Para o palmeirense, o Campeonato Brasileiro de 2025 terminou com uma sensação particularmente amarga. Não foi uma campanha de fracasso: 76 pontos, 23 vitórias, apenas 8 derrotas e a melhor campanha do segundo turno. Ainda assim, o Palmeiras terminou vice-campeão, três pontos atrás do Flamengo, e com a impressão de ter deixado escapar um título que, em vários momentos, esteve ao alcance das mãos. O Flamengo terminou com 79 pontos, contra 76 palmeirenses, 70 do Cruzeiro, e 67 do Mirassol, sensação do interior de São Paulo que disputava a Série A pela primeira vez na história.
A história desta derrocada começa, paradoxalmente, com um Palmeiras que parecia preparado para ser campeão. O português Abel Ferreira já estava no clube desde 5 de novembro de 2020, quando estreou contra o Red Bull Bragantino. Sua contratação aconteceu depois que a equipe que então comandava, o PAOK, da Grécia, eliminou ao Benfica, então comandado pelo mitológico Jorge Jesus, recém saído do Flamengo. Em cinco anos, Abel havia transformado o Palmeiras em uma das equipes mais vitoriosas do futebol brasileiro: Campeão da Libertadores de 2020 e 2021, da Copa do Brasil de 2020, da Recopa Sul-Americana de 2022, dos Brasileiros de 2022 e 2023, e dos Paulistas de 2022, 2023 e 2024.
Justamente este passado tornava a derrocada mais difícil de compreender para os alvi-verdes. Abel não era um treinador chegando a um elenco em construção, era o técnico mais longevo da história do Palmeiras em uma única passagem e, até então, o responsável pelo ciclo mais vitorioso da história do clube. Mas 2025 trouxe uma mudança estrutural: o jovem ponta Estêvão foi vendido ao Chelsea e e o colombiano Richard Ríos deixou o clube rumo o Benfica. Assim, o Palmeiras durante a campanha perdeu dois dos jogadores mais capazes de produzir desequilíbrio individual.
O Palmeiras assumiu a liderança cedo e chegou à 8ª rodada na ponta, com 19 pontos. Na 10ª rodada, perdeu em casa para o Flamengo por 2 a 0, mas continuou líder: tinha 22 pontos, contra 21 do rival. Na rodada seguinte, porém, veio outra derrota, 2 a 1 para o Cruzeiro, no Mineirão. O Palmeiras caiu para quarto, com 22 pontos, atrás de Flamengo, Cruzeiro e Bragantino. Mas foi uma queda momentânea. O Palmeiras reagiu, construiu uma sequência excepcional fora de casa e voltou a se colocar como candidato principal ao título. Chegou a nove vitórias consecutivas como visitante e, depois da longa paralisação provocada pela Copa do Mundo de Clubes, recuperou consistência. O Palmeiras registrava então a sua melhor campanha na história no campeonato por pontos corridos naquele estágio da competição.
A grande virada simbólica aconteceu na 27ª rodada. No Morumbi, em 5 de outubro, o Palmeiras enfrentou o São Paulo. O tricolor abriu 2 a 0 e parecia encaminhar uma vitória que teria enorme peso na disputa pelo campeonato. Mas o time alvi-verde reagiu, virou para 3 a 2 e, graças ao triunfo, ultrapassou o Flamengo. Ambos chegaram a 55 pontos, mas o Palmeiras tinha 17 vitórias contra 16 rubro-negras. A liderança, portanto, era alviverde pelo primeiro critério de desempate.
Este clássico, no entanto, confronto que os paulistas chamam de "Choque-Rei", ficaria marcado por uma das maiores controvérsias de arbitragem do campeonato, senão a maior da história do futebol brasileiro. Aos 6 minutos do segundo tempo - quando o São Paulo vencia por 2 a 0 - Allan, do Palmeiras, deslizou dentro da área e atingiu em cheio ao corpo de Gonzalo Tapia, que driblava para o meio. O árbitro Ramon Abatti Abel não marcou pênalti. A arbitragem de vídeo (VAR), comandada por Ilbert Estevam da Silva, não recomendou revisão. Pouco depois, Andreas Pereira atingiu Marcos Antônio com a sola e recebeu apenas cartão amarelo. O São Paulo reclamou, pois ambos os lances teriam mudado radicalmente a partida. Um pênalti e um 3-0 teriam definido o jogo. Uma expulsão também. Mas nada foi maior do que o escandaloso pênalti não marcado.
O escandaloso pênalti não marcado
Mudou o contexto do jogo. O Palmeiras virou para 3 a 2 na reta final, saiu do Morumbi como líder, inflamou seus torcedores, e ganhou uma vitória que, para o torcedor, poderia ser lembrada como o momento em que o time mostrou força de campeão. Para os são-paulinos, tornou-se o episódio mais controverso da reta final. A própria Comissão Nacional de Arbitragem reconheceu erro no lance do pênalti, e Ramon Abatti Abel e o VAR acabariam afastados pela CBF. Em novembro, o STJD aplicaria suspensão de 40 dias aos dois árbitros pelos erros cometidos naquele clássico.
O Palmeiras ganhou o clássico, manteve a liderança e, na rodada seguinte, ampliou a vantagem. Contra o Red Bull Bragantino, no Allianz Parque, saiu atrás, virou e goleou por 5 a 1. Terminou a 28ª rodada com 61 pontos, três à frente do Flamengo, que tinha 58. Foi, empatado com outro momento posterior, o maior intervalo entre os dois durante o período em que o Palmeiras esteve na liderança.
A 29ª rodada seria a primeira grande rachadura. O Palmeiras tinha 61 pontos, o Flamengo tinha 58. O confronto direto no Maracanã parecia uma oportunidade para abrir 6 pontos. Ocorreu o contrário. O Flamengo venceu por 3 a 2. O Palmeiras continuou provisoriamente na liderança porque ambos ficaram com 61 pontos, mas a vantagem no desempate era alvi-verde, pelo número de vitórias. O Flamengo acabara de vencer o confronto que, retrospectivamente, passou a ser visto como a primeira grande inflexão da disputa.
Ainda assim, o Palmeiras teve uma segunda oportunidade. Na 30ª rodada, empatou em 0 a 0 com o Cruzeiro no Allianz Parque, mas o Flamengo perdeu por 1 a 0 para o Fortaleza. O resultado manteve o Palmeiras na ponta, então com 62 pontos, contra 61 do Flamengo. Na 31ª, venceu ao Juventude por 2 a 0 e chegou a 65, enquanto o Flamengo também venceu e foi a 64. Na 32ª, Vitor Roque marcou os dois gols da vitória por 2 a 0 sobre o Santos e o Palmeiras chegou a 68 pontos, novamente três à frente do Flamengo. Era, portanto, o segundo grande momento em que a taça parecia bem encaminhada. Mas depois de sobreviver ao confronto direto no Maracanã e reconstruir três pontos de vantagem, o Palmeiras não conseguiu transformar esta margem em estabilidade.
A queda começou na 33ª rodada, em 9 de novembro. No estádio Campos Maia, o Mirassol venceu o Palmeiras por 2 a 1. O gol de Vitor Roque não evitou uma atuação que a imprensa classificou como irreconhecível, especialmente no primeiro tempo. O Palmeiras foi dominado, sofreu gol logo no início e teve dificuldades para impor o seu jogo. O resultado teve efeito imediato na tabela. O Flamengo venceu o Santos e chegou a 71 pontos. O Palmeiras ficou com 68. Pela primeira vez desde que assumira a liderança na 27ª rodada, o Palmeiras deixava de ser o líder: caiu para segundo, três pontos atrás do Flamengo. O Flamengo começava a produzir uma sequência de resultados enquanto o Palmeiras passava a desperdiçar oportunidades.
A reação não veio. Em 15 de novembro, em partida atrasada da 13ª rodada, o Palmeiras perdeu por 1 a 0 para o Santos, na Vila Belmiro. O time perdeu vários jogadores convocados para suas seleções, além de suspensões e lesões: Gustavo Gómez, Joaquin Piquerez, Emiliano Martínez, Facundo Torres e Vitor Roque estavam fora, enquanto Andreas Pereira e Allan cumpriam suspensão. O Palmeiras terminou aquela noite com 68 pontos, três atrás do Flamengo.
Depois veio talvez o golpe mais frustrante para o palmeirense: o 0 a 0 com o Vitória no Allianz Parque. A partida era originalmente da 37ª rodada, mas foi antecipada para 19 de novembro. O Palmeiras dominou boa parte do jogo, mas encontrou um Vitória muito bem organizado e parou no goleiro Thiago Couto. Foi um empate que, isoladamente, não parecia fatal, mas somado ao tropeço diante do Santos significava a perda de cinco pontos em dois jogos que o líder de um campeonato daquele tamanho precisava ganhar.
O ponto de ruptura definitivo veio na 35ª rodada. No Allianz Parque, na despedida do estádio na temporada, o Palmeiras ficou novamente no 0 a 0, desta vez contra o Fluminense. O time não conseguiu transformar domínio territorial em gols. Enquanto isso, no Maracanã, o Flamengo derrotou o Red Bull Bragantino por 3 a 0. A distância passou a quatro pontos: 74 a 70. Neste momento, o discurso interno e externo começou a mudar. Abel passou a falar da arbitragem com intensidade crescente, especialmente depois da sequência de resultados negativos.
Na avaliação de parte dos torcedores e analistas, os equívocos de Abel em 2025 não foram simplesmente "escalar errado". Foram problemas mais profundos. O primeiro foi não conseguir substituir integralmente o talento individual perdido com Estêvão e Richard Ríos. O segundo, a dificuldade em encontrar uma formação ofensiva estável. O Palmeiras pressionava, tinha volume, mas muitas vezes criava pouco em relação à posse e ao território. A crítica já aparecia antes da reta final: a equipe era competitiva, mas sofria contra adversários de nível semelhante porque precisava de muitas oportunidades para marcar.
A crise de agosto já havia exposto uma tensão: depois da eliminação para o Corinthians na Copa do Brasil, parte da torcida passou a contestar a Abel de maneira inédita. Era o maior desgaste do treinador com a torcida desde a sua chegada, chegando a protestos agressivos na Academia de Futebol. Abel já não era uma unanimidade entre os palmeirenses, mas continuava sendo, objetivamente, o técnico do maior ciclo vencedor da história do clube.
O episódio mais controverso de gestão ocorreu na 36ª rodada. O Palmeiras tinha 70 pontos e precisava desesperadamente reduzir a diferença para o Flamengo. Mas três dias depois haveria a final da Libertadores, justamente contra o Flamengo. Abel decidiu preservar praticamente todos os titulares no jogo contra o Grêmio. Gustavo Gómez, Murilo, Vitor Roque e outros pilares sequer viajaram. Marcelo Lomba, Benedetti, Micael, Jefté, Aníbal Moreno, Felipe Anderson, Mauricio, Ramón Sosa e Facundo Torres formaram uma equipe bastante modificada.
A escolha era compreensível do ponto de vista da Libertadores, mas arriscadíssima no Brasileiro. E, durante boa parte do jogo, parecia até funcionar. O Palmeiras reserva jogou bem, teve mais de 60% de posse no primeiro tempo e saiu na frente com Facundo Torres. Depois, porém, sofreu três gols e perdeu por 3 a 2. Aníbal Moreno cometeu um pênalti evitável, Giay também fez pênalti e acabou expulso. O Palmeiras ficou com 70 pontos, enquanto o Flamengo empatou com o Atlético Mineiro e se alçou a 75.
Foi a decisão que cristalizou a sensação de "campeonato entregue" para muitos torcedores. Abel defendia a preservação para a final continental em Lima. E, sob o ponto de vista da Libertadores, havia lógica: o Palmeiras teria de enfrentar o mesmo Flamengo quatro dias depois, numa final continental. O problema é que o Brasileiro já vinha sendo perdido antes. Os pontos contra Mirassol, Santos, Vitória e Fluminense haviam criado a necessidade de correr um risco que, poucas semanas antes, parecia desnecessário.
A reta final, assim, pode ser resumida como uma sucessão de oportunidades desperdiçadas: depois da derrota para o Flamengo na 29ª rodada, o Palmeiras recuperou a liderança, mas depois da derrota para o Mirassol, perdeu-a. Depois de Santos, Vitória e Fluminense, deixou o Flamengo abrir 4 pontos. Depois do Grêmio, cinco. Nos últimos nove compromissos de Brasileirão antes da partida final contra o Ceará, o Palmeiras somou apenas duas vitórias, três empates e quatro derrotas.
Enquanto isso, a disputa pelo título, que durante boa parte do campeonato parecia restrita a Palmeiras e Flamengo, teve o Cruzeiro como terceiro elemento. O time mineiro chegou às rodadas finais com 70 pontos e ainda tinha possibilidades matemáticas. O Mirassol, extraordinário mandante e sensação do campeonato, também permaneceu no pelotão de cima. Fluminense e Botafogo ficaram mais distantes, mas terminaram em quinto e sexto, respectivamente. Mas nas rodadas finais a corrida pelo título era essencialmente Flamengo versus Palmeiras.
E havia Lima. A final da Libertadores foi disputada em 29 de novembro, quatro dias depois do Grêmio 3 x 2 Palmeiras e apenas três dias depois da vitória do Flamengo sobre o Ceará que sacramentaria matematicamente o título brasileiro rubro-negro. A decisão continental colocou frente a frente exatamente os dois protagonistas da derrocada alviverde. O Flamengo chegou à final como líder do Brasileirão, o Palmeiras como vice e emocionalmente pressionado a transformar a temporada em grandeza naquela final.
Em Lima, o Flamengo venceu por 1 a 0, com gol de Danilo de cabeça no segundo tempo, e tornou-se o primeiro brasileiro tetracampeão da Libertadores. Abel reconheceu a superioridade do rival, embora tenha novamente criticado a arbitragem pela não expulsão de Erick Pulgar. O Palmeiras saiu derrotado de uma final que, na perspectiva emocional do torcedor, parecia a última possibilidade de redenção para um Brasileirão que escapara pelas mãos.
O Flamengo confirmou matematicamente o título na 37ª rodada, vencendo ao Ceará por 1 a 0 no Maracanã. O Palmeiras ainda venceu o Atlético Mineiro por 3 a 0, e na última rodada derrotou ao Ceará por 3 a 1, encerrando a competição com 76 pontos. É justamente aí que está a contradição da temporada palmeirense: terminou com 23 vitórias — as mesmas do campeão — e foi "campeão" do segundo turno, com 37 pontos, um a mais que o Flamengo. No primeiro turno, porém, havia terminado quatro pontos atrás do rival: 43 a 39. No campeonato inteiro, essa diferença inicial e os tropeços de novembro foram suficientes para decidir a taça.
O gol de Samuel Lino na vitória do Flamengo por 1 a 0 no Ceará
Para o palmeirense, 2025 foi a história de um time que, em diferentes momentos, teve a taça nas mãos e não conseguiu fechá-la. Teve a liderança no início, recuperou-a na 27ª rodada, abriu três pontos na 28ª, sobreviveu à derrota no confronto direto no Maracanã, retomou três pontos de vantagem na 32ª e, então, quando tudo parecia encaminhado para a conquista, desabou justamente quando precisava transformar vantagem em controle.
A arbitragem de Ramon Abatti Abel no Choque-Rei virou o símbolo de porque o Palmeiras venceu naquele dia. A derrota posterior para o Mirassol, o revés diante do Santos, os empates com Vitória e Fluminense, e a opção por reservas contra o Grêmio, todos são fatos que explicam por que a vitória sobre o São Paulo não foi suficiente. A derrocada não aconteceu em um jogo. O Palmeiras terminou com uma campanha de 76 pontos que, em quase qualquer outro campeonato, poderia ser de um campeão, mas 2025 encontrou um Flamengo que fez 79.
Sátira da derrocada palmeirense
(Imagem elaborada por Inteligência Artificial)
A presidente Leila Pereira, o árbitro Ramon Abatti Abel, o técnico Abel Ferreira
e o meia Andreas Pereira, que na final da Libertadores de 2020 errou pelo Flamengo
em favor do Palmeiras, choram a perda dos títulos para os rubro-negros




