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sexta-feira, 2 de outubro de 2026

O Manto Sagrado: a Camisa do Flamengo


A expressão "Manto Sagrado" foi criação, no futebol ligada, relacionada especificamente à camisa do Flamengo. A origem mais documentada remonta a 1954, quando o jornalista e cartunista rubro-negro Otelo Caçador, que escrevia no Jornal dos Sports, aproveitou o enorme sucesso do filme "O Manto Sagrado" (The Robe), lançado nos cinemas em 1953, para fazer uma associação bem-humorada entre a túnica de Cristo retratada no filme e a camisa rubro-negra do Clube de Regatas do Flamengo.

Foi em 28 de abril de 1954 que ele utilizou pela primeira vez, de forma registrada, "O Manto Sagrado" para se referir à camisa do Flamengo. O termo imediatamente caiu no gosto popular da massa rubro-negra!

A expressão ganhou força nos anos seguintes, especialmente por meio do rádio: em 1955, o programa "A Voz do Flamengo", da Emissora Continental, passou a ter Celso Garcia entre seus participantes, e ele repetia que vestir a camisa do Flamengo era vestir "o Manto Sagrado do esporte". A partir destes fatos, o termo foi sendo incorporado gradualmente por toda a torcida e pela imprensa. Há registros frequentes no Jornal dos Sports a partir do fim dos anos 1960.

A Evolução da Camisa Rubro-Negra no tempo:





A adoção da camisa branca pelo Flamengo como uniforme alternativo oficial ocorreu em 1938. A iniciativa partiu do então técnico, o húngaro Dori Kruschner. A ideia tinha uma razão bastante prática: Kruschner percebeu que o tradicional uniforme rubro-negro oferecia pouca visibilidade em partidas noturnas e também criava confusão contra adversários que usavam vermelho e preto.

Há, porém, uma curiosidade importante: o branco apareceu em campo antes de 1938: levantamento histórico do site FlaEstatística identifica como o primeiro registro de uma camisa inteiramente branca o jogo de 20 de julho de 1919, em Flamengo 8 x 0 Mangueira, justamente porque o adversário também era rubro-negro e havia necessidade de diferenciação. Esse uniforme branco voltou a ser usado em algumas ocasiões em 1920 e em 1923, mas era uma solução circunstancial, não ainda um segundo uniforme institucionalizado.

Depois de oficializado como uniforme alternativo, o primeiro jogo do Flamengo com camisa branca aconteceu em 9 de janeiro de 1938, no Estádio das Laranjeiras, campo do Fluminense, contra o América, numa vitória flamenguista por 3 a 2, em partida ainda válida ainda pela reta final do Campeonato Carioca de 1937.




O Flamengo passou a utilizar um terceiro uniforme propriamente dito em 1995, no ano de seu centenário. O primeiro modelo foi justamente o famoso "Papagaio de Vintém", uma releitura da camisa que o time de futebol havia usado em 1912, antes da adoção definitiva do rubro-negro listrado. A estreia aconteceu em 27 de janeiro de 1995, no jogo amistoso Flamengo 1 x 1 Seleção do Uruguai, no Estádio Serra Dourada, em Goiânia. Foi uma partida especialmente simbólica porque marcou também a estreia do atacante Romário pelo Flamengo. Ele vestiu a camisa Papagaio de Vintém com o número 100 nas costas.

O terceiro uniforme, no entanto, ficou estigmatizado que dava azar. Aí está uma das histórias mais interessantes: o "Papagaio de Vintém" original, de 1912, carregava uma fama de azar muito anterior à camisa de 1995. Segundo a tradição histórica do clube, o zagueiro Píndaro de Carvalho, integrante daquele primeiro time, teria atribuído à camisa parte da responsabilidade pelos fracassos do Flamengo em decisões daquele período. O clube acabou abandonando o modelo e adotando a camisa "Cobra Coral" em 1914 — e, ironicamente, conquistou naquele ano o seu primeiro Campeonato Carioca, acabando com a maré de azar.

Quando foi ressuscitado o "Papagaio de Vintém" em 1995, a superstição ganhou um reforço quase perfeito: o Flamengo usou a camisa nove vezes e não ganhou nenhuma! Foram quatro empates e cinco derrotas. A estreia foi o 1 x 1 com o Uruguai, depois vieram derrotas para Atlético Mineiro, Grêmio, Santos e São Paulo.

Foi essa combinação que criou a chamada “maldição da terceira camisa”: uma superstição que não nasceu exatamente em 1995, mas que foi reavivada pela sequência de resultados ruins do primeiro terceiro uniforme. Anos depois, cada nova terceira camisa que estreava com derrota alimentava a história.

A camisa toda preta de 1999 parecia ter exorcizado a maldição. Foi utilizada 2 vezes e com 2 vitórias. Estreou em 21 de julho de 1999, no Maracanã, na festa de entrega das faixas do Campeonato Carioca, e o Flamengo venceu o Grêmio por 1 a 0. Voltou a ser usada em 20 de janeiro de 2000, contra o Fluminense, e novamente terminou em 1 a 0, garantindo ao Flamengo o Troféu São Sebastião.

Porém, em 2001, uma camisa toda vermelha ressuscitou o azar. Foi usada no Torneio Rio-São Paulo daquele ano, e foi a mais problemática de toda. Quatro duelos contra paulistas, e quatro derrotas: Santos 3 × 0 Flamengo; Flamengo 3 × 4 Corinthians; Flamengo 0 × 1 Palmeiras; e Flamengo 0 × 2 São Paulo. Depois, ainda houve 0 × 0 com o Vasco no Carioca daquele ano. Foi justamente esta sequência que consolidou a percepção de que o terceiro uniforme “não funcionava” para o Flamengo, fazendo a ideia ser temporariamente aposentada.

Mas as forças econômicas do marketing e da publicidade venceram, e a partir de 2008 o uniforme alternativo voltou. Em 2008, a camisa vermelho na parte superior e preto na inferior, teve vida curtíssima, foi utilizada uma única vez, em 29 de março, num 0 × 0 contra o Madureira, pelo Campeonato Carioca. A maldição parecia mantida...

Em 2010, uma camisa azul e amarela em alusão às cores originais utilizadas pelo remo do Flamengo apenas em 1895. Foi utilizada só duas vezes: Vitória 1 × 1 Flamengo no Barradão em 15/05/2010, e Corinthians 1 × 0 Flamengo no Pacaembu em 08/08/2010. A camisa preta de 2011 reforçou a maldição, usada em 3 jogos e com 3 derrotas: pela Copa Sul-Americana, em 19/10/2011 num Flamengo 0 x 4 Universidad de Chile, no Engenhão, e em 26/10/2011 em Universidad de Chile 1 x 0 Flamengo, em Santiago, no Chile; depois, pelo Campeonato Carioca, em 29/02/2012, numa derrota por 1 x 2 para o Boavista no Engenhão. Abandonar o tradicional parecia estar custando bastante caro!

O terceiro uniforme de 2013 foi particularmente importante porque quebrou a sequência imediatamente anterior. Na estreia, em 16 de outubro de 2013, o Flamengo venceu o Bahia por 2 a 1, no Maracanã. Depois empatou com Cruzeiro, Bangu e novamente Bahia. Assim, terminou com 1 vitória e 3 empates, invicto, mas com um desempenho que ainda não era bom.

A camisa de 2014 começou mal — uma derrota por 1 a 0 para o Grêmio — mas finalmente foi a que produziu o resultado que a imprensa passou a tratar como o "fim da maldição": Flamengo 3 x 0 Chapecoense, em 2 de novembro daquele ano. Mas a que realmente acabou com o trauma foi a nova "Papagaio de Vintém" utilizada na temporada 2015/16. Ela entrou em campo 7 vezes, com 4 vitórias.

Em 2022, por exemplo, o terceiro uniforme em listas diagonais exorcisou de vez qualquer maldição. Fez sua estreia numa goleada por 5 a 0 aplicada sobre o Athlético Paranaense, no Maracanã. A curiosidade é que esta camisa doi apresentada para ser a camisa principlal, mas foi ereprovada pelo Conselho Deliberativo. Posteriormente foi reapresentada como terceiro unidorme, e nestas condições foi aprovada.

Apesar de exorcisada a maldição, o desempenho histórico com terceiro uniforme conserva números de aproveitamento bem abaixo das demais camisas, a tradicional ribro-negra e a branca.










terça-feira, 25 de agosto de 2026

A Invasão do Estádio do Algarve!


Excepcional artigo de Paulo Lima para o site Jornal do Fla: https://jornaldofla.com/algarve-mostrou-flamengo-clube-do-mundo/. Eis a abaixo a íntegra do texto:


O Torneio do Algarve dificilmente ocupará um lugar de destaque entre as grandes conquistas da história do Flamengo. Afinal, trata-se de uma competição de intertemporada, com um caráter muito mais preparatório do que competitivo. Ainda assim, há vitórias que valem mais pelo que simbolizam do que propriamente pelo troféu levantado. E foi exatamente essa a sensação que tive ao assistir, infelizmente pela TV, ao Flamengo derrotar o Benfica no Estádio do Algarve.

Dentro de campo, a vitória até teve ingredientes interessantes. Um time praticamente reserva, com afirmação de Wallace Yan e brilho de outros jovens, mostrou personalidade, organização e capacidade de competir diante de um adversário tradicional do futebol europeu. Houve ainda todo o contexto envolvendo a “agressividade dos brasileiros” – como disse a mídia portuguesa – a Prestiani depois do caso com Vini Júnior na Liga dos Campeões. O apito final sacramentou a manutenção da escrita de que o Flamengo nunca perdeu para o Benfica.

E de fato, e aí vem o mais importante. O maior estádio do sul de Portugal era, visual e sonoramente, rubro-negro. O Flamengo jogava contra o maior clube de Portugal e dono de uma grande torcida global, também fruto de uma extensa diáspora lusa. Mas ver as bancadas em maioria de zucas rubro-negros, não só flamenguistas. Não se tratava apenas de um grupo de brasileiros espalhados pelas cadeiras. Era uma torcida organizada, que cantava os noventa minutos, empurrava o time e criava uma atmosfera muito parecida com a que vemos tantas vezes no Maracanã.


Aquilo não aconteceu por acaso. Isso foi resultado de um trabalho silencioso e extremamente competente realizado pelos consulados e embaixadas do Flamengo em Portugal. Porto, Braga, Cascais e Lisboa, solidificam a voz rubro-negras em terras lusas. Para o Algarve, organizaram caravanas, confraternização, batucada com sinalizador, e emularam um Aerofla que ofereceu um espaço de pertencimento para quem decidiu construir a vida longe de casa.

Mais do que reunir pessoas para assistir a uma partida, as embaixadas e consulados ajudam a preservar uma identidade. São eles que fazem com que um jogo do Flamengo na Europa deixe de ser apenas um evento esportivo e se transforme em um reencontro entre brasileiros em uma só unidade, em momentos em que mais e mais nos separamos por polarizações ideológicas. Prova disso também foi a linda série de encontros de embaixadas e consulados do Flamengo na Europa – Braga, Bruxelas, Amsterdã, Paris e Londres – com o ex-goleiro e ídolo Raul Plassmann – tardes e noites históricas de congregação intergeracional em vermelho e preto.

Voltando ao Algarve: a maior beleza daquele sábado foi proporcionar a alegria a muitos dos torcedores presentes que jamais haviam entrado no Maracanã até então. Alguns porque hoje vivem no exterior e deixaram o Brasil há muitos anos. Outros porque, mesmo quando moravam no país, cresceram longe do Rio de Janeiro. Afinal, a maior parte da torcida do Flamengo nunca foi carioca. O clube tornou-se nacional muito antes de pensar em ser internacional.

Quando começamos nossos encontros, imaginávamos que a maioria dos participantes seria formada por cariocas vivendo no exterior. Rapidamente descobrimos que estávamos completamente enganados. Fizemos uma pesquisa recente entre nossos aproximadamente 150 membros e constatamos que mais da metade deles não nasceu no Estado do Rio de Janeiro. Há muitos goianos, mineiros, paulistas, pernambucanos, gaúchos, brasilienses, catarinenses, baianos e pessoas de praticamente todas as regiões do Brasil, refletindo não apenas a geografia da diáspora brasileira, mas atestando a real capilaridade nacional do CRF.

E isso talvez explique por que o Flamengo é um fenômeno tão diferente dos grandes clubes europeus: costuma-se dizer que Real Madrid, Barcelona, Manchester United ou Paris Saint-Germain são marcas globais. E são mesmo. Possuem milhões de simpatizantes espalhados pelo planeta, enorme presença digital e um poder comercial impressionante na Ásia, no Oriente Médio. Mas a internacionalização do Flamengo parece seguir uma lógica distinta.

Ela nasceu genuinamente pelas pessoas. Não foi construída inicialmente por campanhas de marketing ou estratégias de expansão internacional – o que, de fato, seria ainda uma grande ação orquestrada. Ela acompanhou o movimento dos brasileiros pelo mundo. Cada família que saiu do Brasil levou consigo um sotaque, uma receita, uma lembrança... e, muitas vezes, uma camisa rubro-negra.

Foi exatamente isso que apareceu no Algarve: o Flamengo não levou torcida para Portugal. O Flamengo reencontrou uma torcida que já estava lá.

Isso me faz pensar que talvez estejamos diante de um patrimônio ainda pouco compreendido pelo próprio clube. Não duvido, por exemplo, que o Flamengo colocasse mais torcedores em um eventual jogo contra o Paris Saint-Germain em Lyon do que o próprio PSG. Tampouco me surpreenderia vê-lo fazer o mesmo diante do Chelsea em Manchester ou até contra o Real Madrid em San Sebastián. Não porque esses clubes sejam pequenos — evidentemente não são —, mas porque poucos possuem uma comunidade expatriada tão numerosa, tão apaixonada e tão organizada quanto a brasileira.

Há ainda um elemento simbólico que ajuda a explicar por que o Flamengo esteve tão presente no imaginário português. Além da conquista no Algarve, o clube voltou ao centro das conversas esportivas com a confirmação de Jorge Jesus como novo treinador da Seleção Portuguesa, encarregada de reconstruir a equipe após uma Copa do Mundo decepcionante. A escolha recolocou inevitavelmente o Flamengo na pauta, já que o clube foi, segundo o próprio, o lugar em que viveu o auge de sua carreira, conquistando títulos, encantando uma torcida e repetindo inúmeras vezes que nunca foi tão feliz nem se sentiu tão realizado profissionalmente quanto no clube rubro-negro.

O que vimos no Algarve reforça também uma agenda que o Flamengo não pode mais adiar. A atuação exemplar dos consulados e embaixadas em Portugal demonstrou que existe uma rede internacional de torcedores organizada, comprometida e disposta a representar o clube muito além dos noventa minutos de uma partida. Esse patrimônio humano precisa deixar de ser visto apenas como uma iniciativa espontânea da torcida para ser incorporado de forma permanente à estratégia institucional do Flamengo.

Não por acaso, as discussões sobre a reforma do Estatuto do Flamengo, representam uma oportunidade histórica. Se, como vem sendo debatido, a modernização da governança passar pela redução ou extinção de parte das vice-presidências estatutárias, seria o momento ideal para criar uma Diretoria de Consulados e Embaixadas forte, profissional e executiva, capaz de estabelecer uma política permanente de relacionamento com a Nação Rubro-Negra espalhada pelo Brasil e pelo mundo. Infelizmente, nos últimos anos essa agenda acabou ficando excessivamente dependente do voluntarismo de abnegados torcedores, sem que o clube reconhecesse, valorizasse e potencializasse de forma compatível a importância estratégica dessa rede internacional.

Esses torcedores são, evidentemente, consumidores da marca Flamengo. E, com produtos, experiências e programas especialmente desenhados para quem vive fora do Rio de Janeiro — e do Brasil —, representam também um enorme potencial para ampliar receitas e fortalecer economicamente o clube.

Mas reduzir sua importância a uma dimensão comercial seria um erro. Eles são, antes de tudo, os verdadeiros embaixadores do gigantismo rubro-negro. São eles que organizam encontros, caravanas, ações solidárias, recepcionam novos brasileiros, mantêm viva a identidade flamenguista em diferentes países e fazem com que, mesmo a milhares de quilômetros do Maracanã, o Flamengo continue entrando em campo como se estivesse em casa.

Investir nessa rede não é apenas reconhecer um trabalho extraordinário; é fortalecer um dos ativos estratégicos mais valiosos que o clube possui para consolidar sua presença global nas próximas décadas.

Siga Paulo Lima no X: @mengopolis

Torcida do Flamengo lota as arquibancadas do Estádio do Algarve



sábado, 15 de agosto de 2026

FLAMENGO: FENÔMENO POPULAR NACIONAL, CONTRA TUDO E CONTRA TODOS


Aqui está importante material organizado pelo Blog Ser Flamengo. Maravilhoso trabalho resgatando e exaltando as pesquisas independentes de Paulo Tinoco e de Alberto Mussa. Reproduzo abaixo a compilação original de algumas matérias diferentes com conteúdo histórico extremamente relevante para responder à pergunta eterna: "Como e Por Que o Flamengo?".

Participação de Paulo Tinoco no podcast da BraboTV, apresentado por Tulio Rodrigues e Rafa Penido, abriu uma janela rara para entender o Flamengo por um caminho que vai além da bola, da arquibancada e dos títulos. Pesquisador da memória rubro-negra, Tinoco apresentou um trabalho de investigação que cruza o cotidiano do clube com música, teatro, cinema, rádio, comportamento, política e cultura popular até os Anos 1960, mostrando que a grandeza do clube não nasceu apenas de vitórias em campo, mas de uma capacidade quase orgânica de ocupar a cidade, a mídia, as ruas, os discos, os livros e o imaginário do torcedor brasileiro.

O ponto mais forte da conversa está na constatação de que o Flamengo ajuda a explicar a história do Rio e do Brasil, mas a própria história encontra dificuldade para explicar completamente o Flamengo. Essa frase, dita na entrevista em reação ao volume de detalhes trazidos por Tinoco, resume bem o problema. O clube não se tornou popular por um único fato fundador, uma campanha específica ou uma ação isolada de dirigentes. Ele foi se formando como fenômeno por uma soma de elementos: rádio, música, imprensa, carnaval, literatura, personagens, bairros, deslocamentos urbanos, clássicos, mitologias e uma torcida que, desde cedo, demonstrava uma necessidade incomum de se mostrar Flamengo em qualquer circunstância.

Paulo Tinoco

Tinoco explicou que seu trabalho no livro “Flamengo, o Fenômeno Nacional” não segue apenas uma ordem cronológica. Além dos capítulos temporais, há recortes temáticos, como “Fla-Flu, história e música”, em que ele reconstrói a relação inicial entre Flamengo e Fluminense, lembra os quatro rubro-negros que ajudaram a fundar o clube tricolor, cita as primeiras reuniões do Flu na sede do Fla e recupera músicas que mencionam o clássico no título ou na letra. O pesquisador também encontrou referência a um disco lançado na Inglaterra por um maestro que viveu no Rio nos Anos 1950 e gravou uma música instrumental chamada “Fla-Flu”, detalhe que mostra como o clássico atravessou fronteiras antes mesmo da era globalizada do futebol.


O método de Tinoco chama atenção porque foge do colecionismo superficial. Ele fala em “investigação”, em dúvidas que ficavam meses em uma pasta de pendências, em cruzamento de documentos, discos, jornais, memórias orais e acervos pessoais. Esse tipo de pesquisa é o oposto da pressa que domina parte do conteúdo esportivo atual. Não se trata apenas de encontrar uma curiosidade para rede social, mas de reconstruir contexto, autoria, data, circulação e impacto cultural.

Um dos exemplos mais ricos envolve Roberto Paiva e a música “Meu Flamengo, meu Brasil”, lançada após o tricampeonato carioca de 1953, 1954 e 1955. Tinoco lembra que o título de 1955 foi decidido em 4 de abril de 1956, em uma final marcada por drama: o Flamengo venceu o primeiro jogo contra o América por 1 a 0, perdeu o segundo por 5 a 1 e ganhou o terceiro por 4 a 1, com quatro gols de Dida. Roberto Paiva já havia gravado o disco, mas temia que a música virasse fracasso caso o Flamengo perdesse o campeonato. O título veio, a canção foi lançada em 78 rotações e se tornou, para o pesquisador, uma das mais bonitas da história rubro-negra.

A conversa ganha ainda mais força quando Tinoco mostra como uma canção pode carregar documentos sonoros dentro de si. Em “Meu Flamengo, meu Brasil”, a abertura traz o gol de Valido em 1944 na voz de Oduvaldo Cozzi, enquanto o encerramento registra o gol de Dida no tri de 1955 com a narração de Waldir Amaral. A identificação dessa primeira voz, porém, não foi simples. Havia versão atribuída a Antônio Cordeiro, outro narrador importante da época, e a dúvida exigiu consulta a pesquisadores, radialistas antigos e, por fim, a um laboratório de fonética, que confirmou a voz de Cozzi.

Esse detalhe parece pequeno, mas revela o tamanho da responsabilidade de quem trabalha com memória. Uma narração errada, repetida durante anos, altera a assinatura de um momento histórico. Tinoco mostra que preservar o Flamengo não é apenas guardar camisa, foto e taça. É também saber quem narrou um gol, quem compôs uma música, qual disco saiu primeiro, que jornal registrou determinado episódio e como uma obra circulou entre torcedores.

Outro caso impressionante envolve Jackson do Pandeiro. Tinoco contou que uma música inédita chamada “Fla-Flu” foi resgatada a partir de um documento encontrado no setor de censura do Arquivo Nacional. A canção teria sido ensaiada para um disco gravado em 1981, no qual Jackson registrou “Bola de pé em pé”, homenagem ao Flamengo, mas acabou preterida. O documento trazia nome, letra e autores, informações que permitiram cruzar dados com o biógrafo do artista. Depois, o pesquisador recebeu um áudio em que o sobrinho de Jackson cantava a melodia, abrindo caminho para que a música fosse enfim gravada pelo sobrinho-neto do artista.


A TORCIDA QUE SE ANUNCIAVA PELA CIDADE
A parte mais bonita da entrevista aparece quando a pesquisa cultural encontra a formação da torcida. Tinoco lembra uma conversa com Reginaldo Bessa, cantor rubro-negro dos Anos 1960, que explicou por que virou Rubro-Negro. Morador da Voluntários da Pátria, em Botafogo, ele via nos Anos 1940 e 1950 o bonde da torcida indo para o campo da Gávea, uniformizada e cantando, algo que, segundo seu relato, nenhuma outra torcida fazia daquela maneira. A cena foi tão forte que produziu conversão afetiva. Ele não virou flamenguista apenas por causa de um jogador ou de um título, mas porque viu uma massa se comportando como Flamengo antes mesmo de chegar ao estádio.

Esse exemplo ajuda a entender por que a torcida rubro-negra sempre pareceu diferente. Não diferente no sentido arrogante ou abstrato, mas na capacidade de espalhar pertencimento. O Flamengo sempre teve mania de grandeza, mas essa grandeza não nasceu vazia. Ela foi alimentada por músicas tocadas no rádio, por crianças imitando Dida com esparadrapo e número 10 na camisa depois do tri de 1955, por cantores que transformavam vitórias em disco, por torcedores que ocupavam bondes, ruas e arquibancadas como se estivessem anunciando ao mundo uma identidade coletiva.

Tinoco também passa por livros, edições raras e restauração de acervos, como no caso do livro “Histórias do Flamengo”, de Mário Filho, cuja primeira edição saiu nos Anos 1940, foi relançada em 1963 e teve novas versões posteriores. O pesquisador contou que mandou restaurar um exemplar antigo, com desmontagem, higienização e tratamento contra acidificação, pagando mais pelo restauro do que pelo próprio livro, porque a preservação garantiria vida longa ao material. O gesto explica muito sobre o trabalho: memória não se protege com discurso, mas com tempo, dinheiro, método e paciência.

No fim, a participação de Paulo Tinoco na BraboTV confirma que o Flamengo não pode ser estudado apenas como clube de futebol. Ele precisa ser lido como fenômeno cultural. A torcida que cantava no bonde, o disco de Roberto Paiva, a narração investigada em laboratório, a música esquecida de Jackson do Pandeiro, o Fla-Flu gravado na Inglaterra e o livro restaurado para durar séculos contam uma mesma história por caminhos diferentes. O Fla venceu muito, mas também foi cantado, narrado, impresso, restaurado, ouvido e repetido. Talvez seja por isso que sua grandeza pareça difícil de explicar. Ela não está em um único lugar. Está espalhada em todas as formas pelas quais o Brasil aprendeu a falar, cantar e imaginar futebol.


COMO O FLAMENGO SE TORNOU UM FENÔMENO NACIONAL
Poucas frases são tão repetidas no futebol brasileiro quanto a ideia de que o Flamengo se tornou popular graças à mídia. A tese atravessou décadas, ganhou diferentes versões e continua aparecendo em debates esportivos, redes sociais e discussões entre torcedores. O pesquisador Paulo Tinoco apresentou uma série de argumentos históricos para contestar essa narrativa e defender justamente o contrário: a imprensa não criou o Flamengo. Foi o crescimento espontâneo do clube que levou jornais, rádios, artistas e empresas a buscarem associação com a marca rubro-negra.

Na conversa conduzida por Rafael Penido, Tulio Rodrigues e Cristiano Oliveira, mergulhou-se em episódios pouco conhecidos da história do clube, revelando como fatores esportivos, sociais, culturais e midiáticos se combinaram para transformar o Flamengo em um fenômeno popular já nas décadas de 1930 e 1940.


Ao responder se o Flamengo seria um “fruto da mídia”, Tinoco lembrou que críticas ao crescimento rubro-negro existem há quase um século. Segundo ele, a tentativa de reduzir a dimensão do clube por meio de narrativas depreciativas acompanha o Fla desde que sua torcida começou a se destacar numericamente. O pesquisador recordou uma fotografia presente em seu livro, tirada após o bicampeonato carioca de 1954, conquistado em 1955. Nela, uma faixa carregada pelos torcedores trazia a frase: “Flamengo, este é o que faz inveja”. Para Tinoco, aquele registro demonstra que a resistência ao crescimento rubro-negro não é recente, mas uma reação histórica à popularidade alcançada pelo clube.

Na avaliação do autor, a lógica foi inversa àquela frequentemente apresentada pelos críticos. A imprensa não escolheu o Flamengo para torná-lo gigante. O interesse da mídia surgiu porque o Flamengo já mobilizava multidões, gerava audiência e despertava enorme atenção popular. Por isso, peças teatrais, programas de rádio, produtos comerciais e campanhas publicitárias passaram a utilizar o nome rubro-negro como elemento de atração de público.

O Flamengo era popular antes da televisão! Um dos pontos centrais da argumentação de Tinoco está justamente no período anterior à televisão. Se a popularidade do Flamengo fosse resultado exclusivo dos meios de comunicação modernos, seria difícil explicar a expansão de sua torcida nas décadas de 1930 e 1940.

Segundo o pesquisador, uma sequência de acontecimentos ajudou a impulsionar a presença do clube no imaginário nacional. O primeiro deles ocorreu em 1932, durante a famosa Travessia Rio-Santos realizada por remadores rubro-negros. O episódio mobilizou o país inteiro, ganhou cobertura intensa da imprensa e transformou os atletas em celebridades nacionais. Ao retornarem ao Rio de Janeiro, foram recebidos como heróis por uma multidão que tomou a Praça Mauá.

Na sequência, vieram outros fatores decisivos. A expansão do rádio, o surgimento da Rádio Nacional, a gravação do hino rubro-negro em disco, o tricampeonato estadual dos Anos 1940 e, posteriormente, a inauguração do Maracanã criaram um ambiente favorável para que o Flamengo ampliasse sua presença social. A diferença, segundo Tinoco, é que a audiência já existia. A mídia apenas passou a acompanhar um fenômeno que crescia diante dos olhos do país.

Outro aspecto relevante abordado na entrevista foi a origem de diversos apelidos utilizados de forma pejorativa contra o Flamengo. Tinoco relembrou que, quando o clube se instalou na Gávea em 1938, a região ainda era considerada distante e pouco valorizada. Ao mesmo tempo, surgia nas proximidades a Favela da Praia do Pinto.

A partir desse contexto, rivais passaram a associar o Flamengo às camadas populares de forma depreciativa. O pesquisador destacou que existem inclusive músicas registradas em sua pesquisa histórica com conteúdo explicitamente preconceituoso contra a torcida rubro-negra. Um exemplo citado foi uma antiga provocação que dizia: “Um time de urubu queria ser campeão”. Em outra ocasião, torcedores do Fluminense chamaram o Flamengo de “torcida do Dragão”, numa referência a uma marca popular de utensílios domésticos. A intenção era clara: associar o clube às classes trabalhadoras em um período em que determinados segmentos do futebol ainda viam a origem popular como motivo de discriminação. Curiosamente, aquilo que começou como tentativa de ofensa acabou se transformando em um dos principais símbolos de identidade rubro-negra. O que antes era utilizado como ataque passou a representar orgulho, pertencimento e conexão popular.

Tinoco também apresentou outro elemento fundamental para compreender o crescimento da torcida: a relação do Flamengo com a cultura popular brasileira. Segundo ele, o rádio produziu uma geração de ídolos nacionais que ajudou a ampliar a visibilidade do clube. Orlando Silva, Ângela Maria, Carmen Miranda e diversas personalidades da música declaravam publicamente sua paixão pelo Flamengo. Revistas da época frequentemente perguntavam aos artistas para qual clube torciam. Em muitos casos, a resposta era a mesma. O pesquisador argumenta que a identificação de figuras extremamente populares com o clube Rubro-negro produziu um efeito multiplicador junto aos admiradores desses artistas.

Ao mesmo tempo, dirigentes como José Bastos Padilha implementavam iniciativas que hoje seriam classificadas como ações modernas de marketing. Campanhas promocionais, concursos populares, eventos públicos e estratégias de aproximação com a população ajudaram a consolidar a marca rubro-negra muito antes de esse conceito se tornar comum no futebol brasileiro.

Talvez a principal contribuição da pesquisa de Paulo Tinoco seja mostrar que a história do Flamengo não pode ser reduzida a explicações simplistas. O crescimento da torcida rubro-negra não aconteceu por um único motivo, tampouco pode ser atribuído exclusivamente à ação da imprensa. O processo envolveu conquistas esportivas, personagens carismáticos, transformações sociais, inovação administrativa, presença cultural e uma capacidade singular de dialogar com diferentes segmentos da população brasileira.

Ao reconstruir essa trajetória, o autor apresenta uma conclusão que desafia uma das teses mais repetidas do futebol nacional. O Flamengo não se tornou popular porque apareceu na mídia. A mídia passou a falar cada vez mais do Flamengo porque o clube já havia se transformado em assunto permanente nas ruas, nos rádios, nos carnavais, nos estádios e na vida cotidiana de milhões de brasileiros. Entender essa diferença é fundamental para compreender por que, mais de um século após sua fundação, o Flamengo continua sendo tratado não apenas como um clube de futebol, mas como um fenômeno cultural de dimensão nacional.


NOVOS CRITÉRIOS PARA MEDIR GRANDEZA RUBRO-NEGRA
Alberto Mussa, escritor premiado e rubro-negro declarado, lançou “Flamengo contra todos”, seu primeiro livro dedicado ao futebol, publicado pela Civilização Brasileira. A obra parte de uma ambição que combina provocação, método e paixão: analisar o desempenho histórico do Flamengo contra seus adversários e sustentar, com critérios próprios, por que o clube pode ser chamado de “maior time do mundo”.

A proposta é ousada não apenas pela conclusão que anuncia, mas pelo caminho escolhido. Mussa não promete uma declaração de amor disfarçada de estatística, nem um almanaque de resultados empilhados. A sinopse indica um livro que deseja discutir quais competições realmente importam, como medir grandeza no futebol e por que certas decisões cartoriais não deveriam se sobrepor ao que o campo, a época e a sociedade reconheceram como relevante.

Mussa não chega ao tema como aventureiro de ocasião. Nascido no Rio de Janeiro, autor de romances, ensaios e obras de fôlego, ele tem trajetória literária reconhecida, com prêmios como Machado de Assis da Fundação Biblioteca Nacional e Oceanos 2015, além de uma produção marcada pela mistura entre rigor narrativo, pesquisa, mitologia, história e cultura brasileira. Ao lado de Luiz Antônio Simas, escreveu “Samba de enredo: história e arte”, obra que já demonstrava seu interesse por formas populares de memória, pertencimento e disputa simbólica. Agora, ao entrar no futebol pelo Flamengo, Mussa se aproxima de um terreno em que paixão e método costumam ser tratados como inimigos, quando talvez sejam apenas forças que precisam ser postas sob vigilância uma da outra.

A força inicial de “Flamengo contra todos” está no fato de assumir seu ponto de partida. Mussa não se apresenta como observador neutro, distante, asséptico, fingindo que o futebol pode ser lido como planilha sem cheiro de arquibancada. A sinopse deixa claro que ele é flamenguista de longa data, torcedor formado nas arquibancadas do Maracanã, mas também indica que a paixão será submetida a princípios analíticos. Esse detalhe importa porque a discussão sobre grandeza no futebol brasileiro quase sempre cai em dois vícios: de um lado, a torcida que usa qualquer critério desde que favoreça seu clube; do outro, a falsa objetividade que escolhe previamente quais títulos valem e depois veste a decisão com roupa acadêmica.


O livro parece mirar exatamente essa zona de conforto. Ao defender que termos como campeonato, copa, taça ou torneio são apenas nomes, Mussa desloca o debate para critérios mais consistentes: estrutura da competição, regularidade, composição dos participantes e expectativa gerada em jogadores e torcedores. Essa abordagem é decisiva para enfrentar uma bagunça histórica do futebol brasileiro, especialmente em um país onde a CBF, as federações, os clubes, a imprensa e até a Justiça já alteraram, reinterpretaram ou reembalaram competições conforme conveniências políticas, comerciais e memoriais. O problema nunca foi apenas saber como um torneio foi batizado. A pergunta mais honesta é entender qual competição, em cada período, reuniu os principais clubes, mobilizou o país e produziu reconhecimento esportivo real.

A sinopse cita debates clássicos sobre 1967, 1971 e 1987, três datas que dizem muito sobre a dificuldade brasileira de organizar a própria memória futebolística. Em 1967, a convivência entre competições nacionais e interestaduais ajuda a embaralhar conceitos. Em 1971, a criação do Campeonato Brasileiro como marca institucional frequentemente tenta rebaixar torneios anteriores que já tinham dimensão nacional. Em 1987, a Copa União virou o caso mais emblemático de como o campo pode produzir uma verdade esportiva que o cartório tenta complicar por décadas.

É nesse ponto que “Flamengo contra todos” pode incomodar. Se Mussa de fato privilegia aquilo que aconteceu em campo e seu impacto real na história do jogo, a discussão deixa de ser meramente jurídica ou burocrática. A pergunta deixa de ser “qual nome a entidade deu?” e passa a ser “qual competição representava, naquele tempo, o ápice do futebol brasileiro?”. Essa mudança parece simples, mas derruba muitos castelos de narrativa. O futebol nacional é cheio de certezas frágeis, sustentadas por repetição, clubismo, caneta de dirigente e conveniência midiática. Um livro que pretende reorganizar critérios tende a produzir incômodo justamente porque obriga o leitor a dizer antes quais são as regras do debate.

No caso do Flamengo, esse tipo de abordagem tem efeito direto. O clube sempre foi vítima e beneficiário de narrativas, como qualquer gigante popular. Mas 1987 é a ferida mais evidente. O Rubro-Negro ganhou em campo uma competição que mobilizou o país, reuniu a elite do futebol brasileiro e produziu memória coletiva. Depois, viu a discussão ser arrastada por regulamentos, ações judiciais, decisões contraditórias e disputas de legitimidade. Se “Flamengo contra todos” enfrentar esse tema pelo prisma da relevância esportiva, e não apenas pela moldura documental, o livro entrará em uma disputa que ainda hoje move torcedores, jornalistas, juristas e dirigentes.

Outro elemento interessante é o recorte anunciado: o desempenho histórico do Flamengo frente a seus adversários. Não se trata apenas de contar taças, mas de observar o clube em relação ao outro. Essa escolha é boa porque futebol não é grandeza abstrata. Um time se mede contra rivais, campeonatos, épocas, públicos, calendários e contextos. O Flamengo não se tornou gigantesco sozinho diante do espelho. Cresceu enfrentando Fluminense, Vasco, Botafogo, Corinthians, Palmeiras, São Paulo, Atlético Mineiro, Grêmio, Internacional, Santos, Cruzeiro, clubes argentinos, europeus, seleções simbólicas e uma imprensa que muitas vezes tentou explicar o fenômeno rubro-negro por atalhos simplificadores.

O título “Flamengo contra todos” funciona porque conversa com uma sensação antiga da torcida. O flamenguista se acostumou a se perceber em disputa permanente, às vezes contra adversários reais, às vezes contra narrativas, entidades, regulamentos, arbitragens, tribunais, manchetes e ressentimentos. Mas o risco de um título assim seria cair na autopiedade, na ideia preguiçosa de perseguição eterna. A expectativa criada pela sinopse é outra: transformar essa percepção em análise, enfrentando dados, critérios e resultados. Se cumprir essa promessa, o livro poderá servir tanto ao torcedor que deseja munição intelectual quanto ao leitor que quer discutir futebol brasileiro sem aceitar respostas fabricadas.

O ponto mais promissor de “Flamengo contra todos” é assumir a tensão entre paixão e análise. No futebol, muita gente tenta esconder a camisa para parecer séria. Outros vestem a camisa justamente para dispensar qualquer compromisso com coerência. Mussa parece propor outro caminho: não esconder que ama o Flamengo, mas também não entregar esse amor ao improviso do senso comum. Essa postura é mais honesta e, paradoxalmente, pode ser mais rigorosa, porque o autor já revela de onde fala. O leitor saberá que há um rubro-negro escrevendo, mas poderá cobrar dele consistência, critério e respeito aos próprios parâmetros.

Há também um aspecto cultural importante. O Flamengo é mais do que um clube vencedor. É um fenômeno popular que atravessa música, rádio, jornalismo, literatura, política, sociologia urbana, televisão, periferia, subúrbio, elite, diáspora nordestina, Maracanã e consumo de massa. Um livro sobre grandeza rubro-negra que se limita a contar títulos fica pequeno diante do próprio objeto. A sinopse sugere que Mussa pretende ir além do inventário, discutindo o peso das competições e o impacto real do jogo na sociedade. Isso é fundamental porque, no Brasil, futebol não é apenas campeonato. É memória pública.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

Sergio Hernández: A energia e a conexão do Maracanã, eu só havia sentido antes em La Bombonera



Sergio Santos Hernández, "El Oveja", é uma figura emblemática do esporte argentino. Ele é, sem dúvida alguma, um dos treinadores de basquete mais influentes da história da Argentina, tanto em nível de clubes quanto na seleção nacional. Nascido em 1º de novembro de 1963 em Bahía Blanca, uma cidade com profunda tradição no basquetebol, Hernández construiu uma carreira que o consolidou como uma referência tática revolucionária, formador de equipes e líder de gerações de jogadores.

Sua carreira como treinador começou na década de 1990 e, desde então, deixou uma marca indelével em alguns dos clubes mais prestigiados da Argentina. O auge de sua trajetória foi a frente de Estudiantes de Olavarría, Boca Juniors e Peñarol de Mar del Plata, equipes pelas quais conquistou inúmeros títulos e consolidou uma reputação como estrategista vencedor. Entre seus principais feitos em clubes destacam-se: 6 campeonatos da Liga Nacional Argentina de Basquete (2000, 2001, 2004, 2010, 2011 e 2012), colocando-se entre os técnicos mais bem-sucedidos da história do país, 2 títulos da Liga das Américas (2008 e 2010), e uma Liga Sul-Americana de Clubes (2001). Seu sucesso não reflete apenas sua capacidade de montar equipes fortes, mas também sua visão profunda de jogo, adaptação a diferentes contextos e habilidade para liderar projetos competitivos e duradouros.

Porém, o impacto mais reconhecido de Hernández se deu com o seu trabalho a frente da Seleção Argentina de Basquete. Ele foi técnico principal em dois períodos decisivos: 2005–2010 e 2015–2021, além de ter atuado como assistente em 2012. No total, dirigiu 116 partidas oficiais, o maior número na história da seleção masculina da Argentina, alcançando o melhor aproveitamento (72,4%: com 84 vitórias e 32 derrotas). Entre seus marcos mais importantes estão: Medalha de Bronze nos Jogos Olímpicos de Pequim 2008, Vice-campeonato na Copa do Mundo 2019 na China, em uma campanha histórica que levou a seleção à final do torneio, sendo derrotada somente pela Espanha, Medalha de Ouro nos Jogos Pan-Americanos de Lima em 2019, e participações olímpicas sob seu comando em Pequim 2008, Rio de Janeiro 2016 e Tóquio 2020.

A influência de Sergio “Oveja” Hernández vai muito além dos títulos. Para o esporte, ele foi um construtor de projetos sólidos e duradouros, responsáveis por manter a Argentina constantemente entre as melhores seleções do mundo, foi um mentor de gerações, contribuindo para a formação técnica e humana de inúmeros jogadores, foi um ícone de profissionalismo e evolução estratégica, combinando disciplina, planejamento, inteligência tática e capacidade de adaptação, e foi uma ponte entre eras, garantindo a continuidade do sucesso argentino após a lendária Geração de Ouro e preparando novos ciclos competitivos.

Quando Hernández deixou o comando da seleção após Tóquio 2020, ele encerrou seu ciclo com uma das marcas mais importantes da história do basquete argentino: recorde de vitórias, identidade de jogo e continuidade de alto rendimento. Grandes figuras da seleção reconheceram publicamente sua liderança e impacto. Sergio "Oveja" Hernández não foi apenas um treinador vencedor, mas um verdadeiro pilar do basquete argentino. Sua carreira, repleta de títulos, momentos históricos e transformações estratégicas, faz dele uma figura essencial para compreender por que a Argentina foi — e continua sendo — uma potência mundial no basquete.

Com toda esta bagagem, Oveja chegou ao Flamengo, para assumir a equipe de basquete, tendo o anúncio oficial sido feito em 12 de fevereiro de 2025, quando o Flamengo comunicou a saída de Gustavo De Conti, e a entrada de Sergio em seu lugar. Sua estreia como técnico do Flamengo aconteceu em 28 de fevereiro daquele ano. Em sua primeira temporada, levou o basquete do clube a conquistar a Liga dos Campeões das Américas naquele ano de 2025.

Em dezembro de 2025, quando o futebol masculino do Flamengo perdeu a final da Copa Intercontinental de Clubes para o Paris St-Germain, nos pênaltis, ele ainda era o treinador do basquete rubro-negro. E suas palavras após a derrota tiveram uma enorme repercussão na Argentina. A mídia esportiva argentina repercutiu as palavras do treinador:

Destacando matéria do site BasquetPlus: "Não contente com a América do Sul, o Flamengo partiu para o cenário internacional. Primeiro, chegou às oitavas de final do Mundial de Clubes, perdendo um jogo emocionante para o Bayern de Munique. Mais recentemente, terminou em segundo lugar na Copa Intercontinental, perdendo a final nos pênaltis para o super PSG de Luis Enrique. Na sequência, Sergio Hernández, o treinador argentino de basquete do Flamengo, compartilhou em seu Instagram que havia se tornado fã do time: "Um ano incrível chegou ao fim para o futebol do Flamengo. Com a dor compreensível de ter chegado tão perto, perdendo a final do Mundial de Clubes para o PSG, mas também com imenso orgulho do que este time representa. Sou torcedor do Boca Juniors, isso não mudou. Mas desde que cheguei ao Flamengo, nasceu uma profunda admiração por este clube, seu povo e sua identidade. Estive no Maracanã assistindo a um jogo ao vivo e senti algo muito especial. Aquela energia e aquela conexão que, para mim, eu só havia sentido antes na Bombonera".

"A energia e a conexão do Maracanã, eu só havia sentido antes em La Bombonera"
Sergio Hernández, "El Oveja"

Seguindo as palavras de Hernandez em sua rede social: "Orgulhoso de compartilhar o clube e o cargo com Felipe Luís, um treinador que trabalha silenciosamente em tempos de barulho, com profissionalismo e humanidade. E uma alegria pessoal: vestir as mesmas cores que Agustín Rossi, um amigo e entusiasta do basquete antes do futebol. Obrigado, Flamengo. Orgulhoso de estar aqui".




sábado, 26 de abril de 2025

O QUE É O FLAMENGO










QUAL A DIMENSÃO DO FLAMENGO?

"A gente não gosta de falar dos outros, porque nós já temos muitos problemas. Isso aqui realmente é pressão e precisa ter muito cabelo no peito, porque não é qualquer um que consegue trabalhar. Todo dia tem uma onda. É um clube que vende jornais, tem 4 ou 5 páginas por dia. Uma dor de dente de um jogador dá duas páginas de jornal. Realmente é uma cobrança fora de qualquer coisa já vista, que eu já vivi no futebol"

Paulo Pelaipe - Diretor Executivo de Futebol do Flamengo
declaração em 29/out/2013 para o programa Dose Dupla, da Rádio Gaúcha, AM 600 de Porto Alegre
Detalhe: Pelaipe anteriormente tinha trabalhado por muitos anos como dirigente do Grêmio, e também no Corinthians



"Poucas coisas são maiores do que fazer parte de um gigante como o Flamengo. Ali tudo se encaixa com uma paixão desenfreada, com intensidade. Duvido que existam muitos lugares no mundo que sejam semelhantes"

Jordi Guerrero - espanhol foi Auxiliar de Domenec Torrent no Flamengo
declaração em 25/abr/2021 em entrevista para o Portal Ara, da Catalunha (www.ara.cat)
Ele era então, em 2021, o treinador do Girona, na 2ª Divisão do Campeonato Espanhol

Declaração original em catalão: "Hi ha poques coses més grans que formar part d’un transatlàntic com el Flamengo. Allà tot s’encaixa amb una passió desmesurada, amb intensitat. Dubto que hi hagi gaires llocs al món que sigui semblant".



"Eu costumava dizer que 1 ano no Benfica equivalia a 3 anos no Shakhtar Donetsk. Aqui, 1 mês no Flamengo equivale a 1 ano no Benfica e a 6 anos no Shakhtar Donetsk"

Josó Boto - português, Diretor de Futebol no Flamengo
declaração dada em 05/abr/2025
Antes de trabalhar no Flamengo, Boto trabalhou no Benfica, de Portugal,
no Shakhtar, da Ucrânia, no Paok, da Grécia, e no Osijek, da Croácia



"O Flamengo é o ápice das emoções. É você viver à flor da pele. Sempre "o que vai acontecer?". Mas também a realização da maioria dos brasileiros. Mesmo quem não é flamenguista está envolvido. O Flamengo é uma das melhores páginas da minha vida, uma das melhores coisas que o futebol tem para viver. Talvez eu não imaginasse que fosse tão especial e mexesse tanto comigo como mexe"

David Luiz - zagueiro, em entrevista concedida em 17/11/2022




A GRANDEZA DO FLAMENGO:





Uma história com momentos inesquecíveis, como os 40 dias de sonho e A Conquista do Mundo. E recheada de heróis, como Zico e Júnior. E sobretudo, uma história destemida como 1987. Mas sempre em ebulição, é só ler: 1981, um ano como qualquer outro.



UMA POTÊNCIA OLÍMPICA

É o PESO DE NOMES como Maria Lenk, Kanela, Algodão, Buck, Isabel, Jacqueline, Marquinhos Abdalla, Carioquinha, Ricardo Prado, Patrícia Amorim, Luísa Parente, Bernard, Tande, Pipoka, Ratto, Josuel, Oscar Schmidt, Fernando Scherer, Daniele Hipólito, Virna, Leila, Jade Barbosa, Diego Hipólito, Marcelinho Machado, César Cielo, Jade Barbosa, Flávia Saraiva, Rebeca Andrade, Isaquías Queiroz, o "Deus da Raça" Olivinha, e tantos outros que fizeram e fazem os flamenguistas terem orgulho desta maravilhosa tradição como Maior Clube Polidesportivo do Mundo, não só de futebol.









O PESO DA MARCA FLAMENGO

AUTOMOBILISMO / FUTEBOL AMERICANO / e-SPORTS - Flamengo em tudo que é lugar: