segunda-feira, 29 de dezembro de 2025

Flamengo, Campeão Carioca de 1974: a afirmação definitiva do garoto Zico, o Galinho


Mais uma maravilhosa história contada com maestria e envolvente narrativa por Emmanuel do Valle, na minha opinião, o melhor cronista sobre história do Flamengo de todos os tempos, que assim narrou tais detalhes em seu blog Flamengo Alternativo:


A conquista do Campeonato Carioca de 1974 pelo Flamengo, sacramentada diante do Vasco num Maracanã lotado, tem pontos em comum com inúmeras outras glórias rubro-negras. Foi levantada com um time repleto de pratas da casa, com um técnico também feito em casa, e sem que o time partisse como favorito, além de enfrentar vários contratempos. Mas tem seu diferencial. Foi, entre tantas outras coisas, um título especial para dois ídolos da primeiríssima prateleira da história do clube: Zico, enfim titular da camisa 10, e Júnior, estreando como profissional. E, como se não bastasse, também foi o único na breve trajetória de Geraldo "Assoviador".

Desfalcado de Liminha e Doval, esse foi o time que conquistou o título
carioca contra o Vasco em 1974. Em pé: Renato, Júnior, Jaime, Luís Carlos,
Zé Mário e Rodrigues Neto. Agachados: Paulinho, Geraldo, Édson, Zico e Julinho


O Campeonato Carioca de 1974 seria o último do antigo Estado da Guanabara. Criada em 1960, quando da transferência do Distrito Federal (ou seja, da capital do país) do Rio de Janeiro para Brasília, aquela unidade federativa de vida curta havia servido para preservar o status de cidade-estado do município do Rio de Janeiro, mas já tinha data marcada para sumir do mapa: a preparação para a fusão com o antigo estado do Rio de Janeiro, que tinha Niterói como capital, seguia a todo vapor e estava prevista para ser oficializada em março de 1975.

Em ano de Copa do Mundo, o calendário empurrou os estaduais para o segundo semestre, tendo início em agosto. Porém, o Flamengo que conquistaria o título carioca começou a nascer ainda no início daquele ano, quando Zagallo, técnico do Flamengo e da Seleção Brasileira, tirou licença do cargo na Gávea para se dedicar à preparação do escrete canarinho para o Mundial da Alemanha Ocidental. O time, então, passou para as mãos de Joubert Meira, ex-lateral-direito rubro-negro dos anos 1950 e 1960, que vinha dirigindo as categorias de base do clube.

Mineiro de Tombos, 38 anos de idade, Joubert era ele próprio cria rubro-negra. Como jogador, foi promovido dos juvenis por Manuel Fleitas Solich, estreando em 1955 e passando a titular dois anos depois com a saída de Tomires. Por seis temporadas foi o dono da posição até a chegada de Murilo, no início de 1963, após a qual foi deslocado para a zaga central nos dois últimos anos da carreira. Penduradas as chuteiras, foi logo trabalhar na base, peneirando e lapidando talentos com o olhar clínico de quem conhecia profundamente o Flamengo.

Joubert Meira, comandante prata da casa

Assim, era natural que o novo técnico preferisse apostar nos garotos que conhecia da base. No início do ano foram dispensados os laterais Moreira e Mineiro, os zagueiros Fred e Tinho, além de dois medalhões trazidos para o Brasileiro de 1973: os atacantes Sérgio Galocha (ex-Internacional) e Toninho Guerreiro (ex-Santos). Quem também ia embora, mas com honras, era o lendário zagueiro paraguaio Reyes, que ganhou passe livre e um comovente jogo de despedida antes de voltar a seu país para defender o Olimpia.

A necessidade de se respirar novos ares era imperiosa na Gávea em vista da fraquíssima campanha no Brasileiro de 1973, quando, mesmo contando com um bom punhado de craques de primeira linha do futebol brasileiro, o time dirigido por Zagallo sequer havia conseguido se colocar entre os 20 clubes de melhor campanha que avançariam para a segunda fase, chegando a amargar uma série de 7 partidas sem vencer, antes de terminar a competição num vexatório 24º lugar entre 40 clubes, somando mais derrotas (13) que vitórias (11).

Com isso, no novo Fla de Joubert que disputaria o Brasileiro de 1974 ganharam espaço garotos como o goleiro Cantarele (que se tornaria titular quando Renato foi servir à Seleção), o lateral Nei, os zagueiros Jaime e Rondinelli, os meias Geraldo, Léo e Zico (que, além de titular indiscutível, passava a ser o novo dono da camisa 10), o centroavante Rui Rei e o ponta Julinho. A única novidade vinda de fora era o quarto-zagueiro Luís Carlos, ex-Corinthians e com passagem pela Seleção, trazido para o lugar de Reyes.

Por outro lado, nomes como o zagueiro Chiquinho Pastor, o meia Afonsinho e o ponta Rogério, que haviam terminado 1973 como titulares de Zagallo, tinham espaço sensivelmente reduzido na equipe de Joubert, assim como Dario e Doval – o 9 e o 10 da temporada anterior – passavam agora a disputar a mesma camisa. Sem falar, é claro, em Paulo Cézar Caju, o astro maior daquele elenco, mas que, por ser nome imprescindível na Seleção Brasileira, seria desfalque permanente no time rubro-negro durante o Brasileiro. O time agora giraria em torno de Zico.

Na pré-temporada o time obteve resultados animadores, principalmente uma sensacional goleada de 5 a 1 sobre o Corinthians de Rivelino no Maracanã. E na primeira fase do Brasileiro, a campanha foi ainda mais encorajadora: o time fez a segunda melhor campanha geral entre os 40 clubes (atrás apenas do Grêmio), tendo permanecido 14 jogos invicto a partir da estreia e sofrido apenas duas derrotas, com 12 vitórias e 5 empates em 19 jogos. Além disso, observando jogo a jogo, colheu resultados expressivos, sobretudo sob a perspectiva histórica.

No Maracanã, o Fla passou invicto por todos os clássicos cariocas, venceu América (2 a 1) e Botafogo (2 a 0), além de bater o Grêmio (1 a 0, golaço de Zico) pela primeira vez na história num jogo de competição. Já como visitante, superou um bom time do Bahia na Fonte Nova (2 a 0), arrancou um empate com o forte Internacional no Beira Rio (1 a 1) e derrotou o Atlético Paranaense em Curitiba (2 a 1) e o Avaí em Florianópolis (1 a 0), dois resultados que o clube só conseguiria repetir pelo Campeonato Brasileiro muitas décadas depois.

Embora até os adversários admitissem que o novo Flamengo era mais ofensivo que o de 1973, Joubert, humilde, negava qualquer transformação tática: "Não houve mudança no sistema de jogo. O time continua jogando da mesma forma como se fosse Zagallo o técnico. Procuramos atacar e defender em bloco", dizia à Revista Placar, antes de exaltar seus pupilos: "O que está acontecendo é que a garotada entra em campo com disposição para molhar a camisa. No fundo, eles sabem que jogando bem estarão defendendo seu próprio futuro", atribuía.

Na segunda fase, os 24 clubes classificados foram divididos em quatro grupos de seis, e só o primeiro colocado de cada um avançava. E foi nessa fase que o Fla sucumbiu, em grande parte devido a lesões de jogadores-chave: Zico ficou de fora alguns jogos, Doval só atuou na estreia contra o Guarani, e até o volante Liminha, que jogara a primeira fase inteira, foi baixa na derrota para o Palmeiras (1 a 3) no Pacaembu. O time de Joubert ainda tropeçaria na Fonte Nova contra o Bahia (1 a 1) e no Maracanã contra o Cruzeiro (1 a 3), que passou às finais.

Para piorar, o título acabou nas mãos do Vasco, que fizera campanha discreta na primeira fase e era o menos cotado entre os quatro finalistas. De todo modo, o desempenho rubro-negro, bem superior ao de 1973, apontava o caminho da renovação. No Prêmio Bola de Prata da Revista Placar, o Fla teve cinco nomes entre os cinco melhores de cada posição: Jaime (beque-central), Luís Carlos (quarto-zagueiro), Rodrigues Neto (lateral-esquerdo), Paulinho (ponta-direita) e Zico (ponta-de-lança), que levou a Bola de Ouro como o melhor jogador do torneio.

O desempenho individual de Zico, aliás, evidenciava o êxito da aposta no garoto de 21 anos de idade para ser o novo dono da camisa 10. Presente em 19 das 24 partidas do time, marcou 12 gols e só saiu de campo derrotado uma vez, contra o Cruzeiro na segunda fase. Nos outros três jogos que o Fla perdeu no torneio, ele foi ausência sentida. Com isso, sua nota média – 8,74 – superou por larga margem as dos principais concorrentes pela Bola de Ouro: o zagueiro chileno Figueroa, do Internacional (8,22), e o goleiro Joel Mendes, do Vitória (8,09).



O CAMPEONATO CARIOCA

Nos primeiros dias de agosto de 1974 era dado o pontapé inicial para o Campeonato Carioca daquele ano, que teria, como nos dois anos anteriores, 12 participantes e três turnos mais a fase final. O torneio começava com América e Flamengo bem cotados, e Botafogo e Fluminense como incógnitas, mas o favorito era mesmo o Vasco. Campeão brasileiro, o cruzmaltino dirigido pelo paulista Mário Travaglini não tinha um time brilhante, mas esbanjava malandragem e experiência, sobretudo na defesa, em nomes como o goleiro Andrada, o lateral Fidélis e os zagueiros Miguel e Moisés. Havia ainda a lucidez do meia Zanata e a versatilidade do ponta Luís Carlos (dois ex-rubro-negros), além de um jovem goleador que se firmava: Roberto.

Do América, dizia-se que praticava o futebol mais vistoso do Rio, bem ao estilo de seu treinador, o velho craque Danilo Alvim, o "Príncipe". Os rubros também tinham seu goleador revelação: Luisinho - irmão de César Maludo e Caio Cambalhota - que perdera a artilharia do Brasileiro para Roberto por apenas um gol, mas tendo feito menos jogos. Era um time de estilistas, mas que dentro e fora de campo também tinha sangue quente: chegava para o Carioca vindo de uma crise entre elenco e diretoria devido ao atraso de salários, o que chegou a motivar uma greve dos jogadores.

Detentor do título carioca, o Fluminense era dirigido por um técnico virtualmente desconhecido, Carlos Alberto Parreira, e liderado em campo por um craque às portas da despedida: o canhotinha Gerson. Já o Botafogo, por sua vez, era comandado por Zagallo – que deixara o Fla em definitivo no fim de abril, mas só assumiria o cargo em General Severiano após a Copa do Mundo, dizendo ter assimilado as lições holandesas do Mundial. Porém, com Jairzinho em má fase, os alvinegros remanejavam suas fichas para o lateral Marinho Chagas.


Entre os pequenos, a sexta força era o Olaria, vindo de boas campanhas desde o início da década, mas a grande aposta era o Madureira treinado pelo ex-meia rubro-negro (e revelado no próprio Tricolor Suburbano) Nelsinho Rosa, e que fazia ótimo trabalho de base – seria campeão carioca de juvenis naquele ano. Bonsucesso, São Cristóvão e Campo Grande entravam almejando não ficar entre os quatro que seriam eliminados ao fim do primeiro turno. Já o Bangu vivia fase paupérrima desde a saída da família Andrade do comando do clube, em 1969.

Por fim, havia o Flamengo, cujo desafio era levantar a cabeça após a desilusão no Brasileiro. Para isso, reforçava a aposta na base e dispensava medalhões. Em julho, Paulo Cézar Caju foi negociado com o Olympique de Marselha. Dias antes da abertura do Carioca, Chiquinho Pastor voltou ao Botafogo. Também naquele início de agosto, o contrato de Afonsinho expirou, e o meia retornou ao Olaria. E no dia 9 daquele mês, foi a vez de Dario deixar a Gávea e regressar ao seu ex-clube, o Atlético Mineiro, trocado por empréstimo pelo zagueiro Vantuir.

Já os reforços, além de Vantuir, eram mais modestos. Em junho, ainda durante o Brasileiro, o Fla obteve o jovem atacante Ivanir, do Grêmio, de contrapeso na negociação do centroavante Dionísio com o clube gaúcho. E no fim de julho, dois nomes vindos do América Mineiro foram apresentados: o volante Pedro Omar, Bola de Prata da posição em 1973, chegava para disputar a posição com o veterano Liminha. E o meia-atacante Édson, por sua vez, que era uma aposta pela versatilidade, já que podia atuar como segundo homem de meio-campo ou ponta recuado.


UMA TAÇA GUANABARA OSCILANTE

O decadente Bangu, a quem o Flamengo havia goleado impiedosamente por 8 a 0 no Carioca do ano anterior, seria o adversário da estreia no Maracanã na noite de sábado, 3 de agosto. Talvez mordido pela derrota tão fragorosa no confronto anterior, o Bangu entrou retrancado, e o Fla só conseguiu abrir o placar aos 20 minutos do segundo tempo, num "peixinho" de Zico. Mas no último minuto, quando já se acreditava que a partida terminaria com vitória rubro-negra, os alvirrubros pregaram uma peça e empataram com Rogério: 1 a 1.


Era um tropeço que não estava absolutamente nos planos rubro-negros. Pior para os jogadores, que, além de frustrados pelo resultado, saíram de bolsos vazios, já que a diretoria havia decidido não pagar nenhum "bicho" (remuneração extra) para empate nos jogos contra os times que considerava pequenos. Mas aquele não seria, no entanto, o único ponto perdido para os times menores: na segunda rodada, o Flamengo pegaria o perigoso Madureira, sendo novamente surpreendido no Maracanã e colhendo um resultado ainda pior: a derrota por 2 a 1.

Melhor em campo diante de um desordenado Flamengo, o Tricolor Suburbano abriu o placar num lance em que Jaime tentou cortar um cruzamento e marcou contra. Ainda no primeiro tempo, Zico empatou de pênalti para os rubro-negros. Mas no começo da etapa final, o Madureira voltou a ficar em vantagem quando o centroavante Carlinhos aproveitou outra falha de Jaime para dar números finais ao placar. Tão inesperado quanto decepcionante, o início da Taça Guanabara assistia ao Fla somar só um ponto em dois jogos contra pequenos.

Naquela largada, quem dava as cartas era o América. Logo na primeira rodada os rubros fizeram o clássico com o Vasco, que valeu também como jogo de entrega das faixas de campeões brasileiros dos cruzmaltinos, ainda celebrando o título conquistado três dias antes. As faixas, no entanto, foram devidamente carimbadas pelos americanos, que impuseram uma sonora goleada de 4 a 1. Em seguida, os rubros venceram a Portuguesa (1 a 0) e o São Cristóvão (2 a 0), mantendo a liderança isolada da Taça Guanabara e abrindo vantagem na ponta. E seria justamente o América o adversário seguinte do Flamengo.

Quando a bola rolou, porém, nem parecia que os rubros eram até ali o grande time do torneio e que o Fla era a decepção. O time de Joubert dominou inteiramente a partida, explorando os espaços deixados pelo de Danilo Alvim sobretudo às costas do meio-campo, e acumulou chances desde o início. Chegou a balançar as redes no primeiro tempo num gol contra do zagueiro americano Alex, mas o tento foi anulado pelo árbitro Luís Carlos Félix por impedimento no início do lance.

No começo da etapa final, entretanto, quem teve a chance de abrir a contagem foi o América, num pênalti de Rondinelli em Edu (irmão de Zico). Mas Luisinho chutou para fora. O Fla não perdoou: minutos mais tarde foi a vez de Doval arrancar e ser parado com falta dentro da área por Alex. Pênalti que Zico não desperdiçou, deslocando o goleiro Rogério. E aos 31, Zico lançou Doval, a defesa rubra parou pedindo impedimento inexistente, e o atacante argentino driblou o goleiro para ampliar para o Flamengo. No apagar das luzes, Luisinho ainda diminuiu para o América: 2 a 1.

A grande atuação, porém, não teve sequência. Nos dois jogos seguintes, o Fla venceu penando o São Cristóvão (2 a 0, dois gols de Doval) e a Portuguesa (1 a 0, gol de Zico de pênalti), saindo vaiado de ambas as partidas. No Fla-Flu, no entanto, o mau futebol não foi perdoado: dominado, o time perdeu por 2 a 1 (Zico diminuiu no último minuto, marcando seu primeiro gol de falta no Maracanã) e se afastou cada vez mais do título do turno. Desorganizado, o Flamengo nem lembrava mais a equipe sensação da primeira fase do Brasileiro.


O desempenho irregular continuou nas partidas seguintes: jogando bem, o time venceu o Olaria por 2 a 0, gols de Julinho e Zico (outra vez de pênalti). Contra o Bonsucesso, porém, o time se viu envolvido e chegou a estar perdendo por 2 a 0, antes de Vanderlei, em jogada individual, e Zico, antecipando-se ao goleiro Pedrinho, empatarem em 2 a 2. Já diante do Campo Grande, a equipe voltou a apresentar bom volume de jogo. Perdeu muitas chances, acertou duas vezes a trave, mas venceu por 2 a 0, gols de Rui Rei e Vanderlei em passes de Zico.

Na noite de sábado, 14 de setembro, a vitória do América sobre o Olaria no Maracanã por 1 a 0 acabou por liquidar as escassas chances matemáticas de conquista do turno pelos rubro-negros, praticamente transformando os dois últimos jogos – nada menos que os clássicos contra Botafogo e Vasco, ambos igualmente afastados da briga – em meros amistosos. De qualquer forma, seria uma ótima oportunidade para Joubert ajustar os problemas, sobretudo quanto ao jogo coletivo, que o time vinha demonstrando desde o início do Carioca.

Mesmo com os dois times fora da briga, o Maracanã recebeu mais de 48 mil pagantes e viu o Botafogo abrir vantagem com dois gols de Nilson Dias, um em cada tempo, até Joubert mexer no time rubro-negro na metade da etapa final. O Fla melhorou, acordou sua torcida e passou a apertar o Botafogo, principalmente depois que, aos 31 minutos, Zico sofreu pênalti de Valtencir e cobrou com êxito, diminuindo o placar. Seis minutos depois, o Galinho arrancou, driblou Osmar e Mauro Cruz, e tocou no canto do goleiro Wendell para decretar o empate: 2 a 2.

Nos vestiários, Joubert revelava suas orientações para mudar o rumo do jogo: "No segundo tempo mandei que Geraldo atuasse um pouco mais adiantado e procurasse tocar a bola mais rápido. Isto foi fundamental para a reação. As substituições também foram corretas, pois com Zé Mário na ponta direita, o Marinho (Chagas) ficou sem tanta liberdade para atacar, enquanto deslocando o Paulinho para a esquerda, tivemos uma opção a mais de jogo". Já Zagallo, o técnico alvinegro, creditava o empate ao talento de Zico: "Desequilibrou".

Na última rodada, o Galinho voltaria a ser destaque na vitória do Flamengo sobre o Vasco por 1 a 0 no sábado à noite (América e Fluminense decidiriam a Taça Guanabara no dia seguinte). Mesmo sem Renato, Rodrigues Neto e Doval, o Fla dominou um Vasco cheio de reservas e saiu na frente no fim do primeiro tempo, quando Paulinho cruzou da direita e Arílson entregou para Zico encher o pé. O camisa 10 ainda acertou a trave em outro lance e teve um gol anulado por falta no goleiro Carlos Henrique, apontada pelo juiz Rubens de Souza Carvalho.

Aquela reta final do primeiro turno foi como uma virada de chave: após o jogo contra o Botafogo, em que o Fla foi buscar o empate e quase virou no fim numa bonita bicicleta de Zico, o vestiário rubro-negro era todo animação, confiante numa reação no Carioca. E o desempenho na vitória sobre o Vasco, mesmo com os desfalques do rival, já indicava a mudança de astral. Assim, nem mesmo o fato de a tabela colocar o América – que acabara de faturar e ser Campeão da Taça Guanabara – como primeiro adversário no segundo turno preocupava os rubro-negros.


O SEGUNDO TURNO (Taça Oscar Wright da Silva)

Antes do pontapé inicial, o time do América recebeu as faixas de campeão do turno. Mas quando a bola rolou, só deu Flamengo. No primeiro tempo, Zico abriu o placar aos 28 minutos após tabela com Geraldo. E na etapa final veio a goleada. Aos 17 minutos, Geraldo – o grande nome do jogo – entrou na área fazendo fila na defesa americana e tocou para Zico ampliar. Aos 31, Zé Mário driblou até o goleiro Rogério e só rolou para Doval concluir. O América diminuiu com Luisinho, mas, aos 42, Paulinho lançou Doval, que fechou o placar: 4 a 1.

Com Geraldo em exuberante exibição no meio-campo, o Fla confirmava sua ascensão carimbando a faixa do América exatamente da mesma forma que os rubros haviam feito com a do Vasco na abertura do Carioca. O time de Joubert, aliás, tinha uma novidade naquela partida: o lateral-direito Humberto Monteiro, revelado pela Desportiva, campeão brasileiro com o Atlético Mineiro em 1971, e Bola de Prata da posição por dois anos seguidos (1970 e 1971), mas que não vinha tendo espaço na Portuguesa paulistana, de onde chegou à Gávea.

A equipe também teria uma cara mais definida naquele segundo turno, depois das experiências feitas pelo técnico na Taça Guanabara. Com Renato lesionado, Cantarele voltava a ocupar a meta. Humberto Monteiro era o novo lateral-direito com Jaime e Luís Carlos pelo centro e Rodrigues Neto na esquerda. No meio, Liminha e Zé Mário (este, saindo um pouco mais) protegiam com dinamismo a frente da área para Geraldo ter mais liberdade. Zico encostava em Doval na frente. E havia ainda o baixinho Paulinho, ponta versátil vindo do Bonsucesso.

Outra novidade para aquele turno era a mudança na tabela de premiação: atendendo a Joubert, a diretoria passou a aceitar pagar "bichos" para empates com qualquer equipe. E justamente um dos pequenos contra quem o Fla havia tropeçado no primeiro turno, o Madureira, seria o próximo adversário. O Tricolor Suburbano vinha se especializando em tirar pontos dos grandes: além de vencer o Fla, havia empatado com Fluminense, Vasco e Botafogo no primeiro turno, e começou o segundo outra vez complicando o Flu, a quem venceu por 1 a 0.

Quando, praticamente na saída de bola, o ponta-esquerda Paulo César colocou o Madureira em vantagem no primeiro minuto de jogo, parecia que a zebra outra vez passearia pelo gramado do Maracanã. Mas foi uma impressão enganosa. Aos 29 minutos, Doval foi calçado por trás pelo lateral Celso Alonso na área, e Zico empatou na cobrança do pênalti. Ainda antes do intervalo, aos 38, o Galinho cobrou falta de maneira magistral – o goleiro Dorival nem se mexeu – e colocou os rubro-negros em vantagem no placar, que seria ampliado na etapa final.

A goleada começou a ser desenhada por Doval, autor do terceiro e do quarto gols – o primeiro aos 14 minutos, aparecendo sozinho na área do Madureira, e o segundo aos 18, após ótimo passe de Zico. Aos 34, o "gringo" ainda sofreu pênalti do zagueiro Hamilton, ignorado pelo árbitro José Marçal Filho. Mas o quinto gol sairia de qualquer maneira: dois minutos depois, Rodrigues Neto surgiu para escorar um cruzamento da direita e fechar a goleada. "Mengo fez o Fantasma sambar. Foi um passeio: 5 a 1", estampou o Jornal dos Sports.

Jogando o fino, com um ataque avassalador, parecia que a equipe de Joubert embalaria de vez. Mas de repente vieram os empates. Três dias após a goleada sobre o Madureira, o time voltou ao Maracanã e parou no 0 a 0 com o Campo Grande, que povoou sua área e não deu espaços a um Fla um tanto apático e sem a mesma velocidade em comparação com os jogos anteriores, mas que ainda acertou a trave com Paulinho e teve mais um pênalti (de Péricles em Doval) sonegado pelo árbitro Rubens de Souza Carvalho no primeiro tempo.

A seguir viria o clássico com o Vasco. Num jogo de dois tempos bem distintos, os cruzmaltinos valeram-se de seu conjunto e aplicação tática para serem os donos da etapa inicial e abrirem o placar com Roberto. Mas no segundo tempo, passaram a abusar da cera e do antijogo, o que irritou rubro-negros em campo e na arquibancada. Mordido, o Fla acertou a trave com Édson aos 29 minutos. E aos 35, numa falta bem no limite da área (que os rubro-negros reclamaram pênalti), Zico bateu com maestria e empatou: 1 a 1. Foi o gol da raiva.

De falta, Zico empata o clássico com o Vasco

O time saiu animado do clássico, mas com um problema: Geraldo, com entorse no tornozelo esquerdo, deixou o campo com apenas 17 minutos e se tornou desfalque até o fim do turno. Édson entrou em seu lugar contra o Bonsucesso, outro pequeno que tirara ponto do Fla no turno. O início deste reencontro, aliás, não foi nada animador: logo aos cinco minutos, o zagueiro Nilson tocou a bola com a mão na área, mas Zico perdeu o pênalti, defendido pelo goleiro Pedrinho. E aos 13, num contra-ataque, Mário abriu o placar para os rubro-anis.

No intervalo, em desvantagem no placar, Joubert tirou Édson e colocou o lateral Vanderlei (Luxemburgo), avançando Rodrigues Neto para a ponta. Aos 13 minutos tirou Doval, que jogava no sacrifício, e levou a campo o atacante Ivanir, que logo no minuto seguinte, em seu primeiro toque na bola, empatou o jogo numa cabeçada. Mas a virada veio só aos 37: Rodrigues Neto bateu escanteio, a zaga do Bonsucesso afastou mal e Zé Mário, de fora da área, acertou belíssima bicicleta que encobriu o adiantado Pedrinho para dar a vitória ao Fla por 2 a 1.

A vitória alçava o Flamengo à liderança isolada do turno com 8 pontos, um a mais que o Botafogo e dois à frente de Vasco (que tinha um jogo a menos) e América. Essa vantagem, no entanto, acabaria se diluindo nas duas últimas rodadas, quando o time de Joubert voltou a parar em empates. O primeiro deles, um 0 a 0 com o Botafogo, no qual o Fla – ainda sem Geraldo e naquele dia também sem Doval – viu Zico ser marcado em cima o jogo todo (às vezes até com puxões de camisa e entradas mais duras) pelo volante Ademir Vicente.

E veio a última rodada do turno, com o Fla-Flu marcado para a noite de sexta-feira, 1º de novembro (no sábado, Dia de Finados, a federação não marcou nenhum jogo). O confronto entre Vasco e América, outro jogo crucial para as duas equipes (e para o Flamengo) foi no domingo, dia 3. O Fla foi para cima desde o começo, mas parou em outro 0 a 0 com um Flu que, já eliminado, cumpria o papel de franco-atirador: esperava os rubro-negros em seu campo e explorava os contragolpes. Ivanir pelo Fla e Cafuringa pelo Flu ainda acertaram a trave.

O jeito seria torcer pelo empate no domingo, mas nem isso aconteceu: o Vasco venceu o América por 2 a 0 e levou o título do turno, num jogo de arbitragem farsesca de Valquir Pimentel, que ignorou uma agressão de Moisés a Luisinho e um soco do goleiro Andrada no meia Bráulio, mas expulsou o lateral Álvaro por entrada violenta. Não satisfeito, validou um gol de Roberto em impedimento escandaloso e anulou dois de Luisinho pelo mesmo motivo. Assim, o Fla terminava o turno invicto e com o melhor saldo de gols, mas sem o título e a vaga assegurada nas finais.

Com propostas de amistosos pelas regiões Norte e Centro-Oeste, o Flamengo conseguiu adiar seus dois primeiros jogos no terceiro turno para excursionar pelo país e arrecadar uns trocados para tentar amortizar o prejuízo que vinha tendo no Estadual. Nesse périplo, empatou com o Operário de Várzea Grande em Cuiabá (2 a 2) e venceu o Nacional em Manaus (1 a 0) e o Remo em Belém (2 a 0). Enquanto isso, no Rio, outro medalhão saía: o ponta Rogério, que não vinha sendo utilizado, rescindiu contrato e acertou seu retorno ao Botafogo.

Por outro lado, Joubert teria de volta três nomes importantes, recuperados fisicamente: Renato (apesar da ótima fase de Cantarele), Geraldo e Doval. Além disso, uma nova e inesperada opção caseira para a problemática lateral-direita havia começado a despontar na excursão: o garoto Junior, 20 anos, meia de origem, tivera bom desempenho entrando no lugar de Humberto Monteiro, que vinha sofrendo para manter a forma física – com tendência a engordar devido à longa inatividade na Portuguesa, ele chegara à Gávea pesando 90 quilos.


NO TERCEIRO TURNO, TUDO OU NADA

Com América e Vasco já garantidos na Fase Final para a disputa do título carioca, o 3º Turno (Taça Pedro Magalhães Corrêa) era tudo ou nada para o Flamengo na luta por ser novamente o campeão do Rio de Janeiro.

Depois de 15 dias afastado do campeonato, o Flamengo entrou no terceiro turno num cenário em que Botafogo e Vasco já haviam vencido suas duas primeiras partidas e lideravam com folga. Atrás vinha o América, que também tivera um jogo adiado, mas vencera seu único compromisso até ali. Diante disso, o fato de o primeiro adversário do Fla naquela etapa ser o time de General Severiano tornava a vitória no clássico fundamental para não ver o rival disparar na ponta. Ainda mais num 17 de novembro, data oficial de fundação rubro-negra.

Bem distribuído e muito consciente em campo, o Flamengo entrou à toda e abriu o placar aos 22 minutos. Arílson desceu pela esquerda e bateu cruzado. Paulinho pegou a sobra do outro lado e cruzou de novo, dessa vez pelo alto, para Doval tocar de cabeça. A vantagem era merecida, já que o Fla sempre levava perigo, ao contrário do inoperante ataque alvinegro. No entanto, o Botafogo acabaria empatando aos 18 minutos da etapa final: Luís Carlos interceptou um ataque, mas não teve o domínio da bola, e Nílson Dias bateu forte de fora da área.

Quando o Botafogo começava a crescer no jogo, foi traído pelo descontrole de seu principal jogador: numa atitude tola, Marinho Chagas foi expulso aos 34 minutos pelo árbitro Arnaldo César Coelho depois de ofender o bandeirinha ao reclamar de um impedimento de Doval que já havia sido marcado pelo juiz. O castigo rubro-negro não demoraria a chegar: quatro minutos depois, com muito oportunismo, Doval pegou a sobra de uma tabela entre Zico e Édson, e tocou no canto direito de Wendell, decretando a vitória rubro-negra por 2 a 1.

Três dias depois, o Flamengo cumpriu seu primeiro jogo adiado, contra o Madureira no Maracanã, e nele Júnior fez sua estreia vestindo o Manto Sagrado em jogos oficiais de competição, ao entrar no lugar de Humberto Monteiro no intervalo. A alteração, no entanto, quase causou involuntariamente um grande problema ao Fla: como Joubert já havia trocado Geraldo por Édson no primeiro tempo, ficou sem poder mexer quando Arílson teve de deixar o jogo devido a uma luxação na clavícula no começo da etapa final, fazendo com que o time ficasse com dez.

Menos mal que Zico, aos 44 minutos, pegou a sobra de um chute de Doval e selou a suada vitória rubro-negra por 1 a 0. Mas para o jogo contra o Vasco o time passaria por mudanças: Geraldo e Arílson, que saíram lesionados contra o Madureira, dariam lugar a Zé Mário e Édson. E Júnior ganhava sua chance como titular na lateral-direita: era o sétimo nome a passar pela posição só naquele campeonato, depois de Aloísio, Vanderlei, Nei e Humberto Monteiro, e dos improvisados Rondinelli e Pedro Omar – zagueiro e volante, respectivamente.

Geraldo, Doval e Zico

O jogo era crucial para o Flamengo, mas também para o Vasco, que tropeçara ao empatar com o Campo Grande em São Januário por 1 a 1. Nos treinos, Joubert pedia ao Fla que jogasse de maneira solidária e objetiva, com toques de primeira. Já os cruzmaltinos se apoiavam num comentário corrente da época, de que o Flamengo não jogava pelas pontas, para apostarem no bloqueio defensivo pelo meio. Acabaram apanhados de calças curtas: não só os laterais rubro-negros subiam muito, como Paulinho, Doval e Zé Mário abriam pelos flancos.

E todos os gols do Joubert saíram de jogadas assim. No primeiro, aos 21 minutos da etapa inicial, Zé Mário recebeu de Doval e cruzou alto da esquerda, o goleiro argentino Andrada tirou fraco de soco e a bola sobrou para Paulinho mandar às redes. O segundo saiu pela direita, cinco minutos depois: Doval entregou a Júnior, que cruzou para Zico cabecear firme entre Fidélis e Miguel. Um gol simbólico por dois motivos: com ele Zico chegava aos 47 no ano, igualando recorde histórico de Dida de 1959. E era ainda a primeira assistência de Júnior para um tento do Galinho.

O Vasco descontou pouco antes do intervalo num belíssimo gol de Jair Pereira, mandando de sem-pulo no ângulo um rebote de escanteio. Mas a reação que se anunciava para a etapa final nem chegou a acontecer: aos 10 minutos, Jaime puxou contra-ataque arrancando do próprio campo e lançou Paulinho na direita. O camisa 7 cruzou, e Doval apareceu do outro lado da área para encher o pé e fechar a amplamente merecida vitória rubro-negra em 3 a 1. O "gringo", aliás, era o assunto do momento nos jornais, devido a uma possível saída para o futebol francês.

Ciceroneados pelo ex-diretor de futebol rubro-negro George Helal e pelo empresário Elias Zacour, dirigentes do Racing Pierrots (nome de então do atual Racing Strasbourg) assistiram ao clássico nas tribunas do Maracanã. Os cartolas franceses estavam no Brasil para conversar com o presidente rubro-negro, Hélio Maurício, e tentar a contratação do atacante argentino. Era mais uma ofensiva de clube francês sobre um astro do futebol carioca, após o Olympique de Marselha ter contratado Paulo Cézar Caju em julho e Jairzinho em outubro.

O Fla, por sua vez, estava inclinado a aceitar, dependendo do valor, e o dinheiro já tinha destino certo: a contratação de Luisinho, do América. A torcida, porém, já anunciava um protesto para o jogo seguinte, contra o Campo Grande. Ao saber do interesse francês sobre Doval, o cantor rubro-negro Jorge Ben comentou: "Ídolos como o gringo não se vende por dinheiro nenhum; tem de morrer velho no Flamengo". Mas, para a tranquilidade da Nação, a negociação não avançou, já que não houve acerto de valores nem com o clube, nem com o atacante.

A permanência de Doval evitou os protestos da torcida na partida diante do Campo Grande. Mas o Flamengo voltou a tropeçar de maneira incrível, parando no 0 a 0 contra o time da Zona Oeste num jogo em que esbarrou na defesa bem postada do adversário, nos milagres do goleiro Caxias e na própria falta de sorte. No primeiro tempo, Zico chegou a driblar o camisa 1 do Campusca e finalizar mesmo sem ângulo, mas o zagueiro Edval, de cabeça, evitou o gol em cima da linha. Rodrigues Neto ainda acertou a trave e Zico, o travessão.

O resultado frustrante para os rubro-negros fez a alegria do América, que na véspera havia batido o Madureira por 3 a 0 e passou a liderar o turno com folga. Embora tivessem um jogo a mais que os principais adversários, os rubros somavam 10 pontos, contra 7 do Flamengo, 5 do Vasco e 4 do Botafogo. O Fluminense – também com 4 pontos, mas em 5 jogos – já dizia adeus ao campeonato. O Flu, aliás, seria o próximo adversário do Fla que, para piorar, não teria Doval, com dores musculares na coxa esquerda.

Joubert então escalou um time sem centroavante fixo, adiantando Zico para fazer a função de falso camisa 9, com Geraldo e Édson se apresentando para tabelar, além de ter o apoio pelos flancos de Júnior e Paulinho pela direita, e Rodrigues Neto e Zé Mário pela esquerda. Assim, e até por certo desinteresse do time tricolor, já eliminado, foi fácil abrir vantagem: Paulinho marcou logo aos oito minutos completando tabela entre Zico e Geraldo, e aos 41 Édson recebeu de Zico e avançou livre para ampliar. Na etapa final, Cléber descontou: 2 a 1.

Com a vitória, o Flamengo alcançava uma expressiva invencibilidade de 17 jogos no campeonato. Melhor ainda: no domingo, um dia após o Fla-Flu, foi a vez do América tropeçar feio, sendo goleado pelo Vasco – que buscava manter viva sua esperança no turno – por 4 a 1. O resultado manteve os rubros na liderança do turno, mas foi ótimo para o Flamengo, que passou a depender apenas de si e poderia tomar o primeiro lugar no meio de semana caso vencesse o Bonsucesso na quarta-feira, em seu outro jogo adiado naquela terceira etapa do torneio.

Contando com o veterano Paulo Henrique, antigo bastião rubro-negro, na lateral-esquerda, o time do Bonsucesso pisou o gramado do Maracanã para colocar em prática o mesmo jogo de retranca cerrada e contra-ataque que os demais pequenos vinham fazendo contra o Fla e os outros grandes naquele campeonato. E saiu premiado logo aos 8 minutos, quanto o ponta Naldo disparou pela direita, driblou Rodrigues Neto e Luís Carlos, e chutou para a defesa apenas parcial de Renato. Na sobra, o centroavante Mário conferiu.

O gol desarrumou o Fla, que não teve calma para chegar ao empate no primeiro tempo. Já na etapa final, o gol enfim saiu aos 13 minutos, quando Zico tabelou com Geraldo, driblou o zagueiro Nilson, e finalizou sem chances para o goleiro Pedrinho. Mas, aos 29, outro contragolpe do Bonsucesso resultou em escanteio. Na cobrança, a defesa rubro-negra cochilou, e o atacante Acelino cabeceou sozinho para as redes. Além de encerrar a série invicta, a inesperada derrota por 2 a 1 deixou o Fla em desvantagem na decisão do turno contra o América.

Aos rubros, que já haviam vencido o primeiro turno, bastava empatar para conquistar também o terceiro e entrar para jogar por outro empate na decisão do campeonato em jogo único diante do Vasco. O Flamengo precisava da vitória para também entrar nessa disputa e transformar as finais de uma briga a dois em um triangular, no qual todos entrariam em igualdade de condições. Mas perdera Liminha, peça fundamental na proteção defensiva, pelo resto do ano após o "Motorzinho da Gávea" lesionar os ligamentos do joelho contra o Bonsucesso.

Joubert recuou Zé Mário (que era da posição) para o lugar de Liminha, e fez entrar o garoto Julinho – não confundir com Júlio Cesar, o Uri Geller, que só estrearia pelo time de cima no ano seguinte – na ponta-esquerda. Com isso, o time ganhava mais agressividade no ataque. Mas no jogo decisivo quem saiu na frente foi o América, abrindo o placar logo aos cinco minutos. Renato espalmou um chute forte de Flecha para escanteio. Na cobrança, o ponteiro americano entregou curto para Orlando, que cruzou para a cabeçada do zagueiro Alex.

O Flamengo não demorou a reagir e criou uma boa chance com Doval (de volta após se ausentar por dois jogos) e Zico. E empatou aos 21. O América saía para o contra-ataque com um lançamento de Alex, mas Júnior interceptou a jogada na altura do círculo central, avançou até a intermediária, e disparou um petardo rasteiro no canto direito do goleiro Rogério, marcando seu primeiro gol pelo Flamengo como profissional. E aos 10 minutos da etapa final, Ivo fez falta em Zé Mário perto da área, e Zico bateu com perfeição de sempre para virar o jogo: 2 a 1. Flamengo, campeão do Terceiro Turno, transformando a decisão do título num triangular!


O TRIANGULAR FINAL

Na tarde de segunda-feira, 9 de dezembro, dia seguinte à decisão do turno, foi feito o sorteio para definir o jogo de abertura do triangular. E a partir daí a tabela era dirigida: o time que folgou na rodada inicial pegaria o perdedor do primeiro confronto na segunda partida e, em seguida, o vencedor daquela na terceira. E as bolinhas colocaram Flamengo e América para se enfrentarem outra vez, uma semana depois do confronto decisivo do terceiro turno. Já o Vasco ficava "na boca de espera", como dizia a manchete do Jornal dos Sports.

Doval, ainda sentindo dores musculares, chegou a ser dúvida, mas foi escalado. A única mudança feita por Joubert em relação ao duelo anterior foi a entrada de Édson no lugar de Julinho. Porém, o "gringo" deixaria a partida ainda aos 25 minutos da etapa inicial, após um choque com Alex – os dois tiveram de ser substituídos. Ao invés de se abalar, o Flamengo cresceu! Aos 20 minutos da etapa final, após um escanteio e em meio à confusão na área, Jaime colocou os rubro-negros na frente com um toque sutil sobre Rogério em direção às redes.

Aos 31 houve o lance mais sensacional do jogo. Após um perde e ganha no lado direito do ataque do Flamengo, a bola chegou a Júnior. E, enquanto os jogadores rubros, desligados, discutiam qualquer coisa, o camisa 4 arriscou dali mesmo, a poucos passos da linha divisória, e encobriu um adiantado Rogério de maneira inapelável. Pela segunda vez num intervalo de uma semana, e contra o mesmo adversário, o novato da lateral-direita rubro-negra acertava um pombo sem asa do meio da rua que se tornaria crucial para o time de Joubert no campeonato!

A jogada pegou todo mundo de surpresa, inclusive locutores de rádio e TV e os próprios companheiros de time. Na comemoração, o goleiro Renato se pendurou no pescoço de Júnior gritando "você é um louco! Um louco genial!". O América ainda descontaria no apagar das luzes com Manuel, mas a vitória rubro-negra por 2 a 1 – a quinta do Flamengo em cinco jogos contra o forte rival naquele ano de 1974, sendo a quarta pelo mesmo placar – deixava a equipe da Gávea em posição de comando, com as cartas na mão naquele triangular decisivo.

"É claro que Vasco e América estão assustados com a presença indigesta do Flamengo nessa decisão! Ambos queriam a torcida do Flamengo, seu dinheiro, suas bandeiras, mas nunca a equipe em campo causando os estragos que começaram a acontecer", escrevia o jornalista botafoguense Ruy Porto em sua coluna "Ataque & Defesa", na página 2 do Jornal dos Sports da terça-feira, 17 de dezembro, antes de prosseguir: "Vasco e América criaram um leãozinho. Não pensaram que ele cresceria. O leãozinho já engoliu o primeiro...", concluiu.

Com a semana inteira para se recuperar e treinar, o Fla assistiu de camarote ao empate em 2 a 2 entre Vasco e América na quarta-feira à noite, num jogo em que os cruzmaltinos estiveram duas vezes à frente no placar, mas cederam o empate – o segundo gol americano, marcado por Edu, irmão de Zico, saiu aos 39 minutos do segundo tempo. O resultado acabava de vez com as chances do América no campeonato (ainda que fosse uma queda de pé) e permitia ao Flamengo jogar pelo empate na decisão no domingo, dia 22, contra o Vasco.

Um Flamengo que só se garantiu no Triangular Final do Carioca no último pio da coruja, ganhando um terceiro turno quase perdido, depois que deu aquela vacilada caindo pro Bonsucesso de 2 a 1 dentro do Maracanã. Tinha botado para fora os medalhões: Paulo César Caju, Dario, Chiquinho Pastor, Rogério, Afonsinho, Zagallo, todos com passagem na Seleção Brasileira. De experientes, só Liminha e Doval. E a molecada.

Doval estava irremediavelmente vetado, já que o choque com Alex agravara seu problema muscular na coxa. Sem o argentino e sem Liminha, dois trintões, a média de idade do time rubro-negro para a final despencava para pouco mais de 22 anos. Eram nada menos que 7 os garotos sub-23 escalados por Joubert entre os 11 titulares: Paulinho (22 anos), Jaime, Zico, Julinho (todos com 21 anos), Júnior, Geraldo e Édson (todos com 20) – e no banco, havia mais meninos: Cantarele, Nei, Silvinho, Ivanir (que acabaria entrando na etapa final).

O Vasco era o completo oposto. Bastaria dizer que se tratava do campeão brasileiro, mas era mais que isso, era um time que esbanjava experiência, malícia, malandragem, sobretudo na duríssima defesa liderada pelo "xerife" Moisés e no versátil meio-campo onde ponteavam dois ex-rubro-negros: Zanata e o falso ponta Luís Carlos. A título de comparação com a molecada rubro-negra, na escalação inicial do técnico Mário Travaglini só três jogadores tinham menos de 24 anos (todos no ataque), e a média de idade chegava quase aos 26 anos.

Campeão brasileiro de 74, time tarimbado e cascudo. Miguel e Moisés, zaga quase intransponível: se a bola passa, o atacante fica. E ainda Fidélis, Andrada, Luís Carlos, Alcir, Alfinete, Zanata, o menino Roberto (Dinamite), que também estava na briga entre os fazedores de gol. Mário Travaglini, paulistano, campeão no Rio e lá na terra dele era o treinador.


A DECISÃO

Para uma grande ocasião, um grande público: o Maracanã recebeu nada menos que 165.358 pagantes. O número de presentes, entretanto, certamente foi bem superior, uma vez que a carga de ingressos não deu conta da demanda e muitos torcedores sem entradas acabaram tendo acesso ao estádio quando os portões foram abertos aos cinco minutos de jogo. Alguns deles inclusive aproveitaram para escalar as estruturas de andaimes colocadas para manutenção, pulando das arquibancadas superlotadas para o setor superior das cadeiras numeradas.

Outro incidente provocou apreensão minutos antes do início do jogo: fagulhas de fogos de artifício atingiram um tubo de ar para encher balões provocando uma explosão do lado da torcida do Vasco nas arquibancadas e deixando pelo menos 25 feridos. O clima quente, angustiante e carregado de tensão que se expressava em cada rosto no estádio só se desfez um pouco quando entraram no gramado as torcidas mirins – primeiro a rubro-negra, seguida da vascaína. A do Fla carregava uma faixa na qual se lia "Flamengo deseja Feliz Natal".

Maracanã explodindo de gente em 22 de dezembro, mais de 165 mil pessoas. Tensão a mil. Os dois times escalados. O Vasco praticamente o mesmo da final do Brasileiro, só trocou o Ademir pelo Galdino aberto na ponta-esquerda. E o Flamengo vem como pode. Sem Liminha, sem Doval.

Em campo, a tensão também predominou, num jogo truncado. Mas apesar da vantagem do empate, foi o Fla quem tomou a iniciativa do ataque, confirmando o que anunciara Joubert durante a semana. E a melhor chance do jogo surgiu já aos 7 minutos, quando Zico saiu fazendo fila na defesa do Vasco, ganhou de Miguel, driblou Moisés e chutou com pouco ângulo. A bola bateu nas pernas de Andrada e subiu em direção ao gol. Mas quando a torcida já soltava o grito, o lateral Alfinete surgiu para afastar para escanteio bem em cima da linha. Quase fez contra, mas aí o Vasco teve sorte. Por pouco não saiu o zero do placar.

Zico chuta, a bola vence Andrada, mas Alfinete vai tirar
em cima da linha. Por pouco não saiu o zero do placar

Joubert repetia o esquema que empregara nas outras vezes em que não teve Doval, adiantando Zico para atuar como um falso camisa 9, cavando espaços na defesa do Vasco para receber o apoio de Geraldo e Édson vindos do meio-campo e abrindo o jogo com os pontas Paulinho e Julinho. Mas, no geral, o Flamengo foi mais eficiente no bloqueio – Zé Mário foi o nome do jogo – do que na criação de jogadas. O Vasco se limitava a alçar bolas para Roberto Dinamite ou Moisés na área, e levava perigo em cobranças de falta, fazendo Renato brilhar sob as traves.

O Fla dá uma esfriada, o Vasco tenta apertar porque precisa. Mas aí só dá a defesa do Flamengo. Júnior bota no bolso o Galdino. Do outro lado, em cima de Rodrigues Neto, Jorginho Carvoeiro não se cria. E não tem pra Miguel nem pra Moisés. Xerifes em campo mesmo são o Jaime e o Luis Carlos. Sempre muito sério, o beque que os cartolas foram buscar no Corinthians para empunhar a braçadeira. Sem falar em Zé Mario, o dono do meio-campo, baixinho gigante da cabeça-de-área rubro-negra. Estava em todo lugar, correndo, marcando, fechando a porta pros vascaínos. E quando, por algum motivo, eles conseguem chegar, aparecia o Renato pra espalmar. O tempo vai passando, o Vasco não consegue fazer o seu, é um desespero pelos lados da Colina, o Flamengo perde um, dois contra-ataques.


Nos minutos finais, ainda houve uma grande chance para cada lado: primeiro, Jair Pereira recebeu sozinho de Roberto, mas chutou para fora, à direita do gol de Renato. Depois, num contra-ataque, Ivanir (que entrara no lugar de Julinho) ganhou a disputa com Miguel e ficou frente a frente com Andrada, que já saía da área. O atacante tentou o drible, mas o goleiro vascaíno se recuperou e tocou para fora. Ao apito final de Arnaldo César Coelho com o 0 a 0 no placar, vieram a invasão do gramado e a festa rubro-negra nas arquibancadas. A molecada do Fla era campeã carioca.

Em sua coluna “Campo Neutro”, no Jornal do Brasil, o jornalista José Inácio Werneck observou de maneira muito precisa: "Faltou muita coisa à partida para justificar o recorde de renda, mas, por outro lado, não faltou nada. Um jogo em que obrigatoriamente se produzirá um campeão assume proporções dramáticas nos gestos mais simples (...) E na execução desses gestos, o Flamengo sempre me pareceu, embora um time de novatos, muito mais senhor de seus nervos do que o Vasco".


A taça foi levantada pelo capitão Luís Carlos, muito emocionado. Ele, cria de um Corinthians dos tempos da fila, levantava seu primeiro título da carreira depois de sete temporadas em branco no Parque São Jorge. O título também era a redenção de Joubert, alvo de muitas críticas da imprensa ao longo da campanha. E era a afirmação de Zico, o novo dono da 10. Aliás, a conquista premiava o trabalho de base feito no clube, revelando uma talentosíssima geração com vários nomes que marcariam época. E resgatava a velha garra rubro-negra!

Na disputa com o classudo América e o tarimbado Vasco, pintados como dois bichos-papões antes do início do campeonato, quem levou a melhor foi a valente molecada rubro-negra, que não perdeu nenhuma vez para os dois rivais em oito confrontos pelo Carioca. Um time que, curiosamente, teve aproveitamento melhor nos clássicos (21 pontos em 28 possíveis, ou 75%) do que contra os pequenos (18 pontos em 26 possíveis, o que dá 69,2%). Mas que era honrosa, merecida e indiscutivelmente o último campeão do Estado da Guanabara!



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