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segunda-feira, 29 de dezembro de 2025

Flamengo, Campeão Carioca de 1974: a afirmação definitiva do garoto Zico, o Galinho


Mais uma maravilhosa história contada com maestria e envolvente narrativa por Emmanuel do Valle, na minha opinião, o melhor cronista sobre história do Flamengo de todos os tempos, que assim narrou tais detalhes em seu blog Flamengo Alternativo:


A conquista do Campeonato Carioca de 1974 pelo Flamengo, sacramentada diante do Vasco num Maracanã lotado, tem pontos em comum com inúmeras outras glórias rubro-negras. Foi levantada com um time repleto de pratas da casa, com um técnico também feito em casa, e sem que o time partisse como favorito, além de enfrentar vários contratempos. Mas tem seu diferencial. Foi, entre tantas outras coisas, um título especial para dois ídolos da primeiríssima prateleira da história do clube: Zico, enfim titular da camisa 10, e Júnior, estreando como profissional. E, como se não bastasse, também foi o único na breve trajetória de Geraldo "Assoviador".

Desfalcado de Liminha e Doval, esse foi o time que conquistou o título
carioca contra o Vasco em 1974. Em pé: Renato, Júnior, Jaime, Luís Carlos,
Zé Mário e Rodrigues Neto. Agachados: Paulinho, Geraldo, Édson, Zico e Julinho


O Campeonato Carioca de 1974 seria o último do antigo Estado da Guanabara. Criada em 1960, quando da transferência do Distrito Federal (ou seja, da capital do país) do Rio de Janeiro para Brasília, aquela unidade federativa de vida curta havia servido para preservar o status de cidade-estado do município do Rio de Janeiro, mas já tinha data marcada para sumir do mapa: a preparação para a fusão com o antigo estado do Rio de Janeiro, que tinha Niterói como capital, seguia a todo vapor e estava prevista para ser oficializada em março de 1975.

Em ano de Copa do Mundo, o calendário empurrou os estaduais para o segundo semestre, tendo início em agosto. Porém, o Flamengo que conquistaria o título carioca começou a nascer ainda no início daquele ano, quando Zagallo, técnico do Flamengo e da Seleção Brasileira, tirou licença do cargo na Gávea para se dedicar à preparação do escrete canarinho para o Mundial da Alemanha Ocidental. O time, então, passou para as mãos de Joubert Meira, ex-lateral-direito rubro-negro dos anos 1950 e 1960, que vinha dirigindo as categorias de base do clube.

Mineiro de Tombos, 38 anos de idade, Joubert era ele próprio cria rubro-negra. Como jogador, foi promovido dos juvenis por Manuel Fleitas Solich, estreando em 1955 e passando a titular dois anos depois com a saída de Tomires. Por seis temporadas foi o dono da posição até a chegada de Murilo, no início de 1963, após a qual foi deslocado para a zaga central nos dois últimos anos da carreira. Penduradas as chuteiras, foi logo trabalhar na base, peneirando e lapidando talentos com o olhar clínico de quem conhecia profundamente o Flamengo.

Joubert Meira, comandante prata da casa

Assim, era natural que o novo técnico preferisse apostar nos garotos que conhecia da base. No início do ano foram dispensados os laterais Moreira e Mineiro, os zagueiros Fred e Tinho, além de dois medalhões trazidos para o Brasileiro de 1973: os atacantes Sérgio Galocha (ex-Internacional) e Toninho Guerreiro (ex-Santos). Quem também ia embora, mas com honras, era o lendário zagueiro paraguaio Reyes, que ganhou passe livre e um comovente jogo de despedida antes de voltar a seu país para defender o Olimpia.

A necessidade de se respirar novos ares era imperiosa na Gávea em vista da fraquíssima campanha no Brasileiro de 1973, quando, mesmo contando com um bom punhado de craques de primeira linha do futebol brasileiro, o time dirigido por Zagallo sequer havia conseguido se colocar entre os 20 clubes de melhor campanha que avançariam para a segunda fase, chegando a amargar uma série de 7 partidas sem vencer, antes de terminar a competição num vexatório 24º lugar entre 40 clubes, somando mais derrotas (13) que vitórias (11).

Com isso, no novo Fla de Joubert que disputaria o Brasileiro de 1974 ganharam espaço garotos como o goleiro Cantarele (que se tornaria titular quando Renato foi servir à Seleção), o lateral Nei, os zagueiros Jaime e Rondinelli, os meias Geraldo, Léo e Zico (que, além de titular indiscutível, passava a ser o novo dono da camisa 10), o centroavante Rui Rei e o ponta Julinho. A única novidade vinda de fora era o quarto-zagueiro Luís Carlos, ex-Corinthians e com passagem pela Seleção, trazido para o lugar de Reyes.

Por outro lado, nomes como o zagueiro Chiquinho Pastor, o meia Afonsinho e o ponta Rogério, que haviam terminado 1973 como titulares de Zagallo, tinham espaço sensivelmente reduzido na equipe de Joubert, assim como Dario e Doval – o 9 e o 10 da temporada anterior – passavam agora a disputar a mesma camisa. Sem falar, é claro, em Paulo Cézar Caju, o astro maior daquele elenco, mas que, por ser nome imprescindível na Seleção Brasileira, seria desfalque permanente no time rubro-negro durante o Brasileiro. O time agora giraria em torno de Zico.

Na pré-temporada o time obteve resultados animadores, principalmente uma sensacional goleada de 5 a 1 sobre o Corinthians de Rivelino no Maracanã. E na primeira fase do Brasileiro, a campanha foi ainda mais encorajadora: o time fez a segunda melhor campanha geral entre os 40 clubes (atrás apenas do Grêmio), tendo permanecido 14 jogos invicto a partir da estreia e sofrido apenas duas derrotas, com 12 vitórias e 5 empates em 19 jogos. Além disso, observando jogo a jogo, colheu resultados expressivos, sobretudo sob a perspectiva histórica.

No Maracanã, o Fla passou invicto por todos os clássicos cariocas, venceu América (2 a 1) e Botafogo (2 a 0), além de bater o Grêmio (1 a 0, golaço de Zico) pela primeira vez na história num jogo de competição. Já como visitante, superou um bom time do Bahia na Fonte Nova (2 a 0), arrancou um empate com o forte Internacional no Beira Rio (1 a 1) e derrotou o Atlético Paranaense em Curitiba (2 a 1) e o Avaí em Florianópolis (1 a 0), dois resultados que o clube só conseguiria repetir pelo Campeonato Brasileiro muitas décadas depois.

Embora até os adversários admitissem que o novo Flamengo era mais ofensivo que o de 1973, Joubert, humilde, negava qualquer transformação tática: "Não houve mudança no sistema de jogo. O time continua jogando da mesma forma como se fosse Zagallo o técnico. Procuramos atacar e defender em bloco", dizia à Revista Placar, antes de exaltar seus pupilos: "O que está acontecendo é que a garotada entra em campo com disposição para molhar a camisa. No fundo, eles sabem que jogando bem estarão defendendo seu próprio futuro", atribuía.

Na segunda fase, os 24 clubes classificados foram divididos em quatro grupos de seis, e só o primeiro colocado de cada um avançava. E foi nessa fase que o Fla sucumbiu, em grande parte devido a lesões de jogadores-chave: Zico ficou de fora alguns jogos, Doval só atuou na estreia contra o Guarani, e até o volante Liminha, que jogara a primeira fase inteira, foi baixa na derrota para o Palmeiras (1 a 3) no Pacaembu. O time de Joubert ainda tropeçaria na Fonte Nova contra o Bahia (1 a 1) e no Maracanã contra o Cruzeiro (1 a 3), que passou às finais.

Para piorar, o título acabou nas mãos do Vasco, que fizera campanha discreta na primeira fase e era o menos cotado entre os quatro finalistas. De todo modo, o desempenho rubro-negro, bem superior ao de 1973, apontava o caminho da renovação. No Prêmio Bola de Prata da Revista Placar, o Fla teve cinco nomes entre os cinco melhores de cada posição: Jaime (beque-central), Luís Carlos (quarto-zagueiro), Rodrigues Neto (lateral-esquerdo), Paulinho (ponta-direita) e Zico (ponta-de-lança), que levou a Bola de Ouro como o melhor jogador do torneio.

O desempenho individual de Zico, aliás, evidenciava o êxito da aposta no garoto de 21 anos de idade para ser o novo dono da camisa 10. Presente em 19 das 24 partidas do time, marcou 12 gols e só saiu de campo derrotado uma vez, contra o Cruzeiro na segunda fase. Nos outros três jogos que o Fla perdeu no torneio, ele foi ausência sentida. Com isso, sua nota média – 8,74 – superou por larga margem as dos principais concorrentes pela Bola de Ouro: o zagueiro chileno Figueroa, do Internacional (8,22), e o goleiro Joel Mendes, do Vitória (8,09).



O CAMPEONATO CARIOCA

Nos primeiros dias de agosto de 1974 era dado o pontapé inicial para o Campeonato Carioca daquele ano, que teria, como nos dois anos anteriores, 12 participantes e três turnos mais a fase final. O torneio começava com América e Flamengo bem cotados, e Botafogo e Fluminense como incógnitas, mas o favorito era mesmo o Vasco. Campeão brasileiro, o cruzmaltino dirigido pelo paulista Mário Travaglini não tinha um time brilhante, mas esbanjava malandragem e experiência, sobretudo na defesa, em nomes como o goleiro Andrada, o lateral Fidélis e os zagueiros Miguel e Moisés. Havia ainda a lucidez do meia Zanata e a versatilidade do ponta Luís Carlos (dois ex-rubro-negros), além de um jovem goleador que se firmava: Roberto.

Do América, dizia-se que praticava o futebol mais vistoso do Rio, bem ao estilo de seu treinador, o velho craque Danilo Alvim, o "Príncipe". Os rubros também tinham seu goleador revelação: Luisinho - irmão de César Maludo e Caio Cambalhota - que perdera a artilharia do Brasileiro para Roberto por apenas um gol, mas tendo feito menos jogos. Era um time de estilistas, mas que dentro e fora de campo também tinha sangue quente: chegava para o Carioca vindo de uma crise entre elenco e diretoria devido ao atraso de salários, o que chegou a motivar uma greve dos jogadores.

Detentor do título carioca, o Fluminense era dirigido por um técnico virtualmente desconhecido, Carlos Alberto Parreira, e liderado em campo por um craque às portas da despedida: o canhotinha Gerson. Já o Botafogo, por sua vez, era comandado por Zagallo – que deixara o Fla em definitivo no fim de abril, mas só assumiria o cargo em General Severiano após a Copa do Mundo, dizendo ter assimilado as lições holandesas do Mundial. Porém, com Jairzinho em má fase, os alvinegros remanejavam suas fichas para o lateral Marinho Chagas.


Entre os pequenos, a sexta força era o Olaria, vindo de boas campanhas desde o início da década, mas a grande aposta era o Madureira treinado pelo ex-meia rubro-negro (e revelado no próprio Tricolor Suburbano) Nelsinho Rosa, e que fazia ótimo trabalho de base – seria campeão carioca de juvenis naquele ano. Bonsucesso, São Cristóvão e Campo Grande entravam almejando não ficar entre os quatro que seriam eliminados ao fim do primeiro turno. Já o Bangu vivia fase paupérrima desde a saída da família Andrade do comando do clube, em 1969.

Por fim, havia o Flamengo, cujo desafio era levantar a cabeça após a desilusão no Brasileiro. Para isso, reforçava a aposta na base e dispensava medalhões. Em julho, Paulo Cézar Caju foi negociado com o Olympique de Marselha. Dias antes da abertura do Carioca, Chiquinho Pastor voltou ao Botafogo. Também naquele início de agosto, o contrato de Afonsinho expirou, e o meia retornou ao Olaria. E no dia 9 daquele mês, foi a vez de Dario deixar a Gávea e regressar ao seu ex-clube, o Atlético Mineiro, trocado por empréstimo pelo zagueiro Vantuir.

Já os reforços, além de Vantuir, eram mais modestos. Em junho, ainda durante o Brasileiro, o Fla obteve o jovem atacante Ivanir, do Grêmio, de contrapeso na negociação do centroavante Dionísio com o clube gaúcho. E no fim de julho, dois nomes vindos do América Mineiro foram apresentados: o volante Pedro Omar, Bola de Prata da posição em 1973, chegava para disputar a posição com o veterano Liminha. E o meia-atacante Édson, por sua vez, que era uma aposta pela versatilidade, já que podia atuar como segundo homem de meio-campo ou ponta recuado.


UMA TAÇA GUANABARA OSCILANTE

O decadente Bangu, a quem o Flamengo havia goleado impiedosamente por 8 a 0 no Carioca do ano anterior, seria o adversário da estreia no Maracanã na noite de sábado, 3 de agosto. Talvez mordido pela derrota tão fragorosa no confronto anterior, o Bangu entrou retrancado, e o Fla só conseguiu abrir o placar aos 20 minutos do segundo tempo, num "peixinho" de Zico. Mas no último minuto, quando já se acreditava que a partida terminaria com vitória rubro-negra, os alvirrubros pregaram uma peça e empataram com Rogério: 1 a 1.


Era um tropeço que não estava absolutamente nos planos rubro-negros. Pior para os jogadores, que, além de frustrados pelo resultado, saíram de bolsos vazios, já que a diretoria havia decidido não pagar nenhum "bicho" (remuneração extra) para empate nos jogos contra os times que considerava pequenos. Mas aquele não seria, no entanto, o único ponto perdido para os times menores: na segunda rodada, o Flamengo pegaria o perigoso Madureira, sendo novamente surpreendido no Maracanã e colhendo um resultado ainda pior: a derrota por 2 a 1.

Melhor em campo diante de um desordenado Flamengo, o Tricolor Suburbano abriu o placar num lance em que Jaime tentou cortar um cruzamento e marcou contra. Ainda no primeiro tempo, Zico empatou de pênalti para os rubro-negros. Mas no começo da etapa final, o Madureira voltou a ficar em vantagem quando o centroavante Carlinhos aproveitou outra falha de Jaime para dar números finais ao placar. Tão inesperado quanto decepcionante, o início da Taça Guanabara assistia ao Fla somar só um ponto em dois jogos contra pequenos.

Naquela largada, quem dava as cartas era o América. Logo na primeira rodada os rubros fizeram o clássico com o Vasco, que valeu também como jogo de entrega das faixas de campeões brasileiros dos cruzmaltinos, ainda celebrando o título conquistado três dias antes. As faixas, no entanto, foram devidamente carimbadas pelos americanos, que impuseram uma sonora goleada de 4 a 1. Em seguida, os rubros venceram a Portuguesa (1 a 0) e o São Cristóvão (2 a 0), mantendo a liderança isolada da Taça Guanabara e abrindo vantagem na ponta. E seria justamente o América o adversário seguinte do Flamengo.

Quando a bola rolou, porém, nem parecia que os rubros eram até ali o grande time do torneio e que o Fla era a decepção. O time de Joubert dominou inteiramente a partida, explorando os espaços deixados pelo de Danilo Alvim sobretudo às costas do meio-campo, e acumulou chances desde o início. Chegou a balançar as redes no primeiro tempo num gol contra do zagueiro americano Alex, mas o tento foi anulado pelo árbitro Luís Carlos Félix por impedimento no início do lance.

No começo da etapa final, entretanto, quem teve a chance de abrir a contagem foi o América, num pênalti de Rondinelli em Edu (irmão de Zico). Mas Luisinho chutou para fora. O Fla não perdoou: minutos mais tarde foi a vez de Doval arrancar e ser parado com falta dentro da área por Alex. Pênalti que Zico não desperdiçou, deslocando o goleiro Rogério. E aos 31, Zico lançou Doval, a defesa rubra parou pedindo impedimento inexistente, e o atacante argentino driblou o goleiro para ampliar para o Flamengo. No apagar das luzes, Luisinho ainda diminuiu para o América: 2 a 1.

A grande atuação, porém, não teve sequência. Nos dois jogos seguintes, o Fla venceu penando o São Cristóvão (2 a 0, dois gols de Doval) e a Portuguesa (1 a 0, gol de Zico de pênalti), saindo vaiado de ambas as partidas. No Fla-Flu, no entanto, o mau futebol não foi perdoado: dominado, o time perdeu por 2 a 1 (Zico diminuiu no último minuto, marcando seu primeiro gol de falta no Maracanã) e se afastou cada vez mais do título do turno. Desorganizado, o Flamengo nem lembrava mais a equipe sensação da primeira fase do Brasileiro.


O desempenho irregular continuou nas partidas seguintes: jogando bem, o time venceu o Olaria por 2 a 0, gols de Julinho e Zico (outra vez de pênalti). Contra o Bonsucesso, porém, o time se viu envolvido e chegou a estar perdendo por 2 a 0, antes de Vanderlei, em jogada individual, e Zico, antecipando-se ao goleiro Pedrinho, empatarem em 2 a 2. Já diante do Campo Grande, a equipe voltou a apresentar bom volume de jogo. Perdeu muitas chances, acertou duas vezes a trave, mas venceu por 2 a 0, gols de Rui Rei e Vanderlei em passes de Zico.

Na noite de sábado, 14 de setembro, a vitória do América sobre o Olaria no Maracanã por 1 a 0 acabou por liquidar as escassas chances matemáticas de conquista do turno pelos rubro-negros, praticamente transformando os dois últimos jogos – nada menos que os clássicos contra Botafogo e Vasco, ambos igualmente afastados da briga – em meros amistosos. De qualquer forma, seria uma ótima oportunidade para Joubert ajustar os problemas, sobretudo quanto ao jogo coletivo, que o time vinha demonstrando desde o início do Carioca.

Mesmo com os dois times fora da briga, o Maracanã recebeu mais de 48 mil pagantes e viu o Botafogo abrir vantagem com dois gols de Nilson Dias, um em cada tempo, até Joubert mexer no time rubro-negro na metade da etapa final. O Fla melhorou, acordou sua torcida e passou a apertar o Botafogo, principalmente depois que, aos 31 minutos, Zico sofreu pênalti de Valtencir e cobrou com êxito, diminuindo o placar. Seis minutos depois, o Galinho arrancou, driblou Osmar e Mauro Cruz, e tocou no canto do goleiro Wendell para decretar o empate: 2 a 2.

Nos vestiários, Joubert revelava suas orientações para mudar o rumo do jogo: "No segundo tempo mandei que Geraldo atuasse um pouco mais adiantado e procurasse tocar a bola mais rápido. Isto foi fundamental para a reação. As substituições também foram corretas, pois com Zé Mário na ponta direita, o Marinho (Chagas) ficou sem tanta liberdade para atacar, enquanto deslocando o Paulinho para a esquerda, tivemos uma opção a mais de jogo". Já Zagallo, o técnico alvinegro, creditava o empate ao talento de Zico: "Desequilibrou".

Na última rodada, o Galinho voltaria a ser destaque na vitória do Flamengo sobre o Vasco por 1 a 0 no sábado à noite (América e Fluminense decidiriam a Taça Guanabara no dia seguinte). Mesmo sem Renato, Rodrigues Neto e Doval, o Fla dominou um Vasco cheio de reservas e saiu na frente no fim do primeiro tempo, quando Paulinho cruzou da direita e Arílson entregou para Zico encher o pé. O camisa 10 ainda acertou a trave em outro lance e teve um gol anulado por falta no goleiro Carlos Henrique, apontada pelo juiz Rubens de Souza Carvalho.

Aquela reta final do primeiro turno foi como uma virada de chave: após o jogo contra o Botafogo, em que o Fla foi buscar o empate e quase virou no fim numa bonita bicicleta de Zico, o vestiário rubro-negro era todo animação, confiante numa reação no Carioca. E o desempenho na vitória sobre o Vasco, mesmo com os desfalques do rival, já indicava a mudança de astral. Assim, nem mesmo o fato de a tabela colocar o América – que acabara de faturar e ser Campeão da Taça Guanabara – como primeiro adversário no segundo turno preocupava os rubro-negros.


O SEGUNDO TURNO (Taça Oscar Wright da Silva)

Antes do pontapé inicial, o time do América recebeu as faixas de campeão do turno. Mas quando a bola rolou, só deu Flamengo. No primeiro tempo, Zico abriu o placar aos 28 minutos após tabela com Geraldo. E na etapa final veio a goleada. Aos 17 minutos, Geraldo – o grande nome do jogo – entrou na área fazendo fila na defesa americana e tocou para Zico ampliar. Aos 31, Zé Mário driblou até o goleiro Rogério e só rolou para Doval concluir. O América diminuiu com Luisinho, mas, aos 42, Paulinho lançou Doval, que fechou o placar: 4 a 1.

Com Geraldo em exuberante exibição no meio-campo, o Fla confirmava sua ascensão carimbando a faixa do América exatamente da mesma forma que os rubros haviam feito com a do Vasco na abertura do Carioca. O time de Joubert, aliás, tinha uma novidade naquela partida: o lateral-direito Humberto Monteiro, revelado pela Desportiva, campeão brasileiro com o Atlético Mineiro em 1971, e Bola de Prata da posição por dois anos seguidos (1970 e 1971), mas que não vinha tendo espaço na Portuguesa paulistana, de onde chegou à Gávea.

A equipe também teria uma cara mais definida naquele segundo turno, depois das experiências feitas pelo técnico na Taça Guanabara. Com Renato lesionado, Cantarele voltava a ocupar a meta. Humberto Monteiro era o novo lateral-direito com Jaime e Luís Carlos pelo centro e Rodrigues Neto na esquerda. No meio, Liminha e Zé Mário (este, saindo um pouco mais) protegiam com dinamismo a frente da área para Geraldo ter mais liberdade. Zico encostava em Doval na frente. E havia ainda o baixinho Paulinho, ponta versátil vindo do Bonsucesso.

Outra novidade para aquele turno era a mudança na tabela de premiação: atendendo a Joubert, a diretoria passou a aceitar pagar "bichos" para empates com qualquer equipe. E justamente um dos pequenos contra quem o Fla havia tropeçado no primeiro turno, o Madureira, seria o próximo adversário. O Tricolor Suburbano vinha se especializando em tirar pontos dos grandes: além de vencer o Fla, havia empatado com Fluminense, Vasco e Botafogo no primeiro turno, e começou o segundo outra vez complicando o Flu, a quem venceu por 1 a 0.

Quando, praticamente na saída de bola, o ponta-esquerda Paulo César colocou o Madureira em vantagem no primeiro minuto de jogo, parecia que a zebra outra vez passearia pelo gramado do Maracanã. Mas foi uma impressão enganosa. Aos 29 minutos, Doval foi calçado por trás pelo lateral Celso Alonso na área, e Zico empatou na cobrança do pênalti. Ainda antes do intervalo, aos 38, o Galinho cobrou falta de maneira magistral – o goleiro Dorival nem se mexeu – e colocou os rubro-negros em vantagem no placar, que seria ampliado na etapa final.

A goleada começou a ser desenhada por Doval, autor do terceiro e do quarto gols – o primeiro aos 14 minutos, aparecendo sozinho na área do Madureira, e o segundo aos 18, após ótimo passe de Zico. Aos 34, o "gringo" ainda sofreu pênalti do zagueiro Hamilton, ignorado pelo árbitro José Marçal Filho. Mas o quinto gol sairia de qualquer maneira: dois minutos depois, Rodrigues Neto surgiu para escorar um cruzamento da direita e fechar a goleada. "Mengo fez o Fantasma sambar. Foi um passeio: 5 a 1", estampou o Jornal dos Sports.

Jogando o fino, com um ataque avassalador, parecia que a equipe de Joubert embalaria de vez. Mas de repente vieram os empates. Três dias após a goleada sobre o Madureira, o time voltou ao Maracanã e parou no 0 a 0 com o Campo Grande, que povoou sua área e não deu espaços a um Fla um tanto apático e sem a mesma velocidade em comparação com os jogos anteriores, mas que ainda acertou a trave com Paulinho e teve mais um pênalti (de Péricles em Doval) sonegado pelo árbitro Rubens de Souza Carvalho no primeiro tempo.

A seguir viria o clássico com o Vasco. Num jogo de dois tempos bem distintos, os cruzmaltinos valeram-se de seu conjunto e aplicação tática para serem os donos da etapa inicial e abrirem o placar com Roberto. Mas no segundo tempo, passaram a abusar da cera e do antijogo, o que irritou rubro-negros em campo e na arquibancada. Mordido, o Fla acertou a trave com Édson aos 29 minutos. E aos 35, numa falta bem no limite da área (que os rubro-negros reclamaram pênalti), Zico bateu com maestria e empatou: 1 a 1. Foi o gol da raiva.

De falta, Zico empata o clássico com o Vasco

O time saiu animado do clássico, mas com um problema: Geraldo, com entorse no tornozelo esquerdo, deixou o campo com apenas 17 minutos e se tornou desfalque até o fim do turno. Édson entrou em seu lugar contra o Bonsucesso, outro pequeno que tirara ponto do Fla no turno. O início deste reencontro, aliás, não foi nada animador: logo aos cinco minutos, o zagueiro Nilson tocou a bola com a mão na área, mas Zico perdeu o pênalti, defendido pelo goleiro Pedrinho. E aos 13, num contra-ataque, Mário abriu o placar para os rubro-anis.

No intervalo, em desvantagem no placar, Joubert tirou Édson e colocou o lateral Vanderlei (Luxemburgo), avançando Rodrigues Neto para a ponta. Aos 13 minutos tirou Doval, que jogava no sacrifício, e levou a campo o atacante Ivanir, que logo no minuto seguinte, em seu primeiro toque na bola, empatou o jogo numa cabeçada. Mas a virada veio só aos 37: Rodrigues Neto bateu escanteio, a zaga do Bonsucesso afastou mal e Zé Mário, de fora da área, acertou belíssima bicicleta que encobriu o adiantado Pedrinho para dar a vitória ao Fla por 2 a 1.

A vitória alçava o Flamengo à liderança isolada do turno com 8 pontos, um a mais que o Botafogo e dois à frente de Vasco (que tinha um jogo a menos) e América. Essa vantagem, no entanto, acabaria se diluindo nas duas últimas rodadas, quando o time de Joubert voltou a parar em empates. O primeiro deles, um 0 a 0 com o Botafogo, no qual o Fla – ainda sem Geraldo e naquele dia também sem Doval – viu Zico ser marcado em cima o jogo todo (às vezes até com puxões de camisa e entradas mais duras) pelo volante Ademir Vicente.

E veio a última rodada do turno, com o Fla-Flu marcado para a noite de sexta-feira, 1º de novembro (no sábado, Dia de Finados, a federação não marcou nenhum jogo). O confronto entre Vasco e América, outro jogo crucial para as duas equipes (e para o Flamengo) foi no domingo, dia 3. O Fla foi para cima desde o começo, mas parou em outro 0 a 0 com um Flu que, já eliminado, cumpria o papel de franco-atirador: esperava os rubro-negros em seu campo e explorava os contragolpes. Ivanir pelo Fla e Cafuringa pelo Flu ainda acertaram a trave.

O jeito seria torcer pelo empate no domingo, mas nem isso aconteceu: o Vasco venceu o América por 2 a 0 e levou o título do turno, num jogo de arbitragem farsesca de Valquir Pimentel, que ignorou uma agressão de Moisés a Luisinho e um soco do goleiro Andrada no meia Bráulio, mas expulsou o lateral Álvaro por entrada violenta. Não satisfeito, validou um gol de Roberto em impedimento escandaloso e anulou dois de Luisinho pelo mesmo motivo. Assim, o Fla terminava o turno invicto e com o melhor saldo de gols, mas sem o título e a vaga assegurada nas finais.

Com propostas de amistosos pelas regiões Norte e Centro-Oeste, o Flamengo conseguiu adiar seus dois primeiros jogos no terceiro turno para excursionar pelo país e arrecadar uns trocados para tentar amortizar o prejuízo que vinha tendo no Estadual. Nesse périplo, empatou com o Operário de Várzea Grande em Cuiabá (2 a 2) e venceu o Nacional em Manaus (1 a 0) e o Remo em Belém (2 a 0). Enquanto isso, no Rio, outro medalhão saía: o ponta Rogério, que não vinha sendo utilizado, rescindiu contrato e acertou seu retorno ao Botafogo.

Por outro lado, Joubert teria de volta três nomes importantes, recuperados fisicamente: Renato (apesar da ótima fase de Cantarele), Geraldo e Doval. Além disso, uma nova e inesperada opção caseira para a problemática lateral-direita havia começado a despontar na excursão: o garoto Junior, 20 anos, meia de origem, tivera bom desempenho entrando no lugar de Humberto Monteiro, que vinha sofrendo para manter a forma física – com tendência a engordar devido à longa inatividade na Portuguesa, ele chegara à Gávea pesando 90 quilos.


NO TERCEIRO TURNO, TUDO OU NADA

Com América e Vasco já garantidos na Fase Final para a disputa do título carioca, o 3º Turno (Taça Pedro Magalhães Corrêa) era tudo ou nada para o Flamengo na luta por ser novamente o campeão do Rio de Janeiro.

Depois de 15 dias afastado do campeonato, o Flamengo entrou no terceiro turno num cenário em que Botafogo e Vasco já haviam vencido suas duas primeiras partidas e lideravam com folga. Atrás vinha o América, que também tivera um jogo adiado, mas vencera seu único compromisso até ali. Diante disso, o fato de o primeiro adversário do Fla naquela etapa ser o time de General Severiano tornava a vitória no clássico fundamental para não ver o rival disparar na ponta. Ainda mais num 17 de novembro, data oficial de fundação rubro-negra.

Bem distribuído e muito consciente em campo, o Flamengo entrou à toda e abriu o placar aos 22 minutos. Arílson desceu pela esquerda e bateu cruzado. Paulinho pegou a sobra do outro lado e cruzou de novo, dessa vez pelo alto, para Doval tocar de cabeça. A vantagem era merecida, já que o Fla sempre levava perigo, ao contrário do inoperante ataque alvinegro. No entanto, o Botafogo acabaria empatando aos 18 minutos da etapa final: Luís Carlos interceptou um ataque, mas não teve o domínio da bola, e Nílson Dias bateu forte de fora da área.

Quando o Botafogo começava a crescer no jogo, foi traído pelo descontrole de seu principal jogador: numa atitude tola, Marinho Chagas foi expulso aos 34 minutos pelo árbitro Arnaldo César Coelho depois de ofender o bandeirinha ao reclamar de um impedimento de Doval que já havia sido marcado pelo juiz. O castigo rubro-negro não demoraria a chegar: quatro minutos depois, com muito oportunismo, Doval pegou a sobra de uma tabela entre Zico e Édson, e tocou no canto direito de Wendell, decretando a vitória rubro-negra por 2 a 1.

Três dias depois, o Flamengo cumpriu seu primeiro jogo adiado, contra o Madureira no Maracanã, e nele Júnior fez sua estreia vestindo o Manto Sagrado em jogos oficiais de competição, ao entrar no lugar de Humberto Monteiro no intervalo. A alteração, no entanto, quase causou involuntariamente um grande problema ao Fla: como Joubert já havia trocado Geraldo por Édson no primeiro tempo, ficou sem poder mexer quando Arílson teve de deixar o jogo devido a uma luxação na clavícula no começo da etapa final, fazendo com que o time ficasse com dez.

Menos mal que Zico, aos 44 minutos, pegou a sobra de um chute de Doval e selou a suada vitória rubro-negra por 1 a 0. Mas para o jogo contra o Vasco o time passaria por mudanças: Geraldo e Arílson, que saíram lesionados contra o Madureira, dariam lugar a Zé Mário e Édson. E Júnior ganhava sua chance como titular na lateral-direita: era o sétimo nome a passar pela posição só naquele campeonato, depois de Aloísio, Vanderlei, Nei e Humberto Monteiro, e dos improvisados Rondinelli e Pedro Omar – zagueiro e volante, respectivamente.

Geraldo, Doval e Zico

O jogo era crucial para o Flamengo, mas também para o Vasco, que tropeçara ao empatar com o Campo Grande em São Januário por 1 a 1. Nos treinos, Joubert pedia ao Fla que jogasse de maneira solidária e objetiva, com toques de primeira. Já os cruzmaltinos se apoiavam num comentário corrente da época, de que o Flamengo não jogava pelas pontas, para apostarem no bloqueio defensivo pelo meio. Acabaram apanhados de calças curtas: não só os laterais rubro-negros subiam muito, como Paulinho, Doval e Zé Mário abriam pelos flancos.

E todos os gols do Joubert saíram de jogadas assim. No primeiro, aos 21 minutos da etapa inicial, Zé Mário recebeu de Doval e cruzou alto da esquerda, o goleiro argentino Andrada tirou fraco de soco e a bola sobrou para Paulinho mandar às redes. O segundo saiu pela direita, cinco minutos depois: Doval entregou a Júnior, que cruzou para Zico cabecear firme entre Fidélis e Miguel. Um gol simbólico por dois motivos: com ele Zico chegava aos 47 no ano, igualando recorde histórico de Dida de 1959. E era ainda a primeira assistência de Júnior para um tento do Galinho.

O Vasco descontou pouco antes do intervalo num belíssimo gol de Jair Pereira, mandando de sem-pulo no ângulo um rebote de escanteio. Mas a reação que se anunciava para a etapa final nem chegou a acontecer: aos 10 minutos, Jaime puxou contra-ataque arrancando do próprio campo e lançou Paulinho na direita. O camisa 7 cruzou, e Doval apareceu do outro lado da área para encher o pé e fechar a amplamente merecida vitória rubro-negra em 3 a 1. O "gringo", aliás, era o assunto do momento nos jornais, devido a uma possível saída para o futebol francês.

Ciceroneados pelo ex-diretor de futebol rubro-negro George Helal e pelo empresário Elias Zacour, dirigentes do Racing Pierrots (nome de então do atual Racing Strasbourg) assistiram ao clássico nas tribunas do Maracanã. Os cartolas franceses estavam no Brasil para conversar com o presidente rubro-negro, Hélio Maurício, e tentar a contratação do atacante argentino. Era mais uma ofensiva de clube francês sobre um astro do futebol carioca, após o Olympique de Marselha ter contratado Paulo Cézar Caju em julho e Jairzinho em outubro.

O Fla, por sua vez, estava inclinado a aceitar, dependendo do valor, e o dinheiro já tinha destino certo: a contratação de Luisinho, do América. A torcida, porém, já anunciava um protesto para o jogo seguinte, contra o Campo Grande. Ao saber do interesse francês sobre Doval, o cantor rubro-negro Jorge Ben comentou: "Ídolos como o gringo não se vende por dinheiro nenhum; tem de morrer velho no Flamengo". Mas, para a tranquilidade da Nação, a negociação não avançou, já que não houve acerto de valores nem com o clube, nem com o atacante.

A permanência de Doval evitou os protestos da torcida na partida diante do Campo Grande. Mas o Flamengo voltou a tropeçar de maneira incrível, parando no 0 a 0 contra o time da Zona Oeste num jogo em que esbarrou na defesa bem postada do adversário, nos milagres do goleiro Caxias e na própria falta de sorte. No primeiro tempo, Zico chegou a driblar o camisa 1 do Campusca e finalizar mesmo sem ângulo, mas o zagueiro Edval, de cabeça, evitou o gol em cima da linha. Rodrigues Neto ainda acertou a trave e Zico, o travessão.

O resultado frustrante para os rubro-negros fez a alegria do América, que na véspera havia batido o Madureira por 3 a 0 e passou a liderar o turno com folga. Embora tivessem um jogo a mais que os principais adversários, os rubros somavam 10 pontos, contra 7 do Flamengo, 5 do Vasco e 4 do Botafogo. O Fluminense – também com 4 pontos, mas em 5 jogos – já dizia adeus ao campeonato. O Flu, aliás, seria o próximo adversário do Fla que, para piorar, não teria Doval, com dores musculares na coxa esquerda.

Joubert então escalou um time sem centroavante fixo, adiantando Zico para fazer a função de falso camisa 9, com Geraldo e Édson se apresentando para tabelar, além de ter o apoio pelos flancos de Júnior e Paulinho pela direita, e Rodrigues Neto e Zé Mário pela esquerda. Assim, e até por certo desinteresse do time tricolor, já eliminado, foi fácil abrir vantagem: Paulinho marcou logo aos oito minutos completando tabela entre Zico e Geraldo, e aos 41 Édson recebeu de Zico e avançou livre para ampliar. Na etapa final, Cléber descontou: 2 a 1.

Com a vitória, o Flamengo alcançava uma expressiva invencibilidade de 17 jogos no campeonato. Melhor ainda: no domingo, um dia após o Fla-Flu, foi a vez do América tropeçar feio, sendo goleado pelo Vasco – que buscava manter viva sua esperança no turno – por 4 a 1. O resultado manteve os rubros na liderança do turno, mas foi ótimo para o Flamengo, que passou a depender apenas de si e poderia tomar o primeiro lugar no meio de semana caso vencesse o Bonsucesso na quarta-feira, em seu outro jogo adiado naquela terceira etapa do torneio.

Contando com o veterano Paulo Henrique, antigo bastião rubro-negro, na lateral-esquerda, o time do Bonsucesso pisou o gramado do Maracanã para colocar em prática o mesmo jogo de retranca cerrada e contra-ataque que os demais pequenos vinham fazendo contra o Fla e os outros grandes naquele campeonato. E saiu premiado logo aos 8 minutos, quanto o ponta Naldo disparou pela direita, driblou Rodrigues Neto e Luís Carlos, e chutou para a defesa apenas parcial de Renato. Na sobra, o centroavante Mário conferiu.

O gol desarrumou o Fla, que não teve calma para chegar ao empate no primeiro tempo. Já na etapa final, o gol enfim saiu aos 13 minutos, quando Zico tabelou com Geraldo, driblou o zagueiro Nilson, e finalizou sem chances para o goleiro Pedrinho. Mas, aos 29, outro contragolpe do Bonsucesso resultou em escanteio. Na cobrança, a defesa rubro-negra cochilou, e o atacante Acelino cabeceou sozinho para as redes. Além de encerrar a série invicta, a inesperada derrota por 2 a 1 deixou o Fla em desvantagem na decisão do turno contra o América.

Aos rubros, que já haviam vencido o primeiro turno, bastava empatar para conquistar também o terceiro e entrar para jogar por outro empate na decisão do campeonato em jogo único diante do Vasco. O Flamengo precisava da vitória para também entrar nessa disputa e transformar as finais de uma briga a dois em um triangular, no qual todos entrariam em igualdade de condições. Mas perdera Liminha, peça fundamental na proteção defensiva, pelo resto do ano após o "Motorzinho da Gávea" lesionar os ligamentos do joelho contra o Bonsucesso.

Joubert recuou Zé Mário (que era da posição) para o lugar de Liminha, e fez entrar o garoto Julinho – não confundir com Júlio Cesar, o Uri Geller, que só estrearia pelo time de cima no ano seguinte – na ponta-esquerda. Com isso, o time ganhava mais agressividade no ataque. Mas no jogo decisivo quem saiu na frente foi o América, abrindo o placar logo aos cinco minutos. Renato espalmou um chute forte de Flecha para escanteio. Na cobrança, o ponteiro americano entregou curto para Orlando, que cruzou para a cabeçada do zagueiro Alex.

O Flamengo não demorou a reagir e criou uma boa chance com Doval (de volta após se ausentar por dois jogos) e Zico. E empatou aos 21. O América saía para o contra-ataque com um lançamento de Alex, mas Júnior interceptou a jogada na altura do círculo central, avançou até a intermediária, e disparou um petardo rasteiro no canto direito do goleiro Rogério, marcando seu primeiro gol pelo Flamengo como profissional. E aos 10 minutos da etapa final, Ivo fez falta em Zé Mário perto da área, e Zico bateu com perfeição de sempre para virar o jogo: 2 a 1. Flamengo, campeão do Terceiro Turno, transformando a decisão do título num triangular!


O TRIANGULAR FINAL

Na tarde de segunda-feira, 9 de dezembro, dia seguinte à decisão do turno, foi feito o sorteio para definir o jogo de abertura do triangular. E a partir daí a tabela era dirigida: o time que folgou na rodada inicial pegaria o perdedor do primeiro confronto na segunda partida e, em seguida, o vencedor daquela na terceira. E as bolinhas colocaram Flamengo e América para se enfrentarem outra vez, uma semana depois do confronto decisivo do terceiro turno. Já o Vasco ficava "na boca de espera", como dizia a manchete do Jornal dos Sports.

Doval, ainda sentindo dores musculares, chegou a ser dúvida, mas foi escalado. A única mudança feita por Joubert em relação ao duelo anterior foi a entrada de Édson no lugar de Julinho. Porém, o "gringo" deixaria a partida ainda aos 25 minutos da etapa inicial, após um choque com Alex – os dois tiveram de ser substituídos. Ao invés de se abalar, o Flamengo cresceu! Aos 20 minutos da etapa final, após um escanteio e em meio à confusão na área, Jaime colocou os rubro-negros na frente com um toque sutil sobre Rogério em direção às redes.

Aos 31 houve o lance mais sensacional do jogo. Após um perde e ganha no lado direito do ataque do Flamengo, a bola chegou a Júnior. E, enquanto os jogadores rubros, desligados, discutiam qualquer coisa, o camisa 4 arriscou dali mesmo, a poucos passos da linha divisória, e encobriu um adiantado Rogério de maneira inapelável. Pela segunda vez num intervalo de uma semana, e contra o mesmo adversário, o novato da lateral-direita rubro-negra acertava um pombo sem asa do meio da rua que se tornaria crucial para o time de Joubert no campeonato!

A jogada pegou todo mundo de surpresa, inclusive locutores de rádio e TV e os próprios companheiros de time. Na comemoração, o goleiro Renato se pendurou no pescoço de Júnior gritando "você é um louco! Um louco genial!". O América ainda descontaria no apagar das luzes com Manuel, mas a vitória rubro-negra por 2 a 1 – a quinta do Flamengo em cinco jogos contra o forte rival naquele ano de 1974, sendo a quarta pelo mesmo placar – deixava a equipe da Gávea em posição de comando, com as cartas na mão naquele triangular decisivo.

"É claro que Vasco e América estão assustados com a presença indigesta do Flamengo nessa decisão! Ambos queriam a torcida do Flamengo, seu dinheiro, suas bandeiras, mas nunca a equipe em campo causando os estragos que começaram a acontecer", escrevia o jornalista botafoguense Ruy Porto em sua coluna "Ataque & Defesa", na página 2 do Jornal dos Sports da terça-feira, 17 de dezembro, antes de prosseguir: "Vasco e América criaram um leãozinho. Não pensaram que ele cresceria. O leãozinho já engoliu o primeiro...", concluiu.

Com a semana inteira para se recuperar e treinar, o Fla assistiu de camarote ao empate em 2 a 2 entre Vasco e América na quarta-feira à noite, num jogo em que os cruzmaltinos estiveram duas vezes à frente no placar, mas cederam o empate – o segundo gol americano, marcado por Edu, irmão de Zico, saiu aos 39 minutos do segundo tempo. O resultado acabava de vez com as chances do América no campeonato (ainda que fosse uma queda de pé) e permitia ao Flamengo jogar pelo empate na decisão no domingo, dia 22, contra o Vasco.

Um Flamengo que só se garantiu no Triangular Final do Carioca no último pio da coruja, ganhando um terceiro turno quase perdido, depois que deu aquela vacilada caindo pro Bonsucesso de 2 a 1 dentro do Maracanã. Tinha botado para fora os medalhões: Paulo César Caju, Dario, Chiquinho Pastor, Rogério, Afonsinho, Zagallo, todos com passagem na Seleção Brasileira. De experientes, só Liminha e Doval. E a molecada.

Doval estava irremediavelmente vetado, já que o choque com Alex agravara seu problema muscular na coxa. Sem o argentino e sem Liminha, dois trintões, a média de idade do time rubro-negro para a final despencava para pouco mais de 22 anos. Eram nada menos que 7 os garotos sub-23 escalados por Joubert entre os 11 titulares: Paulinho (22 anos), Jaime, Zico, Julinho (todos com 21 anos), Júnior, Geraldo e Édson (todos com 20) – e no banco, havia mais meninos: Cantarele, Nei, Silvinho, Ivanir (que acabaria entrando na etapa final).

O Vasco era o completo oposto. Bastaria dizer que se tratava do campeão brasileiro, mas era mais que isso, era um time que esbanjava experiência, malícia, malandragem, sobretudo na duríssima defesa liderada pelo "xerife" Moisés e no versátil meio-campo onde ponteavam dois ex-rubro-negros: Zanata e o falso ponta Luís Carlos. A título de comparação com a molecada rubro-negra, na escalação inicial do técnico Mário Travaglini só três jogadores tinham menos de 24 anos (todos no ataque), e a média de idade chegava quase aos 26 anos.

Campeão brasileiro de 74, time tarimbado e cascudo. Miguel e Moisés, zaga quase intransponível: se a bola passa, o atacante fica. E ainda Fidélis, Andrada, Luís Carlos, Alcir, Alfinete, Zanata, o menino Roberto (Dinamite), que também estava na briga entre os fazedores de gol. Mário Travaglini, paulistano, campeão no Rio e lá na terra dele era o treinador.


A DECISÃO

Para uma grande ocasião, um grande público: o Maracanã recebeu nada menos que 165.358 pagantes. O número de presentes, entretanto, certamente foi bem superior, uma vez que a carga de ingressos não deu conta da demanda e muitos torcedores sem entradas acabaram tendo acesso ao estádio quando os portões foram abertos aos cinco minutos de jogo. Alguns deles inclusive aproveitaram para escalar as estruturas de andaimes colocadas para manutenção, pulando das arquibancadas superlotadas para o setor superior das cadeiras numeradas.

Outro incidente provocou apreensão minutos antes do início do jogo: fagulhas de fogos de artifício atingiram um tubo de ar para encher balões provocando uma explosão do lado da torcida do Vasco nas arquibancadas e deixando pelo menos 25 feridos. O clima quente, angustiante e carregado de tensão que se expressava em cada rosto no estádio só se desfez um pouco quando entraram no gramado as torcidas mirins – primeiro a rubro-negra, seguida da vascaína. A do Fla carregava uma faixa na qual se lia "Flamengo deseja Feliz Natal".

Maracanã explodindo de gente em 22 de dezembro, mais de 165 mil pessoas. Tensão a mil. Os dois times escalados. O Vasco praticamente o mesmo da final do Brasileiro, só trocou o Ademir pelo Galdino aberto na ponta-esquerda. E o Flamengo vem como pode. Sem Liminha, sem Doval.

Em campo, a tensão também predominou, num jogo truncado. Mas apesar da vantagem do empate, foi o Fla quem tomou a iniciativa do ataque, confirmando o que anunciara Joubert durante a semana. E a melhor chance do jogo surgiu já aos 7 minutos, quando Zico saiu fazendo fila na defesa do Vasco, ganhou de Miguel, driblou Moisés e chutou com pouco ângulo. A bola bateu nas pernas de Andrada e subiu em direção ao gol. Mas quando a torcida já soltava o grito, o lateral Alfinete surgiu para afastar para escanteio bem em cima da linha. Quase fez contra, mas aí o Vasco teve sorte. Por pouco não saiu o zero do placar.

Zico chuta, a bola vence Andrada, mas Alfinete vai tirar
em cima da linha. Por pouco não saiu o zero do placar

Joubert repetia o esquema que empregara nas outras vezes em que não teve Doval, adiantando Zico para atuar como um falso camisa 9, cavando espaços na defesa do Vasco para receber o apoio de Geraldo e Édson vindos do meio-campo e abrindo o jogo com os pontas Paulinho e Julinho. Mas, no geral, o Flamengo foi mais eficiente no bloqueio – Zé Mário foi o nome do jogo – do que na criação de jogadas. O Vasco se limitava a alçar bolas para Roberto Dinamite ou Moisés na área, e levava perigo em cobranças de falta, fazendo Renato brilhar sob as traves.

O Fla dá uma esfriada, o Vasco tenta apertar porque precisa. Mas aí só dá a defesa do Flamengo. Júnior bota no bolso o Galdino. Do outro lado, em cima de Rodrigues Neto, Jorginho Carvoeiro não se cria. E não tem pra Miguel nem pra Moisés. Xerifes em campo mesmo são o Jaime e o Luis Carlos. Sempre muito sério, o beque que os cartolas foram buscar no Corinthians para empunhar a braçadeira. Sem falar em Zé Mario, o dono do meio-campo, baixinho gigante da cabeça-de-área rubro-negra. Estava em todo lugar, correndo, marcando, fechando a porta pros vascaínos. E quando, por algum motivo, eles conseguem chegar, aparecia o Renato pra espalmar. O tempo vai passando, o Vasco não consegue fazer o seu, é um desespero pelos lados da Colina, o Flamengo perde um, dois contra-ataques.


Nos minutos finais, ainda houve uma grande chance para cada lado: primeiro, Jair Pereira recebeu sozinho de Roberto, mas chutou para fora, à direita do gol de Renato. Depois, num contra-ataque, Ivanir (que entrara no lugar de Julinho) ganhou a disputa com Miguel e ficou frente a frente com Andrada, que já saía da área. O atacante tentou o drible, mas o goleiro vascaíno se recuperou e tocou para fora. Ao apito final de Arnaldo César Coelho com o 0 a 0 no placar, vieram a invasão do gramado e a festa rubro-negra nas arquibancadas. A molecada do Fla era campeã carioca.

Em sua coluna “Campo Neutro”, no Jornal do Brasil, o jornalista José Inácio Werneck observou de maneira muito precisa: "Faltou muita coisa à partida para justificar o recorde de renda, mas, por outro lado, não faltou nada. Um jogo em que obrigatoriamente se produzirá um campeão assume proporções dramáticas nos gestos mais simples (...) E na execução desses gestos, o Flamengo sempre me pareceu, embora um time de novatos, muito mais senhor de seus nervos do que o Vasco".


A taça foi levantada pelo capitão Luís Carlos, muito emocionado. Ele, cria de um Corinthians dos tempos da fila, levantava seu primeiro título da carreira depois de sete temporadas em branco no Parque São Jorge. O título também era a redenção de Joubert, alvo de muitas críticas da imprensa ao longo da campanha. E era a afirmação de Zico, o novo dono da 10. Aliás, a conquista premiava o trabalho de base feito no clube, revelando uma talentosíssima geração com vários nomes que marcariam época. E resgatava a velha garra rubro-negra!

Na disputa com o classudo América e o tarimbado Vasco, pintados como dois bichos-papões antes do início do campeonato, quem levou a melhor foi a valente molecada rubro-negra, que não perdeu nenhuma vez para os dois rivais em oito confrontos pelo Carioca. Um time que, curiosamente, teve aproveitamento melhor nos clássicos (21 pontos em 28 possíveis, ou 75%) do que contra os pequenos (18 pontos em 26 possíveis, o que dá 69,2%). Mas que era honrosa, merecida e indiscutivelmente o último campeão do Estado da Guanabara!



terça-feira, 23 de dezembro de 2025

O Campeão da Maior de Todas as Multidões!


Mais uma maravilhosa história contada com maestria e envolvente narrativa por Emmanuel do Valle, na minha opinião, o melhor cronista sobre história do Flamengo de todos os tempos, que assim narrou tais detalhes em seu blog Flamengo Alternativo:


Sem levantar o título carioca havia 8 anos, o Flamengo de 1963 teve de enfrentar um sem-número de batalhas internas e externas. O treinador era tido como superado e estava à frente de um elenco com quem tanto ele quanto o presidente do clube entraram em atrito em várias ocasiões ao longo do ano. Tiveram jogadores chegando e saindo – e entre os que saíam para sempre, algumas lendas rubro-negras. O clube revirado em obras, sem poder oferecer naquele momento a estrutura adequada. E o descrédito de parte da imprensa, que não o colocava entre os grandes candidatos. Pois tudo isso ficou para trás e a equipe saiu aclamada do Maracanã, de faixa no peito, após um Fla-Flu épico, assistido pelo Maior Público da História do Futebol entre Clubes!

O time campeão no Fla-Flu decisivo
Em pé: Luiz Luz (massagista), Murilo, Marcial, Ananias, Luís Carlos Freitas, Carlinhos
e Paulo Henrique. Agachados: Espanhol, Nelsinho, Aírton Beleza, Geraldo José e Osvaldo "Ponte Aérea"

O segundo tricampeonato carioca do Flamengo - 1953/54/55 - representou o ápice de um dos maiores esquadrões da história do clube e do futebol brasileiro, mas ao mesmo tempo demandou tamanho esforço físico (pela longuíssima duração do torneio e pelo excesso de lesões no elenco) e psicológico (sobretudo devido ao repentino falecimento do presidente Gilberto Cardoso bem no meio da campanha, em 25 de novembro de 1955) dos envolvidos que pareceu ter drenado as energias dos atletas por um longo tempo após a conquista.

A ausência do antigo mandatário e de sua dedicação absoluta e em tempo integral ao clube foi um fator muito sentido naquele pós-tri, como admitiria o lateral-esquerdo Jordan em 2005, numa entrevista concedida ao jornalista José Rezende: "O presidente Gilberto Cardoso estava sempre presente e era muito nosso amigo. O que a gente precisava, ele estava presente e cedia. Depois de seu falecimento as coisas ficaram mais difíceis para nós. Nós precisávamos de certas coisas e não tínhamos. Com ele sempre tinha".

O certame de 1956 foi reflexo imediato disso, em que tudo foi muito intenso, para o bem ou para o mal. Vitórias heroicas, derrotas vexatórias, lesões dramáticas, decisões polêmicas da arbitragem e, como desfecho, o time perdendo até a cabeça contra o Canto do Rio no Caio Martins. A "caça ao tetra" empreendida pelos rivais deu resultado. Há quem afirme, como o historiador Ivan Soter, ter nascido ali a chamada "arco-íris", a união de todos os clubes para impedir o que seria um inaceitável (para eles) tetra rubro-negro.

No ano seguinte, com o time em parte reformulado, o Fla sustentou uma corrida cabeça a cabeça com Botafogo e Fluminense por cerca de três quartos do campeonato, até perder o fôlego nas seis rodadas finais, acumulando empates e vencendo só uma partida. Terminaria em terceiro, a apenas dois pontos do time dirigido por João Saldanha (que tinha Garrincha, Didi e Nilton Santos), e ainda veria Dida perder a liderança da artilharia na última rodada graças aos absurdos cinco gols do botafoguense Paulinho Valentim nos 6 a 2 sobre os tricolores.

Em 1958, a briga foi ainda mais acirrada: mesmo vendendo Zagallo antes do início do certame e Joel na virada do turno, o Fla terminou as 22 rodadas regulares com os mesmos 32 pontos de Botafogo e Vasco. Se o regulamento previsse algum critério de desempate como o saldo de gols ou o "goal average" (divisão dos tentos marcados e sofridos, bastante utilizada na época), o caneco seguiria para a Gávea, já que os rubro-negros tinham o melhor ataque e a melhor defesa. Mas não havia nada a respeito, e a decisão virou um triangular.

Acontece que, graças a vitórias alternadas (o Vasco venceu o Fla, que derrotou o Bota, que bateu o Vasco), esse triangular também terminou empatado, tornando necessário outro triangular, um "supersupercampeonato", já adentrando pelo ano de 1959. E nele, após o Vasco ter logo de saída sua revanche contra o Botafogo, o Flamengo apenas empatou com o time de General Severiano, resultado que o obrigava a superar os cruzmaltinos no último jogo. Mas o rival segurou o empate dramático em 1 a 1 e endereçou o caneco para São Januário.

Pelos três próximos anos, o Fla esteve longe de brilhar (exceto por uma goleada de 6 a 2 imposta ao Botafogo no returno de 1959) e de brigar pelo título, ainda que levantasse outros canecos de peso como o Torneio Hexagonal de Lima em 1959, o Octogonal de Verão e o Torneio Rio-São Paulo em 1961. Fleitas Solich, que havia deixado o clube para comandar o Real Madrid em meados de 1959 e voltado no ano seguinte, revelava nova fornada de talentos (Carlinhos, Gerson, Germano), mas não conseguiria levar o clube a vencer de novo o Carioca.

Solich acabaria demitido por telegrama em 10 de janeiro de 1962, bem no meio da excursão à Costa Rica, após sua relação com o novo presidente rubro-negro Fadel Fadel (no cargo há pouco mais de sete meses) azedar completamente – sem que o mandatário, porém, explicasse o motivo. De pronto, o novo treinador foi anunciado: era outro veterano, Flávio Costa, 55 anos, comandante do primeiro tri - 1942/43/44 - que retornava à Gávea cerca de nove anos após sua última saída para aquela que seria sua derradeira passagem.

Nome incontestável nos anos 1940, Flávio naquela altura já dividia opiniões. Os dirigentes rubro-negros tinham o treinador em alta conta, mesmo que por duas vezes ele tivesse deixado o clube para trabalhar no Vasco, em 1947 e 1953. Por outro lado, desde a derrota com o Brasil na Copa de 1950 sua reputação murchara perante setores da imprensa esportiva. Ao voltar à Seleção, em 1956, não faltou quem o tachasse de obsoleto. Otelo Caçador, chargista de O Globo, caricaturizava Flávio como um homem das cavernas, de tacape na mão.

A impressão vinha muito de seu trato com jogadores. "“Eu era muito duro", admitiria anos depois. Ferrenho disciplinador, intransigente em suas determinações, por vezes chegava às vias de fato: chegou a levantar o atacante rubro-negro Adãozinho pelo colarinho em 1952. Mais rumorosos foram os tapas que deu no meia vascaíno Ipojucan nos vestiários do Maracanã no intervalo da decisão do Carioca de 1950 com o América. Abalado psicologicamente por uma chance perdida, o meia não queria voltar a campo. Flávio o "convenceu".

A linha dura de Flávio era tida como a ideal pelos dirigentes diante do momento turbulento vivido pelo clube: em 29 de março de 1961, o então presidente George Fernandes renunciou ao cargo e foi substituído interinamente por Oswaldo Aranha Filho. No curto mandato-tampão deste, que durou menos de dois meses, o departamento de futebol profissional rubro-negro se tornou autônomo, isto é, gerido com os próprios recursos – que não eram muitos: o Fla enfrentava crise financeira quando Fadel Fadel assumiu a presidência em maio.

O comentário recorrente era de que o Fla pagava pouco a seus profissionais em salários e premiações, ainda mais em comparação com rivais como o Botafogo. A ponto de, no fim de 1961, os jogadores se recusarem a receber o bicho da vitória sobre o São Cristóvão pela última rodada do Carioca, em protesto liderado pelo capitão Jadir. O valor de Cr$ 1.500 estipulado pelos cartolas era considerado irrisório pelos atletas, que tinham o apoio de Fleitas Solich na causa. O que foi, aliás, um dos motivos para a demissão do "Feiticeiro".

Com Flávio Costa, a temporada 1962 trouxe resultados razoáveis. No Torneio Rio-São Paulo, no início do ano, o Flamengo chegou ao quadrangular final, mas não foi além disso, ficando em quarto. Logo em seguida o promissor ponta Germano foi vendido ao Milan, e a equipe embarcou numa longa excursão internacional que tomou os meses de abril, maio e junho. Além de registrar uma vitória de 2 a 0 sobre o Barcelona no Camp Nou (dois gols de Dida), a turnê levou o Fla pela primeira vez à África, jogando na Tunísia e em Gana.

A excursão também marcou as últimas partidas de Jadir com a camisa rubro-negra: o zagueiro foi negociado com o Cruzeiro e quase imediatamente repassado ao Botafogo, que apostava no que se considerava uma superstição: para ser campeão, o clube deveria contratar um ex-rubro-negro. E de fato levaria o título: no confronto direto da última rodada o Flamengo, com um ponto a mais na tabela, tinha a vantagem do empate. Mas, com Jadir na zaga e Garrincha imparável, os alvinegros venceram por 3 a 0 e ficaram com o caneco.

Apesar da frustração com mais um ano de fila, havia a sensação de que o time do Flamengo havia feito uma campanha acima do esperado. No entanto, surgiam os primeiros atritos entre os atletas e Flávio Costa. O maior deles, até então, veio com a polêmica escalação do armador Gerson como falso ponta-esquerda na decisão contra o Botafogo para ajudar o lateral Jordan na tarefa ingrata de tomar conta de Garrincha – uma função talvez mais adequada para outro meia daquele time, Nelsinho, jogador de mais fôlego e mais combativo.


1963: UM ANO TURBULENTO

As críticas a Flávio na imprensa se intensificariam logo no início do ano seguinte, no fim de janeiro, quando o veterano treinador, à frente do escrete carioca, perdeu a decisão do Campeonato Brasileiro de Seleções – naquela que seria sua última edição até um breve retorno em 1987 – de modo surpreendente para os mineiros, que venceram os dois jogos das finais, no Independência (1 a 0) e no Maracanã (2 a 1). Na seleção das Alterosas, aliás, destacou-se um jogador que logo se transferiria para a Gávea: o goleiro Marcial, do Atlético.

O que também proliferou desde o início daquela temporada foram as crises disciplinares. Atritos entre jogadores e Flávio Costa, entre jogadores e dirigentes ou até atos impulsivos dos atletas. Os primeiros casos envolveram o veterano ponta Joel (que no meio do ano seria cedido ao Vitória da Bahia) e o zagueiro Luís Carlos (trazido pelo próprio técnico para o clube), que mais tarde teriam suas multas perdoadas. Os goleiros Ari Seixas e Mauro também se levantariam contra Flávio. O primeiro deixaria o clube, o segundo ficaria.

Mas os episódios mais rumorosos daquele começo de temporada aconteceram com jogadores tidos como líderes da equipe. Um deles foi o volante Carlinhos – que, décadas depois, ao fazer carreira como treinador, teria a reputação de homem calmo e pacato. Em meados de março, ele passou dias sem aparecer na Gávea, alegando uma gripe. Foi multado, teve seu contrato suspenso e, quando reapareceu, foi impedido de treinar pelos dirigentes com a anuência do técnico. No meio do ano ele voltaria a ser "enquadrado" pelo clube.

Outros casos envolveram os atacantes Dida e Henrique, dois dos nomes mais antigos do elenco. O primeiro, lesionado, deixou a delegação que embarcaria de um jogo em São Paulo para outro em Belo Horizonte e voltou ao Rio por conta própria. Também foi multado e teve seu contrato suspenso. Já o segundo se revoltou ao ser colocado como "dispensável" por Flávio Costa, e criticou abertamente o treinador, sendo logo em seguida emprestado até o fim da temporada ao Nacional de Montevidéu – pelo qual faria o gol do título uruguaio.

Com o distanciamento do tempo, é difícil não ler no subtexto de atritos assim (que, diga-se, não eram exclusivos do Flamengo) um conflito geracional: tratava-se de um grupo de atletas em sua maioria na faixa dos 20 anos, que vivenciara a mudança de comportamento da juventude no fim dos anos 1950 e se mostrava refratário, talvez até inconscientemente, a receber ordens de cima para baixo e a ser tratado na ponta da baioneta por técnicos e dirigentes. Perfil bem distinto das turmas que Flávio se acostumara a comandar nos anos 1940.

Mas haveria mais: no meio do ano a equipe de novo empreendeu uma longa excursão à Europa. Se por um lado ajudavam a aliviar os cofres dos clubes, essas turnês traziam certo estresse entre os atletas, saudosos de casa após meses no exterior. Em Paris, no 40º dia de viagem, Dida bebeu um pouco além da conta e, durante o jantar, fez um desabafo que deixava aflorar sua insatisfação com o clube. Foi imediatamente mandado de volta ao Brasil pelo chefe da delegação, o diretor de relações externas Marcus Vinícius de Carvalho.

O próprio Marcus Vinícius, aliás, já havia se envolvido em outro incidente no início da excursão, em Lodz, na Polônia. Durante um banquete oferecido pelos poloneses aos rubro-negros, o chefe da delegação não só ofendeu o diretor de futebol, o sueco Gunnar Goransson, quando este lhe transmitiu uma ordem do presidente Fadel Fadel, como tentou colocar os jogadores contra Goransson, que ficou profundamente desapontado. O caso foi relatado pelo jornalista Álvaro Queirós, que cobriu a viagem do Flamengo para o jornal Última Hora.

Enquanto isso, no Rio, o clube vinha sendo revirado também no sentido literal: a sede da Gávea passava por sua maior reformulação desde a inauguração em 1938. Entre as muitas obras, o campo de futebol seria ligeiramente deslocado em vista da desapropriação de uma faixa do terreno para a duplicação da rua Mário Ribeiro, entre o Flamengo e o Jóquei Clube. Com o gramado totalmente removido, o time e a comissão técnica precisaram sair em busca de outros campos (inclusive o de São Januário) para realizar simples treinamentos.

Outro obstáculo era a falta de uma concentração própria, depois de o Clube Militar, dono do casarão da Estrada da Gávea onde o elenco se instalava, ter vendido o imóvel no ano anterior. Em julho de 1963, o Flamengo comprou outro casarão em São Conrado, na Rua Jaime Silvado, que serviria ao clube até o fim dos anos 1990. A nova concentração, no entanto, só seria inaugurada em março do ano seguinte. Até lá – o que compreendeu toda a campanha do Campeonato Carioca – a delegação rubro-negra foi acomodada em hotel nas Paineiras.


O ELENCO

Naquela temporada de 1963 também ficou ainda mais evidente que uma das motivações para o presidente Fadel Fadel ter recorrido novamente a Flávio Costa era a de delegar ao treinador a missão de promover uma profunda reformulação no elenco, afastando veteranos consagrados no clube e substituindo-os por jovens ou atletas sem tanto nome, dispostos a suarem a camisa. Ao longo do ano, o plantel rubro-negro foi progressivamente perdendo a cara de Fleitas Solich e ganhando a de Flávio Costa entre reforços e dispensas.

O primeiro a chegar, porém, seria um grande fracasso: trazido ainda no fim de dezembro de 1962, o atacante Foguete, da Portuguesa carioca, não se firmaria em sua passagem pela Gávea. Também vindos de um pequeno clube da cidade, o Olaria, o lateral-direito Murilo e o meia Nélson seriam mais aproveitados – especialmente o primeiro, que permaneceria intocável na posição pelo resto da década. Os dois foram contratados no início de janeiro, mas, como o clube da Rua Bariri disputaria o Torneio Rio-São Paulo, ele só se apresentaram em março.

Murilo se tornaria um ícone na lateral-direita rubro-negra

Também em março outros dois reforços desembarcaram na Gávea: revelado pelo Madureira, o ponta-esquerda Osvaldo veio do Santos por empréstimo. No Flamengo, reencontraria Nelsinho, seu antigo colega no Tricolor Suburbano. Outro a aportar foi o goleiro mineiro Marcial, trazido do Atlético após se destacar tanto na seleção de seu estado quanto na brasileira, pela qual atuou no Campeonato Sul-Americano na Bolívia. No Fla, em princípio, chegava para disputar a posição com Mauro, ex-Canto do Rio, no clube desde 1959.

No mês seguinte, com menos alarde, chegaria ao Flamengo o garoto Paulinho, ou Paulo Alves, logo apelidado "Paulo Chôco". Jogador versátil que poderia atuar em várias posições do meio ou do ataque, foi comprado do Anápolis, de Goiás. E fechando o pacote de contratações do primeiro semestre, o clube tirou do Bangu o bom zagueiro Ananias, que fazia dupla de respeito com Zózimo na zaga alvirrubra. Tão vigoroso quanto seu novo companheiro de defesa, o gaúcho Luís Carlos, era, no entanto, um pouco mais técnico na saída de jogo.

Outros nomes que completariam essa renovação viriam do viveiro de talentos da Gávea. E quem se candidatava a ser o principal nome desta safra era o atacante Aírton "Beleza", considerado o sucessor natural de Henrique – a ponto de justificar, no entendimento de Flávio Costa, a dispensa do antigo artilheiro. Ainda amador no início da temporada, Aírton explodiu vestindo a camisa da Seleção Brasileira que conquistou a Medalha de Ouro nos Jogos Pan-Americanos disputados em São Paulo entre os dias 20 de abril e 4 de maio de 1963, e era tido como o principal jogador sub-20 a nível nacional naquele momento.

Aírton Beleza: promessa de novo goleador

Aquela Seleção Brasileira Olímpica incluía ainda o lateral-direito Carlos Alberto Torres (Fluminense), o meia Nenê (Santos, que faria carreira no futebol italiano) e o ponta-direita Jairzinho (Botafogo), e bateu Uruguai (3 a 1), Estados Unidos (absurdos 10 a 0) e Chile (3 a 0), empatando na última rodada com a Argentina (2 a 2). Aírton fez gols nos quatro jogos, 11 ao todo, incluindo 7 sobre os estadunidenses, o recorde da história da Seleção em todas as categorias – emulando o feito de outro rubro-negro, Evaristo, que marcara cinco pelo escrete principal em 1957.

Quem já não era tão iniciante, mas se candidatava à afirmação no campeonato era o ponta-direita Espanhol, nascido José Armando Ufarte na região ibérica da Galícia (daí o apelido). Extrema veloz e driblador, havia sido lançado no time de cima por Fleitas Solich em 1961, antes de passar ao Corinthians emprestado por cerca de um ano para ganhar experiência. Ao voltar, no meio do campeonato de 1962, ganhou a posição e forçou o deslocamento do veterano Joel para o lado esquerdo do ataque. Agora já era uma das armas do setor.

Por fim, entre os nomes com mais tempo de Gávea, dois remanescentes da última campanha vitoriosa, a do tri em 1955: o lateral-esquerdo Jordan, já na casa dos 30 anos, e o atacante Dida. Das safras subsequentes de talentos lançadas por Fleitas Solich, ainda restavam o lateral-direito Joubert, o versátil defensor Vanderlei (ambos aos poucos perdendo espaço no time) e a dupla de meio-campo formada pelo volante Carlinhos e o armador Gerson, responsáveis pela criação da equipe, ainda que em constante atrito com Flávio Costa.


COMEÇA O CAMPEONATO CARIOCA

Em meio a essa reformulação, o Flamengo não era considerado um dos principais candidatos ao título carioca. O bicampeão Botafogo, agora dirigido pelo antigo craque Danilo Alvim, o "Príncipe", seguia intocável como opção número um dos cronistas, apesar de ter perdido o talento e a juventude de Amarildo, negociado com o Milan no meio do ano, e de toda a incerteza acerca de um Garrincha que já começava a viver o declínio da carreira, às voltas com insolúveis problemas de joelho e desgostoso com o meio do futebol.

O campeonato daquele ano era o segundo de um triênio raro no qual o certame contou com 13 clubes participantes, quando coincidiram as presenças do Campo Grande – admitido em 1962 – e do Canto do Rio – que seria excluído ao fim da edição de 1964. Sendo assim, devido ao número ímpar, um clube folgava a cada rodada, de acordo com a classificação final no ano anterior. Na rodada de abertura, quem descansava era o campeão Botafogo; na segunda, o Flamengo; na terceira, o Fluminense; na quarta, o Vasco, e assim por diante.

A campanha rubro-negra começou com seis vitórias consecutivas, incluindo uma no clássico mais aguardado do torneio até ali. Mas nem por isso imune a crises e oscilações. Se na estreia, diante do Canto do Rio no Caio Martins em 30 de junho, o time venceu bem por 2 a 0 (gols de Gerson) e pode até poupar energias no segundo tempo, no jogo seguinte contra a Portuguesa, em 13 de julho, a apatia demonstrada pela equipe e os repetidos erros quase colocaram em risco a vitória por 2 a 1, obtida com mais um gol de Gerson e um de Dida.

O jovem Gérson, o "Canhotinha de Ouro"

O auge da crise viria logo em seguida. E teria em Gerson seu pivô. O meia já vinha tendo atritos com Flávio Costa e o preparador físico Ethel Seixas desde após o jogo contra o Canto do Rio. Criticado por ambos por falta de empenho, atribuía sua queda de ritmo a uma entorse sofrida no tornozelo ainda no primeiro tempo. Problema que, aliás, o tiraria do jogo contra a Portuguesa. Sua volta estava programada para a partida contra o Botafogo, mas outros incidentes levariam o Fla a viver sua semana mais atribulada na campanha.

Tudo começou quando Dida não se entendeu com o clube sobre sua renovação de contrato, e os dirigentes já consideravam negociá-lo. Sem o atacante, Flávio Costa pretendia lançar Gerson na ponta-de-lança, pisando mais na área. O meia, no entanto, afirmava a quem quisesse ouvir que não sabia jogar mais adiantado, fazendo a função que o técnico exigia. Embora Gerson de fato rendesse mais atuando mais recuado (como sua carreira viria a demonstrar), os dirigentes alegavam que o meia devia jogar onde Flávio mandasse.


O clímax da guerra de nervos viria no dia 17 de agosto. No coletivo em São Januário, depois de ser marcado de maneira implacável pelo zagueiro Mauro II, dos aspirantes, Gerson entrou numa dividida com o garoto, quebrando-lhe a perna. Enquanto o jogador lesionado era retirado, o meia deixava o treino chorando e mais tarde pediria para não ser escalado. Enquanto isso, à beira do campo, o presidente Fadel Fadel batia boca com um grupo de torcedores rubro-negros, que não se conformavam em ver o time escalado sem Dida e Gerson.

E foi mesmo sem Dida e Gerson, e com o posto ocupado pelo versátil Paulo Alves, que o Flamengo entrou em campo para enfrentar, no dia 21 de julho, um Botafogo desfalcado de Garrincha, mas com Manga, Nilton Santos, Quarentinha e Zagallo, além dos jovens Rildo, Jairzinho e Jair Bala – este, outro a deixar o Flamengo de forma controversa no começo do ano. O alvinegro, que vencera cinco dos últimos seis clássicos contra o Fla, também vinha de duas vitórias, mas sem convencer. E os rubro-negros não deixariam escapar a chance da forra.

Aos 20 minutos, o time de Flávio Costa abriria o placar numa jogada que começou com Murilo tomando a bola de Zagallo e entregando a Carlinhos, que abriu na ponta para Paulo Alves. Este superou Paulistinha e cruzou para trás, para Aírton tocar às redes. O Botafogo ainda empatou aos 25, com Quarentinha completando de carrinho um centro de Zagallo. Mas o Flamengo controlava o jogo no meio-campo e ditava o ritmo das ações, além de demonstrar disposição nas divididas. E não tardaria a ficar novamente à frente na contagem.

Aos 40, Aírton arrancou num contra-ataque e abriu na esquerda para Osvaldo, que cruzou alto. Diante da indecisão entre Manga e Nilton Santos, Paulo Alves aproveitou para se infiltrar na área e tocar de cabeça longe do alcance do goleiro: Fla 2 a 1. No segundo tempo, o calor fez baixar a intensidade do jogo. Mas o Fla ainda daria a estocada final aos 26: Aírton carregou a bola da ponta para dentro e arriscou um chute do bico da área. A bola saiu fraca, mas bateu na cal da pequena área e encobriu Manga inapelavelmente. Era o 3 a 1.

A grande vitória sobre o Botafogo na manchete da Última Hora

Depois foi a catarse. No início do ano, no duelo pelo Torneio Rio-São Paulo, os alvinegros haviam vencido por 2 a 1 e passaram os minutos finais gastando tempo tocando a bola sob gritos de "olé" de sua torcida. Ao fim daquele jogo, o presidente Fadel Fadel declarara que "há de chegar o dia do olé do Flamengo". Ele viria logo no confronto seguinte e irritaria os botafoguenses a ponto de Paulistinha perder a cabeça, agredir Aírton com um pontapé e ser expulso – Quarentinha faria o mesmo em Osvaldo logo em seguida, mas ficaria em campo.

Após a tempestade, como no ditado, veio a bonança. Os dois jogos seguintes, contra o Campo Grande no Maracanã e o Madureira em Conselheiro Galvão, foram vencidos pelo Fla por goleadas de 5 a 0. No primeiro um show de Aírton, que anotou três e ainda perdeu um pênalti. Nelsinho fez os outros dois. No segundo o time desmontou logo cedo a retranca do Tricolor Suburbano – antes do intervalo já vencia por 4 a 0 – e atropelou com dois gols de Dida (enfim de contrato renovado), dois do artilheiro Aírton e um de Espanhol.

Contra o Bonsucesso em São Januário, no dia 11 de agosto, o time voltou a jogar só para o gasto e venceu por 1 a 0, gol de Aírton perto do fim da primeira etapa. Mas mantinha-se na liderança com 100% de aproveitamento ao lado do Bangu e seguia confiante para mais um clássico, diante do América no fim de semana seguinte. Nesse embalo, Flávio Costa nem cogitava alterar a equipe e mandou a campo a mesma escalação dos dois jogos anteriores, com Carlinhos e Nelsinho pelo meio-campo, Dida na ponta-de-lança e Gerson de fora.

Nelsinho e Carlinhos

Foi, porém, um jogo em que nada deu certo. O time foi surpreendentemente derrotado por 3 a 1, marcando seu gol só no fim com Nelsinho, após os rubros dispararem três gols de vantagem. E dois personagens se destacaram negativamente naquela tarde infeliz de 18 de agosto: um deles foi o goleiro Mauro, que levou um frangaço no segundo gol americano, deixando passar por baixo de seu corpo um chute despretensioso da intermediária do atacante Carlinhos, além de falhar também no terceiro, ao dar rebote num chute fraco.

Outro vilão foi o trio de arbitragem, em especial o bandeirinha Erich Schwarz, que marcou impedimentos absurdos e foi o pivô da expulsão do ponta Espanhol aos 43 minutos do primeiro tempo, antes de um escanteio para o Fla, num gesto de preciosismo sobre a posição da bola para a cobrança, o que também só aumentava as suspeitas de desconhecimento das regras. Como se não bastasse, Dida também seria expulso no fim do jogo, após o gol rubro-negro, juntamente com o lateral Itamar, após ter sido agredido pelo defensor rubro.

A arbitragem voltaria a estar na berlinda no jogo seguinte, outro clássico, agora diante do Vasco. Ligeiramente melhor em campo num duelo equilibrado e um tanto pobre, o Fla balançou as redes com Espanhol após excelente jogada envolvendo Gerson – que voltava ao time no lugar de Dida – e Aírton, que fez o passe para o ponta. Mas o árbitro Aírton Vieira de Morais, o "Sansão", anulou o gol alegando primeiro um impedimento inexistente e depois uma falta de Gerson no goleiro Ita, que após o jogo declarou não ter entendido a anulação.

O lance motivou o presidente Fadel Fadel a abrir o verbo contra a Federação Carioca, retirando seu voto de confiança ao Departamento de Árbitros e denunciando a existência de uma suposta "quadrilha do apito" organizada contra o Flamengo, da qual Sansão faria parte. No jogo seguinte, contra o Bangu, no entanto, não houve o que reclamar a não ser dos próprios erros: o time voltou a ser batido, dessa vez por 2 a 1 (Roberto Pinto, de pênalti, e Mateus para os banguenses, e Dida para o Fla) e desabou para a quinta colocação na tabela.

"O Flamengo é um time de futebol quadrado, sem nenhuma inspiração ou versatilidade", criticou a crônica do Jornal do Brasil, que ainda comparou: "O ataque do Flamengo é um exército medieval – quer arrombar as portas do castelo a golpes de machado". O próprio Flávio Costa reforçaria as críticas ao estilo de jogo do time, considerando que alguns jogadores vinham prendendo demais a bola e atuando sem objetividade, o que o treinador chamava de "jogo miudinho, bonitinho, mas improdutivo". Mudanças estavam a caminho.

No fim de semana seguinte, o Fla não jogou pelo campeonato: seu jogo com o São Cristóvão foi adiado para a quarta-feira, 11 de setembro, e o time embarcou para Fortaleza, onde faria amistoso contra o Ferroviário. Quatro jogadores, lesionados, ficaram no Rio: o goleiro Mauro (que chegara a ser substituído contra o Bangu), Gerson, Luís Carlos e Jordan. Este último recebeu ainda um recado de Flávio: estava barrado "por já ter cumprido sua missão como profissional". Na visão do treinador, o veterano "já dera o que tinha que dar".

O novo dono da camisa 6 era um garoto dos aspirantes conhecido como Paulo Bode, que passaria a ser chamado pelo nome: Paulo Henrique. Aos 20 anos de idade, dez a menos que Jordan, havia destronado do posto aquele que era, até ali, o atleta que mais vezes havia vestido a camisa rubro-negra na história do clube, mas que, sem saber, fizera contra o Bangu sua derradeira exibição com o Manto Sagrado. O gol também ganhava um novo titular: o mineiro Marcial, que substituíra o lesionado Mauro no decorrer da partida contra os alvirrubros.

Outras mudanças para o jogo contra o São Cristóvão foram a entrada de Joubert na zaga, no lugar do lesionado Luís Carlos, e de Nélson no meio-campo no posto de Carlinhos, um dos principais alvos de críticas de Flávio. Disputado em General Severiano, o jogo terminou em vitória suada do Flamengo por 2 a 1: Osvaldo abriu o placar no primeiro tempo, Artoff empatou no meio da etapa final, e Espanhol fez o gol da vitória a quatro minutos do fim, pegando a sobra de uma finalização de Nelsinho. Apesar do drama, o time voltava a vencer.

Mas o clube ainda viveria uma última turbulência antes da virada do turno. Dois dias após o jogo contra o São Cristóvão era anunciada a bomba: o Botafogo, por meio de seu diretor de futebol Otávio Pinto Guimarães (futuro presidente da Federação Carioca e da CBF) oferecia ao Flamengo um cheque já assinado no valor de Cr$ 150 milhões por Gerson. Fadel Fadel balançou, mas optou por esperar até o dia seguinte para tomar uma decisão junto com os demais dirigentes, já que o Santos também tinha interesse na compra do meia.

Enquanto Fadel ponderava sobre a questão e recebia até ameaças de morte caso negociasse o jogador, Gerson era levado pelo dirigente alvinegro Renato Estelita e pelo jornalista botafoguense Sandro Moreyra até a concentração do Botafogo na Avenida Niemeyer, em São Conrado, para ser apresentado ao elenco e até posar para fotos com a camisa do clube (e aqui cabe um parêntese: é de se imaginar o escândalo que seria feito hoje se algum jornalista notório agisse da mesma maneira com qualquer astro de clube rival).

Espanhol e Murilo

Além dessa negociação tensa e de certa forma viciada, ante toda a pressão pela saída do jogador, o Flamengo ainda anunciava que rescindiria o contrato de Carlinhos e colocaria o meia à venda. Enquanto, na mesma nota, Jordan se declarava magoado com as declarações de Flávio Costa. O veterano lateral, que havia renovado contrato há poucos meses, dizia ter futebol para mais três ou quatro anos e que, quando enfim pendurasse as chuteiras, gostaria de receber algum tipo de reconhecimento pelos serviços prestados – o que não teria.

No meio desse turbilhão, o Flamengo jogaria contra o Olaria – ironicamente em General Severiano – e venceria por 2 a 0 pela penúltima rodada do turno. Os gols saíram ainda no primeiro tempo: um de falta do ex-olariense Nélson e outro de Aírton aproveitando falha do goleiro Ari. Agora, as atenções se voltariam para o Fla-Flu que fecharia o turno. Embalados por terem, naquela mesma rodada, derrubado o último invicto do campeonato, o Bangu, os tricolores eram dirigidos por um nome bem conhecido dos rubro-negros: Fleitas Solich.

Com predomínio das defesas sobre os ataques, principalmente depois que Aírton sofreu lesão no tornozelo logo aos cinco minutos e teve que passar o resto do jogo fazendo número em campo, o clássico terminou 0 a 0, diante de 67 mil torcedores. Assim, quem se destacou foi Marcial, o melhor em campo, exibindo suas credenciais e antecipando o que faria na decisão. "Foi um goleiro soberbo, admirável, com impressionante senso de colocação e segurança. Sozinho, valeu pelo espetáculo que o consagrou", aclamou o Jornal dos Sports.

O resultado fez com que o Fla terminasse a primeira metade do campeonato em quarto, com 18 pontos, dois a menos que os líderes Bangu e Botafogo e a um do Fluminense (o América vinha em quinto e o Vasco, bem longe, em sexto). Na virada do turno o time faria outro amistoso, batendo o Atlético Paranaense por 1 a 0 no Maracanã em jogo com renda destinada ao estado do Paraná, que sofrera com incêndios florestais durante o mês de setembro. O pontapé inicial foi dado pelo bispo Dom Hélder Câmara, notório torcedor do Flamengo.


O SEGUNDO TURNO

Com a venda de Gerson selada na noite de 16 de setembro, o Fla tratou de se reforçar para o returno. Na véspera do amistoso com o Atlético era anunciada a compra de outro ponta-esquerda chamado Osvaldo, este oriundo do Guarani e que defendera uma Seleção Brasileira com cara de "time B" que disputara o Campeonato Sul-Americano na Bolívia no início do ano. Curiosamente, sua família continuou residindo em São Paulo, o que o fazia se deslocar do Rio toda semana, recebendo logo o apelido de Osvaldo "Ponte Aérea".

Outro reforço também veio do futebol paulista e chegou ao Rio no mesmo voo do "Ponte Aérea": era o atacante pernambucano Geraldo, que estava em litígio com o Palmeiras e foi contratado por empréstimo até o fim do ano. Eram reforços para suprir as lacunas ofensivas deixadas por uma onda de lesões no elenco – eram baixas temporárias, entre outros, Aírton, Dida e o outro Osvaldo, o Monteiro. Os dois recém-contratados estrearam já na abertura do returno, na dramática vitória de 3 a 2 sobre o lanterna Canto do Rio em São Januário.

Geraldo (à esquerda), com Carlinhos e Murilo: novidade para o returno

E foi Geraldo quem abriu a contagem para o Flamengo logo aos 16 minutos, antes do meia Fefeu (que viria para a Gávea no ano seguinte) igualar o placar. Os outros três gols saíram da marca da cal: Nélson recolocou os rubro-negros na frente cobrando pênalti, antes de Fefeu empatar de novo do mesmo jeito ainda na etapa inicial. O gol da vitória só sairia aos 44 minutos do segundo tempo, de novo com Nélson de pênalti. O meia também seria o autor, cobrando penalidade, do tento da vitória de 1 a 0 sobre a Portuguesa na partida seguinte.

Na quarta rodada (lembrando que o Fla folgava na segunda), o clássico diante do Botafogo teve como atração do lado alvinegro o retorno de Garrincha. Mané, no entanto, foi bem marcado pelo garoto Paulo Henrique. E, como no Fla-Flu, o 0 a 0 realçou as atuações dos goleiros Marcial e Manga. O Fla, porém, foi prejudicado pelo árbitro Cláudio Magalhães, que, assim como os auxiliares, não viu uma agressão de Quarentinha em Ananias fora do lance, mas expulsou o beque rubro-negro mais tarde por uma falta normal no atacante alvinegro.

Naquela altura do campeonato, o Bangu parecia nadar de braçadas rumo ao seu segundo título carioca. Esmagara o Madureira por 7 a 0 na mesma rodada em que seus maiores perseguidores Fla, Flu e Bota não passaram do empate. E, embora com um jogo a mais, livrava quatro pontos de vantagem sobre tricolores e alvinegros e cinco para os rubro-negros. Na rodada seguinte, porém, os alvirrubros folgariam e os demais teriam a chance de diminuir a desvantagem. Como era o caso do Flamengo, que pegaria o Campo Grande no Maracanã.

Na goleada rubro-negra por 4 a 1, quem brilhou foi Aírton, autor de um golaço, o terceiro do Fla. Ele foi carregando a bola com a cabeça por vários metros, livrou-se da marcação e, ao entrar na área, deixou cair até pegar de primeira, enchendo o pé para estufar as redes. Nélson de pênalti, Osvaldo "Ponte Aérea" de falta e outra vez Aírton marcaram os demais tentos. O Campusca ainda teve o goleiro Alberto expulso por tentar agredir o juiz, e viu o veterano zagueiro Décio Esteves ir parar no gol – e ainda pegar um pênalti batido por Osvaldo.

Quando o time parecia trilhar o caminho certo, veio outro balde de água fria que precipitou nova crise: o decepcionante empate em 0 a 0 com o Madureira em São Januário, quando a equipe exibiu um futebol tímido, inoperante, quase sem chutar a gol diante de um adversário que procurou apenas se defender. Para piorar, aos 16 minutos da etapa final Dida se desentendeu com o zagueiro Alfredo e ambos foram expulsos. A crônica do Jornal dos Sports, no dia seguinte, indicava que aquele empate poderia representar o fim das esperanças de título.

Assim como acontecera com Jordan, outro fim de uma longa e marcante trajetória em vermelho e preto se encerraria, infelizmente de maneira negativa: aquele triste empate com o Madureira seria a última partida de Dida pelo Flamengo. Mesmo absolvido pelo TJD quanto à sua expulsão, o atacante e ídolo da torcida seria, em última análise, responsabilizado pela pouca efetividade do ataque rubro-negro e perderia o lugar no time, naquela que seria sua última temporada na Gávea. Um adeus imprevisto, sem as honras que merecia.

O Flamengo seguiu adiante: Geraldo, o substituto de Dida na ponta-de-lança, marcou o único gol da vitória de 1 a 0 sobre o Bonsucesso em Teixeira de Castro, resultado fundamental para manter vivo o sonho do título. Já o outro reforço do returno, Osvaldo "Ponte Aérea", tratou de liquidar o América no jogo seguinte, marcando de pênalti os dois gols do triunfo por 2 a 0 no Maracanã que deu o troco da derrota no turno. Até chegar a partida que seria o grande ponto de virada rubro-negra na campanha: o clássico contra o Vasco.

O jogo foi numa sexta-feira, feriado de 15 de novembro, aniversário do Flamengo. Na véspera, o Maracanã havia sido palco da vitória de virada do Santos sobre o Milan por 4 a 2 no jogo de volta do Mundial Interclubes. Mas o Clássico dos Milhões não deveria nada em termos de emoção. O Fla foi para o intervalo perdendo por 2 a 0, gols de Célio e Mário "Tilico" – este, com impedimento claro não marcado no início da jogada. Mas um gol relâmpago de Aírton no primeiro minuto do segundo tempo recolocou os rubro-negros no jogo.

O time chegou ao empate aos 12 minutos, de novo com Aírton, que recebeu de Geraldo e tocou no canto do goleiro Marcelo. Mas o Vasco passou de novo à frente aos 15, novamente com Mário. Aos 19, o árbitro Amílcar Ferreira ignorou um pênalti clamoroso de Brito em Geraldo. Mas um minuto depois compensou ao apontar a marca da cal por um toque de mão involuntário do beque vascaíno. Osvaldo cobrou e tornou a empatar o jogo. Logo depois, o Fla teria um gol de Espanhol mal anulado e Mário seria expulso por atingir Marcial.

A virada épica demoraria mais um pouco, mas acabaria chegando, visto que o Fla já dominava as ações em campo. Aos 30 minutos, o golaço: Aírton recebeu de Espanhol (um dos melhores em campo), levantou a bola com um toque de calcanhar e, ao girar, emendou um voleio de primeira que encobriu o goleiro Marcelo. O Maracanã entrou em delírio. Os 4 a 3 enterravam de vez as parcas chances matemáticas do rival e deixavam os rubro-negros vivos, vivíssimos na briga pelo título. Afinal, era uma vitória para embalar de vez.

Aírton comemora seu gol da virada contra o Vasco

Na semana seguinte, o duelo crucial contra o líder Bangu, que vinha de vencer o Botafogo, alijando os alvinegros da disputa, e se colocava três pontos à frente da dupla Fla-Flu. Um público pagante de mais de 96 mil torcedores viu na etapa inicial um Flamengo com mais volume de jogo (com destaque para Espanhol, infernizando a defesa banguense pela ponta direita), mas os alvirrubros tendo chances mais claras em contra-ataques. Mesmo nesse ritmo intenso, o primeiro tempo terminou com placar em branco: gols, só após o intervalo.

O primeiro sairia aos 16, com Osvaldo recebendo centro da esquerda e tendo tempo de ajeitar e bater para abrir a contagem. Aos 34, Nilton tentou atrasar de cabeça para o goleiro Ubirajara Motta e acabou fazendo um passe para Espanhol, que rapidamente entrou na área e encheu o pé para ampliar. Mas mal houve tempo de comemorar: dois minutos depois Bianchini descontou para o Bangu. A tensão durou até os 43, quando Osvaldo cobrou falta de Zózimo que ele mesmo sofreu, e Ubirajara aceitou o chute de longe. Placar final: Flamengo 3 a 1.

A vitória deixou o Fla a só um ponto do Bangu, que começaria ali a derreter. Em pontos ganhos, o time dirigido por Tim havia liderado o campeonato praticamente todo, exceto na quarta rodada do turno. Porém, com os rubro-negros no encalço, os alvirrubros cederam à pressão. No sábado seguinte, o Flamengo bateu o São Cristóvão por 2 a 1, gols de Espanhol e Aírton e, com o empate do Bangu com o América (2 a 2) no domingo, alcançou o adversário na ponta. E já sinalizava a ultrapassagem, que aconteceria na próxima semana.

Tarde de 8 de dezembro, penúltima rodada: no alçapão da Rua Bariri, o Flamengo bateu o Olaria por 2 a 1, num jogo que permaneceu sem gols até os 34 minutos da etapa final, quando Carlinhos abriu a contagem. Nelsinho ampliou e, nos acréscimos, o time da casa descontou. Enquanto isso, no Maracanã, o Fluminense de Fleitas Solich acabava de vez com as chances do ex-líder Bangu vencendo por 3 a 1 e se credenciava, numa grande reviravolta, a decidir o título com os rubro-negros no confronto direto de dali a sete dias.

Na rodada derradeira, com um ponto à frente, o Flamengo jogava pelo empate e se via agora na posição inversa em relação à que ocupava em 1941, quando do célebre Fla-Flu da Lagoa. O time que entrou em campo era rigorosamente o mesmo das últimas seis partidas. O mineiro Marcial se firmara no gol, à frente da vigorosa dupla de zaga formada por Luís Carlos e Ananias. Nas laterais, o ofensivo Murilo na direita e o valente e dinâmico Paulo Henrique na esquerda. No meio, o talento e a classe de Carlinhos se combinavam ao fôlego e à combatividade de Nelsinho. Na frente, Espanhol entortava pela ponta direita, Aírton lutava na área auxiliado por Geraldo e Osvaldo "Ponte Aérea" fazia o vai e vem pela esquerda.

Para receber este time e o do Fluminense num domingo de sol típico de dezembro no Rio de Janeiro, um Maracanã tomado por uma multidão que nunca se vira igual: 177.020 pagantes, mais de 200 mil presentes! Eram números que superavam até os maiores públicos da Seleção Brasileira no estádio até ali, incluindo a decisão da Copa do Mundo de 1950. Nas arquibancadas, torcedores eram passados por sobre as cabeças dos outros até se colocarem num espaço mínimo que fosse onde pudessem ficar de pé. Mas não houve incidentes graves.


O Flu também tinha seus trunfos: a experiência de Castilho no gol, de Altair na lateral-esquerda e Escurinho na ponta-esquerda, a força de Procópio na zaga, a juventude de Carlos Alberto Torres na lateral-direita, o dinamismo de Oldair no meio-campo, o faro de gol de Manuel, vice-artilheiro do certame, no ataque. E tinha Don Fleitas Solich mandando o time à frente pela necessidade de vencer.

No primeiro tempo, o Fluminense chegou a acertar a trave com Escurinho no início do jogo. Mas o Fla, obstinado, se segurava e ameaçava nas arrancadas de Espanhol. No segundo tempo, a torcida rubro-negra reclamou de três possíveis penalidades: um empurrão de Procópio em Geraldo, um carrinho de Carlos Alberto Torres no mesmo jogador e um bloqueio com as duas mãos feito por um defensor tricolor. O drama só aumentava: o desgaste físico cobrou seu preço a Murilo, Paulo Henrique e Osvaldo, que disputaram boa parte da etapa capengando. No fim, aos 43, o último susto: Evaldo se chocou com Marcial e a bola sobrou para Escurinho, com o goleiro rubro-negro caído e o gol aberto.

O ponteiro tricolor poderia encher o pé, mas ao ver o goleiro rubro-negro se levantar preferiu o toque sutil, ainda que com alguma força, tentando encobrir Marcial. O jovem guardião de 22 anos, no entanto, conseguiu se por de pé e, quando a torcida do Fluminense já gritava o gol certo, deu dois passos para trás e esticou os braços, agarrando a bola com uma calma desconcertante. Em seguida, virou-se para a massa rubro-negra exibindo-a em suas mãos como um troféu. Sabia que aquela era a defesa do jogo e o título estava próximo.

Campeões… e o jogo termina com a bola nas mãos do herói Marcial

Ao apito final de Cláudio Magalhães, o êxtase tomou conta do então Maior do Mundo. Jogadores choravam, se abraçavam, davam a volta olímpica vestindo a faixa de campeão. O campeonato que tinha o Botafogo como favorito antes do início e o Bangu como time a ser batido durante quase todo o seu transcorrer, acabava em Fla-Flu e em título rubro-negro, após conviver com o ceticismo geral desde o pontapé inicial. A campanha era de uma regularidade cristalina: em 24 jogos, eram 17 vitórias, 5 empates e apenas 2 derrotas.

Flávio Costa não chorou, mas sentiu a emoção e o alívio do dever cumprido. Vencera inúmeras quedas de braço – com jogadores, dirigentes, jornalistas, até torcedores. E, a seu modo, moldara um novo Flamengo: no Fla-Flu decisivo eram apenas três (Carlinhos, Nelsinho e Espanhol) os remanescentes da derrota para o Botafogo em 1962. Isso tendo a seu lado alguns de seus antigos pupilos: os ex-jogadores Newton Canegal, Modesto Bria e Válter Miraglia integravam a comissão técnica, e Agustín Valido era o Diretor de Futebol.

E se aquele time não era um primor de futebol técnico e vistoso, havia crescido enormemente em competitividade na reta final. Tinha de volta, por aqueles dias, a velha flama rubro-negra. Tanto que até Mario Filho, com quem Flávio rompera antes da Copa de 1958 num episódio envolvendo a Seleção Brasileira, prestou esse reconhecimento em sua crônica do título. Escreveu ele em sua tribuna no Jornal dos Sports: "O Flamengo é da tua glória é lutar. E só podia ser campeão desse jeito, flamengamente, todo alma, todo garra, todo Flamengo!".


Complemento à narrativa feito aqui do Blog A NAÇÃO: a epopeia da maior de todas as multidões na história do futebol tem um contexto simbólico todo próprio. Não havia televisão para transmitir o futebol para a gente naquela época. Aquele era o único clube capaz de arregimentar tantos aficionados para arrastar ao Palco Máximo do futebol brasileiro - o então "Maior Estádio do Mundo" - e estava sob angustiantes 8 anos sem ser Campeão Carioca. O Rio de Janeiro recém havia deixado de ser a Capital Federal, tendo Brasília sido inaugurada tão só três anos antes, em 1960. Dois anos antes, o clube havia sido Campeão do Torneio Rio-São Paulo numa tarde de domingo na qual atraiu apenas 40 mil torcedores para ver a vitória por 2 a 0 sobre o Corinthians que sacramentou aquele título de 1961. Prova que vencer o Campeonato Carioca tinha um gosto diferente e especial, era o que o povo efetivamente valorizava. De quebra, uma decisão em rodada final de um torneio de pontos corridos com aquele que era considerado o maior clássico da cidade, o Fla-Flu. E ainda por cima, com uma arrancada nas rodadas finais de um time desacreditado, e que em nenhum momento foi dado como possível campeão da cidade. A capacidade definitiva de mover multidões começaria a partir dali a efetivamente incomodar aos rivais, tanto que logo nos anos seguintes nasceria a provocação em alusão aos urubus, apologia preconceituosa à capacidade que tão só o Flamengo detinha de arrastar tanta gente das camadas mais pobres ao estádio de futebol. Pela soma de tudo isto, foi um título gigante! Um troféu com a cara do Flamengo! O vermelho e o preto era campeão do Rio diante da maior de todas as multidões já vistas num estádio de futebol!