quarta-feira, 12 de outubro de 2016

O Rei do Rio: a caminhada do 1º até o 10º título do Carioca

Esta postagem é inspirada no livro "O Rei do Rio", de Celso Unzelte, publicado em 2009 pela Globo Livros, mas embora se inspire neste trabalho, não o reproduz aqui, objetivo de como a história é aqui mostrada é outro. A série também só pode ser elaborada graças ao trabalho do livro "História dos Campeonatos Cariocas de Futebol", de Roberto Assaf e Clóvis Martins, publicado em 2010 pela Editora Maquinária. Por fim, há que se mencionar que todo o trabalho de imagens só foi possível graças ao excepcional trabalho histórico do site Fla-Estatística (www.flaestatistica.com.br), obra de Arturo Vaz e Celso Júnior.

Eis então a Caminhada Rubro-Negra que o tornou o Rei do Rio, detalhando aqui as conquistas do 1º ao 10º título de Campeão Carioca de Futebol: 1914, 1915, 1920, 1921, 1925, 1927, 1939, 1942, 1943 e 1944.


Único dentre os maiores clubes da cidade sem estádio próprio, o Flamengo treinava na Praça do Russell, aos olhos de todos os transeuntes, e realizava seus jogos como mandante no Estádio de General Severiano, propriedade do Botafogo. Assim foi durante as duas temporadas nas quais conquistou pela primeira vez seus dois primeiros títulos de Campeão Carioca, em 1914 e 1915.

O time de futebol ainda não era completamente aceito no clube pela turma do remo, e a experiência ainda era tida como um experimento. Sem poder usar o vermelho e o preto dos remadores, o time jogava com a camisa "Cobra Coral", tricolor em listras horizontais em branco, vermelho e preto.

Time titular em 1914: Baena, Píndaro de Carvalho e Nery; Angelo, Miguel e Gallo; Arnaldo, Alberto Borgerth, Baiano, Riemer e Raul.

No Carioca de 1914, a estrutura central do time tinha o zagueiro Píndaro, o central Gallo, o capitão Borgerth e o artilheiro Riemer. O torneio era em pontos corridos, em turno e returno. Foram duas vitórias sobre Rio Cricket, Paissandu, Fluminense e América, dois empates com o São Cristóvão, e um empate e uma derrota para o Botafogo. O título veio com uma rodada de antecipação, numa vitória por 2 x 1 sobre o Fluminense, em 15 de novembro de 1914, data do 19º aniversário de fundação do clube.

Os campeões de 1914

Time titular de 1915: Baena, Píndaro de Carvalho e Nery; Curiol, Sidney Pullen e Gallo; Gumercindo, Alberto Borgerth, Baiano, Riemer e Paulo Buarque.

A luta pelo bi começou arrasadora, com duas goleadas seguidas por 5 x 0, sobre Fluminense e São Cristóvão. O time deu duas goleadas no debutante Bangu (4 x 0 e 5 x 1). Mas foi o único adversário vencido duas vezes, sobre os demais - Rio Cricket, América, São Cristóvão, Fluminense e Botafogo - o Flamengo obteve uma vitória e um empate. Assim, foi pela primeira vez Campeão Carioca Invicto. No ano de 1915 inteiro, em 16 partidas jogadas, o time sofreu uma única derrota, num amistoso contra a Associação Atlética São Bento, de São Paulo, num amistoso disputado no Estádio do Velódromo, na capital paulista, derrota por 1 x 0.

Os campeões invictos de 1915

A partir do Campeonato Carioca de 1916 o Flamengo passou a mandar seus jogos no seu próprio campo, o Estádio da Rua Paissandu, na divisa dos bairros de Flamengo e Laranjeiras. O campo rubro-negro ficava em frente ao campo do Fluminense, da rua Álvaro Chaves. O primeiro título conquistado em "casa própria" (o terreno era emprestado, cedido pela família Guinle) veio só cinco campeonatos depois, com a conquista de 1920. Também a partir de 1916 o time de futebol passou a ser aceito como parte totalmente integrante do clube, e passou a usar a tradicional camisa rubro-negra.


Time titular de 1920: Kuntz, Burgos e Telephone; Rodrigo, Sidney Pullen e Dino; Carregal, Candiota, Sisson, Junqueira e João de Deus.

O grande líder durante a conquista de 1920 era o meio-campista inglês Sidney Pullen, que também estava no time campeão de 1915. A campanha teve duas vitórias sobre Mangueira, São Cristóvão, Andaraí, Bangu e Botafogo, uma vitória e um empate contra Vila Isabel, Palmeiras e Fluminense, e dois empates contra o América. O clube foi mais uma vez Campeão Carioca Invicto. Também campeão carioca de remo naquele, foi pela primeira vez aclamado como Campeão de Terra e Mar.

Os campeões invictos de 1920

Time titular de 1921: Kuntz, Burgos e Telephone; Rodrigo, Sidney Pullen e Dino; Galvão Bueno, Candiota, Nonô, Junqueira e Orlando.

O bi-campeonato veio com uma campanha irregular. Ainda liderado pelo inglês Sidney Pullen no meio, o ano marcou a chegada ao clube de seu primeiro grande ídolo, à época ainda longe de ter este status, o centroavante grandalhão Nonô. Ainda num torneio de pontos corridos, o Flamengo não conseguiu vencer duas vezes a nenhum de seus adversários. Conseguiu uma vitória e um empate diante de São Cristóvão, América, Fluminense e Botafogo. E um empate e uma derrota diante de Andaraí e Bangu. Terminou o torneio empatado em pontos com o América, levando a competição a ser decidida num jogo extra em campo neutro, disputado no campo do Fluminense, nas Laranjeiras. O Flamengo venceu a final por 2 x 1, de virada, com gols de Nonô e Candiota, ficando com o título.

Os campeões de 1921

A partir de 1923 chegou à competição o Vasco da Gama, clube recém acendido da Segunda Divisão, mas que pelo fortíssimo aporte de capital da colônia portuguesa da cidade, já chegou conquistando o título carioca. E a rivalidade entre Flamengo e Vasco já nasceu no primeiro confronto, em 8 de julho de 1923, em partida jogada no campo das Laranjeiras. O Flamengo venceu por 3 x 2, gols de Nonô, Candiota e Junqueira, e com aquela vitória impediu que o Vasco fosse campeão carioca invicto. Só em 1925 o Flamengo, no entanto, conseguiu impedir o Vasco de ser campeão da cidade.


Time titular de 1925: Batalha, Hélcio e Penaforte; Japonês, Hermínio e Mamede; Newton, Candiota, Vadinho, Nonô e Moderato.

Num torneio mais inchado, o Flamengo venceu duas vezes a Helênico, Brasil, Sirio e Libanês, Bangu, América e Botafogo, conseguiu uma vitória e um empate diante de São Cristóvão e Vasco, e um empate e uma derrota frente ao Fluminense. O título só foi confirmado na última rodada, e com uma atuação de gala, na qual goleou o América por 4 x 0, com dois gols de Nonô, e Candiota e Aché completando o placar.

Os campeões de 1925

O sexto título de Campeão Carioca foi conquistado em 1927, e foi o último antes do clube mergulhar numa profunda crise nos anos seguintes, da qual só conseguiu sair sob a liderança do presidente José Bastos Padilha, que fez grandes investimentos no Flamengo, e sob o comando técnico de Flávio Costa, que era jogador e conquistou o título neste torneio de 1927. Com 6 títulos cariocas, o rubro-negra estava atrás do Fluminense, que tinha 9, mas a frente de América e Botafogo, que tinham 3 cada, e do Vasco, bi-campeão em 23-24. Paissandu e São Cristóvão tinham um título cada um.


Time titular de 1927: Amado, Hélcio e Hermínio; Benevenuto, Seabra e Flávio Costa; Cristolino, Vadinho, Fragoso, Nonô (Angenor) e Moderato.

No torneio por pontos corridos, o Flamengo bateu duas vezes a Vila Isabel, Andaraí, Brasil, Bangu e Vasco, teve uma vitória e um empate contra São Cristóvão e Fluminense, obteve uma vitória e uma derrota frente ao América, e sofreu duas derrotas para o Botafogo, sendo uma delas uma acachapante goleada por 9 x 2 em plena Rua Paissandu, em 29 de maio de 1927. O curioso é que apesar de ter tido facilidade nos dois confrontos contra o Flamengo, os botafoguense terminaram tão só na 5ª colocação do campeonato. O título foi confirmado na última rodada, com a vitória por 2 x 1 sobre o América, na Rua Paissandu, gols de Nonô e Moderato.

Os campeões de 1927

Após um longo jejum, o período mais longo de sua história sem conseguir ser campeão, o Flamengo voltou a conquistar a cidade em 1939. Foram 11 temporadas sem conseguir ser campeão. E longe do topo: em 1928 ainda foi 3º lugar, em 1929 foi 10º e penúltimo lugar, em 1930 foi 8º lugar, em 1931 foi 6º lugar, em 1932 foi vice-campeão, em 1933 o campeonato se dividiu em duas ligas, o Flamengo foi 6º lugar e último colocado na sua (é mentira falar em rebaixamento, porque a liga independente em prol da profissionalização do futebol tinha só seis clubes, entre eles Fluminense, Vasco, América e Bangu, e não havia 2ª divisão). Em 1934 foi 6º lugar de novo, o que agora representava o penúltimo lugar, já que a liga tinha tido uma adesão a mais, em 1935 foi 3º lugar e em 1936, no último ano no qual o campeonato da cidade esteve dividido em duas ligas, foi vice-campeão da sua. Em 1937, na reunificação do Carioca, foi vice-campeão, mesma posição que ocupou em 1938, ambas as temporadas tendo visto o Fluminense se consagrar campeão.

Dava-se início ao período no qual o Jornal dos Sports consagrou ao Fla-Flu como o grande clássico da cidade. O Flu foi tri-campeão carioca de 1936-1937-1938, o Fla foi campeão de 1939, o Flu foi bi-campeão de 1940-1941 e o Fla foi tri-campeão de 1942-1943-1944. Nove anos de hegemonia absoluta da dupla. Em 44 o Flamengo foi campeão pela 10ª vez, o Fluminense tinha 14 títulos, o Botafogo tinha 8, o América tinha 6 e o Vasco tinha 5.


Time titular de 1939: Yustrich, Newton Canegal e Domingos da Guia; Artigas, Carlos Volante e Médio; Sá, Valido, Leônidas da Silva, Alfredo González e Jarbas. Téc: Flávio Costa.

Os pilares do time campeão de 1939 eram a dupla Domingos da Guia e Leônidas da Silva, que tinham brilhado com a camisa da Seleção Brasileira na Copa do Mundo de 1938, e o trio de argentinos Volante, Valido e González. Contava ainda com a experiência do veterano Jarbas na frente. O campeonato era por pontos corridos, mas agora com três e não dois turnos. O único adversário que o time rubro-negro venceu as três vezes foi o Bonsucesso; conseguiu duas vitórias e um empate diante de Madureira, São Cristóvão, América e Fluminense; duas vitórias e uma derrota contra Vasco e Bangu (para quem sofreu uma goleada de 4 x 0 em plena Gávea), e teve uma vitória e duas derrotas frente ao Botafogo (tendo sido, numa delas, goleado impiedosamente por 5 x 1). Apesar dos tropeços, teve a melhor campanha, consolidando o título apenas na última rodada, quando goleou ao Vasco por 4 x 0 na Gávea, gols de Alfredo González, duas vezes, Agustín Valido e Leônidas da Silva (três dos quatro gols que sacramentaram a conquista, portanto, saindo de pés argentinos).

Os campeões de 1939

Veio então a sequência do Primeiro Tri: 1942-1943-1944. Sequência que levou o clube a atingir a marca de 10 Campeonatos Cariocas conquistados.


Time titular de 1942: Jurandir, Newton Canegal e Domingos da Guia; Biguá, Carlos Volante e Jayme de Almeida; Nandinho, Valido, Zizinho, Pirilo e Vevé. Téc: Flávio Costa.

O Flamengo tinha em 42 a mesma base que conquistara o título três anos antes: Domingos da Guia, Canegal, Volante e Valido. Perdeu Leônidas, mas viu emergir Zizinho. Tinha dois ágeis defensores pelas laterais, Biguá e Jayme, e contratou Pirilo, ex-Internacional e Peñarol, para ser seu goleador. Assim voltou a conquistar a cidade. O campeonato ainda era em pontos corridos e em melhor de três turnos. O time rubro-negro conseguiu três vitórias sobre Canto do Rio, Bonsucesso, São Cristóvão e Bangu, duas vitórias e um empate contra Madureira e Vasco, uma vitória e dois empates contra Botafogo, duas vitórias e uma derrota para América, e uma vitória, um empate e uma derrota contra o arquirrival Fluminense. O Flamengo estava implacável, e com um ataque fantástico, que fez 87 gols em 27 jogos, uma média de 3,2 gols por jogo. Goleadas aos montes: 6 x 0 no Canto do Rio, 7 x 0 no Bonsucesso, 6 x 0 no Bangu, 8 x 5 no América, vários 4 x 0, tendo sido um deles no Botafogo. Mas o título veio só na última rodada, quando jogando pelo empate para ser campeão, fez 1 x 1 contra o Fluminense nas Laranjeiras, vingando-se do empate no "Fla-Flu da Lagoa" que dera o título ao rival no ano anterior.

Os campeões de 1942


Time titular de 1943: Jurandir, Newton Canegal e Domingos da Guia; Biguá, Artigas e Jayme de Almeida; Nilo, Perácio, Zizinho, Pirilo e Vevé. Téc: Flávio Costa.

No campeonato de 43, o time teve a saída dos veteranos argentinos Volante e Valido, que se aposentaram, mas a estrutura central do time era muito parecida à do ano anterior. O campeonato de pontos corrido foi agora em dois turnos e não mais em três. O time de Flávio Costa venceu duas vezes a Bonsucesso e Botafogo, conseguiu uma vitória e um empate contra Canto do Rio, Madureira, São Cristóvão, Bangu, Fluminense e Vasco, e teve uma vitória e uma derrota frente ao América. Não foi avassalador como na temporada anterior, mas foi campeão com uma rodada de antecedência, e numa tarde fantástica, na qual goleou ao Vasco por 6 x 2 no Estádio de General Severiano, com dois gols de Perácio e outros dois de Pirilo, e Zizinho e Vevé complementando o placar.

Os campeões de 1943


Time titular de 1944: Jurandir, Newton Canegal e Quirino; Biguá, Modesto Bria e Jayme de Almeida; Tião, Valido, Zizinho, Pirilo e Vevé. Téc: Flávio Costa.

A grande perda para a temporada de 1944 foi a saída do zagueiro Domingos da Guia, que trocou a Gávea pelo Parque São Jorge, passando a defender ao Corinthians. O fato curioso foi a volta da aposentadoria, só na reta final do campeonato, do atacante argentino Valido. O campeonato de 44 repetiu os moldes do anterior, pontos corridos em turno e returno. O Flamengo venceu duas vezes a Canto do Rio, Bonsucesso, Madureira e Bangu, teve uma vitória e um empate nos duelos com São Cristóvão e Fluminense (a quem goleou por 6 x 1), e obteve uma vitória e uma derrota contra América, Botafogo e Vasco.

A acachapante goleada por 6 a 1 no Fluminense, na penúltima rodada, foi crucial para a conquista do Tri-campeonato. O jogo teve sabor de final. No início da rodada, o Vasco tinha 24 pontos, o Flamengo 24 e o Botafogo, ainda com esperanças, tinha 22. O Vasco jogava com o Bangu em São Januário, o Botafogo com o São Cristóvão em General Severiano, e o Fla-Flu agitaria a Gávea. O Vasco fez 4 x 3 no Bangu (foi a 26 pontos) e o Flamengo 6 x 1 no Flu (também a 26). O Botafogo também venceu (foi a 24), mas ficou sem chances do título, porque Flamengo e Vasco se enfrentavam na última rodada na Gávea, quando, com um gol do atacante argentino Valido, o Flamengo venceu por 1 a 0 e levou a taça. O gol, a pouco mais de 10 minutos do fim do jogo, gerou muita polêmica. Até sessão de cinema a torcida do Vasco organizou durante a semana para tentar provar que Valido se apoiou nos ombros do zagueiro para cabecear no lance do gol. Foi a primeira vez na história que um jogador estrangeiro deu um tricampeonato ao Flamengo sobre o Vasco com um gol no fim. Não seria a última vez. Mas isto é outra história... Flamengo, Tri-campeão Carioca de 42-43-44.

Os campeões de 1944



Nenhum comentário:

Postar um comentário