Mais uma maravilhosa história contada com maestria e envolvente narrativa por Emmanuel do Valle, na minha opinião, o melhor cronista sobre história do Flamengo de todos os tempos, que assim narrou tais detalhes em seu blog Flamengo Alternativo:
Texto original de Emmanuel do Valle publicado como: "Flamengo campeão carioca de 1915: primeiro bicampeonato veio invicto e em casa nova".
O ano de 1915 foi crucial para a história do futebol do Flamengo sob vários aspectos. A conquista do bicampeonato carioca, selada no dia 1º de novembro daquele ano, reiterou a força da equipe, sobretudo por ter vindo invicta, após os rubro-negros dispararem já no primeiro turno. A última partida do Fla naquela campanha também marcou a estreia de sua primeira casa: o campo da Rua Paissandu, que o abrigaria até o fim do período do amadorismo. E nos últimos dias daquele ano, o time embarcaria para uma histórica excursão a Belém, pedra fundamental de sua enorme popularidade na região norte do país.
Após conquistar, na terceira tentativa, seu primeiro título carioca, o futebol do Flamengo teria para a temporada de 1915 o desafio do bicampeonato. Desde o fim da década anterior a cidade não via um clube vencer títulos consecutivos. Após a sequência inicial do Fluminense (lembrando que, naquela altura, o título de 1907 estava sub judice, só tendo desfecho mais de oito décadas depois) os campeões foram Botafogo (1910), outra vez Fluminense (1911) e, pela primeira vez, Paysandu (1912), América (1913) e o próprio Flamengo (1914).
O time rubro-negro que goleou o Fluminense por 5 a 0 em Laranjeiras
pela segunda rodada da competição, em foto da revista semanal "O Malho"
Nessa batalha pelo bicampeonato, Fluminense, América e Botafogo continuariam sendo, em tese, os maiores obstáculos, mas o Paysandu seria a grande ausência do campeonato. Último colocado no certame de 1914, o clube azul e branco "dos ingleses" deveria ter disputado um playoff contra o Bangu, campeão da segunda divisão, para decidir sua permanência ou não na elite, mas teve de declinar e encerrar as atividades de seu departamento de futebol devido a problemas de ordem imobiliária em sua sede, localizada na rua quase homônima ao clube.
Acontece que os irmãos Guinle, proprietários do amplo terreno onde ficava a sede do Paysandu Cricket Club, requisitaram parte do imóvel para transferi-lo ao Flamengo, que construiria ali o seu campo de futebol. As negociações para o arrendamento pelos rubro-negros se estenderam pelo ano de 1914, sendo concluídas em 9 de dezembro. Além desse revés imobiliário, o Paysandu ainda sofreria muitas baixas em seu elenco devido ao recrutamento de vários de seus atletas para lutarem pelas tropas britânicas na Primeira Guerra Mundial.
E do próprio Paysandu, aliás, viria um dos principais reforços do Flamengo para a temporada 1915: o polivalente Sydney Pullen, capaz de atuar tanto no centro da linha média quanto nas posições centrais do ataque. Era um jogador de conhecida qualidade técnica e habilidade no drible. Era ainda um atleta poliesportivo: além do futebol, Sydney praticava outras modalidades, como o tênis, o qual introduziu no Flamengo. Outro reforço importante foi o do chileno Héctor Parra, jogador que aportara no Brasil no fim de 1913 como capitão da seleção de seu país e que acabou ficando pelo Rio, juntando-se ao América como um nome de peso para o campeonato de 1914. Atuando na zaga ou no centro da linha média, não chegou, entretanto, a justificar inteiramente seu cartaz pelos rubros, mas foi recrutado pelo Flamengo para a temporada seguinte.
Além destas duas novidades, o elenco teria o retorno de outro filho de ingleses, o médio Lawrence Andrews, um dos pioneiros do futebol rubro-negro e que defendera o clube nos campeonatos de 1912 e 1913, mas estivera ausente em 1914. Havia ainda o ponta-esquerda Paulo Buarque, o Paulinho das Moças, jogador dos chamados "segundos quadros" (misto de categoria de base e time reserva ou de aspirantes) que havia disputado só um jogo pela equipe de cima no certame de 1912, mas agora era incorporado de vez ao elenco principal.
Fla-Flu em 1915
o capitão rubro-negro Nery no sorteio de campo
De resto, o time mantinha a base: Baena no gol, Píndaro e Nery na zaga e Gallo na linha média vinham sustentando a titularidade desde 1912. Com a retirada de Ângelo, que faria seu último jogo pelo Fla no início de 1915 num amistoso com o Villa Isabel, Curiol ganhava uma vaga entre os médios. Na frente ainda havia Arnaldo, Orlando "Baiano", Borgerth, Riemer e Raul (que agora teria a concorrência de Paulo Buarque na ponta-esquerda), além de outros nomes que há alguns anos compunham o elenco, como Gilberto, Gumercindo e Miguel.
O campeonato também continuava no mesmo formato: teria início no primeiro domingo de maio, com os sete clubes se enfrentando em dois turnos e pontos corridos. O primeiro colocado levaria o título e o último disputaria a vaga na elite de 1916 contra o campeão da segunda divisão. Só não chegaria a se estender até o fim de novembro porque, naquele ano, o calendário estava mais folgado, sem a previsão de partidas do "scratch" brasileiro. O Flamengo, por sua vez, também não faria nenhum amistoso durante o transcorrer da competição.
"Iniciou-se hontem o campeonato de foot-ball do Rio de Janeiro. O carioca aprecia bastante o foot-ball e já sentia saudades das horas domingueiras em que, nervoso, assistia a uma partida sport inglez, torcendo para o club que mais lhe inspirasse sympathia". Assim começava, no típico vocabulário da época, a crônica feita pela "Gazeta de Notícias" para o jogo de abertura do campeonato de 1915, em que o Flamengo enfrentaria o Rio Cricket, o "clube dos ingleses de Niterói", no campo do Botafogo, em General Severiano, no dia 2 de maio.
Apesar da tarde nublada e úmida de maio, o campo lotou suas dependências, recebendo ótimo público de cerca de 3 mil espectadores. A expectativa geral era a de que o Flamengo, na condição de detentor do título, superasse facilmente um dos times mais fracos do campeonato, mas não foi o que aconteceu. Sem Píndaro na zaga e com seus novos nomes se mostrando desentrosados, o Fla foi amplamente dominado pela equipe de Niterói na primeira etapa e passou boa parte do tempo acuado em seu campo. Por sorte, levou o 0 a 0 até o intervalo.
Na etapa final, aí sim os rubro-negros passaram a atacar mais e logo abriram o placar com Paulo Buarque aproveitando uma bola mal rebatida pela defesa para mandar às redes "em bellíssimo estylo e de certa distância", como descreveu a crônica do jornal "O Imparcial". Na metade da etapa veio o segundo gol: um cruzamento de Borgerth da esquerda passou por três defensores do Rio Cricket e chegou até Sydney Pullen, que empurrou para as redes. A vantagem de dois gols parecia ter garantido a vitória ao Fla, mas os visitantes não esmoreceram.
A primeira chance de diminuir veio num pênalti de Curiol em Masson apontado pelo árbitro Belfort Duarte, mas Edward Calvert chutou sua cobrança nas mãos de Baena. Mesmo assim, o desânimo não se abateu sobre os niteroienses, que chegaram ao merecido empate nos minutos finais, primeiro numa escapada de Masson e depois num chute à queima-roupa de Challis, após confusão na área. Contudo, o resultado final de 2 a 2 seria alterado nos dias seguintes, quando ficou provado que Edward Calvert havia sido escalado de forma irregular.
Havia naquele tempo uma espécie de carência obrigatória de 30 dias entre a data da inscrição de um atleta na Liga Metropolitana de Sports Athleticos (LMSA, organizadora do campeonato) e a sua escalação nos jogos, prazo que, conforme observou-se, não foi respeitado pelo Rio Cricket. Restou ao clube niteroiense lamentar, embora seus dirigentes admitissem o erro. Com isso, o Flamengo levou os dois pontos do jogo, largando na frente no torneio. No dia seguinte, o Fluminense estreou derrotando o São Cristóvão por 3 a 1 em Laranjeiras.
E seria exatamente o Fluminense o próximo adversário do Flamengo, ainda em Laranjeiras. Foi uma tarde que se revelaria memorável, aquela de 9 de maio. Na preliminar dos segundos quadros, um incrível empate em 7 a 7. Já na partida principal também haveria muitos gols, mas só de um dos lados. O Flu tinha o desfalque do goleiro Marcos de Mendonça, enquanto o Fla ainda não contaria com Píndaro. Mas, mesmo sem um dos pilares de sua defesa, impôs-se com facilidade mesmo na casa do adversário e logo desandou a balançar as redes.
O primeiro gol saiu logo aos quatro minutos de jogo após passe de Sydney Pullen para Borgerth, que chutou forte para marcar. Aos 13, veio o segundo: Sydney Pullen pegou uma rebatida do centromédio tricolor Pernambuco e bateu para ampliar. Se desde o início o Fluminense, com seu goleador inglês Harry Welfare longe das melhores condições físicas, já não demonstrava força para equilibrar o jogo (Baena não foi exigido nenhuma vez). Os gols rubro-negros foram pouco a pouco minando ainda mais a resistência dos donos da casa.
Perto do fim da etapa inicial, o Fla marcaria o terceiro após escanteio, com Baiano aproveitando uma bola que o goleiro Carneiro não conseguiu segurar. E na etapa final, dois gols de Riemer concluíram a goleada histórica. O primeiro nasceu de grande jogada de Sydney Pullen, que driblou a linha média tricolor e chutou forte para defesa parcial de Carneiro. A bola foi para a ponta esquerda e de lá foi centrada para Riemer tocar na saída do goleiro tricolor. Já no segundo, Riemer só escorou uma bola mal afastada por Vidal para fechar a contagem.
Com a vitória, o Flamengo chegava a oito triunfos consecutivos sobre o rival, que até ali só havia levado a melhor no primeiro jogo entre os dois clubes. Naquela sequência, os rubro-negros já haviam aplicado placares dilatados sobre os tricolores, como um 4 a 0 também em Laranjeiras em 1912 e um 6 a 3 em General Severiano no ano seguinte, mas aqueles acachapantes 5 a 0 do certame de 1915 entrariam para a história do clássico como a maior goleada registrada, em sentido absoluto, nos 73 Fla-Flus disputados na casa dos tricolores.
Duas semanas depois, o Flamengo voltaria ao campo tricolor da Rua Guanabara para aplicar outra goleada de 5 a 0, desta vez no São Cristóvão – contra quem, vale lembrar, o Fla havia empatado os dois confrontos do campeonato anterior. A crônica do "Correio da Manhã" lamentou que os cadetes não tivessem se mostrado adversários à altura do Fla, mas elogiou o futebol de Alberto Borgerth, exaltando a inteligência do center-forward rubro-negro na condução dos ataques, sabendo deixar os companheiros sempre em boa condição para balançar as redes.
E o próprio Borgerth abriria o placar aos 20 minutos com um chute rasteiro, de longa distância, pegando desprevenido ao mal colocado goleiro Cardoso, do São Cristóvão. O segundo gol veio após confusão na área: Raul chutou, Cardoso pegou, mas, na reposição, chutou em cima de Riemer, e a bola foi parar dentro da meta. Os jogadores do São Cristóvão protestaram, alegando que o tento havia sido marcado com a mão, e o meia-esquerda Rollo chegou a deixar o campo. A reclamação, segundo os observadores, não procedia: o gol foi legal.
"Se tal [toque de mão] succedeu, não foi proposital o procedimento de Riemer, valha a verdade", escreveu o Correio da Manhã. A publicação assinalava que o atacante rubro-negro tinha os braços esticados e colados ao corpo na hora do lance, que, aliás, aconteceu rápido demais para que o jogador pudesse agir intencionalmente. Logo em seguida, o Fla chegaria ao terceiro gol, de novo com Riemer, aproveitando passe de Orlando Baiano. Assim, tal como na partida contra o Fluminense, o Fla saía para o intervalo com três gols de vantagem.
Logo no início da etapa final, o mesmo Riemer marcaria o seu terceiro gol na partida – e o quarto do Flamengo. O São Cristóvão ainda teria a chance de reduzir a desvantagem graças a um pênalti, marcado após toque de mão de Píndaro (que retornava ao time naquele jogo), mas Baena repetiu o que fizera contra o Rio Cricket e defendeu a cobrança do ponta-direita Pederneiras. No fim, ainda haveria tempo para Riemer anotar seu quarto gol no jogo aproveitando um cruzamento de Orlando. Um "poker" para o goleador rubro-negro.
a defesa do Fla afasta um ataque do São Cristóvão nos 5×0 sobre os cadetes
Fechando o mês de maio, no dia 30 haveria outro duelo concorrido diante do Botafogo no campo de General Severiano mais uma vez lotado, recebendo público estimado de 4 mil torcedores. Mas, ao contrário das duas partidas anteriores, nas quais o Fla venceu praticamente sem suar a camisa, nesta o time precisou lutar muito para alcançar mais uma vitória. O primeiro gol saiu aos 15 minutos de jogo quando Baiano enganou Coló e cruzou para Borgerth acertar de primeira um chute magnífico, que surpreendeu o goleiro Cézar.
Após o gol, o Fla suportou a pressão alvinegra até o intervalo, mas retornou para a etapa final atacando até ampliar o placar. Novamente aos 15 minutos, Raul cruzou da esquerda e Riemer acertou uma bela cabeçada para marcar o segundo tento, fazendo extravasar a torcida rubro-negra presente em grande número. A cinco minutos do fim, o Botafogo conseguiu diminuir para 2 a 1, com Pessoa pegando um rebote de Baena, mas a vitória seria mesmo do Flamengo, ainda na liderança do certame com oito pontos ganhos em quatro partidas.
A exemplo do campeonato anterior, o mês de junho seria consideravelmente mais quieto: apenas dois jogos disputados, sendo que só um deles teria certa interferência na briga pelo título: a vitória do América – que passava a vice-líder ao lado do Fluminense – sobre o São Cristóvão por 3 a 1 em Campos Sales no dia 13. Por outro lado, julho seria movimentado, com rodada em todos os quatro domingos. O Flamengo entraria em campo em dois deles: o primeiro no dia 11, justamente contra os rubros, em mais uma partida que prometia ser acirrada.
O time rubro-negro, no entanto, apresentaria-se alterado para o jogo: Baena excepcionalmente ficou de fora, com o jovem Cazuza, dos segundos quadros, aparecendo no gol. Já o chileno Parra não voltaria a atuar no campeonato, o que levaria a constantes mudanças de nomes na linha média pelo restante do certame. Naquele jogo contra o América, Lawrence Andrews entraria no lado esquerdo do setor, passando Gallo para a posição de centromédio. Mesmo com estas trocas, contudo, o Flamengo outra vez venceria de maneira brilhante.
O destaque do time na vitória por 4 a 2 na casa do rival, em Campos Sales, foi Sydney Pullen, "a alma da equipe" segundo o Correio da Manhã, que exaltou seus "recursos verdadeiramente extraordinários" e destacou sua onipresença em campo: "Vê-se Sydney por toda a parte, ora auxiliando seus companheiros, ora investindo contra o goal do América", comentou o diário.
O primeiro gol do Fla nasceria de um chute seu que acertou o travessão do goleiro Ferreira e sobrou para Raul pegar o rebote e mandar às redes aos quatro minutos de jogo. Na etapa final, o próprio Sydney ampliaria a vantagem aos oito minutos, escorando um cruzamento de Raul que Ferreira não conseguiu segurar. O gol mais bonito, porém, foi o terceiro, de Riemer, que recebeu na meia direita e saiu fazendo fila na defesa americana até encher o pé para vencer o goleiro rubro. O América ainda ficaria com um a menos após o médio Jonatas torcer o pé e ter de deixar o campo, mas logo depois descontaria com Gabriel. No fim, Riemer anotaria o quarto para o Fla antes de Ojeda diminuir de novo para os locais.
A vitória fazia o Flamengo abrir três pontos de vantagem na liderança sobre o Fluminense, que no domingo anterior havia desperdiçado a chance de alcançar provisoriamente os rubro-negros na ponta ao parar num empate em 2 a 2 com o Botafogo em Laranjeiras. O América vinha em terceiro e o Botafogo, em quarto. Na rodada seguinte, em 18 de julho, o Fla não entraria em campo, mas um fato ocorrido nela, durante o aguardado confronto entre América e Fluminense em Campos Sales, teria desdobramentos até o desfecho daquele campeonato.
O Fluminense vencia o jogo por 2 a 1 quando um chute do atacante americano Ojeda acertou o ferro de sustentação da rede, dentro do gol, e voltou para as mãos do goleiro tricolor Marcos. O árbitro, porém, limitou-se a mandar o lance seguir. Revoltados, os torcedores do América invadiram o campo para exigir a validação do gol pelo juiz, que acabou cedendo. A partida terminou 2 a 2, mas, em vista da polêmica. O "Correio da Manhã" chegou a questionar: "Quem manda no campo: o público ou o juiz?", e acabou anulada e remarcada pela Liga.
No último domingo de julho, dia 25, viria o encerramento do primeiro turno, com o Flamengo cumprindo a longa viagem para enfrentar o Bangu no campo da Rua Ferrer. O jogo esteve cercado de muita atenção depois que, em sua partida anterior em casa, o time alvirrubro goleou o São Cristóvão por 8 a 2, mas aplicando um jogo de tamanha brutalidade que os cadetes acabaram forçados a perder por W.O seu jogo seguinte, contra o Rio Cricket, por não contarem com um número mínimo de jogadores em estado físico adequado.
Com isso, além da delegação do Flamengo, uma comitiva da Liga (incluindo o presidente Álvaro Zamith) e muitos jornalistas também se deslocaram até Bangu para acompanhar a partida. Sob olhares atentos, o jogo felizmente transcorreu sem problemas, e o Fla goleou por 4 a 0 marcando duas vezes em cada tempo. O primeiro gol veio num pênalti por toque de mão na área que Sydney Pullen cobrou bem. Já no segundo, Arnaldo (que fazia seu primeiro jogo no torneio no lugar de Orlando Baiano) cruzou da direita para Riemer escorar.
Na etapa final, após uma escapada pela esquerda, Paulo Buarque marcou o terceiro chutando cruzado, com a bola batendo na trave antes de entrar. No fim, Borgerth anotou o quarto, fechando a contagem que deixava o Fla mais líder do que nunca com uma metade exata do campeonato disputada. Os rubro-negros somavam 12 pontos em seis jogos, três a mais que o Botafogo, vice-líder. Fluminense e América, ainda com seu confronto anulado a ser novamente disputado, vinham logo atrás com sete e seis pontos, respectivamente.
Em 1º de agosto, o Flamengo estreou no segundo turno mantendo os 100% de aproveitamento na visita ao Rio Cricket em Niterói. Sydney Pullen foi, de novo, o nome do primeiro tempo: fez o passe para Riemer marcar o primeiro gol num chute rasteiro e em seguida anotou ele próprio o segundo e o terceiro. Na etapa final, Orlando Baiano bateu escanteio e Curiol cabeceou para ampliar, antes de Reid marcar duas vezes (uma delas, de pênalti) para o clube de Icaraí. No fim, Raul fechou a contagem em 5 a 2 para os rubro-negros com um chute cruzado.
O Fla só voltaria a campo no dia 22 contra o Fluminense em General Severiano, e com o time bem modificado. Píndaro retornava à zaga após ter ficado de fora dos dois jogos anteriores. Já Orlando Baiano, improvisado de médio-esquerdo contra o Rio Cricket, voltava à sua posição natural na ponta-direita, com Miguel entrando na linha média. Por fim, Paulo Buarque reaparecia no lado esquerdo do ataque no lugar de Raul.
Na primeira metade da etapa inicial quem brilhou foi Baena, realizador de alguns milagres nos constantes ataques tricolores. Após algumas defesas espetaculares, o arqueiro rubro-negro, entretanto, não conseguiu evitar o gol tricolor marcado por Welfare num contra-ataque aos 29 minutos. Mas a reação do Flamengo não demoraria a chegar: quatro minutos depois, Gallo entregou a Borgerth, que abriu na ponta direita para Orlando Baiano. O extrema fez o cruzamento buscando Sydney Pullen, que atraiu a marcação tricolor, mas, em vez de finalizar, passou rápido a Riemer, livre. O artilheiro do Fla bateu forte, sem chances para Marcos, e decretou o 1 a 1.
No mês de setembro, o ataque rubro-negro, que havia sido tão prolífico até ali (chegara a 27 gols marcados em sete jogos, média de quase quatro por partida, após a vitória diante do Rio Cricket na abertura do returno) passou em branco nas duas partidas do time, contra o São Cristóvão no dia 5 e o Botafogo no dia 19, ambas em General Severiano. Os dois empates em 0 a 0 registrados nestas partidas significaram a perda de uma parte da "gordura" de pontos acumulada ao longo do campeonato. Era a hora de o Flamengo ligar o sinal de alerta.
O próximo adversário, já no dia 10 de outubro, seria o América, que vencera com folga os quatro jogos que fizera até ali no returno – 6 a 1 no Bangu, 3 a 0 no Botafogo, 6 a 0 no Rio Cricket e 3 a 1 no São Cristóvão – e ocupava a vice-liderança, a três pontos do Flamengo, mas com um jogo a menos. Era, portanto, um confronto que o Flamengo não poderia perder de jeito nenhum, e que o América teria de vencer a qualquer custo. Contudo, os dias que antecederam a partida foram marcados por um estranho boato repercutido inclusive pela imprensa.
Comentava-se à boca pequena que o América – mesmo ainda em condições de ser campeão – "entregaria" a vitória ao Flamengo, dada a velha amizade entre os dois clubes, o que levou até um torcedor americano indignado a escrever para o jornal "O Imparcial" questionando se tal especulação tinha fundamento. Coube ao capitão rubro, o zagueiro Paula Ramos, vir a público em carta a outro jornal, o Correio da Manhã, refutando com veemência a possibilidade, além de criticar quem havia espalhado o "vil boato", em suas próprias palavras.
O campo de General Severiano recebeu público excepcional para o confronto, com a torcida do América engrossada por tricolores e botafoguenses que não queriam ver o Fla, ainda invicto, colocar-se a um passo do título. A partida começou nervosa, com muitos erros técnicos, mas bem disputada. Os rubros tiveram a primeira grande chance: Ojeda apareceu livre e avançou para o gol de Baena, mas demorou a chutar, e Sydney Pullen apareceu para cortar. O Fla respondeu com Gumercindo, que livrou-se da defesa, mas chutou para fora. Melhor na primeira etapa, o Fla saiu na frente aos 33 minutos: Arnaldo desceu pela direita e cruzou com perfeição para Riemer, que emendou rapidamente e com estilo, vencendo o goleiro Ferreira.
O América voltou para a etapa final disposto a reagir, e, após Ojeda exigir brilhante defesa de Baena, chegou ao empate logo aos cinco minutos num pênalti, em toque de mão de Curiol dentro da área, que Haroldo bateu com força. Aos 11, a virada: Gabriel de Carvalho driblou Nery e bateu cruzado, bem no canto, sem chances para Baena. No desespero, o Flamengo se lançou ao ataque até com os zagueiros. Mas a pressão, ainda que desordenada (o América teve muito espaço para contra-atacar), acabaria surtindo efeito, com boa ajuda da sorte. A cinco minutos do fim, Píndaro – um dos destaques da defesa – arriscou uma bomba cheia de veneno da meia-esquerda. Tentando aparar a finalização, Paula Ramos tomou a frente de Ferreira e esticou a perna, mas o chute forte resvalou em seu pé e saiu do alcance do goleiro. Gol contra que decretou o placar final de 2 a 2.
empate em 2×2 com o América, em foto da revista "Careta"
O empate no fim, apesar de ser o quarto consecutivo, acabou sendo um alívio, já que o Flamengo se mantinha líder e invicto. Mas se a equipe conseguira ao menos neutralizar a ameaça do América, outra logo despontaria no horizonte: o Fluminense, que alcançou os rubro-negros na liderança chegando aos mesmos 18 pontos ganhos em 11 partidas após superar em sequência o Botafogo (4 a 1 em General Severiano) e o próprio América (2 a 1 em Laranjeiras) – resultados que puseram fim às chances matemáticas de título dos dois derrotados.
Aquele 2 a 2 com o América, aliás, havia sido a última partida do Flamengo como mandante em General Severiano no campeonato. Para receber seu jogo final da campanha, contra o Bangu em 31 de outubro, o clube conseguiu, após meses de obras, aprontar seu novo campo na Rua Paissandu, construindo um palanque de madeira entre o campo e o muro que o separava da rua, ladeado por vários bancos para o público. "Uma praça de sports digna do glorioso club a que pertence", escreveu a "Gazeta de Notícias".
Salvo da lanterna e da necessidade de disputar sua vaga na elite em confronto com o campeão da segunda divisão, o Bangu vinha de vencer seus dois jogos anteriores, aplicando 4 a 1 no Rio Cricket e 4 a 2 no Botafogo, e chegava para aquela partida com status de franco-atirador. Mas o Flamengo saberia se impor e venceria com tranquilidade. No primeiro tempo, contudo, o time balançou as redes apenas uma vez com Riemer após confusão na área aos 22 minutos. Na etapa final é que o ataque deslancharia, levando o Fla a consolidar a goleada.
Os gols começaram a vir de cinco em cinco minutos. Primeiro com Riemer, que recebeu passe de Borgerth por dentro e marcou o segundo do Flamengo. Aos dez, Paulo Buarque ampliou. E aos 15, coube a Arnaldo anotar o quarto tento. O Bangu diminuiu dez minutos depois, com o ponta-esquerda Estácio aproveitando um cruzamento de Leão. Mas, outra vez após um intervalo de cinco minutos, Gumercindo fez um belo gol e fechou a contagem em 5 a 1 para o Fla, resultado que fazia a equipe encerrar sua campanha na liderança, com 20 pontos ganhos.
a goleada do Fla e o novo campo foram destaques do jornal O Imparcial
O título, porém, ainda não estava assegurado. No dia seguinte, segunda-feira, 1º de novembro, América e Fluminense se enfrentariam em General Severiano na repetição do jogo anulado do primeiro turno. E, se os tricolores vencessem, chegariam aos mesmos 20 pontos do Flamengo, forçando uma decisão em jogo extra de acordo com o regulamento. Empate ou vitória americana, por outro lado, confirmariam a conquista do bicampeonato ao Fla. Naquele dia não se falava em outra coisa na cidade. E seria um duelo repleto de reviravoltas.
O Fluminense começou arrasador. Abriu a contagem logo aos quatro minutos, desperdiçou um pênalti, e logo depois marcou o segundo. O América diminuiu, mas logo em seguida os tricolores chegaram ao 3 a 1 e saíram para o intervalo com domínio absoluto do jogo e do placar. Na volta para a etapa final, porém, o panorama seria bem diferente. Os rubros marcaram outra vez aos três minutos, e o Flu jogou fora a chance de ampliar ao perder mais um pênalti. Até chegar a vez de os americanos terem uma penalidade a seu favor. E converteram.
Cinco minutos depois, uma cabeçada de Gabriel de Carvalho colocou o América na frente pela primeira vez na partida, fazendo jus a quem agora mandava no jogo. E a dois minutos do fim, a vitória rubra foi sacramentada com outro gol de Gabriel de Carvalho, chutando na saída do ex-americano Marcos Carneiro de Mendonça para fechar o placar em 5 a 3 e selar a conquista do (bi)campeonato carioca pelo Flamengo. Um título brilhante e inquestionável, que reafirmava a superioridade do time no cenário futebolístico do Rio de Janeiro, capital do país.
Sobretudo por se tratar de uma conquista invicta, com oito vitórias e quatro empates em 12 jogos. E, se o Flamengo não teve o ataque mais positivo da competição (ficou atrás de tricolores e americanos), sua defesa foi, de longe, a mais eficiente, sendo vazada apenas 11 vezes – o que dá média de menos de um gol sofrido por jogo, notável em tempos de futebol francamente ofensivo. O artilheiro da equipe na campanha foi Riemer, grande goleador daquele início do futebol do clube, que balançou as redes 15 vezes, contra todos os adversários.
Como tudo que acontecia na então Capital Federal, a conquista do Flamengo repercutiu por todo o país e levou o clube a ser convidado pela Liga Paraense de Football para participar dos festejos do tricentenário de fundação de Belém. Na manhã de 13 de dezembro, a delegação rubro-negra embarcou no navio "Rio de Janeiro", da Companhia de Navegação Lloyd Brasileiro, e depois de nove dias de viagem chegou à capital paraense, onde foi recebida com todas as honras e deferências por políticos, jornalistas, dirigentes esportivos locais e pelo povo.
A viagem foi um marco: era a primeira vez que um time carioca se apresentava na região Norte. O Flamengo fez seis partidas entre os dias 27 de dezembro e 9 de janeiro – sendo que esta última acabou interrompida pela chuva – e não sofreu nenhuma derrota. Embarcou de volta ao Rio no dia 10, chegando no dia 21 com a bagagem repleta de troféus conquistados. Além de ter certamente plantado na capital paraense a semente da admiração pelas cores rubro-negras. Mas esta é uma história para ser contada com mais detalhes em outra ocasião.








