelo lixo espalhado e pelo mau cheiro. No final, como quase tudo no país, deu o dito pelo não dito. Daí para a frente, estivesse o poste pintado ou não, o bonde sempre parava em frente ao 22.

Se a onipotente Light não podia com a República Paz e Amor, avalie o seu Antônio, o português que alugava quartos no prédio ao lado. No Flamengo não cabia mais ninguém, a República Paz e Amor foi alugando quartos no seu Antônio. De noite, tinha jogo de víspora no quarto do Cai-a-rê. E o seu Antônio dizia que depois das dez da noite queria silêncio na sua casa. E porque ele queria silêncio, fazia-se um barulho de fim de mundo. De quando em quando, explodia uma cabeça de negro dentro de um dos quartos. O seu Antônio perdia a cabeça. A esperança dele era o delegado: daria uma lição naqueles malandros. O Cai-a-rê, uma noite, encheu a casa de bombas. Às dez horas em ponto as fez rolar, amarradas, pelas escadas. Com a explosão, o seu Antônio saiu para a rua, que já estava cheia de gente que pensava que tinha arrebentado a revolução. Logo voltou o seu Antônio com a polícia. Ele apontou para o Cai-a-rê e acusou-o: “Foi esse maroto aqui, prendam-no”. A polícia não prendeu o Cai-a-rê, prendeu o seu Antônio. É que logo depois chegou o Meira Lima com o Noturno. Não havia quem na polícia não conhecesse o Noturno, filho do coronel Meira Lima. E amigo do Cai-a-rê. O Noturno deu o testemunho dele: “É esse português que anda promovendo desordens”. Seguro pelos policiais, o seu Antônio parecia um louco furioso a caminho do hospício.

Outro membro da Paz e Amor descrito por Mário Filho em suas histórias era o Abelardo Melo. Ele ainda nem tinha se levantado do bonde para saltar, chegando à galeria Cruzeiro, e os garotos dos jornais, aos berros na rua: “Prisão do dr. Abelardo Melo. Preso o famoso chantagista Abelardo Melo”. Ele primeiro se fez de desentendido. Foi estar só e comprou um jornal: não tinha sido preso ninguém com aquele nome. Como podia ser aquilo? Todo dia era preso um Abelardo Melo. Era coisa do Gentil Monteiro, do Padilha e do Haroldo Borges Leitão. Abelardo foi tirando suas conclusões. Todo dia que ele dizia que ia ao Centro da cidade, o Padilha se levantava, lembrava-lhe alguma coisa e saía antes dele. Quando ele chegava à cidade, sempre via o Gentil Monteiro e o Borges Leitão na esquina da rua São José. Toda vez era a mesma coisa. Lá vinham os gritos: “Abelardo Melo foi para o xilindró”.

Já o Estrada de Ferro foi um que ninguém jamais guardou o nome. Na primeira vez que foi ao clube, contou vantagem. Trabalhava nos Correios. Um dia pegou um trem para Belém, o maquinista teve uma coisa e empacotou. Ninguém sabia dirigir o trem. Ele não sabia, mas tinha que voltar para o Rio. Disse que sabia. Pegou na manivela, soltou o freio e não quis nem saber de sinal. De repente, viu uma estação que dizia Cascadura. Freou o trem. Mas a velocidade era tanta que ele só foi parar na Central do Brasil. Abelardo Melo olhou para os outros e sugeriu: “Vamos dar nele?” Deram uma surra no Estrada de Ferro. Ele precisava aprender a respeitar os mais velhos no clube. Para contar vantagem, tinha que saber esperar um pouco. Se aprendeu ou não a lição, ninguém sabe, pois ele nunca mais apareceu por lá.

Com alguns se podia brincar, com outros não. Abelardo Melo foi o primeiro a avisar que não se metessem com o Short. O Abelardo uma vez foi pescar com ele. Short usava bombas para pescar. Lá para dentro da baía, o Short começou a jogar dinamite no mar. A água se abria com a explosão. Era bonito. Não demorava muito e os peixes mortos apareciam boiando. O Short apanhava-os com a mão. Quando chegava à República Paz e Amor fazia a distribuição, e todos comiam peixe. A pescaria com bomba tinha deixado o Abelardo Melo tenso. O vento tinha mudado, ele quis fazer uma manobra e virou o barco poveiro. O Short foi para cima dele aos socos. Os dois dentro da água afundavam e voltavam à tona, sobe e desce soco. Abelardo Melo começou a gritar por socorro. Vinha uma baleeira do Flamengo atrás, os viu, tirou Abelardo Melo da água e trouxe o poveiro de reboque.

Daí para a frente, Abelardo Melo não podia mais ver o Short. Se ele aparecia, Abelardo virava o rosto. Quem avisa amigo é, ele repetia, não brinquem com o Short. Armando Monteiro resolveu experimentar. Era Sexta-feira Santa. O Short saiu para pescar. Voltou cheio de peixes e com uma garoupeta enorme. “Seu Elesbão, leva à casa da dona Alice”, pediu Short. Seu Elesbão foi arranjar papel de embrulho. O Short se meteu no banheiro. Veio o papel de embrulho e a garoupeta foi embrulhada. Armando Monteiro disse que tinha uma ideia, ia escrever no embrulho: “Mercado, rampa número 5”. Armando Monteiro tinha visto embrulhos de peixes comprados na rampa do mercado. Fez igual. Parecia que o embrulho tinha vindo do mercado mesmo. O Short, sem saber de nada, um pouco antes da hora do almoço, estava na casa de dona Alice, sua sogra. “Senhor Short”, disse ela, “não precisava ter tido tanto incômodo”. Ele respondeu: “Nenhum incômodo, eu faço isso quase todos os dias. Sempre pesco e pego um montão de peixes, que distribuo no clube”. Dona Alice nunca vira ninguém mentir tanto assim, com aquela segurança. “Eu sei que o senhor tem prazer em nos agradar, mas não precisava ter ido ao mercado”. Ele lhe deu a palavra de que não tinha ido ao mercado, que o havia pescado ele mesmo. Dona Alice entrou e voltou triunfante, com o papel de embrulho na mão, onde o próprio Short leu: “Mercado, rampa número 5”. O Short chegou a dar um passo para trás e colocar a mão no peito.

O Short quase não almoçou. Queria resolver aquilo logo. Molecagem com ele não! Mas tinha outros compromissos naquela tarde. Só no Sábado de Aleluia apareceu no Flamengo. Armando Monteiro estava preparando cabeças de negro, pois na República Paz e Amor haviam começado a fabricar fogos. Vendo o Short, Armando acendeu uma cabeça de negro e soltou perto dele. O Short só retrucou: “Então a história hoje é bombinha”. Ele subiu. De repente rompeu um grito do Abelardo Melo: “Foge Monteiro!” Vinha o Short descendo com uma dinamite de pesca na mão. O Monteiro saiu correndo e se trancou no banheiro. Mas a porta do banheiro tinha uma abertura em cima. Pela abertura, o Short jogou a bomba. A explosão arrancou a porta. O Armando Monteiro apareceu envolto em fumaça. Cambaleava, com a mão no coração, para ver se ele ainda batia. Sete dias depois e o Armando Monteiro ainda tinha pequenos pedaços de reboco de parede no corpo.




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