Aqui está importante material organizado pelo Blog Ser Flamengo. Maravilhoso trabalho resgatando e exaltando as pesquisas independentes de Paulo Tinoco e de Alberto Mussa. Reproduzo abaixo a compilação original de algumas matérias diferentes com conteúdo histórico extremamente relevante para responder à pergunta eterna: "Como e Por Que o Flamengo?".
Participação de Paulo Tinoco no podcast da BraboTV, apresentado por Tulio Rodrigues e Rafa Penido, abriu uma janela rara para entender o Flamengo por um caminho que vai além da bola, da arquibancada e dos títulos. Pesquisador da memória rubro-negra, Tinoco apresentou um trabalho de investigação que cruza o cotidiano do clube com música, teatro, cinema, rádio, comportamento, política e cultura popular até os Anos 1960, mostrando que a grandeza do clube não nasceu apenas de vitórias em campo, mas de uma capacidade quase orgânica de ocupar a cidade, a mídia, as ruas, os discos, os livros e o imaginário do torcedor brasileiro.
O ponto mais forte da conversa está na constatação de que o Flamengo ajuda a explicar a história do Rio e do Brasil, mas a própria história encontra dificuldade para explicar completamente o Flamengo. Essa frase, dita na entrevista em reação ao volume de detalhes trazidos por Tinoco, resume bem o problema. O clube não se tornou popular por um único fato fundador, uma campanha específica ou uma ação isolada de dirigentes. Ele foi se formando como fenômeno por uma soma de elementos: rádio, música, imprensa, carnaval, literatura, personagens, bairros, deslocamentos urbanos, clássicos, mitologias e uma torcida que, desde cedo, demonstrava uma necessidade incomum de se mostrar Flamengo em qualquer circunstância.
Paulo Tinoco
Tinoco explicou que seu trabalho no livro “Flamengo, o Fenômeno Nacional” não segue apenas uma ordem cronológica. Além dos capítulos temporais, há recortes temáticos, como “Fla-Flu, história e música”, em que ele reconstrói a relação inicial entre Flamengo e Fluminense, lembra os quatro rubro-negros que ajudaram a fundar o clube tricolor, cita as primeiras reuniões do Flu na sede do Fla e recupera músicas que mencionam o clássico no título ou na letra. O pesquisador também encontrou referência a um disco lançado na Inglaterra por um maestro que viveu no Rio nos Anos 1950 e gravou uma música instrumental chamada “Fla-Flu”, detalhe que mostra como o clássico atravessou fronteiras antes mesmo da era globalizada do futebol.
O método de Tinoco chama atenção porque foge do colecionismo superficial. Ele fala em “investigação”, em dúvidas que ficavam meses em uma pasta de pendências, em cruzamento de documentos, discos, jornais, memórias orais e acervos pessoais. Esse tipo de pesquisa é o oposto da pressa que domina parte do conteúdo esportivo atual. Não se trata apenas de encontrar uma curiosidade para rede social, mas de reconstruir contexto, autoria, data, circulação e impacto cultural.
Um dos exemplos mais ricos envolve Roberto Paiva e a música “Meu Flamengo, meu Brasil”, lançada após o tricampeonato carioca de 1953, 1954 e 1955. Tinoco lembra que o título de 1955 foi decidido em 4 de abril de 1956, em uma final marcada por drama: o Flamengo venceu o primeiro jogo contra o América por 1 a 0, perdeu o segundo por 5 a 1 e ganhou o terceiro por 4 a 1, com quatro gols de Dida. Roberto Paiva já havia gravado o disco, mas temia que a música virasse fracasso caso o Flamengo perdesse o campeonato. O título veio, a canção foi lançada em 78 rotações e se tornou, para o pesquisador, uma das mais bonitas da história rubro-negra.
A conversa ganha ainda mais força quando Tinoco mostra como uma canção pode carregar documentos sonoros dentro de si. Em “Meu Flamengo, meu Brasil”, a abertura traz o gol de Valido em 1944 na voz de Oduvaldo Cozzi, enquanto o encerramento registra o gol de Dida no tri de 1955 com a narração de Waldir Amaral. A identificação dessa primeira voz, porém, não foi simples. Havia versão atribuída a Antônio Cordeiro, outro narrador importante da época, e a dúvida exigiu consulta a pesquisadores, radialistas antigos e, por fim, a um laboratório de fonética, que confirmou a voz de Cozzi.
Esse detalhe parece pequeno, mas revela o tamanho da responsabilidade de quem trabalha com memória. Uma narração errada, repetida durante anos, altera a assinatura de um momento histórico. Tinoco mostra que preservar o Flamengo não é apenas guardar camisa, foto e taça. É também saber quem narrou um gol, quem compôs uma música, qual disco saiu primeiro, que jornal registrou determinado episódio e como uma obra circulou entre torcedores.
Outro caso impressionante envolve Jackson do Pandeiro. Tinoco contou que uma música inédita chamada “Fla-Flu” foi resgatada a partir de um documento encontrado no setor de censura do Arquivo Nacional. A canção teria sido ensaiada para um disco gravado em 1981, no qual Jackson registrou “Bola de pé em pé”, homenagem ao Flamengo, mas acabou preterida. O documento trazia nome, letra e autores, informações que permitiram cruzar dados com o biógrafo do artista. Depois, o pesquisador recebeu um áudio em que o sobrinho de Jackson cantava a melodia, abrindo caminho para que a música fosse enfim gravada pelo sobrinho-neto do artista.
A TORCIDA QUE SE ANUNCIAVA PELA CIDADE
A parte mais bonita da entrevista aparece quando a pesquisa cultural encontra a formação da torcida. Tinoco lembra uma conversa com Reginaldo Bessa, cantor rubro-negro dos Anos 1960, que explicou por que virou Rubro-Negro. Morador da Voluntários da Pátria, em Botafogo, ele via nos Anos 1940 e 1950 o bonde da torcida indo para o campo da Gávea, uniformizada e cantando, algo que, segundo seu relato, nenhuma outra torcida fazia daquela maneira. A cena foi tão forte que produziu conversão afetiva. Ele não virou flamenguista apenas por causa de um jogador ou de um título, mas porque viu uma massa se comportando como Flamengo antes mesmo de chegar ao estádio.
Esse exemplo ajuda a entender por que a torcida rubro-negra sempre pareceu diferente. Não diferente no sentido arrogante ou abstrato, mas na capacidade de espalhar pertencimento. O Flamengo sempre teve mania de grandeza, mas essa grandeza não nasceu vazia. Ela foi alimentada por músicas tocadas no rádio, por crianças imitando Dida com esparadrapo e número 10 na camisa depois do tri de 1955, por cantores que transformavam vitórias em disco, por torcedores que ocupavam bondes, ruas e arquibancadas como se estivessem anunciando ao mundo uma identidade coletiva.
Tinoco também passa por livros, edições raras e restauração de acervos, como no caso do livro “Histórias do Flamengo”, de Mário Filho, cuja primeira edição saiu nos Anos 1940, foi relançada em 1963 e teve novas versões posteriores. O pesquisador contou que mandou restaurar um exemplar antigo, com desmontagem, higienização e tratamento contra acidificação, pagando mais pelo restauro do que pelo próprio livro, porque a preservação garantiria vida longa ao material. O gesto explica muito sobre o trabalho: memória não se protege com discurso, mas com tempo, dinheiro, método e paciência.
No fim, a participação de Paulo Tinoco na BraboTV confirma que o Flamengo não pode ser estudado apenas como clube de futebol. Ele precisa ser lido como fenômeno cultural. A torcida que cantava no bonde, o disco de Roberto Paiva, a narração investigada em laboratório, a música esquecida de Jackson do Pandeiro, o Fla-Flu gravado na Inglaterra e o livro restaurado para durar séculos contam uma mesma história por caminhos diferentes. O Fla venceu muito, mas também foi cantado, narrado, impresso, restaurado, ouvido e repetido. Talvez seja por isso que sua grandeza pareça difícil de explicar. Ela não está em um único lugar. Está espalhada em todas as formas pelas quais o Brasil aprendeu a falar, cantar e imaginar futebol.
COMO O FLAMENGO SE TORNOU UM FENÔMENO NACIONAL
Poucas frases são tão repetidas no futebol brasileiro quanto a ideia de que o Flamengo se tornou popular graças à mídia. A tese atravessou décadas, ganhou diferentes versões e continua aparecendo em debates esportivos, redes sociais e discussões entre torcedores. O pesquisador Paulo Tinoco apresentou uma série de argumentos históricos para contestar essa narrativa e defender justamente o contrário: a imprensa não criou o Flamengo. Foi o crescimento espontâneo do clube que levou jornais, rádios, artistas e empresas a buscarem associação com a marca rubro-negra.
Na conversa conduzida por Rafael Penido, Tulio Rodrigues e Cristiano Oliveira, mergulhou-se em episódios pouco conhecidos da história do clube, revelando como fatores esportivos, sociais, culturais e midiáticos se combinaram para transformar o Flamengo em um fenômeno popular já nas décadas de 1930 e 1940.
Ao responder se o Flamengo seria um “fruto da mídia”, Tinoco lembrou que críticas ao crescimento rubro-negro existem há quase um século. Segundo ele, a tentativa de reduzir a dimensão do clube por meio de narrativas depreciativas acompanha o Fla desde que sua torcida começou a se destacar numericamente. O pesquisador recordou uma fotografia presente em seu livro, tirada após o bicampeonato carioca de 1954, conquistado em 1955. Nela, uma faixa carregada pelos torcedores trazia a frase: “Flamengo, este é o que faz inveja”. Para Tinoco, aquele registro demonstra que a resistência ao crescimento rubro-negro não é recente, mas uma reação histórica à popularidade alcançada pelo clube.
Na avaliação do autor, a lógica foi inversa àquela frequentemente apresentada pelos críticos. A imprensa não escolheu o Flamengo para torná-lo gigante. O interesse da mídia surgiu porque o Flamengo já mobilizava multidões, gerava audiência e despertava enorme atenção popular. Por isso, peças teatrais, programas de rádio, produtos comerciais e campanhas publicitárias passaram a utilizar o nome rubro-negro como elemento de atração de público.
O Flamengo era popular antes da televisão! Um dos pontos centrais da argumentação de Tinoco está justamente no período anterior à televisão. Se a popularidade do Flamengo fosse resultado exclusivo dos meios de comunicação modernos, seria difícil explicar a expansão de sua torcida nas décadas de 1930 e 1940.
Segundo o pesquisador, uma sequência de acontecimentos ajudou a impulsionar a presença do clube no imaginário nacional. O primeiro deles ocorreu em 1932, durante a famosa Travessia Rio-Santos realizada por remadores rubro-negros. O episódio mobilizou o país inteiro, ganhou cobertura intensa da imprensa e transformou os atletas em celebridades nacionais. Ao retornarem ao Rio de Janeiro, foram recebidos como heróis por uma multidão que tomou a Praça Mauá.
Na sequência, vieram outros fatores decisivos. A expansão do rádio, o surgimento da Rádio Nacional, a gravação do hino rubro-negro em disco, o tricampeonato estadual dos Anos 1940 e, posteriormente, a inauguração do Maracanã criaram um ambiente favorável para que o Flamengo ampliasse sua presença social. A diferença, segundo Tinoco, é que a audiência já existia. A mídia apenas passou a acompanhar um fenômeno que crescia diante dos olhos do país.
Outro aspecto relevante abordado na entrevista foi a origem de diversos apelidos utilizados de forma pejorativa contra o Flamengo. Tinoco relembrou que, quando o clube se instalou na Gávea em 1938, a região ainda era considerada distante e pouco valorizada. Ao mesmo tempo, surgia nas proximidades a Favela da Praia do Pinto.
A partir desse contexto, rivais passaram a associar o Flamengo às camadas populares de forma depreciativa. O pesquisador destacou que existem inclusive músicas registradas em sua pesquisa histórica com conteúdo explicitamente preconceituoso contra a torcida rubro-negra. Um exemplo citado foi uma antiga provocação que dizia: “Um time de urubu queria ser campeão”. Em outra ocasião, torcedores do Fluminense chamaram o Flamengo de “torcida do Dragão”, numa referência a uma marca popular de utensílios domésticos. A intenção era clara: associar o clube às classes trabalhadoras em um período em que determinados segmentos do futebol ainda viam a origem popular como motivo de discriminação. Curiosamente, aquilo que começou como tentativa de ofensa acabou se transformando em um dos principais símbolos de identidade rubro-negra. O que antes era utilizado como ataque passou a representar orgulho, pertencimento e conexão popular.
Tinoco também apresentou outro elemento fundamental para compreender o crescimento da torcida: a relação do Flamengo com a cultura popular brasileira. Segundo ele, o rádio produziu uma geração de ídolos nacionais que ajudou a ampliar a visibilidade do clube. Orlando Silva, Ângela Maria, Carmen Miranda e diversas personalidades da música declaravam publicamente sua paixão pelo Flamengo. Revistas da época frequentemente perguntavam aos artistas para qual clube torciam. Em muitos casos, a resposta era a mesma. O pesquisador argumenta que a identificação de figuras extremamente populares com o clube Rubro-negro produziu um efeito multiplicador junto aos admiradores desses artistas.
Ao mesmo tempo, dirigentes como José Bastos Padilha implementavam iniciativas que hoje seriam classificadas como ações modernas de marketing. Campanhas promocionais, concursos populares, eventos públicos e estratégias de aproximação com a população ajudaram a consolidar a marca rubro-negra muito antes de esse conceito se tornar comum no futebol brasileiro.
Talvez a principal contribuição da pesquisa de Paulo Tinoco seja mostrar que a história do Flamengo não pode ser reduzida a explicações simplistas. O crescimento da torcida rubro-negra não aconteceu por um único motivo, tampouco pode ser atribuído exclusivamente à ação da imprensa. O processo envolveu conquistas esportivas, personagens carismáticos, transformações sociais, inovação administrativa, presença cultural e uma capacidade singular de dialogar com diferentes segmentos da população brasileira.
Ao reconstruir essa trajetória, o autor apresenta uma conclusão que desafia uma das teses mais repetidas do futebol nacional. O Flamengo não se tornou popular porque apareceu na mídia. A mídia passou a falar cada vez mais do Flamengo porque o clube já havia se transformado em assunto permanente nas ruas, nos rádios, nos carnavais, nos estádios e na vida cotidiana de milhões de brasileiros. Entender essa diferença é fundamental para compreender por que, mais de um século após sua fundação, o Flamengo continua sendo tratado não apenas como um clube de futebol, mas como um fenômeno cultural de dimensão nacional.
NOVOS CRITÉRIOS PARA MEDIR GRANDEZA RUBRO-NEGRA
Alberto Mussa, escritor premiado e rubro-negro declarado, lançou “Flamengo contra todos”, seu primeiro livro dedicado ao futebol, publicado pela Civilização Brasileira. A obra parte de uma ambição que combina provocação, método e paixão: analisar o desempenho histórico do Flamengo contra seus adversários e sustentar, com critérios próprios, por que o clube pode ser chamado de “maior time do mundo”.
A proposta é ousada não apenas pela conclusão que anuncia, mas pelo caminho escolhido. Mussa não promete uma declaração de amor disfarçada de estatística, nem um almanaque de resultados empilhados. A sinopse indica um livro que deseja discutir quais competições realmente importam, como medir grandeza no futebol e por que certas decisões cartoriais não deveriam se sobrepor ao que o campo, a época e a sociedade reconheceram como relevante.
Mussa não chega ao tema como aventureiro de ocasião. Nascido no Rio de Janeiro, autor de romances, ensaios e obras de fôlego, ele tem trajetória literária reconhecida, com prêmios como Machado de Assis da Fundação Biblioteca Nacional e Oceanos 2015, além de uma produção marcada pela mistura entre rigor narrativo, pesquisa, mitologia, história e cultura brasileira. Ao lado de Luiz Antônio Simas, escreveu “Samba de enredo: história e arte”, obra que já demonstrava seu interesse por formas populares de memória, pertencimento e disputa simbólica. Agora, ao entrar no futebol pelo Flamengo, Mussa se aproxima de um terreno em que paixão e método costumam ser tratados como inimigos, quando talvez sejam apenas forças que precisam ser postas sob vigilância uma da outra.
A força inicial de “Flamengo contra todos” está no fato de assumir seu ponto de partida. Mussa não se apresenta como observador neutro, distante, asséptico, fingindo que o futebol pode ser lido como planilha sem cheiro de arquibancada. A sinopse deixa claro que ele é flamenguista de longa data, torcedor formado nas arquibancadas do Maracanã, mas também indica que a paixão será submetida a princípios analíticos. Esse detalhe importa porque a discussão sobre grandeza no futebol brasileiro quase sempre cai em dois vícios: de um lado, a torcida que usa qualquer critério desde que favoreça seu clube; do outro, a falsa objetividade que escolhe previamente quais títulos valem e depois veste a decisão com roupa acadêmica.
O livro parece mirar exatamente essa zona de conforto. Ao defender que termos como campeonato, copa, taça ou torneio são apenas nomes, Mussa desloca o debate para critérios mais consistentes: estrutura da competição, regularidade, composição dos participantes e expectativa gerada em jogadores e torcedores. Essa abordagem é decisiva para enfrentar uma bagunça histórica do futebol brasileiro, especialmente em um país onde a CBF, as federações, os clubes, a imprensa e até a Justiça já alteraram, reinterpretaram ou reembalaram competições conforme conveniências políticas, comerciais e memoriais. O problema nunca foi apenas saber como um torneio foi batizado. A pergunta mais honesta é entender qual competição, em cada período, reuniu os principais clubes, mobilizou o país e produziu reconhecimento esportivo real.
A sinopse cita debates clássicos sobre 1967, 1971 e 1987, três datas que dizem muito sobre a dificuldade brasileira de organizar a própria memória futebolística. Em 1967, a convivência entre competições nacionais e interestaduais ajuda a embaralhar conceitos. Em 1971, a criação do Campeonato Brasileiro como marca institucional frequentemente tenta rebaixar torneios anteriores que já tinham dimensão nacional. Em 1987, a Copa União virou o caso mais emblemático de como o campo pode produzir uma verdade esportiva que o cartório tenta complicar por décadas.
É nesse ponto que “Flamengo contra todos” pode incomodar. Se Mussa de fato privilegia aquilo que aconteceu em campo e seu impacto real na história do jogo, a discussão deixa de ser meramente jurídica ou burocrática. A pergunta deixa de ser “qual nome a entidade deu?” e passa a ser “qual competição representava, naquele tempo, o ápice do futebol brasileiro?”. Essa mudança parece simples, mas derruba muitos castelos de narrativa. O futebol nacional é cheio de certezas frágeis, sustentadas por repetição, clubismo, caneta de dirigente e conveniência midiática. Um livro que pretende reorganizar critérios tende a produzir incômodo justamente porque obriga o leitor a dizer antes quais são as regras do debate.
No caso do Flamengo, esse tipo de abordagem tem efeito direto. O clube sempre foi vítima e beneficiário de narrativas, como qualquer gigante popular. Mas 1987 é a ferida mais evidente. O Rubro-Negro ganhou em campo uma competição que mobilizou o país, reuniu a elite do futebol brasileiro e produziu memória coletiva. Depois, viu a discussão ser arrastada por regulamentos, ações judiciais, decisões contraditórias e disputas de legitimidade. Se “Flamengo contra todos” enfrentar esse tema pelo prisma da relevância esportiva, e não apenas pela moldura documental, o livro entrará em uma disputa que ainda hoje move torcedores, jornalistas, juristas e dirigentes.
Outro elemento interessante é o recorte anunciado: o desempenho histórico do Flamengo frente a seus adversários. Não se trata apenas de contar taças, mas de observar o clube em relação ao outro. Essa escolha é boa porque futebol não é grandeza abstrata. Um time se mede contra rivais, campeonatos, épocas, públicos, calendários e contextos. O Flamengo não se tornou gigantesco sozinho diante do espelho. Cresceu enfrentando Fluminense, Vasco, Botafogo, Corinthians, Palmeiras, São Paulo, Atlético Mineiro, Grêmio, Internacional, Santos, Cruzeiro, clubes argentinos, europeus, seleções simbólicas e uma imprensa que muitas vezes tentou explicar o fenômeno rubro-negro por atalhos simplificadores.
O título “Flamengo contra todos” funciona porque conversa com uma sensação antiga da torcida. O flamenguista se acostumou a se perceber em disputa permanente, às vezes contra adversários reais, às vezes contra narrativas, entidades, regulamentos, arbitragens, tribunais, manchetes e ressentimentos. Mas o risco de um título assim seria cair na autopiedade, na ideia preguiçosa de perseguição eterna. A expectativa criada pela sinopse é outra: transformar essa percepção em análise, enfrentando dados, critérios e resultados. Se cumprir essa promessa, o livro poderá servir tanto ao torcedor que deseja munição intelectual quanto ao leitor que quer discutir futebol brasileiro sem aceitar respostas fabricadas.
O ponto mais promissor de “Flamengo contra todos” é assumir a tensão entre paixão e análise. No futebol, muita gente tenta esconder a camisa para parecer séria. Outros vestem a camisa justamente para dispensar qualquer compromisso com coerência. Mussa parece propor outro caminho: não esconder que ama o Flamengo, mas também não entregar esse amor ao improviso do senso comum. Essa postura é mais honesta e, paradoxalmente, pode ser mais rigorosa, porque o autor já revela de onde fala. O leitor saberá que há um rubro-negro escrevendo, mas poderá cobrar dele consistência, critério e respeito aos próprios parâmetros.
Há também um aspecto cultural importante. O Flamengo é mais do que um clube vencedor. É um fenômeno popular que atravessa música, rádio, jornalismo, literatura, política, sociologia urbana, televisão, periferia, subúrbio, elite, diáspora nordestina, Maracanã e consumo de massa. Um livro sobre grandeza rubro-negra que se limita a contar títulos fica pequeno diante do próprio objeto. A sinopse sugere que Mussa pretende ir além do inventário, discutindo o peso das competições e o impacto real do jogo na sociedade. Isso é fundamental porque, no Brasil, futebol não é apenas campeonato. É memória pública.


