Mostrando postagens com marcador Temporadas Históricas. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Temporadas Históricas. Mostrar todas as postagens

sábado, 26 de setembro de 2026

2025: a amarelada do Palmeiras que deu o título do Brasileirão ao Flamengo

 Para o palmeirense, o Campeonato Brasileiro de 2025 terminou com uma sensação particularmente amarga. Não foi uma campanha de fracasso: 76 pontos, 23 vitórias, apenas 8 derrotas e a melhor campanha do segundo turno. Ainda assim, o Palmeiras terminou vice-campeão, três pontos atrás do Flamengo, e com a impressão de ter deixado escapar um título que, em vários momentos, esteve ao alcance das mãos. O Flamengo terminou com 79 pontos, contra 76 palmeirenses, 70 do Cruzeiro, e 67 do Mirassol, sensação do interior de São Paulo que disputava a Série A pela primeira vez na história.

A história desta derrocada começa, paradoxalmente, com um Palmeiras que parecia preparado para ser campeão. O português Abel Ferreira já estava no clube desde 5 de novembro de 2020, quando estreou contra o Red Bull Bragantino. Sua contratação aconteceu depois que a equipe que então comandava, o PAOK, da Grécia, eliminou ao Benfica, então comandado pelo mitológico Jorge Jesus, recém saído do Flamengo. Em cinco anos, Abel havia transformado o Palmeiras em uma das equipes mais vitoriosas do futebol brasileiro: Campeão da Libertadores de 2020 e 2021, da Copa do Brasil de 2020, da Recopa Sul-Americana de 2022, dos Brasileiros de 2022 e 2023, e dos Paulistas de 2022, 2023 e 2024.

Justamente este passado tornava a derrocada mais difícil de compreender para os alvi-verdes. Abel não era um treinador chegando a um elenco em construção, era o técnico mais longevo da história do Palmeiras em uma única passagem e, até então, o responsável pelo ciclo mais vitorioso da história do clube. Mas 2025 trouxe uma mudança estrutural: o jovem ponta Estêvão foi vendido ao Chelsea e e o colombiano Richard Ríos deixou o clube rumo o Benfica. Assim, o Palmeiras durante a campanha perdeu dois dos jogadores mais capazes de produzir desequilíbrio individual.

O Palmeiras assumiu a liderança cedo e chegou à 8ª rodada na ponta, com 19 pontos. Na 10ª rodada, perdeu em casa para o Flamengo por 2 a 0, mas continuou líder: tinha 22 pontos, contra 21 do rival. Na rodada seguinte, porém, veio outra derrota, 2 a 1 para o Cruzeiro, no Mineirão. O Palmeiras caiu para quarto, com 22 pontos, atrás de Flamengo, Cruzeiro e Bragantino. Mas foi uma queda momentânea. O Palmeiras reagiu, construiu uma sequência excepcional fora de casa e voltou a se colocar como candidato principal ao título. Chegou a nove vitórias consecutivas como visitante e, depois da longa paralisação provocada pela Copa do Mundo de Clubes, recuperou consistência. O Palmeiras registrava então a sua melhor campanha na história no campeonato por pontos corridos naquele estágio da competição.

A grande virada simbólica aconteceu na 27ª rodada. No Morumbi, em 5 de outubro, o Palmeiras enfrentou o São Paulo. O tricolor abriu 2 a 0 e parecia encaminhar uma vitória que teria enorme peso na disputa pelo campeonato. Mas o time alvi-verde reagiu, virou para 3 a 2 e, graças ao triunfo, ultrapassou o Flamengo. Ambos chegaram a 55 pontos, mas o Palmeiras tinha 17 vitórias contra 16 rubro-negras. A liderança, portanto, era alviverde pelo primeiro critério de desempate.

Este clássico, no entanto, confronto que os paulistas chamam de "Choque-Rei", ficaria marcado por uma das maiores controvérsias de arbitragem do campeonato, senão a maior da história do futebol brasileiro. Aos 6 minutos do segundo tempo - quando o São Paulo vencia por 2 a 0 - Allan, do Palmeiras, deslizou dentro da área e atingiu em cheio ao corpo de Gonzalo Tapia, que driblava para o meio. O árbitro Ramon Abatti Abel não marcou pênalti. A arbitragem de vídeo (VAR), comandada por Ilbert Estevam da Silva, não recomendou revisão. Pouco depois, Andreas Pereira atingiu Marcos Antônio com a sola e recebeu apenas cartão amarelo. O São Paulo reclamou, pois ambos os lances teriam mudado radicalmente a partida. Um pênalti e um 3-0 teriam definido o jogo. Uma expulsão também. Mas nada foi maior do que o escandaloso pênalti não marcado.

O escandaloso pênalti não marcado

Mudou o contexto do jogo. O Palmeiras virou para 3 a 2 na reta final, saiu do Morumbi como líder, inflamou seus torcedores, e ganhou uma vitória que, para o torcedor, poderia ser lembrada como o momento em que o time mostrou força de campeão. Para os são-paulinos, tornou-se o episódio mais controverso da reta final. A própria Comissão Nacional de Arbitragem reconheceu erro no lance do pênalti, e Ramon Abatti Abel e o VAR acabariam afastados pela CBF. Em novembro, o STJD aplicaria suspensão de 40 dias aos dois árbitros pelos erros cometidos naquele clássico.

O Palmeiras ganhou o clássico, manteve a liderança e, na rodada seguinte, ampliou a vantagem. Contra o Red Bull Bragantino, no Allianz Parque, saiu atrás, virou e goleou por 5 a 1. Terminou a 28ª rodada com 61 pontos, três à frente do Flamengo, que tinha 58. Foi, empatado com outro momento posterior, o maior intervalo entre os dois durante o período em que o Palmeiras esteve na liderança.

A 29ª rodada seria a primeira grande rachadura. O Palmeiras tinha 61 pontos, o Flamengo tinha 58. O confronto direto no Maracanã parecia uma oportunidade para abrir 6 pontos. Ocorreu o contrário. O Flamengo venceu por 3 a 2. O Palmeiras continuou provisoriamente na liderança porque ambos ficaram com 61 pontos, mas a vantagem no desempate era alvi-verde, pelo número de vitórias. O Flamengo acabara de vencer o confronto que, retrospectivamente, passou a ser visto como a primeira grande inflexão da disputa.

Ainda assim, o Palmeiras teve uma segunda oportunidade. Na 30ª rodada, empatou em 0 a 0 com o Cruzeiro no Allianz Parque, mas o Flamengo perdeu por 1 a 0 para o Fortaleza. O resultado manteve o Palmeiras na ponta, então com 62 pontos, contra 61 do Flamengo. Na 31ª, venceu ao Juventude por 2 a 0 e chegou a 65, enquanto o Flamengo também venceu e foi a 64. Na 32ª, Vitor Roque marcou os dois gols da vitória por 2 a 0 sobre o Santos e o Palmeiras chegou a 68 pontos, novamente três à frente do Flamengo. Era, portanto, o segundo grande momento em que a taça parecia bem encaminhada. Mas depois de sobreviver ao confronto direto no Maracanã e reconstruir três pontos de vantagem, o Palmeiras não conseguiu transformar esta margem em estabilidade.


A queda começou na 33ª rodada, em 9 de novembro. No estádio Campos Maia, o Mirassol venceu o Palmeiras por 2 a 1. O gol de Vitor Roque não evitou uma atuação que a imprensa classificou como irreconhecível, especialmente no primeiro tempo. O Palmeiras foi dominado, sofreu gol logo no início e teve dificuldades para impor o seu jogo. O resultado teve efeito imediato na tabela. O Flamengo venceu o Santos e chegou a 71 pontos. O Palmeiras ficou com 68. Pela primeira vez desde que assumira a liderança na 27ª rodada, o Palmeiras deixava de ser o líder: caiu para segundo, três pontos atrás do Flamengo. O Flamengo começava a produzir uma sequência de resultados enquanto o Palmeiras passava a desperdiçar oportunidades.

A reação não veio. Em 15 de novembro, em partida atrasada da 13ª rodada, o Palmeiras perdeu por 1 a 0 para o Santos, na Vila Belmiro. O time perdeu vários jogadores convocados para suas seleções, além de suspensões e lesões: Gustavo Gómez, Joaquin Piquerez, Emiliano Martínez, Facundo Torres e Vitor Roque estavam fora, enquanto Andreas Pereira e Allan cumpriam suspensão. O Palmeiras terminou aquela noite com 68 pontos, três atrás do Flamengo.

Depois veio talvez o golpe mais frustrante para o palmeirense: o 0 a 0 com o Vitória no Allianz Parque. A partida era originalmente da 37ª rodada, mas foi antecipada para 19 de novembro. O Palmeiras dominou boa parte do jogo, mas encontrou um Vitória muito bem organizado e parou no goleiro Thiago Couto. Foi um empate que, isoladamente, não parecia fatal, mas somado ao tropeço diante do Santos significava a perda de cinco pontos em dois jogos que o líder de um campeonato daquele tamanho precisava ganhar.

O ponto de ruptura definitivo veio na 35ª rodada. No Allianz Parque, na despedida do estádio na temporada, o Palmeiras ficou novamente no 0 a 0, desta vez contra o Fluminense. O time não conseguiu transformar domínio territorial em gols. Enquanto isso, no Maracanã, o Flamengo derrotou o Red Bull Bragantino por 3 a 0. A distância passou a quatro pontos: 74 a 70. Neste momento, o discurso interno e externo começou a mudar. Abel passou a falar da arbitragem com intensidade crescente, especialmente depois da sequência de resultados negativos.

Na avaliação de parte dos torcedores e analistas, os equívocos de Abel em 2025 não foram simplesmente "escalar errado". Foram problemas mais profundos. O primeiro foi não conseguir substituir integralmente o talento individual perdido com Estêvão e Richard Ríos. O segundo, a dificuldade em encontrar uma formação ofensiva estável. O Palmeiras pressionava, tinha volume, mas muitas vezes criava pouco em relação à posse e ao território. A crítica já aparecia antes da reta final: a equipe era competitiva, mas sofria contra adversários de nível semelhante porque precisava de muitas oportunidades para marcar.

A crise de agosto já havia exposto uma tensão: depois da eliminação para o Corinthians na Copa do Brasil, parte da torcida passou a contestar a Abel de maneira inédita. Era o maior desgaste do treinador com a torcida desde a sua chegada, chegando a protestos agressivos na Academia de Futebol. Abel já não era uma unanimidade entre os palmeirenses, mas continuava sendo, objetivamente, o técnico do maior ciclo vencedor da história do clube.

O episódio mais controverso de gestão ocorreu na 36ª rodada. O Palmeiras tinha 70 pontos e precisava desesperadamente reduzir a diferença para o Flamengo. Mas três dias depois haveria a final da Libertadores, justamente contra o Flamengo. Abel decidiu preservar praticamente todos os titulares no jogo contra o Grêmio. Gustavo Gómez, Murilo, Vitor Roque e outros pilares sequer viajaram. Marcelo Lomba, Benedetti, Micael, Jefté, Aníbal Moreno, Felipe Anderson, Mauricio, Ramón Sosa e Facundo Torres formaram uma equipe bastante modificada.

A escolha era compreensível do ponto de vista da Libertadores, mas arriscadíssima no Brasileiro. E, durante boa parte do jogo, parecia até funcionar. O Palmeiras reserva jogou bem, teve mais de 60% de posse no primeiro tempo e saiu na frente com Facundo Torres. Depois, porém, sofreu três gols e perdeu por 3 a 2. Aníbal Moreno cometeu um pênalti evitável, Giay também fez pênalti e acabou expulso. O Palmeiras ficou com 70 pontos, enquanto o Flamengo empatou com o Atlético Mineiro e se alçou a 75.

Foi a decisão que cristalizou a sensação de "campeonato entregue" para muitos torcedores. Abel defendia a preservação para a final continental em Lima. E, sob o ponto de vista da Libertadores, havia lógica: o Palmeiras teria de enfrentar o mesmo Flamengo quatro dias depois, numa final continental. O problema é que o Brasileiro já vinha sendo perdido antes. Os pontos contra Mirassol, Santos, Vitória e Fluminense haviam criado a necessidade de correr um risco que, poucas semanas antes, parecia desnecessário.

A reta final, assim, pode ser resumida como uma sucessão de oportunidades desperdiçadas: depois da derrota para o Flamengo na 29ª rodada, o Palmeiras recuperou a liderança, mas depois da derrota para o Mirassol, perdeu-a. Depois de Santos, Vitória e Fluminense, deixou o Flamengo abrir 4 pontos. Depois do Grêmio, cinco. Nos últimos nove compromissos de Brasileirão antes da partida final contra o Ceará, o Palmeiras somou apenas duas vitórias, três empates e quatro derrotas.

Enquanto isso, a disputa pelo título, que durante boa parte do campeonato parecia restrita a Palmeiras e Flamengo, teve o Cruzeiro como terceiro elemento. O time mineiro chegou às rodadas finais com 70 pontos e ainda tinha possibilidades matemáticas. O Mirassol, extraordinário mandante e sensação do campeonato, também permaneceu no pelotão de cima. Fluminense e Botafogo ficaram mais distantes, mas terminaram em quinto e sexto, respectivamente. Mas nas rodadas finais a corrida pelo título era essencialmente Flamengo versus Palmeiras.

E havia Lima. A final da Libertadores foi disputada em 29 de novembro, quatro dias depois do Grêmio 3 x 2 Palmeiras e apenas três dias depois da vitória do Flamengo sobre o Ceará que sacramentaria matematicamente o título brasileiro rubro-negro. A decisão continental colocou frente a frente exatamente os dois protagonistas da derrocada alviverde. O Flamengo chegou à final como líder do Brasileirão, o Palmeiras como vice e emocionalmente pressionado a transformar a temporada em grandeza naquela final.

Em Lima, o Flamengo venceu por 1 a 0, com gol de Danilo de cabeça no segundo tempo, e tornou-se o primeiro brasileiro tetracampeão da Libertadores. Abel reconheceu a superioridade do rival, embora tenha novamente criticado a arbitragem pela não expulsão de Erick Pulgar. O Palmeiras saiu derrotado de uma final que, na perspectiva emocional do torcedor, parecia a última possibilidade de redenção para um Brasileirão que escapara pelas mãos.

O Flamengo confirmou matematicamente o título na 37ª rodada, vencendo ao Ceará por 1 a 0 no Maracanã. O Palmeiras ainda venceu o Atlético Mineiro por 3 a 0, e na última rodada derrotou ao Ceará por 3 a 1, encerrando a competição com 76 pontos. É justamente aí que está a contradição da temporada palmeirense: terminou com 23 vitórias — as mesmas do campeão — e foi "campeão" do segundo turno, com 37 pontos, um a mais que o Flamengo. No primeiro turno, porém, havia terminado quatro pontos atrás do rival: 43 a 39. No campeonato inteiro, essa diferença inicial e os tropeços de novembro foram suficientes para decidir a taça.


O gol de Samuel Lino na vitória do Flamengo por 1 a 0 no Ceará

Para o palmeirense, 2025 foi a história de um time que, em diferentes momentos, teve a taça nas mãos e não conseguiu fechá-la. Teve a liderança no início, recuperou-a na 27ª rodada, abriu três pontos na 28ª, sobreviveu à derrota no confronto direto no Maracanã, retomou três pontos de vantagem na 32ª e, então, quando tudo parecia encaminhado para a conquista, desabou justamente quando precisava transformar vantagem em controle.

A arbitragem de Ramon Abatti Abel no Choque-Rei virou o símbolo de porque o Palmeiras venceu naquele dia. A derrota posterior para o Mirassol, o revés diante do Santos, os empates com Vitória e Fluminense, e a opção por reservas contra o Grêmio, todos são fatos que explicam por que a vitória sobre o São Paulo não foi suficiente. A derrocada não aconteceu em um jogo. O Palmeiras terminou com uma campanha de 76 pontos que, em quase qualquer outro campeonato, poderia ser de um campeão, mas 2025 encontrou um Flamengo que fez 79.


Sátira da derrocada palmeirense
(Imagem elaborada por Inteligência Artificial)
A presidente Leila Pereira, o árbitro Ramon Abatti Abel, o técnico Abel Ferreira
e o meia Andreas Pereira, que na final da Libertadores de 2020 errou pelo Flamengo
em favor do Palmeiras, choram a perda dos títulos para os rubro-negros

domingo, 20 de setembro de 2026

2020: a amarelada do São Paulo que deu o título do Brasileirão ao Flamengo

Para o torcedor são-paulino, o Campeonato Brasileiro de 2020 terminou com uma sensação particularmente amarga, pois foi a história de uma equipe que, durante semanas, pareceu ter colocado a mão na taça e, em pouco mais de um mês, transformou uma vantagem confortável em um 4º lugar. O São Paulo de Fernando Diniz terminou o campeonato com 66 pontos - 18 vitórias, 12 empates e 8 derrotas - mas a estatística final não consegue traduzir a dimensão da oportunidade desperdiçada.

Foi um campeonato pós pandemia da covid, que aconteceu com estádios sem torcedor, um calendário totalmente fora do padrão frente às demais temporadas. A derrocada sãopaulina pode ser dividida em duas histórias. A primeira é a de um time que construiu uma liderança consistente e chegou ao fim de 2020 com uma vantagem que parecia praticamente suficiente para garantir o título. A segunda é a de um colapso iniciado justamente quando a equipe precisava administrar esta vantagem. O Flamengo, que terminou campeão com 71 pontos, foi o principal beneficiário, mas não foi o único concorrente, pois Internacional e Atlético Mineiro também passaram a disputar a liderança, enquanto Palmeiras e Grêmio permaneceram à espreita nas rodadas decisivas.

O ponto máximo da campanha são-paulina ocorreu na 26ª rodada. O Tricolor derrotou o Atlético Mineiro por 3 a 0 no Morumbi e chegou a 53 pontos, mantendo-se em 1º lugar. O Flamengo, naquela altura, tinha 45 pontos (portanto, 8 a menos) e ocupava a 3ª posição, atrás também do Atlético Mineiro. Esta foi justamente a maior vantagem do São Paulo sobre o Flamengo durante o campeonato, ao final da 26ª rodada. A tabela daquele momento registrava São Paulo em primeiro, Flamengo em terceiro e Atlético Mineiro em segundo, com 46 pontos. No dia seguinte, porém, o time rubro-negro venceu, e encurtou a distância.

Era uma posição especialmente confortável porque o São Paulo vinha de uma sequência impressionante, mas que rapidamente começou a mudar. Na 25ª rodada, mesmo perdendo o clássico paulista para o Corinthians por 1 a 0, permanecera na liderança, com 50 pontos, contra 46 do Atlético e 45 do Flamengo. Um revés que havia encerrado uma invencibilidade de 17 partidas no Brasileirão, mas que não parecia ainda representar uma ameaça real à campanha.

Ainda assim, na 27ª rodada a sensação de superioridade aumentou. O São Paulo venceu o Fluminense por 2 a 1 no Maracanã e foi a 56 pontos. O Flamengo tropeçou diante do Fortaleza, empatando por 0 a 0, e ficou com 49. A diferença para o time rubro-negro, portanto, era de 7 pontos (com o detalhe de que o Flamengo tinha um jogo a menos).


O problema é que a fotografia da 27ª rodada escondia uma transformação que já começava a ocorrer. O São Paulo havia encontrado sua melhor formação, com Luciano e Brenner na frente e Luan funcionando como sustentação defensiva. Brenner, especialmente, havia se tornado uma das grandes descobertas da temporada: depois de substituir Pablo, passou a formar com Luciano uma dupla extremamente produtiva.

Mas o mesmo sistema que funcionara muito bem passou a apresentar sinais de esgotamento. A saída com passes curtos desde a defesa, marca registrada do trabalho do técnico Fernando Diniz, começou a ser explorada de maneira sistemática pelos adversários. O São Paulo insistia em iniciar as jogadas desde o goleiro Tiago Volpi, mesmo quando pressionado, e os rivais passaram a colocar mais jogadores sobre a primeira linha de construção, fazendo uma marcação alta. O próprio Diniz reconhecia que os erros de saída vinham de decisões técnicas, posicionamento corporal e demora para acelerar a circulação.

A primeira grande rachadura apareceu na 28ª rodada, em 6 de janeiro de 2021. O São Paulo foi a Bragança Paulista e sofreu uma das derrotas mais simbólicas de toda a campanha: 4 a 2 para o Red Bull Bragantino. Pior que o resultado foi a maneira, pois o time sofreu quatro gols ainda no primeiro tempo, descrito pela mídia esportiva como “irreconhecível”, com uma defesa frágil e incapaz de responder à pressão. Até então, São Paulo e Grêmio tinham as melhores defesas do campeonato, com apenas 22 gols sofridos. Porém, naquela noite a estrutura defensiva sãopaulina simplesmente desmoronou.

Fernando Diniz assumiu a responsabilidade pela derrota e classificou aquela como uma das piores partidas de sua passagem pelo clube. Entretanto, a partida deixou uma marca ainda mais profunda por causa do conflito do técnico com Tchê Tchê. Durante o primeiro tempo, o treinador chamou o volante de “ingrato”, “perninha” e “mascaradinho”. Tchê Tchê respondeu, com uma áspera discussão entre os dois na beira do campo, próximo à lateral. Tchê Tchê acabaria sendo expulso no segundo tempo, e o episódio se transformou em uma crise de relacionamento dentro do elenco.

Para o torcedor, aquele momento condensava várias das críticas que vinham se acumulando contra Fernando Diniz. O treinador parecia incapaz de abandonar suas convicções quando o jogo exigia pragmatismo. A posse de bola continuava sendo tratada como um valor em si mesma, a saída curta continuava sendo executada mesmo sob forte pressão, e determinadas escolhas individuais pareciam blindadas. O caso mais evidente era Daniel Alves. O camisa 10 era, simultaneamente, o principal símbolo do projeto e um dos seus maiores problemas na reta final. Contratado como estrela, líder, e jogador capaz de decidir partidas, Daniel Alves atravessou uma longa sequência de atuações abaixo das expectativas. Em outubro, já havia 13 jogos sem marcar, e as críticas da torcida aumentavam. Ainda assim, Diniz raramente o retirava da equipe.

A crítica não era apenas sobre o desempenho de Daniel Alves, mas sobre a incapacidade de Diniz de fazer ajustes diante de uma queda individual. Em 20 de janeiro de 2021, em pleno Morumbi, em jogo válido pela 31ª rodada, o São Paulo foi goleado por 5 a 1 pelo Internacional. Ali, toda e estrutura do trabalho desmoronou em definitivo. Jornalistas argumentavam depois daquele jogo que manter Daniel Alves como titular, com poucas substituições ao longo dos jogos, era um dos erros de condução do treinador. A discussão sobre o camisa 10 se tornou, portanto, uma discussão sobre autoridade técnica: até que ponto o treinador conseguia colocar o melhor jogador do elenco no banco quando seu rendimento não correspondia?

Na 29ª rodada, o São Paulo já havia perdido em casa para o Santos por 1 a 0. Era um clássico contra um adversário que utilizava reservas por causa de seus compromissos pela Libertadores. Mesmo assim, o Tricolor foi incapaz de reagir ao gol de Jóbson, marcado logo no início do segundo tempo. A ficha do clube registra 68% de posse de bola e nove finalizações são-paulinas no primeiro tempo, mas o domínio territorial não se converteu em gol. Diniz reconheceu depois que o São Paulo havia feito um primeiro tempo “mais moroso” e com pouca intensidade. Para o torcedor, era um déjà-vu: muita bola, pouca contundência. A equipe continuava tentando controlar o jogo pela circulação, mas já não conseguia impor o ritmo que havia caracterizado sua melhor fase.

Na 30ª rodada, o São Paulo empatou por 1 a 1 com o Athletico Paranaense. O resultado não lhe tirou imediatamente a liderança, mas completou uma sequência devastadora: derrota para Bragantino, derrota para Santos e empate com Athlético. Em quatro jogos — Bragantino, Santos, Athletico e Internacional — o time faria apenas 1 ponto. A marca desta sequência foram os primeiros tempos ruins. O São Paulo foi para o intervalo perdendo em três desses quatro confrontos, e sofreu um gol logo no início do segundo tempo contra o Santos.

Foi então que veio o já citado jogo que simbolizou a perda do campeonato. Na 31ª rodada, em 20 de janeiro, o São Paulo recebeu o Internacional no Morumbi. O confronto era praticamente uma final antecipada. O tricolor paulista tinha 57 pontos e o Inter tinha 56 antes da rodada. O que se viu foi uma goleada histórica: São Paulo 1 x 5 Internacional, com três gols de Yuri Alberto. O resultado não apenas tirou a liderança do São Paulo como colocou o Inter na ponta, com 59 pontos contra 57 do rival.

A queda foi ainda maior porque, ao final daquela rodada, o Flamengo também avançou, estando em 3º lugar com 55 pontos, enquanto o Atlético Mineiro tinha 54. Ou seja, em uma única rodada o São Paulo passou de líder absoluto a 4º colocado na corrida real pelo título, ainda que permanecesse matematicamente muito vivo. Aquele 5 a 1 expôs problemas táticos, individuais e emocionais. O São Paulo já vinha cometendo erros na saída de bola, e a equipe tricolor também perdeu intensidade na pressão pós-perda, permitindo que o adversário atacasse espaços com velocidade. Yuri Alberto encontrou uma defesa desorganizada e explorou as falhas de posicionamento.

O desastre não ficou restrito ao campo. O clima interno se deteriorou. A crise com Tchê Tchê, a perda de confiança em alguns jogadores, e a pressão crescente sobre Diniz se somaram ao ambiente externo. Depois da goleada, torcedores chegaram a atacar o ônibus da delegação com pedras e bombas caseiras, ferindo Luciano. O episódio, absolutamente injustificável, ilustra o grau de ruptura emocional a que a campanha do São Paulo havia chegado.

O 32º jogo trouxe apenas mais frustração: 1 a 1 com o Coritiba no Morumbi. O São Paulo saiu na frente com Luciano, que vivia uma fase extraordinária, mas sofreu o empate de Sarrafiore. A equipe manteve 64% de posse e finalizou nove vezes no primeiro tempo, mas não conseguiu matar o jogo. O resultado deixou o São Paulo com 58 pontos, na vice-liderança, quatro atrás do Internacional.

Na 33ª rodada, a queda tornou-se ainda mais concreta. O São Paulo perdeu por 2 a 1 para o Atlético Goianiense em Goiânia. Com 58 pontos, permaneceu no G-4, mas já era apenas o quarto colocado: Internacional tinha 65, Flamengo 61 e Atlético Mineiro 60. Aquela derrota completava 7 jogos consecutivos sem vitória, e tornava insustentável a permanência de Diniz. Ele demorou a encontrar alternativas para um time que já havia sido decifrado. A insistência na saída curta, a dificuldade para mudar a estrutura durante os jogos, e a transformação de Daniel Alves em uma espécie de jogador intocável, todos eram sintomas de uma rigidez que contrastava com a necessidade de adaptação.

O segundo equívoco foi administrar mal a crise emocional. A explosão contra Tchê Tchê não pode ser tratada como causa isolada da queda, mas foi um marco da deterioração do ambiente. O problema não era apenas gritar com um jogador, era a impressão de que o treinador estava perdendo o controle justamente quando precisava transmitir estabilidade. Depois do episódio, o ambiente dos treinamentos ficou pesado e Diniz precisou se retratar com o elenco e com a família do jogador.

O terceiro ponto foi ele não conseguir renovar as soluções ofensivas e defensivas. Quando Luciano e Brenner funcionavam, o São Paulo parecia irresistível, mas quando um deles estava ausente ou marcado, a produção caía. Na reta final, Diniz passou a lançar jogadores que praticamente não haviam participado da temporada, como Santiago Tréllez e Gonzalo Carneiro, em tentativas desesperadas de mudar partidas. O movimento foi interpretado como sinal de que o treinador havia perdido alternativas previamente construídas.

Um quarto diagnóstico foi a manutenção de determinados jogadores em má forma. Daniel Alves era o principal caso, mas não o único. Tiago Volpi também passou a sofrer críticas, particularmente por falhas em momentos decisivos. A torcida passou a associar a crise a um núcleo de jogadores que, apesar do currículo ou da confiança do treinador, não entregava o mesmo nível da arrancada.

A diretoria também teve responsabilidade na turbulência. Raí, dirigente que sustentara a permanência de Fernando Diniz durante momentos anteriores de pressão, deixou o cargo no começo de 2021. Júlio Casares, recém-chegado à presidência, decidiu inicialmente manter o treinador, mas a sequência de resultados tornou a decisão insustentável. Depois do jogo contra o Atlético Goianiense, Diniz já chegava a sete jogos sem vencer.

Na 34ª rodada, realizada de forma atrasada, o São Paulo empatou por 1 a 1 com o Palmeiras. Era uma das últimas oportunidades matemáticas de reação. Luciano marcou de pênalti e o tricolor segurou a vitória até os acréscimos, mas Rony empatou aos 48 minutos, um resultado que eliminou definitivamente as chances de título do São Paulo. A imagem era perfeita para a campanha: o time esteve a quatro minutos de manter vivo o sonho e novamente deixou escapar. Mas o leite já estava derramado havia muito tempo!

A partir dali, o título já era uma disputa entre Flamengo e Internacional, com Atlético Mineiro ainda matematicamente próximo. Ao final da 34ª rodada, o Inter liderava com 66 pontos, Flamengo tinha 64, Atlético Mineiro 60 e São Paulo 59. Na 35ª rodada, já sob o interino Marcos Vizolli no lugar de Diniz, que havia sido demitido, o São Paulo empatou em 1 a 1 com o Ceará e continuou em quarto, com 59 pontos. O Flamengo chegou a 65 e o Internacional a 66.

Na 36ª, o São Paulo venceu o Grêmio por 2 a 1 em Porto Alegre. Foi a primeira vitória do time em 2021 e recolocou o tricolor na terceira posição, com 62 pontos, atrás dos já distantes Internacional, com 69 pontos, e Flamengo, com 68, que disputavam o título cabeça a cabeça naquelas rodadas finais.

Mas a posição durou apenas uma rodada. Na 37ª, o São Paulo perdeu por 1 a 0 para o Botafogo, já rebaixado. Reinaldo foi expulso, Luciano perdeu um pênalti, e Matheus Babi marcou o gol da vitória botafoguense. O tricolor caiu novamente para o 4º lugar, com 63 pontos, e passou a correr risco até de perder a vaga direta na Libertadores para o Fluminense.

Na última rodada, o São Paulo derrotou o Flamengo por 2 a 1 no Morumbi. Foi uma vitória irônica: o time que havia liderado por tantas rodadas venceu justamente o futuro campeão, mas já não podia recuperar o campeonato. Flamengo terminou com 71 pontos, Internacional com 70, Atlético Mineiro com 68, e São Paulo com 66 pontos. A sequência da classificação, portanto, resume a derrocada do São Paulo: 1º na 30ª rodada; 2º na 31ª e na 32ª; 4º na 33ª; 4º na 34ª e na 35ª; 3º na 36ª; 4º na 37ª; e 4º ao final. O São Paulo perdeu a liderança na 31ª rodada depois de ter permanecido no topo por um longo período.


Para o torcedor são-paulino, talvez seja essa a imagem que melhor explique o fracasso: o clube não perdeu apenas um campeonato, perdeu a capacidade de administrar uma vantagem que, em determinado momento, chegou a 8 pontos sobre o Flamengo. O time tinha futebol para ser campeão, tanto que chegou a abrir 7 pontos sobre o vice-líder a 11 rodadas do fim, mas não conseguiu transformar superioridade em controle. A grande tragédia esportiva do São Paulo em 2020 foi que a equipe não caiu de uma vez, ela foi se desfazendo aos poucos. O Flamengo aproveitou a oportunidade. O Internacional chegou a assumir a liderança e travou uma disputa praticamente ponto a ponto até a última rodada. O Atlético Mineiro permaneceu próximo até o fim.

É por isso que, olhando retrospectivamente pela ótica são-paulina, o Brasileirão de 2020 não é lembrado simplesmente como um campeonato perdido, é lembrado como o campeonato que esteve nas mãos do São Paulo e escapou por entre os dedos. No fim, restou uma das maiores ironias daquela campanha: o São Paulo terminou o campeonato com 66 pontos, apenas cinco abaixo do campeão Flamengo e quatro abaixo do Internacional.


segunda-feira, 14 de setembro de 2026

2009: a amarelada do Palmeiras que deu o título do Brasileirão ao Flamengo

Para o torcedor palmeirense, o Campeonato Brasileiro de 2009 permanece como uma das mais dolorosas oportunidades de título desperdiçadas na história do clube. Não se tratou simplesmente de terminar em 5º lugar, o trauma nasceu da sensação de que a taça esteve nas mãos do Palmeiras durante boa parte da competição e foi sendo perdida aos poucos, em uma combinação de queda técnica, lesões, problemas internos, perda de confiança e uma arrancada extraordinária do Flamengo. O Palmeiras terminou o campeonato com 62 pontos, exatamente a mesma pontuação do Cruzeiro, 4º colocado, mas ficou em quinto e fora da Libertadores pelo número de vitórias. O Flamengo foi campeão com 67, seguido por Internacional e São Paulo, ambos com 65.

A história daquela campanha teve bastante turbulências já antes da chegada ao clube de Muricy Ramalho. Depois de uma passagem turbulenta do técnico Vanderlei Luxemburgo, demitido ainda na7ª rodada, o ex-jogador alvi-verde Jorginho (o chamado "Jorginho Cantinflas") assumiu interinamente e produziu uma transformação imediata. O Palmeiras venceu Avaí, Náutico, Flamengo e Santo André em sequência, derrotou o Corinthians por 3 a 0 e se alçou à vice-liderança. Jorginho criou forte identificação com o grupo e com a arquibancada. Anos depois, ele próprio contou que a torcida começou a gritar seu nome e que havia construído uma relação muito boa com os jogadores. A diretoria, porém, já havia decidido contratar Muricy Ramalho, Tri-campeão brasileiro pelo São Paulo nas três edições anteriores de 2006-2007-2008. Era o técnico mais badalado do cenário brasileiro naquele momento, uma esperança enorme de título para seus torcedores.

A troca funcionou inicialmente. Muricy estreou com vitória sobre o Fluminense e, em seguida, o Palmeiras venceu ao Sport Recife, assumindo a liderança e passando a ser visto como o grande favorito ao título. Ao final do primeiro turno, o cenário era extraordinariamente favorável: o Palmeiras tinha 40 pontos (10 de vantagem sobre o Flamengo, então 10º colocado). A maior vantagem do Palmeiras sobre o Flamengo, que viria a se consagrar como o grande campeão daquela edição, foi de 11 pontos, alcançada em duas ocasiões, ao final da 21ª e da 23ª rodadas. Na 21ª, o Palmeiras tinha 44 pontos e liderava, e o Flamengo era o 10º colocado, com 33. Na 23ª, o Palmeiras continuava líder, com 44 pontos, enquanto o Flamengo aparecia em 11º, também com 33.


É justamente aí que a narrativa palmeirense começa a mudar. O time que parecia caminhar para um título relativamente tranquilo passou a apresentar sinais de desgaste. No segundo turno, a sequência foi particularmente cruel: empate em casa com o Avaí, derrota para o Náutico, derrota para o Flamengo e derrota para o Santo André. Em quatro partidas, apenas um ponto. O Palmeiras terminaria aquele Brasileiro com 17 vitórias, 11 empates e 10 derrotas, mas o dado mais revelador está no contraste entre os dois turnos, com a equipe tendo obtido aproveitamento de 64,9% nos 19 jogos iniciais e somente 45,8% no returno até a 35ª rodada.

A derrota para o Náutico, por 3 a 0, já representava uma advertência. Mas o jogo que, retrospectivamente, simboliza a mudança de atmosfera foi Palmeiras 0 x 2 Flamengo, em 18 de outubro, no Parque Antárctica, pela 30ª rodada. Ao final daquele fim de semana, o Palmeiras ainda era o líder, com 54 pontos, enquanto o Flamengo chegava a 48 e assumia a 5ª posição. A distância havia caído para apenas 6 pontos, com Atlético Mineiro, Internacional e São Paulo também estando próximos, com 50, 49 e 49 pontos, respectivamente.

A partida teve um peso que ultrapassou a classificação: o Flamengo vinha de uma longa invencibilidade e já apresentava o melhor desempenho do returno. O Palmeiras, ao contrário, carregava três jogos sem vitória. No Palestra Itália, Dejan Petkovic foi decisivo, marcando aos 23 minutos do primeiro tempo, em uma jogada individual, e voltando a marcar aos 16 do segundo tempo, em gol olímpico. O Palmeiras teve poucas respostas. Diego Souza e Cleiton Xavier, fundamentais na construção da campanha até ali, foram pouco efetivos diante da marcação flamenguista. Uma maiúscula vitória rubro-negra em terras paulistanas.

A fotografia mais cruel daquela tarde veio aos 41 minutos do segundo tempo. O árbitro marcou pênalti a favor do Palmeiras. Vágner Love, então um dos principais símbolos ofensivos da equipe, isolou a cobrança. A torcida rubro-negra passou a provocar o atacante, e parte dos palmeirenses começou a abandonar o estádio antes do fim, entre vaias ao time e críticas a Muricy Ramalho.

Do ponto de vista palmeirense, aquele jogo expôs duas equipes em direções opostas. O Palmeiras ainda tinha qualidade individual, mas começava a demonstrar dificuldade para produzir futebol quando precisava controlar a partida. O Flamengo, comandado pelo técnico Andrade, apresentava organização defensiva, intensidade no meio-campo, e jogadores capazes de decidir individualmente. Petkovic foi o protagonista, mas Adriano, Zé Roberto e o sistema de marcação deram sustentação à arrancada. Ao jornais no dia seguinte mencionavam uma vitória no Parque Antárctica que "abriu a disputa do título".

Ao contrário do que poderia sugerir a impressão imediata de que o Flamengo já havia assumido o controle, a classificação depois daquela rodada ainda favorecia amplamente o Palmeiras. O alvi-verde continuava em 1º lugar, com 54 pontos, seis à frente do Flamengo. O problema foi o que aconteceu imediatamente depois: derrota por 2 a 0 para o Santo André, três dias depois. Era a terceira derrota consecutiva do Palmeiras, algo que não havia acontecido durante toda aquela campanha. A torcida passou a gritar "Jorginho" nas arquibancadas, em claro sinal de rejeição ao trabalho de Muricy.

A escolha de Santo André como adversário torna o episódio ainda mais doloroso. O clube do ABC acabaria rebaixado. O Palmeiras perdeu para Náutico, Santo André e Fluminense, três equipes que lutavam contra o rebaixamento, e empatou com o Sport Recife, que também acabaria rebaixado. Uma amarelada de grandes proporções!

Havia, além da queda coletiva, problemas objetivos de elenco. Cleiton Xavier, Pierre e Maurício Ramos sofreram lesões em momentos importantes. Cleiton se machucou justamente na derrota para o Santo André e ficou fora por cerca de um mês. Pierre estava afastado desde setembro, enquanto Maurício Ramos também se recuperava. O Palmeiras chegou a admitir que os três eram peças importantes, mas a reposição não estava à altura.

A consequência foi particularmente importante para Diego Souza. Cleiton Xavier era seu principal parceiro na criação e, sem ele, o meia-atacante perdeu rendimento. Nos cinco jogos sem Cleiton Xavier, o Palmeiras somou apenas cinco pontos. Muricy também reconhecia que as lesões de Cleiton, Pierre e Maurício Ramos haviam complicado sua equipe.

É na avaliação de Muricy que aparece uma das grandes controvérsias daquele Palmeiras: Jorginho, embora fosse amigo do treinador e reconhecesse seu currículo, afirmou posteriormente que Muricy demorou a compreender as características daquele elenco. Na avaliação dele, o técnico tentou reproduzir no Palmeiras conceitos que haviam funcionado no São Paulo, onde tinha jogadores moldados à sua filosofia. A crítica não era simplesmente ao esquema 3-5-2, que Muricy utilizava com frequência, mas à tentativa de fazer os jogadores se adaptarem ao treinador, em vez de adaptar o modelo às características disponíveis.

Essa crítica encontra algum respaldo na observação dos jogos. O Palmeiras alternava 4-4-2 e 3-5-2 e, em determinadas partidas, recuava excessivamente depois de abrir vantagem. Contra o Cruzeiro, por exemplo, Muricy reorganizou a equipe em 3-5-2 após perceber problemas defensivos e, depois da expulsão do lateral colombiano Pablo Armero, o Palmeiras praticamente passou a jogar com duas linhas de quatro, recuando Vágner Love, Cleiton Xavier e Diego Souza para funções defensivas. A estratégia funcionava para proteger resultados, mas também expunha a dificuldade do time em controlar o jogo com a bola.

É importante, entretanto, não transformar Muricy no único culpado. O jornalista Erich Beting, escrevendo no auge da crise, sustentou uma interpretação diferente: a queda tinha menos relação com o treinador do que parecia e mais com as características do próprio elenco e com o contexto que se deteriorou. A leitura é importante porque impede uma explicação retrospectiva simplista. Muricy não recebeu um time invencível e o transformou em fracasso, recebeu uma equipe que dependia bastante de alguns jogadores e perdeu peças fundamentais no momento decisivo.

O então presidente palmeirense Luiz Gonzaga Belluzzo reconheceria depois que houve erros na condução do futebol, refletindo que alguma coisa havia sido feita de maneira equivocada para que o título não viesse. Entre os diagnósticos estava a decisão de não fazer mudanças radicais no elenco, apostando na manutenção da base para preservar o entrosamento. O problema é que, quando as peças principais começaram a se machucar ou perder rendimento, a profundidade do grupo mostrou-se insuficiente.

A turbulência ganhou dimensão política e emocional. Belluzzo já havia entrado em conflito com o árbitro Carlos Eugênio Simon e acabou suspenso pelo STJD. A equipe, portanto, atravessava uma crise esportiva ao mesmo tempo em que o clube enfrentava turbulências institucionais. Em novembro, a Folha de São Paulo descrevia o Palmeiras como um clube "sem comando", pressionado pela queda de rendimento de Muricy e pela situação política do presidente.

A derrota para o Fluminense, pela 34ª rodada, finalmente tirou o Palmeiras da liderança. O jogo no Maracanã terminou 1 a 0, com gol de Fred, e ainda ficou marcado pela anulação de um gol de Obina que o Palmeiras reclamou que tinha sido legítimo. O São Paulo empatara com o Grêmio na abertura da rodada e havia assumido provisoriamente a liderança com 59 pontos. Quando o Palmeiras perdeu, ficou com 58. O Flamengo venceu o Atlético Mineiro por 3 a 1 e chegou a 57. Assim, depois de 17 rodadas consecutivas na liderança, o Palmeiras caiu para o 2º lugar, faltando apenas quatro rodadas para o fim do torneio.

Capa do Caderno de Esportes do Jornal O GLOBO, 21/09/2009

A partir daí, a queda de posições tornou-se quase uma contagem regressiva para o Palmeiras. Na 34ª rodada terminou em 2º lugar, com 58 pontos, atrás do São Paulo, com 59. Na 35ª rodada caiu para o 3º lugar, depois do empate em 2 a 2 com o Sport Recife e das vitórias de São Paulo e Flamengo (São Paulo 62, Flamengo 60, Palmeiras 59). Na 36ª rodada, caiu para 4º lugar, após uma derrota por 2 a 0 para o Grêmio, enquanto o líder São Paulo chegou a 62 (Flamengo tinha 61 e Internacional tinha 59).

O jogo contra o Grêmio foi talvez o retrato mais dramático do colapso emocional alvi-verde. O Palmeiras precisava vencer para continuar sonhando e acabou perdendo por 2 a 0. Mas a derrota esportiva ficou em segundo plano diante do episódio que ocorreu no intervalo: Obina e Maurício trocaram agressões no caminho para os vestiários e foram expulsos. O Palmeiras disputou todo o segundo tempo com nove jogadores. A diretoria decidiu afastar definitivamente os dois, considerando o episódio uma afronta à história do clube.

O episódio sintetizou uma temporada em que a pressão havia transbordado do campo para dentro do próprio grupo. Vágner Love também passou a ser alvo de torcedores e, já em dezembro, foi agredido por integrantes de uma torcida organizada em uma agência bancária próxima ao Palestra Itália. O atacante havia se tornado um dos rostos da frustração de uma torcida que, poucas semanas antes, acreditava estar caminhando para o título.

Mesmo assim, a história ainda produziu uma última reviravolta. Na 37ª rodada, o Palmeiras derrotou o Atlético Mineiro por 3 a 1 no Palestra Itália, em uma grande atuação de Diego Souza, Deyvid Sacconi, Vágner Love e do goleiro Marcos. O Flamengo venceu o Corinthians por 2 a 0 e chegou a 64 pontos. Internacional e Palmeiras foram a 62, São Paulo também ficou com 62 após perder para o Goiás. Assim, na rodada final, o Flamengo liderava com 64, seguido por Internacional, Palmeiras e São Paulo, todos com 62.

A disputa pelo título, portanto, chegou às últimas rodadas concentrada principalmente em Flamengo, Internacional e São Paulo, enquanto o Palmeiras ainda mantinha uma possibilidade matemática, mas já havia perdido o protagonismo que possuíra durante quase todo o campeonato. O Flamengo precisava apenas vencer ao Grêmio (venceu por 2 a 1 no Maracanã e chegou aos 67 pontos), Internacional e São Paulo terminaram com 65, e o Palmeiras, derrotado pelo Botafogo por 2 a 1, caiu para o quinto lugar, com 62.

O contraste final é brutal. O Palmeiras havia sido líder por 17 rodadas, chegou a abrir 11 pontos sobre o Flamengo e ainda estava na liderança a oito rodadas do fim. Depois do empate com o Avaí, das derrotas para Náutico, Flamengo e Santo André, e da sucessão de lesões e turbulências, começou uma queda que culminou na perda da ponta para o São Paulo na 34ª rodada. Em cinco rodadas, passou de líder a 4º colocado.

É por tudo isso, que 2009 não pode ser resumido como "o Flamengo tirou o título do Palmeiras", o time palmeirense entregou progressivamente a vantagem que construíra, enquanto o Flamengo descobriu, no momento exato, a estabilidade que faltara ao rival. O time de Andrade perdeu apenas uma vez em seus últimos 17 jogos e terminou campeão. O Palmeiras, que tinha sido o grande favorito, não conseguiu sustentar a própria campanha quando o campeonato entrou na fase decisiva.

A ironia histórica é ainda maior porque Muricy Ramalho conhecia exatamente o roteiro. Um ano antes, comandando o São Paulo, havia sido campeão depois de superar uma enorme desvantagem e assumir a liderança nas rodadas finais. Em 2009, o mesmo treinador esteve do outro lado da história: liderou por 17 rodadas, viu a vantagem evaporar e terminou em quinto. Para o Palmeiras, aquela temporada ficou como uma das mais emblemáticas demonstrações de que, em um campeonato de pontos corridos, não basta construir uma vantagem enorme.  E talvez seja justamente essa a lembrança que mais persiste entre os palmeirenses: em 2009, o Palmeiras não perdeu um campeonato que nunca teve, perdeu um campeonato que durante semanas parecia já lhe pertencer.

Dejan Petkovic e Adriano, o Imperador



Veja também:







quinta-feira, 23 de julho de 2026

Livro "Dez vezes Flamengo": como os primeiros campeonatos cariocas começaram a construir a identidade do clube de Maior Torcida do Brasil

 A história costuma reservar aos grandes vencedores um curioso paradoxo: quanto maior se torna um clube, mais o imaginário coletivo concentra sua atenção nos momentos de maior repercussão, relegando a segundo plano as décadas em que sua identidade foi construída. No caso do Flamengo, a memória popular costuma começar nos Anos Zico, atravessar a geração de Júnior, Leandro e Adílio, alcançar os títulos continentais e desembocar na era contemporânea. Entretanto, muito antes do Maracanã, da televisão e das multidões nacionais, um conjunto de conquistas moldou o DNA rubro-negro.

É justamente esse período que o autor Emmanuel do Valle resgata em "Dez Vezes Flamengo: As Histórias dos Primeiros Títulos Cariocas Rubro-Negros". Pesquisador reconhecido pelo admirável trabalho desenvolvido no blog Flamengo Alternativo, ele dedica mais de duzentas páginas à reconstrução dos dez campeonatos estaduais conquistados entre 1914 e 1944, período em que o futebol brasileiro ainda viveu do amadorismo, uma transição para o profissionalismo, e as profundas transformações sociais da primeira metade do século XX no Rio de Janeiro, então capital federal, e no Brasil. O lançamento da obra é um mergulho na origem da grandeza rubro-negra, enfatizando personagens, bastidores e episódios pouco conhecidos da era Pré-Maracanã (estádio concluído em 1950). Justamente 10 antes do Maracanã: dez taças, dez hitórias.

O mérito do livro está em mostrar que aqueles títulos não representam apenas uma sequência estatística. Cada campeonato corresponde a uma etapa da consolidação institucional do Flamengo, acompanhando mudanças no próprio futebol carioca, na organização das competições, e na evolução administrativa do clube.

A primeira conquista, em 1914, possui valor fundador: o Flamengo ainda era um jovem participante do futebol, modalidade oficialmente incorporada apenas dois anos antes pelo clube. Naquele ambiente de clubes aristocráticos na conjuntura política do então Distrito Federal, o Rubro-Negro começava a afirmar sua personalidade. O ano foi marcado pela adoção do uniforme conhecido como "cobra-coral", pelas primeiras excursões e por uma crescente organização do futebol brasileiro, em meio ao contexto da Primeira Guerra Mundial. O campeonato representou muito mais do que uma taça: foi a confirmação de que o Flamengo poderia disputar protagonismo em um cenário até então dominado por rivais tradicionais.

Em 1915 veio o bicampeonato invicto. A conquista consolidou a força técnica da equipe e coincidiu com outro marco institucional: a inauguração do campo da Rua Paissandu, primeira casa efetiva do futebol rubro-negro. A campanha demonstrava maturidade competitiva e transformava uma promessa em realidade esportiva, criando uma cultura vencedora que passaria a caracterizar o clube nas décadas seguintes.

Após alguns anos de alternância de campeões, o Flamengo voltou ao topo em 1920. A década de 1920 marcaria uma fase de enorme crescimento do futebol carioca, tanto em popularidade quanto em qualidade técnica. O título inaugurou um novo ciclo, confirmando que a equipe conseguia se renovar mesmo diante de um ambiente competitivo cada vez mais equilibrado.

O campeonato de 1921 reforçou essa capacidade. Mudanças no regulamento ampliaram o número de participantes e modificaram a estrutura da competição, exigindo adaptação dos clubes. O Flamengo respondeu mantendo alto nível técnico e conquistando mais um campeonato, consolidando-se definitivamente entre as principais forças da cidade.

Talvez nenhuma equipe simbolize melhor o amadurecimento daquele período do que a campeã de 1925. Emmanuel do Valle destaca um elenco repleto de jogadores convocados para seleções cariocas e brasileiras, capaz de liderar o campeonato praticamente de ponta a ponta. Era um Flamengo que já exercia protagonismo esportivo e ajudava a redefinir o equilíbrio de forças do futebol do Rio de Janeiro, num momento em que o amadorismo começava a revelar seus limites estruturais.

Dois anos depois, em 1927, veio o quarto título da década. O feito encerrava uma fase extraordinária: quatro campeonatos em oito temporadas. Mais do que números, esse período sedimentou uma identidade baseada em competitividade permanente e na capacidade de formar grandes equipes, ainda que o clube enfrentasse limitações financeiras comuns ao futebol da época.

O contraste torna o título de 1939 ainda mais significativo. Depois de doze anos sem conquistar o Campeonato Carioca, o Flamengo reencontrou o caminho das vitórias justamente quando passava por uma profunda modernização administrativa. Sob a presidência de José Bastos Padilha, o clube tinha investido na profissionalização da gestão, ampliava sua estrutura patrimonial, desenvolvia a futura sede da Gávea, e absorvia influências táticas inovadoras trazidas pelo técnico húngaro Dori Kurschner. A conquista simbolizou o encerramento do maior jejum estadual da história rubro-negra e o início de uma nova etapa institucional.

Os campeonatos de 1942, 1943 e 1944 formam um capítulo especial. Em plena Segunda Guerra Mundial, enquanto o mundo vivia um dos períodos mais dramáticos de sua história, o Flamengo construiu seu primeiro tricampeonato carioca. A equipe reunia nomes históricos como Domingos da Guia e Zizinho, combinando qualidade técnica, disciplina tática e enorme competitividade. Em 1942, o título ainda precisou de confirmação definitiva por disputas judiciais envolvendo o regulamento. Nos anos seguintes, o clube confirmou sua superioridade, estabelecendo um padrão de excelência que influenciaria gerações futuras.

O grande diferencial do trabalho de Emmanuel do Valle consiste justamente em retirar esses campeonatos do simples registro cronológico. Em vez de apresentar apenas resultados, escalações ou estatísticas, o autor reconstrói o ambiente histórico em que cada temporada foi disputada. Política, urbanização do Rio de Janeiro, evolução das regras do futebol, mudanças sociais e trajetórias individuais aparecem entrelaçadas às campanhas rubro-negras, permitindo compreender como o Flamengo cresceu simultaneamente ao desenvolvimento do próprio esporte no Brasil.

Esse método aproxima a obra da moderna historiografia esportiva. O futebol deixa de ser apenas entretenimento para tornar-se documento cultural. Os campeonatos estaduais passam a refletir transformações da sociedade brasileira, revelando como clubes, torcedores, dirigentes e atletas participaram da construção de uma identidade coletiva que ultrapassou os limites do campo.

Também merece destaque a extensa pesquisa documental. O trabalho dialoga com jornais da época, revistas esportivas, fotografias, documentos oficiais e outras fontes primárias, permitindo corrigir interpretações cristalizadas ao longo das décadas e recuperar episódios praticamente esquecidos. Para o leitor interessado na história do Flamengo, o livro oferece uma narrativa rica em detalhes sem perder a fluidez característica de uma boa reportagem histórica.

Mais importante ainda, "Dez Vezes Flamengo" ajuda a compreender que a grandeza do clube não surgiu de maneira espontânea. Ela foi construída lentamente, campeonato após campeonato, geração após geração. Antes dos grandes ídolos televisionados, existiram pioneiros que consolidaram valores como competitividade, capacidade de renovação, ambição esportiva e identificação popular.

Ao revisitar os títulos de 1914, 1915, 1920, 1921, 1925, 1927, 1939, 1942, 1943 e 1944, Emmanuel do Valle demonstra que a história rubro-negra não começa muito antes dos tempos modernos. Ela nasce na coragem daqueles primeiros elencos, na evolução institucional do clube e na construção de uma cultura vencedora que atravessaria todo o século XX. O resultado é uma obra que interessa não apenas ao torcedor do Flamengo, mas a qualquer leitor que compreenda o futebol como parte fundamental da memória social brasileira.






Veja mais aqui no blog:



quarta-feira, 8 de abril de 2026

A narrativa da 4ª vez como Campeão da América em 2025


A marca atingida pelo Flamengo na Libertadores em 2025 foi espetacular: 4 vezes finalista no intervalo de 7 anos entre 2019 e 2025, tendo mais vezes chegado à final do que ficado fora dela neste período, e conquistando o título em 3 destas 4 oportunidades. Um feito gigante! Vamos aos parâmetros históricos... clubes que disputaram 4 finais de Libertadores num intervalo de 7 anos: o Peñarol, do Uruguai, nas 7 primeiras edições do torneio, entre 1960 e 1966, chegou 5 vezes à final, campeão em 60, 61 e 66, e vice em 62 e 65; Estudiantes, da Argentina, com 4 finais consecutivas entre 1968 e 1971, três vezes campeão e vice em 71; e Independiente, também da Argentina, com 4 finais consecutivas entre 1972 e 1975, e campeão em todas elas. Todas estas três oportunidades na fase na qual o campeão da Libertadores entrava diretamente na semifinal na edição seguinte, o que facilitava imensamente a realização destes grandiosos feitos! O quarto caso foi o Boca Juniors, também da Argentina, que disputou 4 finais num intervalo de 5 anos, campeão em 2000, 2001 e 2003, e vice em 2004 (ainda voltou a ser campeão em 2007, mas aí foram 5 finais em 8 anos). Logo, o feito do Flamengo entre 2019 e 2025 só tem como inigualável na história a este Boca da primeira década do Século XXI... três vezes campeão num intervalo de 7 anos, antes só estes já citados casos de Peñarol, Estudiantes, Independiente e Boca Juniors. É neste salão de mais tradicionais da história da Copa Libertadores da América que o Flamengo adentrou com sua conquista em 2025! Ainda mais do que o já grandioso feito de ter sido o primeiro clube de futebol do Brasil a ter conquistado o título sul-americano pela 4ª vez na história.

Em 1981, o Flamengo foi campeão com o marco de um dos poucos casos a história de título de um debutante no torneio. Em 2019, a virada mais épica da história, com os dois gols de Gabriel Barbosa nos minutos finais. Em 2022, fazendo a maior campanha da história da competição, não bastando ter sido invicto, mas com um aproveitamento espetacular de 95%, sem perder nem sequer um dos confrontos mata-mata. Em 2025, a conquistado teve área menos épicos mas de superação, com resultados suados, vitórias magras, mais de uma situação de alto risco de eliminação, uma história com características de resiliência. Quatro histórias, cada uma construída por seu caminho próprio.

A largada da campanha de 2025 foi outra vez como visitante, contra o Deportivo Táchira, da Venezuela, em 3 de abril no Estádio Polideportivo Pueblo Nuevo, na cidade de San Cristóbal. O técnico do time rubro-negro era um debutante na função, que já em seus primeiros meses como treinador havia conquistado o título da Copa do Brasil de 2024, o ex-lateral-esquerdo rubro-negro, titular nas equipes campeãs em 2019 e 2022, Filipe Luís. Ele levou a campo um time escalado com Agustin Rossi, Varela, Léo Ortiz, Léo Pereira e Ayrton Lucas; Pulgar, De La Cruz e Luiz Araújo; Michael, Bruno Henrique e Éverton Cebolinha. Uma equipe ainda sem o centroavante Pedro, que se recuperava de lesão, e também desfalcado naquele dia de Arrascaeta. O Táchira foi a campo escalado pelo técnico Edgar Pérez Greco com: Jesús Camargo, Roberto Rosales, Carlos Vivas, Mauro Maidana e Pablo Camacho; Juan Manuel Requena, Edicson Tamiche (Juan Carlos Ortíz), Maurice Cova (Lucas Cano), Carlos Sosa (Jean Franco Castillo) e Daniel Saggimo; Bryan Castillo (José Balza).


Foi um jogo bastante complicado, sem uma boa atuação do Flamengo. A vitória acabou conquistada com um gol chorado no início do 2º tempo, em que a bola subiu e decaiu dentro da pequena área, próxima à linha do gol, onde o centroavante reserva Juninho, recém chegado do futebol do Azerbaijão, onde se destacou em campanha da Liga Europa, e que havia entrado no lugar de Michael no intervalo, apareceu saltando para empurrar com o peito para dentro do gol. Assim foi a estreia rubro-negra com vitória magra no placar: 1 a 0.


O primeiro jogo como mandante, no Maracanã, era contra um time argentino sem nenhuma tradição internacional, e que debutava na Libertadores. O Central Córdoba havia sido a surpresa de seu país no ano anterior, quando se sagrou campeão da Copa da Argentina. Como reagiria ao encarar o confronto diante de quase 60 mil pessoas no Maracanã? O treinador Filipe Luís levou a campo uma equipe com Rossi, Varela, Léo Ortiz, Léo Pereira e Alex Sandro; Évertton Araújo, De La Cruz e Arrascaeta; Gonzalo Plata, Juninho e Bruno Henrique. Já os argentinos, escalados por Omar de Felippe, iniciaram a partida formados por Aguerre, Abascia, Lautaro Rivero, Moyano e Cufré; Jonathan Galván, Iván Gómez, José Florentín e Leo Heredia; Perelló e Luis Angulo. O Flamengo com uniforme rubro-negro, e os argentinos com camisas e meiões brancos, e calções azuis escuros.


O time flamenguista tentava controlar o jogo e criar chances, mas acabou surpreendido pelos cordobeses - que já tinham assustado com um chutaço de Cufré de fora da área - aos 23 minutos do 1º tempo, quando numa dividida entre Perello e Léo Pereira na área, a bola raspou na mão do zagueiro rubro-negro, sendo assinalado pênalti, que Heredia cobrou e converteu. A situação piorou aos 43 minutos, quando uma cobrança de falta pela ponta esquerda de ataque encontrou a cabeça de Florentin penetrando em meio aos zagueiros, eles testou firme, com força, e ampliou a vantagem da equipe argentina. Aqueles primeiros 45 minutos representaram a única partida em toda aquela edição da Libertadores na qual o time rubro-negro de Filipe Luís sofreu 2 gols.

Na volta para o 2º tempo, a pressão ofensiva por uma reação na partida foi intensa. Com um gol de falta marcado pelo uruguaio Nico De La Cruz aos 15 minutos do 2º tempo, o 1-2 no placar colocou a equipe de volta no jogo. Mas o empate não saiu. Derrota surpreendente no Maracanã, muitas críticas de público e mídias, e a pressão por reagir na tabela, já que as duas partidas seguidas eram como visitante, uma delas na altitude de Quito. Não havia mais margem para erros, ou uma impensada eliminação logo na Fase de Grupos se tornaria uma realidade amarga.


Com a derrota na segunda rodada, o jogo pela 3ª rodada contra a LDU, nos de altura da cidade de Quito, ganhou contornos de partida decisiva no Estádio Casa Blanca, na altitude de 2.850 metros de Quito. Filipe Luís começou a partida com a equipe com uma escalação mais defensiva, optando por dois cabeças de área juntos, e um meio de campo com quatro peças. O time entrou escalado com: Rossi, Wesley, Danilo, Léo Ortiz e Ayrton Lucas; Évertton Araújo, Pulgar, Gérson e Arrascaeta; Bruno Henrique e Juninho. Embora não viesse sendo utilizado como titular no Brasileirão, na ausência de Pedro, Juninho continuava ganhando ampla minutagem na Libertadores. A Liga de Quito, do técnico Pablo Sánchez, entrou em campo atuando com: Gonzalo Valle, Daniel De La Cruz, Ricardo Adé, Allala e Leonel Quiñónez; Kevin Minda, Carlos Gruezo e Fernando Cornejo; Bryan Ramírez, Lisandro Alzugraray e Álex Arce.


Foi um jogo amarrado e muito tenso. Mais uma vez a atuação rubro-negra não foi boa, como aconteceu em toda aquela perna de ida da Fase de Grupos. No entanto, bravamente, o time segurou o empate sem gols, e voltou de viagem com um importante ponto conquistado. Naquele momento, o Flamengo ocupava a 3ª colocação, e via a sua classificação seriamente ameaçada.


O duelo seguinte era no interior da Argentina, no Estádio Único, na cidade de Santiago Del Estero, contra a equipe que o havia derrotado no Maracanã. Era mais uma decisão para o time! A equipe tinha a volta de Pedro, e foi a campo escalada com: Rossi, Wesley, Danilo, Léo Pereira e Ayrton Lucas; Pulgar, De La Cruz, Gérson e Arrascaeta; Bruno Henrique e Pedro. Do lado argentino, Omar de Felippe levava a campo praticamente a mesma equipe que havia entrado em campo no Maracanã, apenas com uma modificação no meio de campo, o time entrou em campo escalado com: Alan Aguerre, Lucas Abascia, Lautaro Rivero, Santiago Moyano e Braian Cufré; Jonathan Galván, Quagliata, José Florentín e Leonardo Heredia; Matías Perelló e o equatoriano Luis Angulo.


Sob pressão, o Flamengo foi quem saiu na frente, aos 9 minutos do 1º tempo: Gérson deu passe de primeira para Arrascaeta, que invadiu a área e bateu com classe na saída do goleiro Aguerre para abrir a contagem. O próprio Arrascaeta quase ampliou aos 23 minutos, mas frente a frente ao goleiro, concluiu mal. A vantagem rubro-negra perdurou até o intervalo. Mas na volta para o segundo tempo não tardou a cair, com Gastón Verón, que recém havia entrado em campo, empatando logo aos 15 minutos. Assim, a parte final da partida foi extremamente tensa. O Central Córdoba pressionava, e se sofresse um gol o time rubro-negro se encontraria em situação bastante delicada na tabela. Conseguiu segurar o empate até o fim. Faltavam então dois jogos no Maracanã para selar a classificação. A situação não era nem um pouco confortável: Central Córdoba e LDU tinham 8 pontos, o Flamengo tinha 5 e o Deportivo Táchira não tinha nenhum ponto conquistado.


Decisão contra a LDU no Maracanã. O adversário não tinha nada de fraco, tanto que chegaria à semifinal daquela edição da Libertadores. O Maracanã recebeu quase 66 mil espectadores. Era decisão. Se não vencesse, a eliminação precoce estaria eminente. O time rubro-negro entrou em campo com uma formação ofensiva, sem uma peça de contenção de mais voluntariedade no meio, e com três atacantes rápidos na frente. A equipe mandada a campo por Filipe Luís: Rossi, Wesley, Léo Ortiz, Léo Pereira e Alex Sandro; De La Cruz, Gérson e Arrascaeta; Luiz Araújo, Bruno Henrique e Michael. Do outro lado, o treinador Pablo Sánchez lançou a campo quase a mesma formação que havia jogado em Quito, trocando um ponta por um meia, e mudando o esquema de 4-3-3 para 4-4-2. Seus titulares: Valle, Daniel De La Cruz, Ricardo Adé, Allala e Leonel Quiñónez; Kevin Minda, Gruezo, Cornejo e Alexander Alvarado; Álex Arce e Alzugraray.


O Flamengo saiu em vantagem logo aos 9 minutos do 1ª tempo, com um importante gol de cabeça marcado pelo zagueiro Léo Ortiz. No restante da 1º etapa, o time teve dificuldades ofensivas, não conseguindo ampliar, e deixando a torcida cada vez mais impaciente nas arquibancadas. Na volta do intervalo, também aos 9 minutos, o lateral-esquerdo Alex Sandro fez excepcional jogada pela ponta esquerda, foi ao fundo e cruzou, após bate e rebate na área, a bola sobrou para Luiz Araújo, que arrematou firme para ampliar e colocar um 2 a 0 importantíssimo e definitivo no placar final do jogo. A situação rubro-negra com aquele empate ficava bem mais tranquila: a uma rodada do fim, o líder era o Central Córdoba com 11 pontos, que enfrentaria à LDU em Quito na última rodada, os equatorianos estavam juntos ao Flamengo com 8 pontos. Na rodada derradeira, o time rubro-negro enfrentaria ao Táchira no Maracanã e só dependia de si mesmo, já que obteria a classificação com uma vitória por qualquer placar.


Para o confronto final contra o já eliminado time venezuelano, o Maracanã recebeu um público de 66 mil presentes naquela noite de 29 de maio. Casa cheia e festa montada, faltava corresponder em campo. Um resultado negativo certamente comprometeria toda a temporada! Era decisão! A expectativa era de uma vitória imponente, para embalar uma campanha até então titubeante. Não foi o que aconteceu! A equipe de Filipe Luís entrou em campo formada por: Rossi, Wesley, Léo Ortiz, Léo Pereira e Alex Sandro; Allan, Gérson e Arrascaeta; Luiz Araújo, Pedro e Michael. O Deportivo Táchira, que jogou com uniforme todo ele amarelo, entrou escalado por Edgar Pérez Greco com: Táchira: Jesús Camargo, Roberto Rosales, Lucas Acevedo, Jesús Quintero e Juan Sánchez; Carlos Calzadilla, Juan Requena, Maurice Cova e Daniel Saggiomo; José Balza e Bryan Castillo.


Embora tenha tido controle do jogo, e maior volume, o Flamengo não conseguia marcar um gol. O tempo foi avançando, e a tensão aumentando. Até que aos 20 minutos do 2º tempo, cruzamento para a área e o zagueiro Léo Pereira se antecipou aos zagueiros do time venezuelano para completar de primeira para o gol, sem dar chances de defesa para o goleiro Jesús Camargo: 1 a 0. O time não conseguiu voltar a marcar, e acabou por sofrer uma pressão enorme nos minutos finais. Ainda que já estivesse eliminado, o adversário pressionava intensamente em busca do empate, e o time rubro-negro, nervoso, espanava tudo para longe da área. Já nos acréscimos, aos 49 minutos, praticamente na úlrima bola do jogo, após uma cobrança de escanteio a bola sobrou dentro da pequena para o jogador do Táchira, que bateu cruzado. Rossi salvou com a ponta do pé. Um gol teria significado a eliminação! Até oárbitro apitar o fim de jogo. Foi mais uma vitória apertada e suada numa campanha sob uma imensa dificuldade para engrenar. Mas foi o suficiente para garantir a classificação! No Equador, a LDU venceu, e avançou em 1º lugar nos critérios de desempate, deixando o Flamengo em 2º lugar, eliminando assim à única equipe que havia sido capaz de vencer ao time rubro-negro naquele grupo, e no Maracanã, o Central Córdoba.


O técnico Filipe Luís utilizou intensamente a seu elenco na Fase De Grupos, sendo difícil definir quais eram os titulares, os mais utilizados foram: Agustin Rossi, Wesley, Léo Ortiz, Léo Pereira e Alex Sandro (Ayrton Lucas); Pulgar (Évertton Araújo), De La Cruz, Gérson e Arrascaeta; Luiz Araújo e Bruno Henrique (Michael). Para a continuação da competição esta equipe seria bastante mexida, e o elenco seguiria sendo todo ele bastante utilizado. Houve as saídas do lateral-direito Wesley, vendido à Roma, da Itália, e do meia Gérson, para o Zenit, da Rússia. E entraram 5 reforços: o lateral-direito Emerson Royal, dois meio-campistas, o ítalo-brasileiro Jorginho Frello e o espanhol Saúl Ñíguez, mais o meia-atacante colombiano Jorge Carrascal e o ponta-esquerda Samuel Lino.

A fase oitavas de final foi disputada somente dois meses e meio após o fim da Fase de Grupos. O adversário rubro-negro era brasileiro, o Internacional, de Porto Alegre. Como o Flamengo havia avançado na segunda posição, a disputa se iniciou no Rio de Janeiro, onde na noite de 13 de agosto as equipes entraram em campo para iniciar a disputa mata-mata no Maracanã, que recebeu um público de mais de 68 mil presentes. De um lado a tradicional camisa rubro-negra, do outro a equipe do Colorado utilizando o seu segundo uniforme, de camisas brancas e calções vermelhos. O Flamengo iniciou a partida jogando com: Rossi, Emerson Royal, Léo Ortiz, Léo Pereira e Alex Sandro; Jorginho, Allan e Luiz Araújo; Gonzalo Plata, Bruno Henrique e Samuel Lino. A equipe jogava desfalcada de seu principal jogador, seu camisa 10 uruguaio Giorgian De Arrascaeta. O adversário, treinado por Roger Machado, foi a campo com: Sergio Rochet, Braian Aguirre, Vitão, Juninho e Alexandro Bernabei; Thiago Maia, Alan Rodríguez, Alan Patrick e Bruno Tabata; Wesley e Ricardo Mathias.


Nos primeiros minutos, só o time rubro-negro ficava com a bola, dominando completamente as ações. Quando o Inter tentava sair tocando, o Flamengo subia as linhas e conseguia recuperar a posse de bola rapidamente. No embalo dos cânticos que emanavam da arquibancada, o Flamengo pressionava ao adversário, e aos 28 minutos do 1º tempo conseguiu o seu gol. Escanteio cobrado pela esquerda de ataque por Luiz Araújo, e a bola encontrou Bruno Henrique livre, por trás da linha de defesa colorada, para testar colocado, no canto, e longe do alcance do goleiro uruguaio Rochet: 1 a 0.


A partida foi acirrada, com maior controle do Flamengo, mas sem que isto fosse convertido numa vantagem maior. A vitória por um placar magro dava alguma vantagem, mas deixava o cenário totalmente em aberto para o jogo da volta em Porto Alegre. Entre as duas partidas pela Libertadores, os dois adversários se enfrentaram pelo Brasileirão, em Porto Alegre. O Flamengo poupou jogadores, mas venceu, por 3 a 1, com dois gols de Pedro e um do equatoriano Gonzalo Plata.

Já no jogo de volta pela Libertadores, também no Estádio Beira-Rio, um fato inusitado: o jogo teve o seu início atrasado em 21 minutos por conta de uma chuva de papel picado na entrada das duas equipes em campo. Um problema técnico fez os canhões dispararem muito mais papel do que o previsto, cobrindo toda a grama. O tempo de espera até que funcionários do clube removessem o excesso, esfriou o ímpeto dos cânticos dos mais de 43 mil torcedores que lotavam o estádio. Filipe Luís entrou em campo com uma equipe totalmente diferente em relação ao jogo de ida: Rossi, Varela, Léo Ortiz, Léo Pereira e Alex Sandro; Jorginho, Saúl Ñíguez e Arrascaeta; Gonzalo Plata, Bruno Henrique e Samuel Lino. Já o Internacional iniciou com os mesmos 11 titulares que tinham iniciado no Maracanã. Desta vez era o Flamengo quem vestia camisa branca, com o Internacional com a sua tradicional camisa vermelha com calção branco.


Quando a bola enfim rolou, o time rubro-negro voltou a ser mais envolvente do que o adversário, controlando a maior parte das ações. Aos 26 minutos, conseguiu um gol: Samuel Lino recebeu na ponta esquerda e cortou pra dentro, chutou cruzado, Rochet deu rebote, a bola subiu para a lateral da pequena área, onde encontrou a cabeça de Gonzalo Plata, ele ajeitou para a entrada da pequena área, onde a bola decaiu para que Arrascaeta acertasse um potente chute de primeira para estufar as redes. Um golaço! Flamengo 1 a 0. E dois gols de vantagem no agregado.


Dali em diante, o Flamengo administrou a vantagem. O Internacional ameaçava muito pouco à meta rubro-negra. Nos minutos finais, Pedro ainda ampliou, fazendo 2 a 0, e garantindo a classificação para as quartas de final. O time rubro-negro foi inquestionavelmente superior ao Internacional, classificando-se com um agregado de 3-0 e fechando a trilogia de três jogos consecutivos contra o Colorado num intervalo de uma semana: três vitórias rubro-negras.

O duelo de quartas de final foi contra o Estudiantes de La Plata, da Argentina. Foi uma guerra! No jogo de ida, uma noite de 18 de setembro, o Maracanã estava tomado pelo vermelho e o preto, ardendo em brasa pelo calor humano da multidão de 70 mil vozes que lotavam o estádio. Filipe Luís mandou a campo a equipe formada por: Rossi, Varela, Léo Ortiz, Léo Pereira e Ayrton Lucas; De La Cruz, Saúl Ñíguez e Arrascaeta; Gonzalo Plata, Pedro e Samuel Lino. O Estudiantes entrou escalado por Eduardo Dominguez com: Muslera, Román Gómez, Santiago Núñez, Facundo Rodríguez e Santiago Arzamendia; Piovi, Cristian Medina, Ascacibar e Amondarain; Facundo Farías e Guido Carrillo.

O Flamengo começou avassalador, impondo pressão alta. Logo com 15 segundos de bola rolando, o placar foi aberto! Bola correndo de pé em pé até Pedro se livrar do marcador e tocar na saída do goleiro uruguaio Muslera. Com 8 minutos saiu já um segundo gol, quando após cruzamento na área o lateral-direito uruguaio Varela acertou um chutaço de primeira: golaço! Flamengo 2 a 0!


O Flamengo era o dono absoluto do jogo! Mas era continuamente contido pela arbitragem. Foram inúmeras as polêmicas contra rubro-negros e a favor dos argentinos, culminando com uma expulsão absurda de Gonzalo Plata no 2º tempo, num lance que nem toque houve (cartão vermelho que seria anulado dias depois pela Confederação Sul-Americana). O Flamengo teve que atuar nos minutos finais com um jogador a menos, e nos acréscimos acabou sofrendo um gol do time argentino que mudava completamente as condições para a partida de volta: 2 a 1 no placar final.


O jogo de volta, no Estádio Jorge Luis Hirschi, em 25 de setembro, foi sob o típico clima de Libertadores da América: estádio lotado e cânticos argentinos incessantes na arquibancada. Pressão contrária total! Eduardo Domínguez fez pequenos ajustes na sua escalação inicial para aumentar a capacidade de pressão ofensiva da equipe. Lançou a campo: Muslera, Román Gómez, Santiago Núñez, Facundo Rodríguez e Gastón Benedetti; Cristian Medina, Ascacibar, Amondarain e Arzamendia; Tiago Palácios e Guido Carrillo. Já o Flamengo de Filipe Luís, entrou com: Rossi, Varela, Léo Ortiz, Léo Pereira e Alex Sandro; Jorginho, Saúl Ñíguez e Arrascaeta; Gonzalo Plata, Pedro e Samuel Lino. As mudanças aconteceram pelas voltas à equipe de Alex Sandro e Jorginho, titulares, mas que tinham ficado de fora no jogo de ida.


O Flamengo estava aguentando bem à pressão do adversário no primeiro tempo, no entanto, nos acréscimos, Benedetti marcou e igualou a série no agregado. Na etapa final, o Estudiantes chegou a balançar a rede de novo com Benedetti, mas a arbitragem de vídeo traçou suas linhas e apontou o impedimento. O segundo gol, que mudaria a gravidade da noite, evaporou. Na segunda metade, o time de La Plata começou a dar sinais de cansaço físico. O time rubro-negro resistiu até o fim e quando o apito final soou, estava sacramentado que a decisão da vaga na semi-final seria nos pênaltis.


O Flamengo abriu com seu cobrador oficial, Jorginho e seu saltinho antes do chute. Infalível: 1 a 0. Sosa empatou. Luiz Araújo bateu firme e marcou. E então apareceu pela primeira vez Agustin Rossi. O goleiro argentino defendeu a cobrança de Gastón Benedetti, jogando pressão para o lado rival. Veio então a cobrança de Carrascal, firme e forte, o chute do colombiano estufou a rede: 3 a 1. Tento fundamental para as evolução emocional das cobranças seguintes. Edwin Cetré converteu e diminuiu. Léo Pereira cobrou magistralmente, acertando a bola no ângulo. Um golaço de pênalti: 4 x 2. Faltava pouco. Na quarta cobrança, Mikel Ascacibar bateu e Rossi voou no canto para defender. Fim de papo! 4 a 2 nos pênaltis! O Flamengo estava na semi-final!


A semi era contra o Racing. Tendo eliminado ao Estudiantes, o Flamengo duelava contra as duas equipes que dali a algumas semanas fariam a final do Campeonato Argentino. Duelos contra o que havia de melhor no país vizinho. E a decisão do finalista saiu da mesma forma como se arrastava a história da campanha rubro-negra até ali: placares magros, resultados suados e obtidos em mínimos detalhes. Assim foi a história de Flamengo versus Racing em 2025. Primeiro encontro no Maracanã, em 22 de outubro, com o estádio mais uma vez lotado, recebendo mais de 71 mil espectadores. O time rubro-negro entrou em campo escalado com: Rossi, Varela, Danilo, Léo Pereira e Alex Sandro; Pulgar, Jorginho, Arrascaeta e Carrascal; Luiz Araújo e Pedro. O desfalque era o zagueiro Léo Ortiz, que com lesão sofrida na partida contra o Palmeiras pelo Campeonato Brasileiro. Já o Racing, do técnico Gustavo Costas, entrou com: Cambeses, Martirena, Colombo, Marcos Rojo e Gabriel Rojas; Santiago Sosa, Zuculini e Almendra; Santiago Solari, Adrián "Maravilla" Martínez e Tomás Conechny.


A partida foi franca e bem jogada, tendo havido oportunidades de gol de lado a lado. Do lado rubro-negro, a má notícia foi a fratura no braço de Pedro sofrida num choque casual, a qual o tiraria do restante do torneio. Na reta final de partida, o Flamengo pressionava e pressionava, mas o gol não saía. Até que aos 35 minutos do 2º tempo, bola lançada na área e Samuel Lino, que havia entrado no lugar de Arrascaeta, toca de cabeça e encobre o goleiro. Explosão de euforia no Maracanã, mas a arbitragem de vídeo revisa o lance e detecta a posição de impedimento, anulando o gol. Sete minutos depois, aos 42, Bruno Henrique é lançado em profundidade magistralmente por Carrascal (por milímetros não foi outro impedimento). Ele penetra pela área e chuta cruzado, a bola bate no rosto do goleiro Cambeses e retorna para a linha de entrada da grande área, onde encontra os pés de Carrascal. Havia 7 jogadores do Racing entre ele e a linha do gol. Ele chuta firme, a bola bate na barriga de Marcos Rojo, pega o zagueiro que corria para proteger a linha do gol no contrapé, e morre mansa no canto. Gol revisado e desta vez confirmado. O juiz da partida acabaria tirando-o do colombiano, e indicando gol contra. 1 a 0. O Flamengo sai com vantagem magra do Rio de Janeiro, com um gol chorado, mas que viria a ser decisivo para o destino daquela semi-final.
   

Uma semana depois, em 29 de outubro, no Estádio Presidente Juan Domingo Perón, mais conhecido como "El Cilindro", na região de Avellaneda, em Buenos Aires, o duelo derradeiro, valendo vaga na final. A equipe argentina entras em campo com: Cambeses, Mura, Colombo, Marcos Rojo e Gabriel Rojas; Juan Nardoni, Zuculini e Almendra; Santiago Solari, Adrián "Maravilla" Martínez e Tomás Conechny. Uma única mudança, na lateral-direita, em relação à equipe que havia iniciado a partida no Maracanã. Já o Flamengo, foi mandado a campo, por Filipe Luís, escalado com: Rossi, Varela, Léo Ortiz, Léo Pereira e Alex Sandro; Pulgar, Jorginho, Arrascaeta e Carrascal; Luiz Araújo e Gonzalo Plata, com Bruno Henrique colocado como opção no banco para a etapa final.


Foi mais uma batalha! E mais um exemplo de superação e raça para vencer à adversidade. Mais uma vez foi um jogo franco e aberto, com oportunidades de lado a lado. O Flamengo teve uma boa atuação na etapa inicial. Só que ninguém balançou a rede, num empate sem gols até então que dava a classificação à final para os flamenguistas. Aos 11 minutos do 2º tempo, lance capital que mudaria a dinâmica do jogo a partir de então. Gonzalo Plata cai no chão reclamando de agressão, o veterano Marcos Rojo abaixa e grita com ele, e Plata lhe difere um tapa. O árbitro dá cartão vermelho para o equatoriano. Assim como contra o Estudiantes, Plata é expulso e as coisas se complicam.


Deste momento em diante, o Racing foi absoluto no controle do jogo. O Flamengo se defendia, resistia, era ataque contra defesa, um sufoco enorme. Já nos acréscimos, Luciano Vietto chuta, a bola desvia na zaga, e Rossi consegue espalmar para escanteio. Até que é dado o apito final! Empate sem gols, e o Flamengo estava mais uma vez na final da Libertadores, como havia estado em 2019, 2021, 2022 e estava em 2025.



O adversário na final era o Palmeiras, que parecia estar emocionalmente mais forte após obter uma virada espetacular, tendo perdido por 3 a 0 para a LDU em Quito, e vencido por 4 a 0 em São Paulo. No momento desta virada, também era o líder do Campeonato Brasileiro, perseguido pelo vice líder Flamengo. Mas a final foi somente um mês após a conclusão da semi. Em 29 de novembro, o título foi decidido, mais uma em jogo único, como era desde 2019, no Estádio Monumental de Lima, no Peru, palco onde o Flamengo havia obtido a vitória de epopeia sobre o River Plate na final da Libertadores em 2019.

O tamanho daquela final era gigante! Flamengo e Palmeiras tinham três títulos sul-americanos, e aquele que se sagrasse campeão se tornaria o primeiro clube brasileiro a ser 4 vezes campeão da Libertadores. Ademais, Flamengo e Palmeiras disputavam cabeça a cabeça o título do Brasileirão 2025. Nas semanas que anteciparam o duelo, o time palmeirense havia sofrido derrotas seguidas para Santos, Mirassol e Grêmio, perdendo a liderança para o Flamengo, que viajava a Lima precisando de apenas uma vitória sobre o Ceará no Maracanã para assegurar matematicamente o título. Após a final da Libertadores, venceu por 1 a 0 e confirmou o título nacional, deixando o Palmeiras com o vice. Para dar a pitada final na rivalidade, os dois clubes tinham decidido o título da Libertadores de 2021 em Montevidéu, no Uruguai. Daquela vez o título foi palmeirense após um escorregão do meia Andreas Pereira, então vestindo a camisa do Flamengo. Nesta final, Andreas chegava como jogador do Palmeiras.

A equipe alvi-verde, comandada pelo técnico português Abel Ferreira, entrou em campo com: Carlos Miguel, Khellven, Gustavo Gómez, Murilo e Piquerez; Bruno Fuchs, Andreas Pereira e Raphael Veiga; Allan, "Flaco" López e Vítor Roque. O Flamengo de Filipe Luís entrou em campo com: Agustin Rossi, Varela, Danilo, Léo Pereira e Alex Sandro; Pulgar, Jorginho, Arrascaeta e Carrascal; Samuel Lino e Bruno Henrique. Estava desfalcado dos lesionados Léo Ortiz, substituído por Danilo, e Pedro, com Bruno Henrique escalado como centroavante.


Quando a bola rolou, o domínio em campo foi todo do time rubro-negro, mas foi uma partida com poucas oportunidades de gol de lado a lado, tudo indicava que a partida seria decidida em detalhes. O 1º tempo foi muito acirrado, um jogo muito tenso. O chileno Erick Pulgar acertou uma solada na canela de Bruno Fuchs em momento que a partida já estava paralisada, recebeu cartão amarelo, mas os palmeirenses chiaram muito, pedindo um cartão vermelho. Mas a primeira etapa inteira decorreu sem que a bola balançasse a rede de nenhum lado.


Na volta para o 2ª tempo, o Flamengo atacava para o mesmo lado onde Gabigol havia marcado os dois gols da virada sobre o River em 2019. E foi nesta mesma baliza, após uma sequência de escanteios, aos 21 minutos, que Arrascaeta cobrou, achando Danilo que penetrava em velocidade pelo meio da área. Ele subiu muito alto, e testou colocado, com a bola atravessando a pequena área na diagonal, tocando na trave, e estudando a rede. Gol do camisa 13! Flamengo 1 a 0!




Do gol em diante, o jogo mudou. O controle passou a ser todo palmeirense, enquanto o time rubro-negro se defendia. O outro lance capital daquela partida aconteceu aos 43 minutos do 2º tempo. A bola sobrou para Vitor Roque na pequena área, e ele fuzilou em direção ao gol. Só não contava com o bote de Danilo, que esticou a perna, e a bola bateu na sua chuteira e subiu, passando por cima do gol. Danilo, Jorginho e Rossi comemoraram efusivamente, como se houvesse sido um gol rubro-negro!

Nos acréscimos, em cobrança de falta, Everton Cebolinha, que havia entrado em campo na segunda etapa no lugar de Samuel Lino, ainda acertou a trave, quase assinalando o gol definitivo do título. Mas nada mais mudaria aquela história. O apito final soou e a festa explodiu em Lima, no Rio de Janeiro, e no Brasil inteiro. O título do "Ninguém morre nos devendo!", o lema daquela conquista. Flamengo, Tetra-campeão da Libertadores, o primeiro a alcançar 4 títulos do continente. Mais do que o Flamengo na América do Sul, naquele momento, só os 5 títulos do Peñarol, os 6 do Boca Juniors e os 7 do Independiente de Avellaneda. O cume da América estava logo ali!