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domingo, 10 de julho de 2022

A NAÇÃO (2ª edição) - Capítulo XI: Heróis da nação multidão


A NAÇÃO

Como e por que o Flamengo se tornou

o clube com a maior torcida do Brasil



Capítulo XI – Heróis da nação multidão


O Flamengo de todos os tempos, o vermelho e o preto dos sonhos, merecia ser transcrito numa mesa de bar, num encontro informal reunindo arquibancadas do além e de hoje. Numa mesa em cuja cabeceira seria exigida a presença ilustre de Mário Filho, o pai das multidões. Não poderiam faltar as presenças de Ary Barroso e José Lins do Rego para narrar as glórias de outrora e as por eles assistidas depois, em assentos especiais acima do azul celestial. A eles deveriam se juntar rubro-negros de outros tempos, cuja paixão fez pulsar o espírito e a imaginação de uma nação sem pátria e sem estado, desgovernada como a alma que solidificou as raízes rubro-negras num passado distante, mas unida num gigante sonho intenso de amor e de esperança. Que se sentem a esta mesa Wilson Batista, Jorge de Castro, Roberto Silva, Jorge Ben Jor e João Nogueira; e que, em seguida, se juntem Ruy Castro – autor de O vermelho e o negro – e Roberto Assaf – um dos autores de Almanaque do Flamengo. Daí para a frente, que outros flamenguistas ilustres fossem chegando para se sentar, para reviver o eterno espírito do Café Rio Branco.

A conversa talvez pudesse confundir outras multidões, afinal teria que misturar o papo de gente que viu futebol sem tática a outros que viram a força muscular do preparo físico fielmente seguidor de um padrão tático de jogo. Com certeza, entretanto, não confundiria aos flamenguistas. Estes falaram por décadas o linguajar das multidões, que se faz entender através do tempo, ignorando as distinções entre o tradicional e o moderno, fazendo de tudo um só, como uma massa única dentro da qual o homem perde qualquer sentimento de sua própria identidade e torna-se multidão. Tudo em torno a uma tradição de amor e paixão por uma combinação de cores, por um estandarte.

Ao encontro não poderia faltar muito debate, pois com certeza haveria muitas convicções distintas de qual teria sido a melhor era, os maiores dias, o melhor jogo, os maiores craques, os melhores tempos. Seriam citados nomes de jogadores de futebol que receberam tratamento sentimental semelhante ao de reis, príncipes e heróis clássicos. Muito se argumentaria de qual sistema foi o mais vitorioso, o mais vistoso.

As posições em campo mesmo gerariam controvérsias. Bom, com certeza, teriam sido aqueles dias em que só havia uns responsáveis por proteger o sistema defensivo e outros por atacar a meta adversária, como num jogo inocente de garotos que começam a aprender a jogar futebol. Assim eram os dias na era amadora, em que cada time tinha defensores e atacantes, e só.

Até que da Europa chegou o sistema de jogo WM, em alusão à posição dos homens pelo campo. A letra W formava o sistema defensivo. As duas bases da letra eram os beques, protetores do goleiro e da área. À sua frente, um sistema de contenção com os três vértices superiores do W; dois laterais protegendo as investidas dos pontas adversários e um cabeça de área, que tentava diminuir a exposição dos zagueiros. O M era o sistema de ataque: dois pontas bem abertos e um ponta de lança, os três municiando os dois jogadores de área, que jogavam enfiados na defesa adversária. Esta distribuição no campo de futebol durou pelos anos 30 e 40.

Nos anos 50, o sistema de jogo migrou para o 4-2-4 (revolução apresentada pela seleção brasileira ao mundo na Copa de 1958). Os dois laterais recuaram para fechar a defesa junto a dois zagueiros centrais. O ponta de lança recuou para o meio do campo, equilibrando junto a um único cabeça de área a função de ligação entre defesa e ataque. Na frente, quatro homens: dois pontas bem abertos, um pela direita e outro pela esquerda, e dois centroavantes, um dos quais, vez por outra, saindo mais da área para ajudar o ponta de lança.

Só na virada dos anos 60 para 70, a distribuição mudou novamente, passando a um 4-3-3, no qual efetivamente o meio de campo tinha um cabeça de área na contenção e dois meias-armadores para munir ao ataque. Mais duas décadas e o 4-3-3 mudava para 4-4-2, na virada dos 1980 para os 1990. Acabavam-se os pontas e reforçava-se a marcação. O meio de campo ganhava ainda mais importância num time de futebol.

Mas daí já vinham outras variâncias e o sistema tático passou a ficar tão ou mais destacado do que o talento dos jogadores que o executavam dentro das quatro linhas. Um time podia se organizar em 3-4-3, com três zagueiros centrais e os laterais avançando para a função de alas, com menos responsabilidade de marcação. Ou então em um esquema 3-5-2, menos voltado para o ataque. Daí teve treinador criando 3-6-1, 4-3-1-2, 4-1-4-1, e toda uma saraivada de numerologias para explicar como suas peças seriam distribuídas pelo tabuleiro gramado dos estádios. Mas mesmo diante de tanta variância, a mesa imaginária de rubro-negros conseguiria construir consensos em torno das maiores figuras a trajarem o vermelho e o preto.


Maiores goleiros

O primeiro grande arqueiro da história rubro-negra foi Kuntz, titular do Flamengo e da seleção brasileira entre 1920 e 1922. Depois dele, o grande nome a defender os postes nos treinos na rua Paissandu foi Amado, goleiro rubro-negro titular entre 1923 e 1930, depois reserva entre 1931 e 1934.

Daí para a frente, na era profissional, destacaram-se como titulares do gol rubro-negro: Yustrich (1937/41), Jurandir (1942/45), Luís Borracha (1946/49), o paraguaio Garcia (1950/54) e o argentino Chamorro (1955/56). Entre o final dos anos 50 e o início dos 70, nomes como Ari, Fernando, Mauro, Marcial, Valdomiro, Franz, Marco Aurélio, o argentino Dominguez, Sidnei, Adão, Ubirajara Alcântara e Ubirajara Motta vestiram a camisa número um do rubro-negro.

Foi então que o Flamengo voltou a ter um goleiro na seleção brasileira: Renato, titular entre 1972 e 1974. Em seguida, a titularidade foi de Cantarelli, entre 1975 e 1978, que ficou na Gávea até 1989, quando se aposentou, tendo sido o goleiro a vestir rubro-negro mais vezes na história do clube. De 1978 a 1983, o grande defensor da meta rubro-negra foi Raul. Entre 1984 e 1985, a camisa um foi do argentino Fillol. Depois recaiu sobre outro goleiro de seleção brasileira: Zé Carlos, titular de 1986 a 1990.

De 1991 a 1994, o dono da posição foi Gilmar. Com a saída deste, entre 1995 e 1997, houve uma grande sucessão de nomes: Roger, Emerson, Adriano, Sérgio, Paulo César e novamente Zé Carlos passaram por lá. A posição voltou a ter um titular absoluto nas mãos de Clemer, entre 1997 e 2000. Seu sucessor foi Júlio César, arqueiro e ídolo da torcida entre 2001 e 2004. Em seguida, Diego foi titular por um ano e meio, até ser barrado por Bruno, que ficou um longo período defendendo o gol rubro-negro.

Entre tantos grandes nomes, quem a mesa no bar rubro-negro teria escolhido como o maior da história do clube?


Maiores zagueiros

O grande defensor da história rubro-negra foi Domingos da Guia, dono absoluto da área do Flamengo entre 1936 e 1943. Seu grande companheiro de zaga foi Nilton Canegal, titular entre 1941 e 1949. Esta era a dupla de zaga do primeiro tri: clássica, fria, com toque de bola refinado e elegância.

Depois deles, era difícil manter o mesmo nível. Norival e Juvenal atuaram muitos anos tentando repetir este padrão. Até que ali chegou Pavão, beque de força e presença física, titular absoluto entre 1951 e 1957. Ao seu lado jogou Jadir.

Em seguida, defenderam a retaguarda vermelha e preta nomes como Joubert, Milton Copolillo e Bolero. Na década de 1960, os donos do pedaço central da defesa foram Ananias e Luís Carlos Freitas, titulares entre 1963 e 1964. Em seguida, as duplas que mais resistiram ao teste do tempo foram: Jaime e Ditão (1965/67), Onça e Manicera (1968/69), Washington e Reyes (1970/72), Chiquinho Pastor e Reyes (1973), Luís Carlos e Jaime (1974/75) e Dequinha e Rondinelli (1977/78).

O Deus da Raça, Rondinelli, viveu o auge de sua virilidade defensiva entre 1978 e 1979, quando formou a dupla de zaga com a intimidante figura de Manguito. Na clássica mesa de rubro-negros ilustres, certamente a voz de Jorge Ben Jor exaltaria: “Ai que saudades de Manguito e Rondinelli”, a dupla de zaga do terceiro tri.

Maior, provavelmente, seria a saudade dos zagueiros daquele time que ganhou tudo que se podia imaginar entre 1980 e 1983: Marinho e Mozer, alternando-se com Figueiredo. As zagas seguintes, depois que Leandro trocou a posição de lateral-direito pela de zagueiro central, também foram para deixar saudade. Primeiro com Leandro e Mozer, entre 1984 e 1985, depois Leandro e Aldair, em 1986, e por fim, Leandro e Edinho, em 1987.

Depois disso, passaram por lá: Zé Carlos Segundo, Márcio Rossini, Fernando, André Cruz, Vítor Hugo e Adílson. Mas só mesmo a dupla Wilson Gottardo e Júnior Baiano teve a estabilidade apresentada por outras de outrora. Em seguida, passaram pela Gávea: Jorge Luís, Válber, Cláudio e Ronaldão. Houve esperanças na jovem dupla Juan e Luiz Alberto. Os já veteranos Ricardo Rocha e Célio Silva também se meteram por seis meses cada. Ainda jogou por ali Fabão. Até que o Flamengo voltou a ter uma dupla de zaga clássica com Juan e Gamarra. A dupla do quarto tri.

Daí para a frente: André Bahia, Fernando, André Dias, Henrique, novamente Júnior Baiano, Fabiano, Renato Silva e Irineu. E muito pouca segurança no sistema defensivo. Esta só voltou com a dupla Fábio Luciano e Ronaldo Angelim. A dupla do quinto tri.

Falar de zagueiro, na roda rubro-negra, certamente dá margem a muitas críticas e angústias. Mas sem dúvida emergiriam nomes de consenso.


Maiores laterais

E pelas laterais? A posição praticamente só surgiu no futebol nos anos 40, e a dupla a cumprir a função no Flamengo era considerada nesta época a melhor da América do Sul: Biguá pela direita e Jayme de Almeida pela esquerda.

Nos anos 50, estiveram Leone, Marinho e Tomires pelo lado direito e Jordan pelo lado esquerdo. Na década seguinte, a função estava a cargo de Murilo na direita e Paulo Henrique na esquerda. O primeiro foi titular rubro-negro de 1963 a 1971, e o segundo, de 1963 a 1970.

Nos anos 70, a lateral-direita teve uma variação maior de nomes. Pelo lado direito passaram Aloísio, Moreira, Júnior, Sérgio Ramirez e Toninho Baiano. Este último, titular da seleção brasileira na Copa de 1978, foi o nome absoluto do Flamengo nessa posição entre 1976 e 1979. Do lado esquerdo, teve Rodrigues Neto entre 1972 e 1975 e, em seguida, Júnior, titular absoluto da posição de 1976 a 1984.

No início dos anos 80, um dos maiores segredos do maior time rubro-negro de todos os tempos estava exatamente nas laterais, com Leandro pela direita e Júnior pela esquerda. Sem dúvida os maiores na posição na história do clube e seguramente entre os maiores na história do Brasil, titulares absolutos na seleção brasileira que disputou a Copa de 1982.

Seus sucessores também ocuparam a posição mantendo o carimbo tipo seleção brasileira: Jorginho na lateral direita e Leonardo na lateral-esquerda. Depois deles, a posição penou muito para encontrar nomes à altura. Pelo lado direito passaram peças como Charles Guerreiro, Fabinho, Henrique, Rivera e Fábio Baiano. A maioria deles improvisados na função. Quem durou mais tempo foi Pimentel, titular entre 1998 e 1999. Depois, mais revezamento, com: Maurinho, Alessandro, Reginaldo Araújo, Luciano Baiano, Rafael, China e Ricardo Lopes, até a chegada de Leonardo Moura, em 2005, para interromper o período sucessório e se firmar como titular absoluto por um longo período.

Pelo lado esquerdo, após a saída de Leonardo, por lá jogaram: Dida, Piá, Marcos Adriano, Branco (já veterano), Lira, Leonardo Inácio, Zé Roberto, Gilberto e Athirson. Este último ganhou uma acirrada disputa com Gilberto e conseguiu manter sua titularidade na posição por um período mais longo, entre 1997 e 2000. Depois dele, vieram Cássio, Anderson, Roger (jogador que em 2008 se naturalizou polonês e disputou a Eurocopa daquele ano pela seleção da Polônia) e André Santos. Até que chegou Juan, em 2006, para se tornar o dono do pedaço. Foi com Leonardo Moura e Juan, entre 2006 e 2010, que o rubro-negro voltou a ter uma dupla de padrão verde e amarelo.


Maiores meias de contenção

A posição de contenção também não é das mais gloriosas num jogo de futebol. É comumente chamada de carregador de piano. Assim como no caso dos zagueiros, certamente geraria muito debate e discordâncias na mesa dos ilustres rubro-negros de todos os tempos.

Voltando aos primórdios do futebol rubro-negro, os primeiros a se destacar de forma mais contundente na cabeça de área foram dois estrangeiros, o argentino Volante (1938-1942) e o paraguaio Modesto Bria (1943-1953). Em seguida veio Dequinha, titular de 1954 a 1959, depois Carlinhos, nos anos 60. Entre 1969 e 1975, o dono da cabeça da área foi o voluntarioso Liminha.

Depois passaram Merica e Tadeu, até a posição repousar por longo período sobre a titularidade de Carpegiani. Mas, como quem não quer nada, chegou um garoto das divisões de base que, de mansinho, conquistou seu espaço, mantendo-se não só como titular absoluto entre 1981 e 1988, como reunindo todas as características juntas que os clássicos nomes daquela posição no clube até ali tinham carregado. Andrade era a encarnação de Volante, Bria, Dequinha, Carlinhos, Liminha e Carpegiani, todos em um só. Nunca mais surgiria no Flamengo um cabeça de área como aquele: eficiente, refinado, inteligente, aguerrido e elegante.

Felizmente para a torcida, no início dos anos 90, o ex-lateral esquerdo e ex-zagueiro Júnior resolveu tornar-se cabeça de área, e, ao exercer a função, o fez com a mesma autoridade de seu companheiro do time da Era de Ouro do clube.

Ademais, passaram pela função: Ailton, Delacir, Uidemar, Fabinho, Marquinhos, o argentino Mancuso, Márcio Costa, Pingo, Jamir e Bruno Quadros. À altura dos maiores da história rubro-negra esteve Marcos Assunção, em 1998, mas sua passagem pela Gávea foi lamentavelmente curta, de apenas um ano. Quem conseguiu recuperar parte da grandeza do passado que a função teve sob o manto vermelho e preto foi Leandro Ávila, titular entre 1999 e 2001, na conquista do quarto tri.

Foram titulares do Flamengo a partir daí: Jorginho (não aquele da lateral-direita), Rocha, Mozart, André Gomes, Da Silva, Douglas Silva, Ibson, Jônatas, Augusto Recife, Léo, Paulinho, Léo Medeiros, Clayton, Jailton, Cristian, Airton e Willians.


Maiores meias de armação

Falar em armador na história rubro-negra é gerar uma associação imediata à camisa de número dez. E não há como fugir da comparação com o maior da Gávea: Zico.

Mas a função tem uma tradição e uma história muito mais antigas dentro do clube, e que não nos levam necessariamente a um único armador. Basta fazer alusão ao grande parceiro do Galinho de Quintino nos anos dourados do vermelho e do preto, que vestia a camiseta de número oito: Adílio.

O primeiro grande meia-armador a vestir esta camisa foi Zizinho, entre 1940 e 1950. Depois dele vieram Tião, Neca, Adãozinho e Hermes, até o surgimento de Rubens, que atuou entre 1954 e 1955. A função teve padrão de seleção brasileira no final dos anos 50, com Moacir, entre 1957 e 1960. Tinha ele a companhia, para reger o meio de campo, do ídolo da torcida Dida, o craque do time entre 1957 e 1963. No início dos anos 60, o time rubro-negro tinha uma grande dupla de armação, com Nelsinho e Gérson. Depois vieram Fefeu, Nélson, Américo e Amorim.

No início dos anos 70, Zanata foi uma espécie de antecessor de Adílio. A seu lado, na armação, jogaram Samarone, Rogério, Zé Mário e Afonsinho. Ninguém à altura da dupla que vinha chegando das categorias de base: Geraldo e Zico.

Depois houve o trágico falecimento de Geraldo, e por ali passaram Tadeu e Carpegiani, ambos que muitas vezes também faziam o papel de contenção. Até que surgiu Adílio, que, ao lado de Zico, foi o dono do meio de campo rubro-negro por muitos anos.

Depois da saída da maior dupla de meio-campistas da história do Flamengo, jogaram ali Sócrates, Gilmar Popoca, Valtinho, Zé Ricardo, Renato Carioca, Djalminha, Marco Antônio Boiadeiro, Nélio, Djair, Iranildo, Evandro, Rodrigo Mendes e Beto. À altura da camisa dez, depois disto, só esteve o sérvio Dejan Petkovic. Um craque e autêntico meia-armador e camisa dez, um verdadeiro regente do meio de campo. Ele a vestiu primeiro entre 2000 e 2001, depois voltou em 2009.

Depois a função passou por Juninho Paulista, pelo ex-lateral-esquerdo Leonardo, que voltou ao clube em 2002 para encerrar a carreira, e pelo jovem Felipe Melo. Encontrou um novo dono à altura de sua tradição no Flamengo em Felipe, ex-jogador do Vasco, que exerceu com brilhantismo a função, destacando-se, entre 2004 e 2005, por sua técnica refinada. Depois, entre 2006 e 2007, a função foi de Renato Abreu. A seu lado estiveram presentes na armação Felipe Gabriel, Vinícius Pacheco, Diego Souza e Renato Augusto.

Em seguida, depois da saída de Renato para o futebol árabe, a armação de jogo do time rubro-negro passou por Toró, Kléberson e Marcinho, nenhum deles exercendo exclusivamente esta função, os dois primeiros cumprindo um papel mais de terceiros cabeças de área e o último com uma inclinação mais ofensiva, mais para atacante que para meia de armação.


Maiores atacantes

Os grandes goleadores da história do Clube de Regatas do Flamengo sempre tiveram, como não poderia deixar de ser, laços com a massa muito próximos a sentimentos tão antagônicos como o amor e o ódio. Afinal eles são os responsáveis por aquilo que diferencia a vitória da derrota: o gol. Os que mais fizeram gols foram reverenciados. Os que perderam gols incríveis foram perseguidos. Muitos dos exaltados acabaram perseguidos posteriormente. Alguns dos odiados depois conseguiram ser amados.

Para encontrar o primeiro grande goleador rubro-negro é preciso voltar a um passado distante, nos primórdios do futebol do clube, quando o centroavante Riemer foi artilheiro da equipe por três temporadas consecutivas, entre 1914 e 1916. Mas o primeiro grande ídolo dos flamenguistas, entretanto, foi Nonô, artilheiro do time por cinco anos consecutivos, entre 1921 e 1925. Não menos importante era o vice-artilheiro destas temporadas, Junqueira.

Muitos goleadores vestiram vermelho e preto antes da chegada daquele que veio a representar novamente um ícone dentro do Flamengo. Balançaram muitas vezes as redes adversárias: Fragoso, Angenor, Vicentino, Rolinha, Nélson e Alfredo. Aí chegou Leônidas da Silva. Ele foi o artilheiro rubro-negro por quatro temporadas consecutivas.

Em seguida, apareceu Pirilo, artilheiro por seis temporadas entre 1941 e 1947, só deixando de ser o principal goleador do time em 1946, quando foi superado por seu companheiro de ataque: Perácio. Na geração anterior a capitanear o comando de ataque rubro-negro, eram alguns argentinos os que faziam muitos gols, como Alfredo González, Agustín Cosso e Valido. Já na geração seguinte de atacantes destacaram- se: Jair da Rosa Pinto, Tião, Durval, Lero, Hermes e Neca. Uma dupla de ataque que marcou época foi Índio e Benítez. Logo em seguida, chegou também Evaristo. Depois teve ainda Paulinho, Henrique, Paulo Alves, Airton e Amauri.

Isto sem citar os pontas, que marcaram época no ataque do Flamengo. O primeiro grande ponta-direita a passar pelo clube foi Joel, titular absoluto entre 1951 e 1962. Depois dele, atuaram pela direita do ataque: Espanhol, Carlos Alberto, Gildo, Arílson, Paulinho Carioca e Reinaldo, até chegar a Tita. O último grande ponta-direita ao estilo clássico foi Renato Gaúcho.

O primeiro grande ponta-esquerda foi Jarbas, que chegara à seleção brasileira vestindo a camisa do modesto Carioca, do Jardim Botânico. Contratado pelo Flamengo, foi titular entre 1933 e 1940, sendo sucedido por Vevé, dono da posição entre 1941 e 1948. Em seguida apareceram Esquerdinha, titular entre 1949 e 1953, Zagallo, de 1954 a 1959, e Babá, de 1958 a 1961. Depois desta longa tradição de grandes pontas-esquerdas, passaram por lá: Germano, Miranda, Osvaldo, Osvaldo Ponte-Aérea, Rodrigues, João Daniel e Caldeira. Nos anos 70, a posição foi de Paulo César Caju, Édson, Luís Paulo e Carlos Henrique. Mais tarde, vieram Júlio César, Lico, João Paulo e Marquinho. O último ponta-esquerda foi Zinho, que já foi responsável pela transição da função para a posição de “quarto homem de meio de campo”.

Voltando aos grandes goleadores, nos anos 60 o comando de ataque teve Silva, Almir Pernambuquinho, Ademar Pantera, Fio, César Lemos, Dionísio, Bianchini, Doval e Caio. Depois vieram Luisinho Lemos, Cláudio Adão e Reinaldo. Até que se chegou a Nunes. Em seguida, passaram pela camisa nove: Baltazar, Edmar, Chiquinho, Vinícius e Kita.

A tradição de grandes goleadores seguiu com Bebeto, artilheiro da equipe por cinco temporadas consecutivas, entre 1985 e 1989; e depois com Gaúcho, artilheiro nas temporadas de 1990 e 1991. Antes da chegada de um novo homem-gol a marcar época, o ataque rubro-negro teve Nilson, Paulo Nunes, Marcelinho, Casagrande, Valdeir e Charles Baiano. Em 1995, chegou o dono da área: Romário, artilheiro do time por cinco temporadas consecutivas, entre 1995 e 1999. A seu lado, passaram nomes como Sávio, Edmundo, Lúcio, Rodrigo Fabbri, Leandro Machado e Caio.

Após a saída de Romário, o time teve Reinaldo, Tuta e Denílson no ataque. Só reencontrou a figura de um artilheiro em Edílson, e, brevemente, em Liédson. Demorou muito até surgir um novo grande goleador no Flamengo. Nos anos subsequentes, passaram pelo ataque rubro-negro: Roma, Andrezinho, Fernando Baiano, Zé Carlos, Dimba, Jean, Diogo, Flávio, Negreiros, Whelliton, Emerson Geninho, César Ramirez, Luisão, Obina, Roni e Souza.

Foram tempos escassos para a camisa 9. Entre 1940 e 2001, somente em cinco anos o artilheiro do Flamengo na temporada fez menos do que vinte gols no ano. Entre 2002 e 2007, foram seis anos consecutivos em que nenhuma vez o goleador do time na temporada conseguiu fazer mais do que vinte gols. O ataque rubro-negro voltou a estar bem servido em 2009, com a dupla Emerson Sheik e Adriano.


Os maiores da História

Para formar os onze do Flamengo de todos os tempos, alguém na mesa deu a ideia de puxar pela memória aqueles que a cada década tinham sustentado por mais tempo a posição de titular ou que, ainda que em passagens curtas, tivessem dado uma qualidade diferenciada a ponto de justificar sua presença entre os Onze da Década.

Que se começasse por uma seleção da era amadora. Nesse caso, bastava ver quem tinha vestido a camisa da seleção brasileira mais vezes. Formou-se o time: Kuntz, Telephone, Píndaro de Carvalho e Penaforte; Gallo, Alberto Borgerth e Sidney Pullen; Junqueira, Nonô, Candiota e Moderato. Chiaram muito pela ausência de Amado no gol, mas os flamenguistas dos velhos tempos defendiam que Kuntz havia representado mais para a seleção nos anos em que agarrou no gol do Brasil.

Pois bem, que se chegasse então ao time da década de 1930. Os que viram aquela geração jogar não tiveram muita dificuldade para listar: Yustrich, Marin, Domingos da Guia e Otto; Volante e Médio; Sá, Nélson, Leônidas da Silva, Alfredo e Jarbas. Curiosamente, não teve muita discussão não.

Que se seguisse para a seleção dos anos 40. Também não deu ruído: Jurandir, Biguá, Domingos da Guia, Nilton Canegal e Jayme de Almeida; Modesto Bria e Zizinho; Valido, Pirilo, Perácio e Vevé. Todos seguiam degustando suas cervejas sem pestanejar, mas provocativamente aguçados para tentar erguer a primeira polêmica. Não poderia ser tão fácil assim chegar a consensos.

O time dos anos 50 só foi eleito depois de muito debate e desavenças espirituosas. Havia muita discordância sobre quem deveria estar presente na linha de ataque. A formação dos sonhos eleita ficou com: Garcia, Jadir, Pavão e Jordan; Dequinha e Rubens; Joel, Dida, Evaristo, Índio e Zagallo. Muitas vozes argumentavam que Moacir não poderia estar de fora, alguém teria que sair para ele entrar, de preferência o Rubens, que virou a casaca e foi jogar no Vasco. Henrique e Esquerdinha também tinham que entrar no lugar de alguém, bradavam algumas vozes que começavam a dar sinais de maior exaltação. Outros argumentavam que Evaristo e Dida eram da mesma posição, e só tinha espaço para um, neste caso era inquestionável que tinha que ser o Dida. Não dava para fazer rearranjos, pois o Joel era intocável na direita, o homem só tinha o Garrincha para superá-lo no futebol brasileiro pelo lado direito. E como tirar o Índio? Não dava para jogar sem um homem de área nato.

Depois de muita contestação para um lado e para o outro, fechou-se a posição. Quando a mesa se preparava para eleger as feras dos anos 60, alguém lançou uma ideia nova: seria justo eleger a “seleção dos primeiros cinquenta anos do futebol do Flamengo”. Que se elegessem os onze dentre estes quatro times de sonhos inicialmente listados. Imediatamente, topou-se o desafio.

Depois de muitas ponderações, os onze maiores das cinco primeiras décadas foram escolhidos: Garcia, Biguá, Domingos da Guia e Nilton Canegal; Dequinha, Zizinho e Dida; Joel, Leônidas da Silva, Pirilo e Vevé. Não deu nem muito trabalho, uma rearrumação aqui outra ali, e chegou-se a um consenso. Rubens e Evaristo de fora? Vocês estão loucos!... Você tiraria quem então?... Fez-se um silêncio de reflexão...

Igualmente rápida foi a votação para eleger os onze principais dos anos 60. Estes não foram dias muito felizes para os rubro-negros, é melhor até passar rápido e ir para a seguinte logo, argumentou alguém. Eis o time dos anos 60: Marcial, Murilo, Ananias, Manicera e Paulo Henrique; Carlinhos e Gérson; Espanhol, Dida, Silva e Almir. Só deu polêmica em torno do nome de Nelsinho, que muitos achavam que deveria estar no lugar do garoto Gérson.

O time dos anos 70 foi outro que não deu trabalho. Foram eleitos: Renato, Toninho, Reyes, Rondinelli e Júnior; Liminha, Carpegiani e Geraldo; Zico, Doval e Paulo César Caju. Cláudio Adão e Luisinho Lemos também foram amplamente citados.

A mais trabalhosa de todas as votações foi a seleção dos anos 80, não por falta, mas por excesso de nomes. Não tinha espaço para botar tanto craque. Foi preciso rearrumar a defesa, para que houvesse espaço para o Leandro e para o Jorginho. Mesmo com todo o esforço, alguns pesos pesados ficaram de fora. Foi o caso do goleiro Zé Carlos, do zagueiro Aldair, do lateral-esquerdo Leonardo e dos pontas Tita e Zinho. O time escolhido foi formado com: Raul, Jorginho, Leandro, Mozer e Júnior; Andrade, Adílio e Zico; Renato Gaúcho, Nunes e Bebeto.

A escolha referente ao time dos anos 90 também não foi muito trabalhosa, ainda que alguns tenham sido escolhidos meio que a contragosto de uns. Elegeu-se para representar esta década a formação: Gilmar, Charles Guerreiro, Wilson Gottardo, Júnior Baiano e Athirson; Leandro Ávila, Júnior, Nélio e Zinho; Sávio e Romário.

Controvérsia mesmo deu a discussão em torno do time dos anos 2000. Tinha gente querendo botar o time para jogar com dez, e até quem defendesse a escolha de apenas nove. A memória dos anos de martírio era muito viva. A discussão já começava na defesa: Júlio César ou Bruno no gol? Gamarra, apesar da passagem de só um ano pelo clube, mereceria um lugar no time? No meio de campo, foi difícil listar nomes opcionais. No final, o time eleito tinha: Júlio César, Leonardo Moura, Juan “zagueiro”, Fábio Luciano e Juan “lateral”; Ibson, Renato Abreu, Petkovic e Felipe; Edílson e Adriano.

Já que houve uma votação referente aos cinquenta primeiros anos, que se votasse a “seleção dos últimos cinquenta anos do futebol do Flamengo”. O time que misturaria as votações das décadas de 1960 a 2000 foi assim eleito: Raul, Leandro, Reyes, Mozer e Júnior; Andrade, Adílio e Zico; Bebeto, Doval e Romário.

Como misturar a seleção dos primeiros cinquenta anos com a dos últimos? Seria uma votação muito difícil. A pauta da mesa de bar passou a ser se valeria ou não a pena mesclar. Por que não ter dois times dos sonhos?

Do meio da multidão de corações rubro-negros que assistia ao debate e palpitava, levantou-se uma voz por uma solução democrática. Alguém sugeriu: a imprensa já fez várias eleições assim, cada uma com júris diferentes. Vamos correr atrás destas votações e listar os onze mais citados nelas. Este deve ser o Flamengo dos Sonhos. Como este sempre foi um clube de espírito democrático, que assim fosse feito. E a solução foi aprovada por aclamação.

Pela memória e pelos seus alfarrábios de colecionador, um ou outro foi puxando uma formação aqui outra ali. A primeira a surgir dentre tantos colecionadores foi a revista Grandes clubes brasileiros – Flamengo, da Editora Rio Gráfica, em 1971, e que trazia o seguinte time: Amado, Biguá, Nilton Canegal, Domingos da Guia e Jayme de Almeida; Dequinha, Bria e Zizinho; Valido, Leônidas e Vevé.

Só acharam uma votação parecida a esta datada de quinze anos depois. Alguém apareceu com a revista Placar, número 642, de 1986, que trazia os seguintes eleitos por seu júri: Garcia, Biguá, Domingos da Guia, Reyes e Júnior; Dequinha, Zizinho e Zico, Joel, Leônidas e Vevé. Doze anos mais tarde, a Placar número 1.098 trazia, em novembro de 1994, outra escolha: Raul, Leandro, Domingos da Guia, Mozer e Júnior, Dequinha, Zizinho e Zico; Joel, Leônidas e Bebeto.

Em seguida, apresentou-se uma edição do jornal O Globo, de 15 de novembro de 1995, dia em que o Clube de Regatas do Flamengo completava cem anos. A formação escolhida pelos jurados rubro-negros tinha: Raul, Leandro, Domingos da Guia, Mozer e Júnior; Dequinha, Zizinho e Zico; Joel, Leônidas e Dida.

Em 1997, houve três votações do gênero citadas na mesa daquele bar. A Revista do Flamengo nº 15, de edição interna do clube, distribuída em fevereiro, elegeu: Garcia, Leandro, Domingos da Guia, Reyes e Júnior; Dequinha, Zizinho e Zico; Rubens, Leônidas e Dida. O jornal O Dia de 13 de julho daquele ano compôs um júri que escolheu a formação: Raul, Leandro, Domingos da Guia, Mozer e Júnior; Carpegiani, Adílio, Zizinho e Zico; Leônidas e Romário. Uma semana depois, o jornal Extra formou outro grupo de jurados que elegeram: Raul, Leandro, Domingos da Guia, Mozer e Júnior; Dequinha, Adílio, Zizinho e Zico; Dida e Romário.

A última votação citada foi a da revista Placar, edição especial de dezembro de 2006, cujos eleitos foram: Raul, Leandro, Aldair, Domingos da Guia, Mozer e Júnior; Andrade, Adílio, Zizinho, Zico e Nunes.

Combinando os resultados destas pesquisas, que representam os júris de diferentes gerações de flamenguistas, sintetizando as mais distintas óticas sobre a história do Clube de Regatas do Flamengo, chegou-se à seleção dos onze mais votados. São os jogadores que sintetizam as glórias do futebol do clube e que fazem o torcedor sonhar com um passado vivo na memória, um presente de muita luta e um futuro que sempre poderá ser maior. A égide do que representa a tradição rubro-negra e do que significa vestir o vermelho e o preto. O Time dos Sonhos, que carrega a responsabilidade e o orgulho de representar o tamanho dessa tradição, ficou com a seguinte formação: Raul, Leandro, Domingos da Guia, Mozer e Júnior; Dequinha, Zizinho e Zico; Joel, Leônidas da Silva e Dida.

A grandeza do Flamengo é diferente de qualquer outra. Não pelos títulos. Até também pelos títulos, porque a alma precisa de alegrias para rejuvenescer. Não por estes heróis desta Nação Multidão, mas também porque há heróis desta grandeza em seu passado. Outros clubes de futebol também conquistaram títulos magníficos. Outros também tiveram craques de altíssimo padrão. Não foi só o rubro-negro que muita libra já pesou. Os títulos, as glórias, os heróis, os craques, todos não são nem maiores nem menores do que aqueles de outros grandes clubes de futebol. A diferença se faz pela multidão. Por uma alma própria. A grandeza desse vermelho e desse preto só ele tem. Ela não é imitável. Ela não é fabricável. Ela não é fruto de um ou outro que tenha decidido inventar um mito ou que decidiu criar uma história. Ela é escrita pela multidão. O 12º jogador deste Time dos Sonhos certamente se faria presente para cantar e empurrar.

A mística das arquibancadas uniria poesias de todos os tempos e das mais distintas gerações: “Flamengo, tua glória é lutar. Eu teria um desgosto profundo se faltasse o Flamengo no mundo. É o meu maior prazer vê-lo brilhar. Quando o Mengo perde eu não quero almoçar, eu não quero jantar. Eu sempre te amarei, onde estiver, estarei. Quero cantar ao mundo inteiro a alegria de ser rubro-negro. Flamengo até morrer eu sou, com muito orgulho, com muito amor”.

Grandes clubes há vários; diferenciado, há apenas um. O espírito em sincronia de uma multidão dá a estas cores a dimensão diferenciada que ela tem. O povo, rico ou pobre, preto ou branco, religioso ou ateu, carioca ou não, dá vida própria a estas cores. Dá-lhe alma. Dá-lhe espírito. Como afirmou Ruy Castro em sua obra O vermelho e o negro, “O Flamengo é o cimento que dá coesão nacional, do Oiapoque ao Chuí”. Suas cores materializam e encarnam a máxima de Nélson Rodrigues de que o futebol, e só ele, faz com que um sujeito perca qualquer sentimento de sua própria identidade e torne-se também multidão. Todos nascem flamenguistas, porque todos vêm ao mundo inseridos na massa, depois é que alguns degeneram.


quinta-feira, 7 de julho de 2022

A NAÇÃO (2ª edição) - Capítulo X: Anos de reconstrução (2006-2012)


A NAÇÃO

Como e por que o Flamengo se tornou

o clube com a maior torcida do Brasil



Capítulo X – Anos de reconstrução (2006-2012)


Em 3 de maio de 2012 foi completado o Centenário do futebol do Flamengo. Cem anos desde quando o emblema rubro-negro foi ostentado pela primeira vez em camisas de futebol à altura do coração. Cem anos de que Flamengo e Mangueira entraram em campo, no antigo estádio do América, na rua Campos Salles, próximo à praça Afonso Pena. Foi lá que tudo começou, humildemente. Apesar das muitas glórias, os anos antecedentes ao centenário precisaram ser de reconstrução das égides de grandeza do clube, que buscava, com enorme esforço, reerguer-se de seus anos de martírio.

O espírito da multidão sempre foi o de se superar sempre. Após todo o martírio vivido pelo Rio de Janeiro e pelo seu principal clube de futebol, era necessário haver muito brio para levantar e sacudir a poeira, reerguendo-se, recuperando o orgulho e a autoestima feridos. Na cidade do Rio, qualquer égide de reconstrução tem de ser erguida ao ritmo de samba e bossa nova. Era preciso que fossem invocadas todas as almas e os espíritos de grandeza que pairam sobre as curvas de sua geografia, e que servem de cimento à união das massas.

Pegando emprestada a letra de Ivan Lins, que mescla o samba e a bossa tipicamente cariocas, era preciso se saber que: “Desesperar jamais, aprendemos muito nestes anos/ Nada de correr da raia, nada de morrer na praia/ No balanço de perdas e danos, já tive muitos desenganos, já tivemos muito que chorar/ Mas agora chegou a hora de valer o dito popular: desesperar jamais!” Era hora de “levantar a mão sedenta e recomeçar a andar”.

Mas para se reerguer de crise tão profunda, não basta boa vontade e predisposição. Estes são pré-requisitos sem os quais, sem dúvida, não há como sustentar qualquer retomada. Mas é preciso ir além. Primeiro, com a superação de interesses que não sejam os coletivos. Todas as forças têm de estar remando na mesma direção, ainda que sustentados pontos de vistas e opiniões distintos. Tem de existir um objetivo comum, buscado em consenso democrático, e na direção para alcançá-lo todos devem se mover. O sucesso não será alcançado se não houver estratégia: o alvo tem de estar no lugar certo. Como já foi citado no contexto referente ao princípio Anna Karenina: o sucesso nada mais é do uma sucessão de escolhas certas.

Resumindo-se assim – todo um conceito numa única e simples frase – pode parecer fácil conseguir o sucesso. Definitivamente não é! Uma boa estratégia depende de uma boa capacidade de observação para capturar oportunidades e neutralizar as ameaças (cada um dos possíveis fracassos que podem atrapalhar as vitórias). Um processo que consiste em se ter competência, atitude preventiva e eficiente monitoramento da saúde da instituição. Para isso, é preciso estar preparado para construir e proteger caminhos, equacionar crises, atentar a detalhes, saber sustentar posições conquistadas e ter focos claros. Mais difícil ainda é reerguer-se após um longo martírio. Só com muita força de caráter, principalmente porque a autoestima se destroça após longos períodos de humilhantes derrotas e insucessos. Mas sem a reconstrução, o futuro desta paixão nacional e da identidade da multidão com o vermelho e o preto poderia estar ameaçado.

Antes de qualquer coisa, para se moldar uma boa estratégia é preciso ter um conceito claro de aonde se quer chegar. O passo seguinte é definir como conseguir isto. É preciso rumar nesta direção de forma permanente, insistente e persistente. Os objetivos, quando individuais, são mais fáceis de serem administrados, porque podem ser perseguidos silenciosamente. Uma vez que seja preciso externá-los, como no caso de qualquer grande instituição, são necessários cuidados especiais.

Para alcançar o sucesso é preciso equilibrar ambição e humildade. Objetivos que não tenham alguma ambição sempre levam a resultados aquém dos possíveis, tornando o sucesso algo ocasional ou esporádico. Objetivos demasiadamente ambiciosos são tão perigosos quanto, pois não se aproximando deles, todos tenderão a apontar o resultado final como um absoluto fracasso. É o fator psicológico em ação. Quando se anuncia aos quatro ventos aonde se quer chegar, se for a montanha mais alta do mundo, e se a caminhada for interrompida a poucos quilômetros do objetivo final, não interessará que se tenha alcançado lugares aonde pouquíssimos chegaram, pois a psicologia coletiva – ao formar a expectativa de que sucesso é atingir o cume da montanha – estará pronta para dizer que tudo foi um fracasso. E isso pode fazer com que todo o esforço para ir adiante vá por terra.

É fundamental estar preparado e enfrentar estes fatos. Partindo da velha máxima de que comunicação não é o que alguém diz, mas o que o outro entende, da mesma forma, sucesso pode não ser o que você alcança, mas o que a multidão consegue visualizar que você alcançou. Lidar com a psicologia da multidão é um dos maiores desafios, senão o maior, para o qual qualquer grande instituição tem que estar preparada. Imagine quando se trata da multidão das multidões, de uma nação dentro da nação. Mas neste caso, a empatia entre o Flamengo e a massa joga a favor, pois quando a multidão vai junto, em sincronia com os onze que estão em campo, é muito difícil parar o vermelho e o preto com aquele CRF no peito.

A missão de reconstrução do clube era ainda mais difícil pelas condições de decadência do Rio de Janeiro. A cidade andava tomada por grupos armados, ora de traficantes ora de milicianos. Os grupos fortemente armados de poder paralelo expulsavam aleatoriamente as pessoas de suas casas nas comunidades, condenavam e executavam seus próprios réus e impunham restrições ao direito de ir e vir de muitos cidadãos. Os que estavam fora da comunidade, mas moravam nos arredores de áreas de risco, sofriam com os intensos tiroteios e queimas de fogos intimidadoras durante a noite. Nesses tempos, o risco estava por toda a parte, podendo estar na curva da próxima esquina, à mercê de uma bandidagem descontrolada e desenfreada.

Mais do que nunca, pessoas e empresas desejavam se afastar da cidade, e com elas se iam as oportunidades. Sob um desanimador quadro de falência econômica, moral, social e de desesperança instalada, era preciso encontrar forças – daquelas que se sabe lá de onde vêm – para se levantar, sacudir a poeira e encontrar razões que valessem para dar a volta por cima. Na primeira década do Século XXI, até trazer jogadores de outros estados esteve difícil, pois suas famílias desaprovavam a mudança, por medo da violência.

Ainda que sob todas estas dificuldades, o Clube de Regatas do Flamengo se mantinha como o Senhor das Multidões. Apesar de tudo, a paixão pelo vermelho e o preto continuava capturando corações por todo o país. Apesar do tempo, os fatores que levaram vários a se tornarem flamenguistas, nas terras mais longínquas ao Rio de Janeiro, mantinham a unidade e a sinergia do sentimento por aquelas cores. Mesmo com tantos martírios, mesmo com a distância dos tempos em que houve o sonho de construir a identidade nacional em torno do Rio, mesmo em dias nos quais as ondas do rádio já representavam uma tecnologia do passado na arte de mexer com os sentimentos da multidão, mesmo quando aquelas cores já não tinham mais os gigantes colonizadores e aristocratas contra os quais lutar; apesar de tudo isto, o Flamengo ainda tinha forças para representar uma nação à parte dentro daquele sofrido país batizado pelos portugueses como Brasil.

Ao começo do século XXI, a nação rubro-negra tinha mais de 35 milhões de almas para empurrar o clube, o triplo dos 11 milhões de habitantes da cidade do Rio de Janeiro, quase um quinto das pessoas que então habitavam o Brasil, algo muito maior do que a população de países inteiros. Deles vinha a força para viabilizar um reerguimento. O primeiro grande passo para se ter um Flamengo à altura de sua tradição foi dado com a aproximação e a união de todas as correntes políticas dissidentes dentro do clube em torno de um objetivo comum: tirar o clube do atoleiro antes que fosse tarde. A força democrática da multidão flamenguista, uma tradição desde as origens do vermelho e do preto, fez valer as tradições do clube. Isso foi muito importante, mas faltava ainda fazer as escolhas certas. O que não é algo que emerge da noite para o dia.

Após conseguir uma 11ª posição no Brasileirão 2006, o Flamengo se planejou como há muito não fazia para a Libertadores de 2007. Sob a coordenação do técnico Ney Franco e as lideranças do presidente Márcio Braga e do vice-presidente de futebol Kléber Leite, foram definidos todos os reforços antes da virada do ano e formou-se um elenco com trinta jogadores. Cumprida esta fase, realizou-se uma pré-temporada de vinte dias antes do início das competições oficiais, para deixar o grupo fisicamente bem preparado e competitivo durante o decorrer do ano. Embora isto fosse apenas o básico, o mínimo de planejamento para encarar uma temporada altamente competitiva, essas ações já foram um salto de eficiência, pois frente ao completo abandono de planejamento vivido no clube nos anos anteriores, fazer o básico já era padrão de qualidade.

Mas para montar uma equipe forte e que voltasse a ser competitiva, era preciso ir além. O sucesso na vida depende sempre de continuidade. E os ventos na Gávea sinalizavam que lições foram aprendidas. A base que vinha de 2006 foi mantida, um núcleo duro com o goleiro Bruno, os laterais Leonardo Moura e Juan, um meio-campo com Paulinho, Renato Abreu e Renato Augusto, e ainda o atacante Obina. O Flamengo tinha o Campeonato Carioca, a Taça Libertadores e o primeiro turno do Campeonato Brasileiro no primeiro semestre para disputar. O trabalho bem-feito deu os primeiros frutos com a conquista do Campeonato Carioca de 2007.

O objetivo principal, no entanto, não foi alcançado: a conquista da Taça Libertadores. O Flamengo pegou um grupo relativamente fácil na primeira fase, com Paraná, Unión Maracaibo, da Venezuela, e Real Potosi, da Bolívia. Perdeu pontos só na estreia, num heroico empate por 2 a 2 em Potosi, jogando a 4 mil metros de altitude, e depois de estar perdendo por 2 a 0. Na sequência, venceu as cinco partidas restantes e se classificou com a segunda melhor campanha dentre todas. Nas oitavas de final, enfrentou o Defensor Sporting, do Uruguai. Perdeu por 3 a 0 em Montevidéu e aí selou seu destino, pois ficou muito difícil reverter a desvantagem.

No jogo de volta, disputado no Maracanã três dias após a vitória sobre o Botafogo, nos pênaltis, que lhe deu o título carioca, o time rubro-negro conseguiu fazer 2 a 0 ainda com três minutos do segundo tempo. Empurrado pelos 65 mil torcedores presentes no estádio, o time lutou muito, mas não conseguiu fazer o terceiro gol, que levaria a disputa para as penalidades. Mesmo assim, terminou o jogo aplaudido pelo público presente, em reconhecimento ao esforço. Mas a realidade da eliminação foi dura. O time não foi adiante na Libertadores por um destes detalhes e caprichos do futebol. Teve quarenta e poucos minutos para conseguir o gol que levaria a disputa às penalidades. Mas não o fez.

Aquele time tinha algumas deficiências técnicas, mas sua determinação e seu alto poder de reação e superação compensavam a carência. Foi assim em Potosi, quando reagiu e empatou depois de ver o adversário com vantagem de dois gols, e num ambiente insólito, sem oxigênio para respirar. Assim foi também no primeiro jogo da final do Carioca, cujo primeiro tempo terminou 2 a 0 para o Botafogo, e o time foi buscar o empate. E foi assim também no segundo jogo contra o Botafogo, em que abriu o placar já no segundo tempo, viu o adversário virar e, quando a disputa já parecia perdida, foi buscar um novo empate por 2 a 2, com um golaço, em chute de longe de Renato Augusto. A disputa foi então para os pênaltis. O goleiro Bruno defendeu dois e o Mengão foi campeão!

Continuidade alinhada à eficiência é um dos principais fatores a garantir o sucesso de uma empreitada. Seja no futebol ou em qualquer empreendimento na vida, seja ele pessoal ou profissional. A continuidade dada a Ney Franco como técnico foi um importante fator nesta reconstrução dos pilares rubro-negros. Desde Cláudio Coutinho, técnico do Flamengo durante quatro temporadas, poucos foram os nomes a se manter por um longo período no cargo. Ney Franco permaneceu mais de um ano à frente do time, mas depois de quatorze meses, com um mau desempenho nas quinze primeiras rodadas do Brasileirão, acabou demitido. O seu lugar no banco de reservas foi ocupado então por Joel Santana, que voltava para mais uma passagem, a quinta, à frente da equipe rubro-negra.

Os dois primeiros confrontos que Joel tinha pela frente eram muito difíceis, contra Santos e Atlético Paranaense, equipes que ocupavam as primeiras posições da tabela, e ambos fora de casa. O Flamengo perdeu ambas e caiu para a 19ª e penúltima colocação do certame. Além da chegada de Joel, foram contratados seis jogadores: o veterano zagueiro Fábio Luciano, que estava no Fenerbahce, da Turquia; o cabeça de área Cristian, do Atlético Paranaense, trocado por Clayton; o meia-armador Ibson, que voltou ao clube emprestado pelo Porto, de Portugal; o experiente meia Roger Flores, ex-Fluminense, que estava jogando no Corinthians; e, para terminar, dois argentinos, o cabeça de área Hugo Colace, do Estudiantes de La Plata, com passagem pela seleção da Argentina sub-17, e o atacante Maxi Biancucchi, contratado ao Sportivo Luqueño, do Paraguai, e que era primo de sangue do atacante Lionel Messi, titular absoluto do Barcelona, da Espanha, e da seleção da Argentina.

Depois das derrotas nos dois primeiros jogos de Joel, o time se acertou, e aí se materializou a maior arrancada já vista no futebol. Nos 24 jogos que restavam até o fim do torneio, o rubro-negro venceu quinze, empatou quatro e perdeu apenas cinco. Saltou da 19ª para a 3ª posição, conseguindo uma gloriosa classificação para jogar a Taça Libertadores do ano seguinte. As bases de reerguimento do clube estavam erguidas. A autoestima ia sendo reconstruída, e o grande ativo do clube, a multidão de apaixonados torcedores, mostrava suas credenciais diferenciadas.

Como não poderia deixar de ser, a arrancada foi empurrada pelo grito que vinha da arquibancada. A melodia que empurrou este estupendo arranque das últimas às primeiras colocações assim entoava: “Tu és time de tradição/ Raça, amor e paixão/ Oh meu Mengo!/ Eu sempre te amarei/ Onde estiveres, estarei/ Oh meu Mengo!” Empurrado por este grito e com o time correspondendo às expectativas dentro de campo, o Flamengo obteve oito dos dez maiores públicos do campeonato. Teve uma média de 33 mil torcedores nos jogos disputados no Maracanã.

A partida que sacramentou a classificação matemática para a Libertadores, uma vitória por 2 a 0 sobre o Atlético Paranaense, no Maracanã, foi comemorada pelos jogadores e torcedores com uma festa digna da conquista de um título. A reconstrução da grandeza do Flamengo ali se materializava, como não poderia deixar de ser, sob uma perfeita sincronia entre o campo e a arquibancada, entre jogadores, torcedores, comissão técnica e dirigentes. O espírito da multidão se materializava e vinha relembrar aos cariocas e aos brasileiros o porquê daquele clube ser tão grande, tão amado, tão invejado, tão celebrado. Os anos de martírio haviam feito algumas pessoas esquecerem que ter a maior torcida do Brasil não é algo que se obtém da noite para a manhã, de um ano para outro. Muitas foram as vozes que trataram de humilhar e menosprezar o vermelho e o preto enquanto estas cores viveram seus dias de martírio.

Mas a reconstrução, naturalmente, ainda não havia sido de todo concretizada. Havia-se aliviado o martírio, o que já era um grande passo, mas faltava solidificar nos anos seguintes as bases de sustentação. As escolhas feitas diriam se o futuro conseguiria ou não espelhar a grandeza de seu passado.

Para a temporada de 2008, repetiu-se a fórmula de planejamento usada em 2009: manutenção do técnico e de uma base, definição de reforços antes do fim do ano, realização de uma adequada pré-temporada e montagem de um grupo forte, com peças de reposição para todas as funções. O fantasma dos atrasos salariais ainda não havia desaparecido, mas o Flamengo se recompôs financeiramente, equilibrando seu orçamento e buscando reconstruir a responsabilidade perdida, que havia levado consigo a imagem do clube, sujando-a para potenciais parceiros e financiadores.

Em 2008, o Flamengo conquistou o bicampeonato carioca vencendo ao Botafogo na final, como ocorrera no ano anterior. O grande objetivo, no entanto, era a Taça Libertadores. O grupo do rubro-negro na primeira fase não estava entre os mais difíceis, tinha o Nacional de Montevidéu, do Uruguai, e dois clubes peruanos, o Cienciano, de Cuzco, e o Coronel Bolognesi, de Tacna. Sem fazer uma campanha muito brilhante, o time conseguiu garantir a primeira posição no grupo, e a segunda melhor campanha no geral.

As coisas começaram a mudar quando Joel Santana recebeu uma proposta para ir treinar a seleção da África do Sul. Os sul-africanos já estavam classificados para a Copa do Mundo, como país-sede do torneio de 2010. Nem tanto pela recompensa salarial, pois semanas antes ele havia rejeitado uma nova investida do futebol japonês; Joel ia atrás do sonho de participar de uma Copa. Ele sairia após o fim do Campeonato Carioca. Entre os dois jogos da final, no primeiro confronto pelas oitavas de final da Libertadores, o rubro-negro venceu o América do México por 4 a 2 em pleno estádio Azteca. No domingo seguinte, derrotou os botafoguenses por 3 a 1 e faturou o bi do Estadual. Preparou-se então a festa de despedida para o treinador na partida de volta contra o América, no Maracanã.

Acreditando que a classificação estava sacramentada e que os mexicanos seriam presas fáceis, o time se excedeu nas comemorações antes do jogo, promovendo uma esbanjada festa na concentração. O futebol é imperdoável com aqueles que desprezam e menosprezam seus adversários e, como reza a gíria futebolística, entram em campo de salto alto. O preço pago pela arrogância foi altíssimo: América 3 a 0, sob o ritmo do atacante paraguaio Cabañas. Pelo segundo ano consecutivo, o sonho do título sul-americano naufragou nas oitavas de final. Mas a reconstrução do clube estava em curso, e nem um tropeço tão doído como este foi capaz de revertê-la.

Um ponto fundamental para que o Flamengo conseguisse se reerguer, após anos tão difíceis, foi a reestruturação do trabalho nas divisões de base, na formação de talentos. O Flamengo detém, de longe, a maior quantidade de títulos do Campeonato Carioca de Juniores (sub-20), mas vinha tendo dificuldades em continuar a produzir jovens talentos em escala suficiente. A expertise para gerar talentos foi fundamental para o reerguimento. Quando o rubro-negro vence muito e levanta troféus nas suas categorias de base, é sinal de que uma nova geração vem chegando para brilhar no profissional. Assim aconteceu quando o clube foi tricampeão carioca de juniores em 1956/57/58, e em 1959 revelava craques como Carlinhos e Gérson. Quando o clube foi bicampeão de juniores em 1972/73, 1979/80, 1985/86, 1989/90 e 1993/94, cada um destes períodos teve em sequência o surgimento de uma geração vencedora. Da primeira destas gerações emergiram Zico, Júnior, Geraldo e Rondinelli, da segunda, Leandro, Andrade, Vítor e Tita, na seguinte subiram Zinho, Aldair, Ailton e Leonardo, a de 1989/90 revelou Djalminha, Paulo Nunes, Marcelinho Carioca, Júnior Baiano e Nélio, e na de 1993/94 emergiu Sávio.

As divisões de base rubro-negras voltaram a tempos de grandes vitórias quando o Flamengo conquistou novamente um tricampeonato carioca nos juniores entre 2005 e 2007, o que não acontecia desde 1959. Durante o período deste tricampeonato, ainda foi campeão da Copa Cultura de 2005, que foi um “Torneio Rio–São Paulo de juniores”, organizado para comemorar o aniversário da TV Cultura, canal educativo paulista. A competição durou quase todo o segundo semestre daquele ano, e foi definida num quadrangular final entre Flamengo, Fluminense, São Paulo e Santos. O Flamengo somou doze pontos, seguido pelo São Paulo com onze, e foi campeão.

Embalada pela sequência de troféus levantados pelo clube no sub-20 entre 2005 e 2007, a garotada rubro-negra embarcou em agosto de 2007 para a Malásia para disputar o Mundial Sub-19 de Clubes (The Championship Youth Cup). O Flamengo caiu no grupo A do torneio, junto a Milan, da Itália, Ajax, da Holanda, e Arsenal, da Inglaterra. O grupo B tinha Juventus, da Itália, Barcelona, da Espanha, Paris St-Germain, da França, e seleção do Qatar. O grupo C tinha Manchester United, da Inglaterra, Porto, de Portugal, Internazionale, da Itália, e Boca Juniors, da Argentina. E o grupo D era formado por Chelsea, da Inglaterra, Bayern de Munique, da Alemanha, PSV Eindhoven, da Holanda, e seleção da Malásia. Era a elite do futebol mundial.

Na estreia, o Flamengo empatou por 1 a 1 com o Milan, depois venceu ao Arsenal por 2 a 1, de virada, e ao Ajax por 1 a 0, terminando a primeira fase em primeiro lugar no grupo, com o Milan em segundo. Ambos avançaram às quartas de final, com Arsenal e Ajax voltando para casa, eliminados. Quartas de final: Flamengo x PSV Eindhoven; Bayern Munique x Milan; Internazionale x Juventus; e Barcelona x Manchester United. O Flamengo venceu por 1 a 0, com gol do meia Erick Flores no último minuto. Na semifinal: Flamengo x Manchester United e Milan x Juventus. Frente aos Diabos Vermelhos ingleses, o time rubro-negro enfiou três bolas na trave, mas acabou derrotado: 2 a 1 Manchester, que acabou campeão, batendo a Juve na final por 1 a 0. O Flamengo decidiu o terceiro lugar contra o Milan, e venceu por 3 a 1.

Reconstruído o trabalho na base, faltavam sinais mais sólidos de reerguimento no time profissional. Era necessária a certeza de que a recuperação não se esvairia e seria resumida à brilhante arrancada no Campeonato Brasileiro de 2007. Os sinais da reconstrução pela qual passava o Flamengo ficaram ainda mais nítidos a partir de 2008. O rubro-negro carioca contratou, para o lugar de Joel Santana, o técnico Caio Júnior. Com ele, o Flamengo se manteve na liderança até a 13ª rodada. Até aquele momento, o desempenho da equipe no ano era fantástico: em 39 jogos disputados, incluindo Carioca, Libertadores e Brasileiro, haviam sido 28 vitórias (72%), cinco empates e seis derrotas (apenas 15% das partidas jogadas). Era um desempenho de altíssimo padrão dentro da própria história do clube. Só em 1979 o time rubro-negro havia vencido mais de 72% das vezes em que entrou em campo. Uma única vez nos cem anos de futebol do clube. Perder só 15% dos jogos era padrão equivalente ao alcançado na Era de Ouro do Flamengo, entre 1978 e 1983.

Mas o clube tinha que quebrar um tabu para conseguir ser campeão. Desde que o Campeonato Brasileiro passou a ser disputado em turno e returno por pontos corridos, a partir de 2003, só no primeiro ano o líder nas dez primeiras rodadas manteve a liderança até o final e sagrou-se campeão. E pior, entre 2004 e 2007, por quatro edições consecutivas, quem liderou até aí terminou o ano, no melhor dos casos, em 15º lugar. Porém, para os mais supersticiosos, o clube tinha um tabu a seu favor: nas cinco vezes em que conseguira conquistar o título de campeão brasileiro, o time rubro-negro tinha um treinador cujo nome se iniciava com a letra C: Cláudio Coutinho em 1980, Carpegiani em 1982, Carlos Alberto Torres em 1983, e Carlinhos, duas vezes, em 1987 e 1992. Levaria Caio Júnior esta tradição adiante?

Só que, a partir da 11ª rodada, a base que conquistara o bicampeonato carioca sofreu sérios desfalques. Naquele momento, o time rubro-negro liderava com folga a competição, tendo cinco pontos de vantagem para o vice-líder. Com a abertura da janela de transferências para o exterior, entre julho e agosto, o assédio aos profissionais rubro-negros foi grande. O clube conseguiu manter Caio Júnior, mesmo com ele tendo recebido uma pomposa proposta do Qatar. Mas a pressão foi grande e as perdas eram inevitáveis: Renato Augusto foi contratado pelo Bayer Leverkusen, da Alemanha, Marcinho, artilheiro do time, seduzido pelos dólares oferecidos pelo Qatar Sport Club, foi para o Oriente Médio, e Souza, para o Panathinaikos, da Grécia. O ataque foi inteiramente desmontado, já que vinha dando certo e sendo o mais positivo do campeonato.

A saída de Marcinho e Renato Augusto ocorreu logo após a 11ª rodada. O time sentiu a queda de qualidade. Nos dois jogos seguintes, duas derrotas, para Coritiba e Vitória, e o clube viu sua liderança ameaçada. Em seguida, dois empates, com Portuguesa de Desportos e Botafogo. O rubro-negro estava com ampla folga, e foram necessários quatro jogos sem vencer para que ele fosse ultrapassado. Após duas derrotas e dois empates, o Flamengo terminou a 15ª rodada na vice-liderança, um ponto atrás do Grêmio.

Vieram então dois duelos contra adversários diretos na luta pelo título: Palmeiras e Cruzeiro, o primeiro em São Paulo e o segundo no Maracanã. No primeiro, o rubro-negro caiu diante do Palmeiras e, com a derrota, passou à quarta colocação. A parada seguinte era contra o Cruzeiro. Só restava vencer para não arruinar o moral e a autoestima da tropa. Mas o Flamengo caiu mais uma vez: Cruzeiro 2 a 1, de virada. Com o resultado, o rubro-negro desceu para a sexta colocação na tabela e, pela primeira vez em dezessete rodadas, estava fora da zona de classificação para a Libertadores, que incluía as quatro primeiras posições. Nas duas últimas rodadas do turno, uma vitória e uma derrota, e o time terminou a primeira metade do torneio na sétima posição.

Para lutar por se manter na disputa pelo título foram contratados, na virada do primeiro para o segundo turno, nove jogadores, principalmente nas posições que demonstravam mais carência: chegaram à Gávea quatro meias-armadores e quatro atacantes. E depois de acumular sete rodadas sem vencer, o que lhe custou sete posições na tabela, o time, reforçado, começou a se recuperar. Nas seis rodadas seguintes não perdeu, venceu três jogos e empatou três, saltando para o quinto lugar. Na sétima rodada voltou a perder, para o São Paulo, no Morumbi. Daí para a frente, faltavam treze jogos, dos quais nove seriam jogados no Maracanã.

Os dois jogos seguintes foram em casa, contra Ipatinga e Sport: duas vitórias duríssimas. A onze rodadas do fim, o campeonato estava em aberto: Grêmio e Palmeiras dividiam a liderança com cinquenta pontos cada. Em seguida, três clubes na cola com 46 pontos: Flamengo, Cruzeiro e São Paulo. O sexto colocado era o Botafogo, com 43.

O time rubro-negro foi a Recife e superou ao Náutico. Seguiam-se três jogos consecutivos no Maracanã. A esperança de encostar nos líderes e arrancar para o título crescia. No jogo seguinte, frente ao Atlético Mineiro, a multidão se fez presente: 78 mil pessoas e recorde de público no campeonato. Só que o time não aproveitou a oportunidade. Perdeu por 3 a 0, desperdiçando pontos que iriam lhe custar caro.

Nos dois jogos que vieram em sequência, o time venceu duas vezes; primeiro bateu o Vasco e, depois, goleou o Coritiba por 5 a 0, mantendo-se vivo na luta para conquistar o título. Na rodada seguinte, foi a Salvador enfrentar ao Vitória, e voltou da capital baiana com um empate sem gols. Se vencesse, teria se metido no bolo que dividia a liderança. Ao fim da 32ª rodada, Grêmio e São Paulo dividiam a liderança com 59 pontos. Atrás estavam Palmeiras e Cruzeiro com 58. O Flamengo tinha 56, ocupando a quinta colocação.

Faltavam apenas seis jogos para a definição do campeão nacional, e mais uma vez o rubro-negro carioca tinha uma sequência de três jogos a disputar no Rio de Janeiro. Parecia ser a última oportunidade para saltar sobre os líderes. Os adversários eram a Portuguesa de Desportos, que brigava para não cair para a Segunda Divisão, o Botafogo, sexto colocado no torneio, e o Palmeiras, adversário direto na luta pelo título. Pelas posições que cada um dos três adversários ocupava na tabela, tudo sugeria que o primeiro destes três confrontos seria o mais fácil. Porém, por uma destas grandes ironias do futebol, foi logo neste que a equipe rubro-negra, ao empatar, deu adeus à luta pelo título.

Nos dois confrontos seguintes, o sonho do título ainda permaneceu aceso, depois de uma vitória simples sobre o Botafogo e uma implacável goleada por 5 a 2 sobre o Palmeiras. Com as duas vitórias, o Flamengo subiu para a terceira posição, três pontos atrás do vice-líder Grêmio, e cinco atrás dos são-paulinos, então detentores da ponta. Porém, as chances matemáticas ruíram por terra após a derrota por 3 a 2 para o Cruzeiro no Mineirão, na 36ª rodada. O São Paulo Futebol Clube acabou garantindo o título nesta acirradíssima disputa. Conquistou, assim, seu sexto título nacional, superando o Flamengo, a quem se havia igualado em número de títulos brasileiros no ano anterior, para se tornar o maior ganhador de troféus na Primeira Divisão. E mais, sagrou-se tricampeão, conquistando o campeonato pelo terceiro ano consecutivo, algo que até então nenhum clube havia conseguido na história do Campeonato Brasileiro.

O ano de 2008 foi o de desperdício de grandes oportunidades na Gávea. O Flamengo perdeu uma incrível oportunidade de estar entre os finalistas da Taça Libertadores na derrota por 3 a 0 para o América do México, em pleno Maracanã. No Campeonato Brasileiro, ficou fora da luta pelo título após ser derrotado, também em casa, pelo Atlético Mineiro por outros 3 a 0. Porém, a oportunidade mais incrível dentre as desperdiçadas foi a de voltar à Libertadores. Em pleno Maracanã, após abrir 3 a 0 sobre o Goiás na penúltima rodada, o time rubro-negro permitiu o empate aos goianos. A vitória o teria deixado na terceira colocação, o empate o manteve em quinto. Na última rodada, derrota para o Atlético Paranaense em Curitiba e a possibilidade de disputar pela terceira vez consecutiva o torneio sul-americano naufragou. Por dois pontos, o Flamengo perdeu a última vaga para o Palmeiras, que também saiu derrotado na última rodada. Mas frente aos piores dias de sua história, entre 2002 e 2005, eram dados claros sinais de recuperação do clube.

Apesar das oportunidades incríveis desperdiçadas pela turma da Gávea, a temporada do Flamengo foi a melhor em muitos anos. Então bicampeão carioca, com seis títulos nas dez últimas competições disputadas até aí, o clube esboçava certa hegemonia no futebol carioca que só teve similar, em toda sua história, na virada dos anos 1970 para 80. Tendo terminado o Campeonato Brasileiro com um terceiro lugar em 2007 e com uma quinta colocação em 2008, o rubro-negro quebrou outro tabu, pois desde o biênio 1987/88 não conseguia terminar dois campeonatos consecutivos entre os seis primeiros colocados. No conjunto da temporada, das 66 partidas jogadas, venceu 38 (58%) e perdeu 15 (23%). Desde a temporada de 1984, não vencia mais do que 57% dos jogos disputados, e desde 1996 não perdia proporcionalmente tão pouco. Seus atacantes marcaram 126 gols no ano de 2008, o melhor desempenho em oito anos. O time terminou o Campeonato Brasileiro com o melhor ataque da competição e com a segunda melhor defesa. Deixou de ser campeão ao pecar em inconsistência e instabilidade. Após ter dado certa longevidade (dentro dos padrões brasileiros) para Ney Franco e Joel Santana no comando técnico da equipe, o Flamengo começou e terminou o campeonato nacional de 2008 com o mesmo treinador: Caio Júnior. Desde Carlinhos em 1999, um técnico não dirigia o time rubro-negro da primeira à última rodada do Brasileirão. As coisas estavam entrando nos eixos na Gávea. Mas um projeto de reconstrução jamais é linear, ainda mais depois de tão longo período sob tão intenso martírio.

Para o início da temporada de 2009, a base do time rubro-negro foi mantida, mas a coisa começou mal, o time acabou eliminado na semifinal da Taça Guanabara pelo modesto Resende em pleno Maracanã. Mas o grupo se recuperou e venceu o segundo turno, postulando-se para a final do Campeonato Carioca, na qual, novamente, Flamengo e Botafogo se encontravam para decidir, pelo terceiro ano consecutivo, quem levaria a taça.

Assim como em 2007, os treinadores Ney Franco e Cuca se encontravam, só que desta vez sob camisas opostas: agora Ney era o treinador botafoguense e Cuca, o flamenguista. Em 2007, as finais foram decididas nos pênaltis, após dois empates seguidos por 2 a 2. Em 2009, a história se repetiu, com os mesmos dois placares. No primeiro jogo, rubro-negros abriram o placar, os alvinegros viraram, mas um gol de Willians, a seis minutos do final, selou o empate. No segundo jogo, o primeiro tempo terminou 2 a 0, com gols de Kléberson, e parecia que a sorte estava selada e o tri assegurado. Mas o Botafogo empatou o jogo com menos de vinte minutos do segundo tempo. Novo empate por 2 a 2. Assim como em 2007, nas mãos do goleiro Bruno, que pegou três pênaltis, o título foi assegurado. Flamengo tricampeão carioca!!! Botafogo, trivice-campeão!!!

Motivado pela conquista do penta-tri, o Flamengo se encheu ainda mais de esperanças para a disputa do Campeonato Brasileiro de 2009 após acertar com o atacante Adriano, o Imperador. Mas os primeiros resultados no torneio não foram animadores, principalmente pelas derrotas por 4 a 2 para o Sport e por 5 a 0 para o Coritiba. O grupo se redimiu goleando o Internacional por 4 a 0 no Maracanã e escapou de vorazes críticas.

Durante o primeiro turno, sem conseguir manter uma consistência, o time rubro-negro oscilava entre a 6ª e a 11ª posições. Apesar de a defesa manter a estrutura dos anos anteriores, a falta de referência pela ausência do capitão Fábio Luciano, que se aposentou após o término do Carioca, era explícita. E, mesmo com um ataque forte de Emerson Sheik e Adriano, que vinham fazendo muitos gols, havia uma visível carência criativa no meio de campo. O time não conseguia se firmar e isto custou o emprego do técnico Cuca, substituído por Andrade.

A insegurança aumentou após a saída do atacante Emerson, que, seduzido pelos dólares do Oriente Médio, foi jogar no Qatar. O time sentiu de imediato, e seguiram-se três derrotas consecutivas, para Grêmio, Cruzeiro e Avaí, e o posicionamento na tabela caiu para a 14ª colocação, a pior do Flamengo até ali, treze pontos atrás do então líder Palmeiras.

A história rubro-negra naquele ano, entretanto, começou a mudar na 22ª rodada, passando por três personagens em especial, contratados ao fim do primeiro turno. O primeiro deles foi o zagueiro Álvaro, contratado ao Internacional, que chegava para tentar suprir a ausência de Fábio Luciano. O segundo foi o cabeça de área chileno Maldonado, ex-jogador de São Paulo, Cruzeiro e Santos, e que estava jogando no Fenerbahce, da Turquia. O terceiro foi o meia sérvio Petkovic, herói do quarto tricampeonato rubro-negro em 2001. O trio chegava para dar experiência ao grupo. O mais velho dos três era Petkovic, que voltava ao Flamengo aos 37 anos. A mídia esportiva foi unânime em levantar dúvidas sobre a aposta feita nele, já o davam como vencido para o futebol.

Nas dez rodadas seguintes, com sete vitórias e três empates, o clube saltou nove posições na tabela e chegou ao quinto lugar. Ao final da 31ª rodada, o líder do Brasileirão era o Palmeiras, com 54 pontos. Um ponto atrás estava o Atlético Mineiro, com 53, seguido por São Paulo e Internacional, ambos com 52. O Flamengo tinha 51. Quem vinha uma posição atrás era o Cruzeiro, em sexto lugar, com 48 pontos, e extremamente embalado, já que acumulava naquele momento uma série de nove vitórias em quatorze jogos, sequência que o alçou da 15ª posição, onde se encontrava na 17ª rodada, para o sexto lugar. A luta pelo troféu estava acirradíssima.

A campanha rubro-negra teve atuações memoráveis da dupla Petkovic e Adriano, que obtiveram resultados gloriosos, dentre os quais o mais reluzente foi a vitória por 2 a 0 sobre o então líder Palmeiras, dentro do Parque Antarctica, em São Paulo, com dois gols do meia sérvio, um dos quais tendo sido um gol olímpico. Uma rodada antes, os rubro-negros já haviam batido os são-paulinos, de virada, por 2 a 1 no Maracanã.

A sequência de bons resultados rubro-negros foi interrompida na 32ª rodada, quando o time foi derrotado por 2 a 0 pelo Barueri em São Paulo. Com a derrota, o time caiu para a sexta posição, não tendo sido poucos aqueles que afirmaram que o resultado tirava o clube da briga por uma vaga na Taça Libertadores do ano seguinte (os quatro primeiros garantiriam presença). O líder Palmeiras estava seis pontos à frente; o vice-líder, São Paulo, quatro. Mas na sequência ocorreram três vitórias rubro-negras para calar aos críticos. Na primeira, o time superou o Santos no Maracanã. Em seguida, mais uma atuação épica, contra o Atlético Mineiro, então terceiro colocado, com uma vitória por 3 a 1 em pleno Mineirão lotado, e com direito a novo gol olímpico de Petkovic.

A três rodadas do fim, o time sofreu importante baixa: Maldonado teve grave lesão no joelho durante uma partida amistosa entre Chile e Eslováquia e estaria fora do resto da temporada. Ele era considerado um dos principais responsáveis pela estabilidade conquistada pelo time. Haviam sido várias as perdas por lesão durante a campanha: Kléberson ficou fora do returno por uma luxação no ombro, Juan operou o joelho e ficou várias rodadas ausente, nas quais foi substituído pelo meia Everton. Este, por sua vez, fraturou o pé durante o returno, ficando fora do restante do campeonato. O zagueiro reserva David fraturou o osso da face. O titular da posição, Álvaro, também ficou algumas rodadas fora por causa de uma torção leve no joelho. Agora era Maldonado. Mas quem entrou sempre deu conta do recado. O substituto do cabeça de área chileno nas três últimas rodadas foi Toró.

A briga estava extremamente acirrada. O líder agora era o São Paulo, com 59 pontos, seguido por Palmeiras com 58, Flamengo com 57, Atlético Mineiro com 56, Cruzeiro com 54 e Internacional com 53. Na rodada seguinte, mais uma vitória fora de casa, sobre o Náutico, em Pernambuco, e o Flamengo então ultrapassou ao Palmeiras, assumindo a vice-liderança, dois pontos atrás do líder a três rodadas do término da competição. A chance de conquistar o sexto título brasileiro estava muito próxima, como jamais esteve antes.

A chance de alcançar a liderança veio na rodada seguinte. O Palmeiras perdeu para o Grêmio em Porto Alegre. No domingo, o São Paulo enfrentava o Botafogo às 17h no estádio do Engenhão, no Rio de Janeiro, e às 19h30, o Flamengo entrava em campo para enfrentar o Goiás no Maracanã. A situação fazia lembrar a disputa por uma vaga na final no Brasileiro de 1992, quando o Flamengo jogava contra o Santos no Maracanã, mas não bastava que vencesse, pois para ir à final precisava que o Vasco vencesse o São Paulo em São Januário. Os dois resultados se concretizaram e o time rubro-negro foi para a final contra o Botafogo, quando então conquistou seu quinto título nacional.

Desta vez, em 2009, os botafoguenses precisavam desesperadamente da vitória sobre os paulistas, ou entrariam na zona do rebaixamento. Assim, mais do que pelas cores da Gávea, eles lutavam por si próprios. E fizeram sua parte, vencendo por 3 a 2. Uma vitória no Maracanã e o vermelho e preto assumiria a liderança do campeonato a duas rodadas do fim.

A ansiedade era enorme. Eram dezessete anos sem a conquista de um título brasileiro. O Maracanã estava com sua lotação máxima de então: 80 mil espectadores, cujos ingressos tinham se esgotado com mais de uma semana de antecedência antes do jogo. Durante aqueles noventa minutos, a cidade parecia congelada. Olhos e ouvidos atentos a cada lance.

Aos 21 minutos do primeiro tempo foi marcada uma falta na entrada da área. Petkovic ajeitou a bola com carinho. A cobrança nem parecia ter saído de seus pés, mas ter sido feita com as mãos. O goleiro Harlei, estático, não teve reação, apenas acompanhou a trajetória da bola com o pescoço. Os corações rubro-negros, por alguns segundos, congelaram. A cada centímetro que a bola se aproximava da meta, os olhos iam se arregalando. A bola parecia ter destino certo: o ângulo direito da meta goiana. Mas ela teimou e não entrou, como se tivesse sido desviada por um sopro do Sobrenatural de Almeida. Triscou a trave e saiu. Naquele lance de segundos a história poderia ter sido escrita de forma muito diferente.

A partida transcorria e a ansiedade era cada vez maior. O time, em campo, mostrava-se afoito. A torcida, na arquibancada, exalava angústia. Pelos bares da cidade, milhões de pessoas viviam a expectativa de ver a rede balançando para colocar aquela nação dentro da nação na liderança do campeonato. Os goles de cerveja buscavam hidratar a secura na garganta pelo grito de gol que bradava por sair. Corações mais nervosos até evitavam assistir à transmissão, mas ficavam mais acelerados a cada vez que o barulho emanado das ruas, de dentro dos bares, indicava uma chance de gol. Só que ele não saiu.

O empate sem gols impediu que o Flamengo assumisse a liderança faltando apenas duas rodadas para o término da competição. O desafio seguinte seria enfrentar o Corinthians no estádio Brinco de Ouro da Princesa, em Campinas, para onde o encontro entre as duas maiores torcidas do Brasil foi transferido, a pedido da polícia militar de São Paulo, que tinha outro jogo decisivo para cuidar no mesmo horário, entre Palmeiras e Atlético Mineiro. Em Goiânia, o mesmo Goiás que quitara pontos rubro-negros teria pela frente o líder São Paulo, que tinha um ponto de vantagem. A penúltima rodada, no domingo seguinte, prometia fortíssimas emoções. Todos os jogos começariam no mesmo horário, com quatro clubes na luta direta pela glória.

Iniciada a partida, não tardou a vir a notícia de que havia saído o primeiro gol são-paulino no estádio Serra Dourada. As possibilidades rubro-negras naquele momento pareciam a caminho da ruína. Porém, alguns minutos depois veio o empate do Goiás. As chances ficaram grandes, quando Toró fez lançamento para Zé Roberto aos 26 minutos do primeiro tempo; este ganhou do zagueiro, penetrou a área e bateu cruzado à queima-roupa. O Flamengo abria o placar e, naquele momento, tornava-se líder do campeonato, já que levava vantagem sobre o tricolor paulista nos critérios de desempate. Antes ainda do fim do primeiro tempo, a equipe goiana virou o jogo. A vantagem na tabela se ampliava, mas só se sustentaria se o time rubro-negro vencesse o jogo. O primeiro tempo terminou e os primeiros 45 minutos da rodada faziam a torcida sonhar. No decorrer do segundo tempo, mais razões para comemorar, o Goiás fez 3 a 1 em Goiânia. Alguns minutos depois, nova apreensão: 3 a 2. Até que foi sacramentado o 4 a 2 definitivo. Leonardo Moura ainda fez um segundo gol rubro-negro já nos acréscimos. A uma rodada do fim do Brasileiro, o Flamengo, pela primeira vez na competição, assumia a liderança, e agora dependeria apenas de suas próprias forças para sacramentar o título. No domingo seguinte, o adversário era o Grêmio, no Maracanã.

A 37ª rodada terminou com o líder Flamengo com 64 pontos, seguido por um tríplice empate nos 62 pontos entre Internacional, Palmeiras e São Paulo. A turma da Gávea não podia cogitar empatar, pois estava em desvantagem em relação a Internacional e Palmeiras nos critérios de desempate.

A ansiedade daquele confronto de duas semanas antes frente ao Goiás voltaria a se repetir? O Maracanã, lotado, ficou ainda mais tenso e ansioso quando o Grêmio abriu o marcador, aos 21 minutos do primeiro tempo. O time do Flamengo jogava mal e de forma displicente. A torcida tentava empurrar, a equipe se jogava para o ataque. Oito minutos depois do gol gremista, o zagueiro David, que substituía Álvaro, suspenso por ter tomado o terceiro cartão amarelo no jogo anterior, aproveitou bate-rebate na área e empatou o jogo. Mas o resultado ainda não era suficiente porque Internacional e São Paulo goleavam em seus jogos. Só a vitória faria o troféu ir parar na Gávea. Até que, aos 26 minutos do segundo tempo, Petkovic cobrou escanteio e o zagueiro Ronaldo Angelim subiu mais do que todos e testou para as redes: 2 a 1. Mengão hexacampeão!!!!!!

O futebol do clube voltou a bater marcas: nunca em sua história o rubro-negro carioca havia terminado três Campeonatos Brasileiros consecutivos entre os três primeiros colocados. De quebra, voltou a ter o artilheiro da competição, Adriano, com dezenove gols (desde 1982 o artilheiro máximo do Brasil não era rubro-negro). Outra marca histórica: pela primeira vez ganhou um título estadual e um nacional no mesmo ano. Tanto nos anos das outras cinco conquistas de Brasileiro, quanto nos dois anos de conquista de Copa do Brasil, e até na de Rio–São Paulo, o Flamengo não havia faturado o título carioca.

Campeão da Copa do Brasil em 2006. Campeão carioca em 2007. Bicampeão carioca em 2008. Tricampeão carioca em 2009. Campeão brasileiro em 2009. Cinco títulos em quatro anos, dias de intensas comemorações. Só em sua Era de Ouro, entre 1978 e 1983, o clube havia vencido mais troféus em período similar. E as alegrias não eram só no futebol. Bicampeão brasileiro de basquete em 2008 e 2009. Campeão sul-americano de basquete em 2009. Apesar dos muitos problemas que ainda cercavam a Gávea, os dias de martírio pareciam ser coisa do passado.

O título nacional conquistado naquele Maracanã lotado tinha um sabor ainda mais especial pelas circunstâncias históricas em torno do Rio de Janeiro. Só para citar um exemplo, é válido resgatar um artigo assinado por Humberto Perón, colunista da Folha de S. Paulo, alguns meses antes do título, em 8 de setembro de 2009: “O futebol carioca parou no tempo”. No primeiro parágrafo, o autor colocava: “Não dá para esconder a decadência do futebol carioca. Atualmente, os quatro grandes times do Rio de Janeiro vivem em péssimas situações. O Flamengo, o melhor time do estado no Campeonato Brasileiro, não tem a mínima chance de conquistar o título ou uma vaga na Taça Libertadores”. Os argumentos do autor eram: um futebol praticado em ritmo cadenciado e sem força física, atrasado em relação a outros centros em termo de preparação física, com estilo preguiçoso, que treina pouco e dá regalias a jogadores.

A máxima que dimensiona o tamanho da conquista rubro-negra também está no texto de Perón: “Os times cariocas continuam parados no tempo porque só ganham campeonatos jogados no mata-mata”. O campeonato nacional no formato de pontos corridos só passou a ser disputado a partir de 2003, em pleno ápice da decadência econômica e social do Rio de Janeiro. Antes, a fase final era jogada em play-offs (mata-mata). A primeira edição foi vencida pelo Cruzeiro, mas a partir de 2004 só deu título paulista. Os times de São Paulo conquistaram cinco edições consecutivas. Tendo a cidade a maior concentração de renda do país, e estando o futebol imerso numa conjuntura em que cada vez mais o poder do capital, do marketing e do financiamento empresarial dominava o cenário, não parecia haver equipe capaz de romper esta hegemonia. A sentença foi decretada pela imprensa esportiva: só seria campeão em pontos corridos quem tivesse infraestrutura e organização, por isso, títulos de times do Rio estavam fora de cogitação nesta conjuntura. Esperava-se uma hegemonia absoluta e duradoura dos paulistas. Desta sentença, nasceu o mito: se sempre houvesse sido em pontos corridos, as equipes cariocas jamais teriam os títulos outrora conquistados. Este troféu, mais do que qualquer outro na história deste arrebatador de multidões, teve uma importância diferenciada. Era questão de honra ser campeão também no formato por pontos corridos!

Como outrora, mais uma vez bradava-se que o sucesso estaria restrito a um grupo fechado entre aqueles com maior poder e recursos financeiros. Coube novamente à força e à bravura dos flamenguistas a derrubada desta prepotência e arrogância. Brasil afora, em silêncio, de novo ecoava o pensamento: certas coisas só o Flamengo fazia ou era capaz de fazer.

Da mesma forma que em outros tempos, foi a força da gente que apaixonadamente o acompanhou que viabilizou os caminhos para uma nova reconstrução das vigas de sustentação da grandeza rubro-negra, uma marca de seus cem anos de multidão. Como sempre, foi necessário um planejamento adequado e talento sob suas cores dentro das quatro linhas, mas o que sempre fez, de fato, a diferença, foi a grandeza daquela multidão que atravessou gerações compartilhando uma mesma paixão.

Mais uma vez, como já havia acontecido no passado, tinha-se a impressão de que o Flamengo ficaria para trás. O São Paulo era o clube mais rico do Brasil, o Cruzeiro tinha a melhor infraestrutura de treinamento, o Corinthians foi dono da maior parceria da história do futebol brasileiro, o Internacional foi o primeiro a equilibrar suas contas e conseguir ter um fluxo de caixa positivo, o Santos tinha até clínica própria para tratar seus jogadores lesionados. Enquanto isso, o Flamengo seguia com os pés enfiados no lodaçal da crise econômica e social do Rio de Janeiro, sem estádio, carente de infraestrutura física e muito endividado. Entretanto, seu maior ativo jamais se deprecia ou se desvaloriza com o tempo: a força da multidão. E essa, o rubro-negro tinha a seu lado. E com um diferencial em relação aos demais: em escala verdadeiramente nacional e não apenas regional. Quem tem a multidão a seu lado, tem tudo.

Todas as pesquisas de opinião feitas desde o começo dos anos 70, quando a revista Placar pela primeira vez encomendou uma, confirmam o mesmo. Enquetes realizadas pelos mais distintos institutos de pesquisas, encomendadas pelas mais diferentes frentes e realizadas com amostragens distintas dizem o mesmo: a maior paixão do Brasil é o Flamengo, que tem a maior quantidade de torcedores em todas as faixas de idade pesquisadas. O rubro-negro tem, de longe, as maiores torcidas no Rio de Janeiro e em Brasília, tem a quinta maior torcida da cidade de São Paulo (atrás dos locais Corinthians, São Paulo, Palmeiras e Santos), a terceira maior na cidade de Belo Horizonte (atrás dos locais Atlético Mineiro e Cruzeiro) e a terceira maior na cidade de Porto Alegre (atrás dos locais Grêmio e Internacional). Uma verdadeira e autêntica paixão nacional, alimentada pelo espírito de heróis que solidificaram o vermelho e o preto no coração das multidões. E foi isto o que reergueu o Flamengo. Como em outras vezes em sua história também aconteceu. Como na canção antiga composta para o samba que “agoniza, mas não morre”, assim também se pode dizer para o vermelho e o preto. Sua força está na massa que o faz diferente de todo e qualquer outro.





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segunda-feira, 4 de julho de 2022

A NAÇÃO (1ª edição) - Capítulo XI: Heróis da nação multidão


A NAÇÃO

Como e por que o Flamengo se tornou

o clube com a maior torcida do Brasil



Capítulo XI – Heróis da nação multidão


O Flamengo de todos os tempos, o vermelho e o preto dos sonhos, merecia ser transcrito numa mesa de bar, num encontro informal reunindo arquibancadas do além e de hoje. Numa mesa em cuja cabeceira seria exigida a presença ilustre de Mário Filho, o pai das multidões. Não poderiam faltar as presenças de Ary Barroso e José Lins do Rego para narrar as glórias de outrora e as por eles assistidas depois, em assentos especiais acima do azul celestial. A eles deveriam se juntar rubro-negros de outros tempos, cuja paixão fez pulsar o espírito e a imaginação de uma nação sem pátria e sem estado, desgovernada como a alma que solidificou as raízes rubro-negras num passado distante, mas unida num gigante sonho intenso de amor e de esperança. Que se sentem a esta mesa Wilson Batista, Jorge de Castro, Roberto Silva, Jorge Ben Jor e João Nogueira; e que, em seguida, se juntem Ruy Castro – autor de O vermelho e o negro – e Roberto Assaf – um dos autores de Almanaque do Flamengo. Daí para a frente, que outros flamenguistas ilustres fossem chegando para se sentar, para reviver o eterno espírito do Café Rio Branco.

A conversa talvez pudesse confundir outras multidões, afinal teria que misturar o papo de gente que viu futebol sem tática a outros que viram a força muscular do preparo físico fielmente seguidor de um padrão tático de jogo. Com certeza, entretanto, não confundiria aos flamenguistas. Estes falaram por décadas o linguajar das multidões, que se faz entender através do tempo, ignorando as distinções entre o tradicional e o moderno, fazendo de tudo um só, como uma massa única dentro da qual o homem perde qualquer sentimento de sua própria identidade e torna-se multidão. Tudo em torno a uma tradição de amor e paixão por uma combinação de cores, por um estandarte.

Ao encontro não poderia faltar muito debate, pois com certeza haveria muitas convicções distintas de qual teria sido a melhor era, os maiores dias, o melhor jogo, os maiores craques, os melhores tempos. Seriam citados nomes de jogadores de futebol que receberam tratamento sentimental semelhante ao de reis, príncipes e heróis clássicos. Muito se argumentaria de qual sistema foi o mais vitorioso, o mais vistoso.

As posições em campo mesmo gerariam controvérsias. Bom, com certeza, teriam sido aqueles dias em que só havia uns responsáveis por proteger o sistema defensivo e outros por atacar a meta adversária, como num jogo inocente de garotos que começam a aprender a jogar futebol. Assim eram os dias na era amadora, em que cada time tinha defensores e atacantes, e só.

Até que da Europa chegou o sistema de jogo WM, em alusão à posição dos homens pelo campo. A letra W formava o sistema defensivo. As duas bases da letra eram os beques, protetores do goleiro e da área. À sua frente, um sistema de contenção com os três vértices superiores do W; dois laterais protegendo as investidas dos pontas adversários e um cabeça de área, que tentava diminuir a exposição dos zagueiros. O M era o sistema de ataque: dois pontas bem abertos e um ponta de lança, os três municiando os dois jogadores de área, que jogavam enfiados na defesa adversária. Esta distribuição no campo de futebol durou pelos anos 30 e 40.

Nos anos 50, o sistema de jogo migrou para o 4-2-4 (revolução apresentada pela seleção brasileira ao mundo na Copa de 1958). Os dois laterais recuaram para fechar a defesa junto a dois zagueiros centrais. O ponta de lança recuou para o meio do campo, equilibrando junto a um único cabeça de área a função de ligação entre defesa e ataque. Na frente, quatro homens: dois pontas bem abertos, um pela direita e outro pela esquerda, e dois centroavantes, um dos quais, vez por outra, saindo mais da área para ajudar o ponta de lança.

Só na virada dos anos 60 para 70, a distribuição mudou novamente, passando a um 4-3-3, no qual efetivamente o meio de campo tinha um cabeça de área na contenção e dois meias-armadores para munir ao ataque. Mais duas décadas e o 4-3-3 mudava para 4-4-2, na virada dos 1980 para os 1990. Acabavam-se os pontas e reforçava-se a marcação. O meio de campo ganhava ainda mais importância num time de futebol.

Mas daí já vinham outras variâncias e o sistema tático passou a ficar tão ou mais destacado do que o talento dos jogadores que o executavam dentro das quatro linhas. Um time podia se organizar em 3-4-3, com três zagueiros centrais e os laterais avançando para a função de alas, com menos responsabilidade de marcação. Ou então em um esquema 3-5-2, menos voltado para o ataque. Daí teve treinador criando 3-6-1, 4-3-1-2, 4-1-4-1, e toda uma saraivada de numerologias para explicar como suas peças seriam distribuídas pelo tabuleiro gramado dos estádios. Mas mesmo diante de tanta variância, a mesa imaginária de rubro-negros conseguiria construir consensos em torno das maiores figuras a trajarem o vermelho e o preto.


Maiores goleiros

O primeiro grande arqueiro da história rubro-negra foi Kuntz, titular do Flamengo e da seleção brasileira entre 1920 e 1922. Depois dele, o grande nome a defender os postes nos treinos na rua Paissandu foi Amado, goleiro rubro-negro titular entre 1923 e 1930, depois reserva entre 1931 e 1934.

Daí para a frente, na era profissional, destacaram-se como titulares do gol rubro-negro: Yustrich (1937/41), Jurandir (1942/45), Luís Borracha (1946/49), o paraguaio Garcia (1950/54) e o argentino Chamorro (1955/56). Entre o final dos anos 50 e o início dos 70, nomes como Ari, Fernando, Mauro, Marcial, Valdomiro, Franz, Marco Aurélio, o argentino Dominguez, Sidnei, Adão, Ubirajara Alcântara e Ubirajara Motta vestiram a camisa número um do rubro-negro.

Foi então que o Flamengo voltou a ter um goleiro na seleção brasileira: Renato, titular entre 1972 e 1974. Em seguida, a titularidade foi de Cantarelli, entre 1975 e 1978, que ficou na Gávea até 1989, quando se aposentou, tendo sido o goleiro a vestir rubro-negro mais vezes na história do clube. De 1978 a 1983, o grande defensor da meta rubro-negra foi Raul. Entre 1984 e 1985, a camisa um foi do argentino Fillol. Depois recaiu sobre outro goleiro de seleção brasileira: Zé Carlos, titular de 1986 a 1990.

De 1991 a 1994, o dono da posição foi Gilmar. Com a saída deste, entre 1995 e 1997, houve uma grande sucessão de nomes: Roger, Emerson, Adriano, Sérgio, Paulo César e novamente Zé Carlos passaram por lá. A posição voltou a ter um titular absoluto nas mãos de Clemer, entre 1997 e 2000. Seu sucessor foi Júlio César, arqueiro e ídolo da torcida entre 2001 e 2004. Em seguida, Diego foi titular por um ano e meio, até ser barrado por Bruno, que ficou um longo período defendendo o gol rubro-negro.

Entre tantos grandes nomes, quem a mesa no bar rubro-negro teria escolhido como o maior da história do clube?


Maiores zagueiros

O grande defensor da história rubro-negra foi Domingos da Guia, dono absoluto da área do Flamengo entre 1936 e 1943. Seu grande companheiro de zaga foi Nilton Canegal, titular entre 1941 e 1949. Esta era a dupla de zaga do primeiro tri: clássica, fria, com toque de bola refinado e elegância.

Depois deles, era difícil manter o mesmo nível. Norival e Juvenal atuaram muitos anos tentando repetir este padrão. Até que ali chegou Pavão, beque de força e presença física, titular absoluto entre 1951 e 1957. Ao seu lado jogou Jadir.

Em seguida, defenderam a retaguarda vermelha e preta nomes como Joubert, Milton Copolillo e Bolero. Na década de 1960, os donos do pedaço central da defesa foram Ananias e Luís Carlos Freitas, titulares entre 1963 e 1964. Em seguida, as duplas que mais resistiram ao teste do tempo foram: Jaime e Ditão (1965/67), Onça e Manicera (1968/69), Washington e Reyes (1970/72), Chiquinho Pastor e Reyes (1973), Luís Carlos e Jaime (1974/75) e Dequinha e Rondinelli (1977/78).

O Deus da Raça, Rondinelli, viveu o auge de sua virilidade defensiva entre 1978 e 1979, quando formou a dupla de zaga com a intimidante figura de Manguito. Na clássica mesa de rubro-negros ilustres, certamente a voz de Jorge Ben Jor exaltaria: “Ai que saudades de Manguito e Rondinelli”, a dupla de zaga do terceiro tri.

Maior, provavelmente, seria a saudade dos zagueiros daquele time que ganhou tudo que se podia imaginar entre 1980 e 1983: Marinho e Mozer, alternando-se com Figueiredo. As zagas seguintes, depois que Leandro trocou a posição de lateral-direito pela de zagueiro central, também foram para deixar saudade. Primeiro com Leandro e Mozer, entre 1984 e 1985, depois Leandro e Aldair, em 1986, e por fim, Leandro e Edinho, em 1987.

Depois disso, passaram por lá: Zé Carlos Segundo, Márcio Rossini, Fernando, André Cruz, Vítor Hugo e Adílson. Mas só mesmo a dupla Wilson Gottardo e Júnior Baiano teve a estabilidade apresentada por outras de outrora. Em seguida, passaram pela Gávea: Jorge Luís, Válber, Cláudio e Ronaldão. Houve esperanças na jovem dupla Juan e Luiz Alberto. Os já veteranos Ricardo Rocha e Célio Silva também se meteram por seis meses cada. Ainda jogou por ali Fabão. Até que o Flamengo voltou a ter uma dupla de zaga clássica com Juan e Gamarra. A dupla do quarto tri.

Daí para a frente: André Bahia, Fernando, André Dias, Henrique, novamente Júnior Baiano, Fabiano, Renato Silva e Irineu. E muito pouca segurança no sistema defensivo. Esta só voltou com a dupla Fábio Luciano e Ronaldo Angelim. A dupla do quinto tri.

Falar de zagueiro, na roda rubro-negra, certamente dá margem a muitas críticas e angústias. Mas sem dúvida emergiriam nomes de consenso.


Maiores laterais

E pelas laterais? A posição praticamente só surgiu no futebol nos anos 40, e a dupla a cumprir a função no Flamengo era considerada nesta época a melhor da América do Sul: Biguá pela direita e Jayme de Almeida pela esquerda.

Nos anos 50, estiveram Leone, Marinho e Tomires pelo lado direito e Jordan pelo lado esquerdo. Na década seguinte, a função estava a cargo de Murilo na direita e Paulo Henrique na esquerda. O primeiro foi titular rubro-negro de 1963 a 1971, e o segundo, de 1963 a 1970.

Nos anos 70, a lateral-direita teve uma variação maior de nomes. Pelo lado direito passaram Aloísio, Moreira, Júnior, Sérgio Ramirez e Toninho Baiano. Este último, titular da seleção brasileira na Copa de 1978, foi o nome absoluto do Flamengo nessa posição entre 1976 e 1979. Do lado esquerdo, teve Rodrigues Neto entre 1972 e 1975 e, em seguida, Júnior, titular absoluto da posição de 1976 a 1984.

No início dos anos 80, um dos maiores segredos do maior time rubro-negro de todos os tempos estava exatamente nas laterais, com Leandro pela direita e Júnior pela esquerda. Sem dúvida os maiores na posição na história do clube e seguramente entre os maiores na história do Brasil, titulares absolutos na seleção brasileira que disputou a Copa de 1982.

Seus sucessores também ocuparam a posição mantendo o carimbo tipo seleção brasileira: Jorginho na lateral direita e Leonardo na lateral-esquerda. Depois deles, a posição penou muito para encontrar nomes à altura. Pelo lado direito passaram peças como Charles Guerreiro, Fabinho, Henrique, Rivera e Fábio Baiano. A maioria deles improvisados na função. Quem durou mais tempo foi Pimentel, titular entre 1998 e 1999. Depois, mais revezamento, com: Maurinho, Alessandro, Reginaldo Araújo, Luciano Baiano, Rafael, China e Ricardo Lopes, até a chegada de Leonardo Moura, em 2005, para interromper o período sucessório e se firmar como titular absoluto por um longo período.

Pelo lado esquerdo, após a saída de Leonardo, por lá jogaram: Dida, Piá, Marcos Adriano, Branco (já veterano), Lira, Leonardo Inácio, Zé Roberto, Gilberto e Athirson. Este último ganhou uma acirrada disputa com Gilberto e conseguiu manter sua titularidade na posição por um período mais longo, entre 1997 e 2000. Depois dele, vieram Cássio, Anderson, Roger (jogador que em 2008 se naturalizou polonês e disputou a Eurocopa daquele ano pela seleção da Polônia) e André Santos. Até que chegou Juan, em 2006, para se tornar o dono do pedaço. Foi com Leonardo Moura e Juan, entre 2006 e 2010, que o rubro-negro voltou a ter uma dupla de padrão verde e amarelo.


Maiores meias de contenção

A posição de contenção também não é das mais gloriosas num jogo de futebol. É comumente chamada de carregador de piano. Assim como no caso dos zagueiros, certamente geraria muito debate e discordâncias na mesa dos ilustres rubro-negros de todos os tempos.

Voltando aos primórdios do futebol rubro-negro, os primeiros a se destacar de forma mais contundente na cabeça de área foram dois estrangeiros, o argentino Volante (1938-1942) e o paraguaio Modesto Bria (1943-1953). Em seguida veio Dequinha, titular de 1954 a 1959, depois Carlinhos, nos anos 60. Entre 1969 e 1975, o dono da cabeça da área foi o voluntarioso Liminha.

Depois passaram Merica e Tadeu, até a posição repousar por longo período sobre a titularidade de Carpegiani. Mas, como quem não quer nada, chegou um garoto das divisões de base que, de mansinho, conquistou seu espaço, mantendo-se não só como titular absoluto entre 1981 e 1988, como reunindo todas as características juntas que os clássicos nomes daquela posição no clube até ali tinham carregado. Andrade era a encarnação de Volante, Bria, Dequinha, Carlinhos, Liminha e Carpegiani, todos em um só. Nunca mais surgiria no Flamengo um cabeça de área como aquele: eficiente, refinado, inteligente, aguerrido e elegante.

Felizmente para a torcida, no início dos anos 90, o ex-lateral esquerdo e ex-zagueiro Júnior resolveu tornar-se cabeça de área, e, ao exercer a função, o fez com a mesma autoridade de seu companheiro do time da Era de Ouro do clube.

Ademais, passaram pela função: Ailton, Delacir, Uidemar, Fabinho, Marquinhos, o argentino Mancuso, Márcio Costa, Pingo, Jamir e Bruno Quadros. À altura dos maiores da história rubro-negra esteve Marcos Assunção, em 1998, mas sua passagem pela Gávea foi lamentavelmente curta, de apenas um ano. Quem conseguiu recuperar parte da grandeza do passado que a função teve sob o manto vermelho e preto foi Leandro Ávila, titular entre 1999 e 2001, na conquista do quarto tri.

Foram titulares do Flamengo a partir daí: Jorginho (não aquele da lateral-direita), Rocha, Mozart, André Gomes, Da Silva, Douglas Silva, Ibson, Jônatas, Augusto Recife, Léo, Paulinho, Léo Medeiros, Clayton, Jailton, Cristian, Airton e Willians.


Maiores meias de armação

Falar em armador na história rubro-negra é gerar uma associação imediata à camisa de número dez. E não há como fugir da comparação com o maior da Gávea: Zico.

Mas a função tem uma tradição e uma história muito mais antigas dentro do clube, e que não nos levam necessariamente a um único armador. Basta fazer alusão ao grande parceiro do Galinho de Quintino nos anos dourados do vermelho e do preto, que vestia a camiseta de número oito: Adílio.

O primeiro grande meia-armador a vestir esta camisa foi Zizinho, entre 1940 e 1950. Depois dele vieram Tião, Neca, Adãozinho e Hermes, até o surgimento de Rubens, que atuou entre 1954 e 1955. A função teve padrão de seleção brasileira no final dos anos 50, com Moacir, entre 1957 e 1960. Tinha ele a companhia, para reger o meio de campo, do ídolo da torcida Dida, o craque do time entre 1957 e 1963. No início dos anos 60, o time rubro-negro tinha uma grande dupla de armação, com Nelsinho e Gérson. Depois vieram Fefeu, Nélson, Américo e Amorim.

No início dos anos 70, Zanata foi uma espécie de antecessor de Adílio. A seu lado, na armação, jogaram Samarone, Rogério, Zé Mário e Afonsinho. Ninguém à altura da dupla que vinha chegando das categorias de base: Geraldo e Zico.

Depois houve o trágico falecimento de Geraldo, e por ali passaram Tadeu e Carpegiani, ambos que muitas vezes também faziam o papel de contenção. Até que surgiu Adílio, que, ao lado de Zico, foi o dono do meio de campo rubro-negro por muitos anos.

Depois da saída da maior dupla de meio-campistas da história do Flamengo, jogaram ali Sócrates, Gilmar Popoca, Valtinho, Zé Ricardo, Renato Carioca, Djalminha, Marco Antônio Boiadeiro, Nélio, Djair, Iranildo, Evandro, Rodrigo Mendes e Beto. À altura da camisa dez, depois disto, só esteve o sérvio Dejan Petkovic. Um craque e autêntico meia-armador e camisa dez, um verdadeiro regente do meio de campo. Ele a vestiu primeiro entre 2000 e 2001, depois voltou em 2009.

Depois a função passou por Juninho Paulista, pelo ex-lateral-esquerdo Leonardo, que voltou ao clube em 2002 para encerrar a carreira, e pelo jovem Felipe Melo. Encontrou um novo dono à altura de sua tradição no Flamengo em Felipe, ex-jogador do Vasco, que exerceu com brilhantismo a função, destacando-se, entre 2004 e 2005, por sua técnica refinada. Depois, entre 2006 e 2007, a função foi de Renato Abreu. A seu lado estiveram presentes na armação Felipe Gabriel, Vinícius Pacheco, Diego Souza e Renato Augusto.

Em seguida, depois da saída de Renato para o futebol árabe, a armação de jogo do time rubro-negro passou por Toró, Kléberson e Marcinho, nenhum deles exercendo exclusivamente esta função, os dois primeiros cumprindo um papel mais de terceiros cabeças de área e o último com uma inclinação mais ofensiva, mais para atacante que para meia de armação.


Maiores atacantes

Os grandes goleadores da história do Clube de Regatas do Flamengo sempre tiveram, como não poderia deixar de ser, laços com a massa muito próximos a sentimentos tão antagônicos como o amor e o ódio. Afinal eles são os responsáveis por aquilo que diferencia a vitória da derrota: o gol. Os que mais fizeram gols foram reverenciados. Os que perderam gols incríveis foram perseguidos. Muitos dos exaltados acabaram perseguidos posteriormente. Alguns dos odiados depois conseguiram ser amados.

Para encontrar o primeiro grande goleador rubro-negro é preciso voltar a um passado distante, nos primórdios do futebol do clube, quando o centroavante Riemer foi artilheiro da equipe por três temporadas consecutivas, entre 1914 e 1916. Mas o primeiro grande ídolo dos flamenguistas, entretanto, foi Nonô, artilheiro do time por cinco anos consecutivos, entre 1921 e 1925. Não menos importante era o vice-artilheiro destas temporadas, Junqueira.

Muitos goleadores vestiram vermelho e preto antes da chegada daquele que veio a representar novamente um ícone dentro do Flamengo. Balançaram muitas vezes as redes adversárias: Fragoso, Angenor, Vicentino, Rolinha, Nélson e Alfredo. Aí chegou Leônidas da Silva. Ele foi o artilheiro rubro-negro por quatro temporadas consecutivas.

Em seguida, apareceu Pirilo, artilheiro por seis temporadas entre 1941 e 1947, só deixando de ser o principal goleador do time em 1946, quando foi superado por seu companheiro de ataque: Perácio. Na geração anterior a capitanear o comando de ataque rubro-negro, eram alguns argentinos os que faziam muitos gols, como Alfredo González, Agustín Cosso e Valido. Já na geração seguinte de atacantes destacaram- se: Jair da Rosa Pinto, Tião, Durval, Lero, Hermes e Neca. Uma dupla de ataque que marcou época foi Índio e Benítez. Logo em seguida, chegou também Evaristo. Depois teve ainda Paulinho, Henrique, Paulo Alves, Airton e Amauri.

Isto sem citar os pontas, que marcaram época no ataque do Flamengo. O primeiro grande ponta-direita a passar pelo clube foi Joel, titular absoluto entre 1951 e 1962. Depois dele, atuaram pela direita do ataque: Espanhol, Carlos Alberto, Gildo, Arílson, Paulinho Carioca e Reinaldo, até chegar a Tita. O último grande ponta-direita ao estilo clássico foi Renato Gaúcho.

O primeiro grande ponta-esquerda foi Jarbas, que chegara à seleção brasileira vestindo a camisa do modesto Carioca, do Jardim Botânico. Contratado pelo Flamengo, foi titular entre 1933 e 1940, sendo sucedido por Vevé, dono da posição entre 1941 e 1948. Em seguida apareceram Esquerdinha, titular entre 1949 e 1953, Zagallo, de 1954 a 1959, e Babá, de 1958 a 1961. Depois desta longa tradição de grandes pontas-esquerdas, passaram por lá: Germano, Miranda, Osvaldo, Osvaldo Ponte-Aérea, Rodrigues, João Daniel e Caldeira. Nos anos 70, a posição foi de Paulo César Caju, Édson, Luís Paulo e Carlos Henrique. Mais tarde, vieram Júlio César, Lico, João Paulo e Marquinho. O último ponta-esquerda foi Zinho, que já foi responsável pela transição da função para a posição de “quarto homem de meio de campo”.

Voltando aos grandes goleadores, nos anos 60 o comando de ataque teve Silva, Almir Pernambuquinho, Ademar Pantera, Fio, César Lemos, Dionísio, Bianchini, Doval e Caio. Depois vieram Luisinho Lemos, Cláudio Adão e Reinaldo. Até que se chegou a Nunes. Em seguida, passaram pela camisa nove: Baltazar, Edmar, Chiquinho, Vinícius e Kita.

A tradição de grandes goleadores seguiu com Bebeto, artilheiro da equipe por cinco temporadas consecutivas, entre 1985 e 1989; e depois com Gaúcho, artilheiro nas temporadas de 1990 e 1991. Antes da chegada de um novo homem-gol a marcar época, o ataque rubro-negro teve Nilson, Paulo Nunes, Marcelinho, Casagrande, Valdeir e Charles Baiano. Em 1995, chegou o dono da área: Romário, artilheiro do time por cinco temporadas consecutivas, entre 1995 e 1999. A seu lado, passaram nomes como Sávio, Edmundo, Lúcio, Rodrigo Fabbri, Leandro Machado e Caio.

Após a saída de Romário, o time teve Reinaldo, Tuta e Denílson no ataque. Só reencontrou a figura de um artilheiro em Edílson, e, brevemente, em Liédson. Demorou muito até surgir um novo grande goleador no Flamengo. Nos anos subsequentes, passaram pelo ataque rubro-negro: Roma, Andrezinho, Fernando Baiano, Zé Carlos, Dimba, Jean, Diogo, Flávio, Negreiros, Whelliton, Emerson Geninho, César Ramirez, Luisão, Obina, Roni e Souza.

Foram tempos escassos para a camisa 9. Entre 1940 e 2001, somente em cinco anos o artilheiro do Flamengo na temporada fez menos do que vinte gols no ano. Entre 2002 e 2007, foram seis anos consecutivos em que nenhuma vez o goleador do time na temporada conseguiu fazer mais do que vinte gols. O ataque rubro-negro voltou a estar bem servido em 2009, com a dupla Emerson Sheik e Adriano.


Estrangeiros de vermelho e preto

Os jogadores estrangeiros tiveram um papel especial na história do Flamengo. Os primeiros a vestir o manto o fizeram ainda na época amadora, e foram três europeus, um dos quais jogador do Fluminense, que só participou de uma excursão no Norte e Nordeste pelo rubro-negro. Foram eles: Sidney Pullen, Eustace Pullen e Welfare. O que mais se destacou foi o primeiro, que jogou no clube por onze anos, de 1915 a 1925, atuou 116 vezes com a camisa rubro-negra e fez quarenta gols. Foi, inclusive, o artilheiro do Flamengo na temporada de 1919.

Nos primeiros dias do campo da Gávea, outros dois europeus vestiram rubro-negro: o centroavante alemão Fritz Engel, e o goleiro espanhol Talladas. A partir de então, o clube teve uma leva de argentinos. Entre 1937 e 1944, quatorze jogadores vindos da Argentina passaram pelo clube: Villa, Arcádio López, Agustín Cosso, Valido, Alfredo González, Volante, Providente, Orsi, Naon, Julio Castillo, Reuben, Coletta, Sanz e De Teran. Valido fez 44 gols pelo Flamengo, Volante jogou 150 vezes com a camisa rubro-negra, González balançou as redes 32 vezes e Cosso fez vinte gols.

Depois veio o tempo dos paraguaios: Modesto Bria, Garcia e Benítez. Bria vestiu vermelho e preto por 360 jogos, e o goleiro Garcia por 261 vezes. Benítez fez 74 gols pelo clube. E fazendo sombra ao goleiro paraguaio, havia outro estrangeiro nestes tempos, o argentino Chamorro.

Daí para a frente, a presença de estrangeiros diminuiu um pouco. Em 1960, passou pelo clube o zagueiro paraguaio Monin. Depois, Espanhol foi mais um jogador europeu a vestir a camisa rubro-negra, fato que pouco depois se repetiu com o centroavante da Hungria, Albert, que jogou dois jogos amistosos pelo Flamengo. Nos anos 60, atuaram ainda o goleiro argentino Dominguez, ex-titular do Real Madrid, e dois jogadores do Uruguai: Mendoza e Manicera.

No início dos anos 70, houve a primeira experiência com um jogador africano: Carlos Jorge, ponta-esquerda oriundo de Moçambique, que jogou só duas partidas enquanto esteve na Gávea. A experiência se repetiu 34 anos depois com o atacante Aluspha Brewa, nascido em Serra Leoa. Porém, este sequer chegou a entrar em campo nos seis meses em que passou treinando no Flamengo.

Símbolos da presença estrangeira nos anos 70 foram o zagueiro paraguaio Francisco Reyes e o atacante argentino Narciso Doval, que marcaram época no clube. Nestes tempos, também passaram pela Gávea, mas sem fazer o mesmo sucesso, o argentino Paolino e o uruguaio Sérgio Ramirez.

Com o sucesso explosivo de Zico e Cia, a presença de estrangeiros a partir daí caiu muito. O goleiro da seleção Argentina nas Copas de 1978 e 1982, Ubaldo Fillol, esteve no clube entre 1984 e 1985. Depois teve a passagem do zagueiro uruguaio Dario Pereyra, em 1988, e do atacante argentino Borghi, em 1989.

A passagem seguinte de um estrangeiro foi à base de muita raça, do cabeça de área argentino Alejandro Mancuso, em 1996 e 1997. Em seguida, chegou um lateral nascido no Equador, Rivera, e houve uma passagem-relâmpago do zagueiro paraguaio Juan Daniel Cáceres.

A vez seguinte foi de dois europeus, reforços para o meio de campo: primeiro o polonês Marius Piekarski, que em 1997 entrou em campo treze vezes com a camisa vermelha e preta, e depois o sérvio Petkovic, que em 2000 e 2001, jogou 83 vezes e marcou 36 gols pelo Flamengo. Ao lado de Pet, no time tricampeão carioca, estava o zagueiro paraguaio Gamarra, que atuou em trinta partidas com a camisa do clube.

Daí para a frente, casos mais remotos de sucesso: o atacante paraguaio César Ramirez, o meia-atacante uruguaio Horacio Peralta, o atacante argentino Maxi Biancucchi, dois cabeças de área que praticamente não jogaram – o argentino Hugo Colace e o paraguaio Gavilán –, o meia argentino Sambueza e o chileno Gonzalo Fierro.

Dá para montar uma bela seleção só com os jogadores estrangeiros que passaram pelo Flamengo: Garcia (Fillol), Sergio Ramirez, Reyes, Gamarra e Manicera; Volante, Modesto Bria e Petkovic; Valido (Espanhol), Doval e Benítez. Seria um timaço!


Os maiores da História

Para formar os onze do Flamengo de todos os tempos, alguém na mesa deu a ideia de puxar pela memória aqueles que a cada década tinham sustentado por mais tempo a posição de titular ou que, ainda que em passagens curtas, tivessem dado uma qualidade diferenciada a ponto de justificar sua presença entre os Onze da Década.

Que se começasse por uma seleção da era amadora. Nesse caso, bastava ver quem tinha vestido a camisa da seleção brasileira mais vezes. Formou-se o time: Kuntz, Telephone, Píndaro de Carvalho e Penaforte; Gallo, Alberto Borgerth e Sidney Pullen; Junqueira, Nonô, Candiota e Moderato. Chiaram muito pela ausência de Amado no gol, mas os flamenguistas dos velhos tempos defendiam que Kuntz havia representado mais para a seleção nos anos em que agarrou no gol do Brasil.

Pois bem, que se chegasse então ao time da década de 1930. Os que viram aquela geração jogar não tiveram muita dificuldade para listar: Yustrich, Marin, Domingos da Guia e Otto; Volante e Médio; Sá, Nélson, Leônidas da Silva, Alfredo e Jarbas. Curiosamente, não teve muita discussão não.

Que se seguisse para a seleção dos anos 40. Também não deu ruído: Jurandir, Biguá, Domingos da Guia, Nilton Canegal e Jayme de Almeida; Modesto Bria e Zizinho; Valido, Pirilo, Perácio e Vevé. Todos seguiam degustando suas cervejas sem pestanejar, mas provocativamente aguçados para tentar erguer a primeira polêmica. Não poderia ser tão fácil assim chegar a consensos.

O time dos anos 50 só foi eleito depois de muito debate e desavenças espirituosas. Havia muita discordância sobre quem deveria estar presente na linha de ataque. A formação dos sonhos eleita ficou com: Garcia, Jadir, Pavão e Jordan; Dequinha e Rubens; Joel, Dida, Evaristo, Índio e Zagallo. Muitas vozes argumentavam que Moacir não poderia estar de fora, alguém teria que sair para ele entrar, de preferência o Rubens, que virou a casaca e foi jogar no Vasco. Henrique e Esquerdinha também tinham que entrar no lugar de alguém, bradavam algumas vozes que começavam a dar sinais de maior exaltação. Outros argumentavam que Evaristo e Dida eram da mesma posição, e só tinha espaço para um, neste caso era inquestionável que tinha que ser o Dida. Não dava para fazer rearranjos, pois o Joel era intocável na direita, o homem só tinha o Garrincha para superá-lo no futebol brasileiro pelo lado direito. E como tirar o Índio? Não dava para jogar sem um homem de área nato.

Depois de muita contestação para um lado e para o outro, fechou-se a posição. Quando a mesa se preparava para eleger as feras dos anos 60, alguém lançou uma ideia nova: seria justo eleger a “seleção dos primeiros cinquenta anos do futebol do Flamengo”. Que se elegessem os onze dentre estes quatro times de sonhos inicialmente listados. Imediatamente, topou-se o desafio.

Depois de muitas ponderações, os onze maiores das cinco primeiras décadas foram escolhidos: Garcia, Biguá, Domingos da Guia e Nilton Canegal; Dequinha, Zizinho e Dida; Joel, Leônidas da Silva, Pirilo e Vevé. Não deu nem muito trabalho, uma rearrumação aqui outra ali, e chegou-se a um consenso. Rubens e Evaristo de fora? Vocês estão loucos!... Você tiraria quem então?... Fez-se um silêncio de reflexão...

Igualmente rápida foi a votação para eleger os onze principais dos anos 60. Estes não foram dias muito felizes para os rubro-negros, é melhor até passar rápido e ir para a seguinte logo, argumentou alguém. Eis o time dos anos 60: Marcial, Murilo, Ananias, Manicera e Paulo Henrique; Carlinhos e Gérson; Espanhol, Dida, Silva e Almir. Só deu polêmica em torno do nome de Nelsinho, que muitos achavam que deveria estar no lugar do garoto Gérson.

O time dos anos 70 foi outro que não deu trabalho. Foram eleitos: Renato, Toninho, Reyes, Rondinelli e Júnior; Liminha, Carpegiani e Geraldo; Zico, Doval e Paulo César Caju. Cláudio Adão e Luisinho Lemos também foram amplamente citados.

A mais trabalhosa de todas as votações foi a seleção dos anos 80, não por falta, mas por excesso de nomes. Não tinha espaço para botar tanto craque. Foi preciso rearrumar a defesa, para que houvesse espaço para o Leandro e para o Jorginho. Mesmo com todo o esforço, alguns pesos pesados ficaram de fora. Foi o caso do goleiro Zé Carlos, do zagueiro Aldair, do lateral-esquerdo Leonardo e dos pontas Tita e Zinho. O time escolhido foi formado com: Raul, Jorginho, Leandro, Mozer e Júnior; Andrade, Adílio e Zico; Renato Gaúcho, Nunes e Bebeto.

A escolha referente ao time dos anos 90 também não foi muito trabalhosa, ainda que alguns tenham sido escolhidos meio que a contragosto de uns. Elegeu-se para representar esta década a formação: Gilmar, Charles Guerreiro, Wilson Gottardo, Júnior Baiano e Athirson; Leandro Ávila, Júnior, Nélio e Zinho; Sávio e Romário.

Controvérsia mesmo deu a discussão em torno do time dos anos 2000. Tinha gente querendo botar o time para jogar com dez, e até quem defendesse a escolha de apenas nove. A memória dos anos de martírio era muito viva. A discussão já começava na defesa: Júlio César ou Bruno no gol? Gamarra, apesar da passagem de só um ano pelo clube, mereceria um lugar no time? No meio de campo, foi difícil listar nomes opcionais. No final, o time eleito tinha: Júlio César, Leonardo Moura, Juan “zagueiro”, Fábio Luciano e Juan “lateral”; Ibson, Renato Abreu, Petkovic e Felipe; Edílson e Adriano.

Já que houve uma votação referente aos cinquenta primeiros anos, que se votasse a “seleção dos últimos cinquenta anos do futebol do Flamengo”. O time que misturaria as votações das décadas de 1960 a 2000 foi assim eleito: Raul, Leandro, Reyes, Mozer e Júnior; Andrade, Adílio e Zico; Bebeto, Doval e Romário.

Como misturar a seleção dos primeiros cinquenta anos com a dos últimos? Seria uma votação muito difícil. A pauta da mesa de bar passou a ser se valeria ou não a pena mesclar. Por que não ter dois times dos sonhos?

Do meio da multidão de corações rubro-negros que assistia ao debate e palpitava, levantou-se uma voz por uma solução democrática. Alguém sugeriu: a imprensa já fez várias eleições assim, cada uma com júris diferentes. Vamos correr atrás destas votações e listar os onze mais citados nelas. Este deve ser o Flamengo dos Sonhos. Como este sempre foi um clube de espírito democrático, que assim fosse feito. E a solução foi aprovada por aclamação.

Pela memória e pelos seus alfarrábios de colecionador, um ou outro foi puxando uma formação aqui outra ali. A primeira a surgir dentre tantos colecionadores foi a revista Grandes clubes brasileiros – Flamengo, da Editora Rio Gráfica, em 1971, e que trazia o seguinte time: Amado, Biguá, Nilton Canegal, Domingos da Guia e Jayme de Almeida; Dequinha, Bria e Zizinho; Valido, Leônidas e Vevé.

Só acharam uma votação parecida a esta datada de quinze anos depois. Alguém apareceu com a revista Placar, número 642, de 1986, que trazia os seguintes eleitos por seu júri: Garcia, Biguá, Domingos da Guia, Reyes e Júnior; Dequinha, Zizinho e Zico, Joel, Leônidas e Vevé. Doze anos mais tarde, a Placar número 1.098 trazia, em novembro de 1994, outra escolha: Raul, Leandro, Domingos da Guia, Mozer e Júnior, Dequinha, Zizinho e Zico; Joel, Leônidas e Bebeto.

Em seguida, apresentou-se uma edição do jornal O Globo, de 15 de novembro de 1995, dia em que o Clube de Regatas do Flamengo completava cem anos. A formação escolhida pelos jurados rubro-negros tinha: Raul, Leandro, Domingos da Guia, Mozer e Júnior; Dequinha, Zizinho e Zico; Joel, Leônidas e Dida.

Em 1997, houve três votações do gênero citadas na mesa daquele bar. A Revista do Flamengo nº 15, de edição interna do clube, distribuída em fevereiro, elegeu: Garcia, Leandro, Domingos da Guia, Reyes e Júnior; Dequinha, Zizinho e Zico; Rubens, Leônidas e Dida. O jornal O Dia de 13 de julho daquele ano compôs um júri que escolheu a formação: Raul, Leandro, Domingos da Guia, Mozer e Júnior; Carpegiani, Adílio, Zizinho e Zico; Leônidas e Romário. Uma semana depois, o jornal Extra formou outro grupo de jurados que elegeram: Raul, Leandro, Domingos da Guia, Mozer e Júnior; Dequinha, Adílio, Zizinho e Zico; Dida e Romário.

A última votação citada foi a da revista Placar, edição especial de dezembro de 2006, cujos eleitos foram: Raul, Leandro, Aldair, Domingos da Guia, Mozer e Júnior; Andrade, Adílio, Zizinho, Zico e Nunes.

Combinando os resultados destas pesquisas, que representam os júris de diferentes gerações de flamenguistas, sintetizando as mais distintas óticas sobre a história do Clube de Regatas do Flamengo, chegou-se à seleção dos onze mais votados. São os jogadores que sintetizam as glórias do futebol do clube e que fazem o torcedor sonhar com um passado vivo na memória, um presente de muita luta e um futuro que sempre poderá ser maior. A égide do que representa a tradição rubro-negra e do que significa vestir o vermelho e o preto. O Time dos Sonhos, que carrega a responsabilidade e o orgulho de representar o tamanho dessa tradição, ficou com a seguinte formação: Raul, Leandro, Domingos da Guia, Mozer e Júnior; Dequinha, Zizinho e Zico; Joel, Leônidas da Silva e Dida.

A grandeza do Flamengo é diferente de qualquer outra. Não pelos títulos. Até também pelos títulos, porque a alma precisa de alegrias para rejuvenescer. Não por estes heróis desta Nação Multidão, mas também porque há heróis desta grandeza em seu passado. Outros clubes de futebol também conquistaram títulos magníficos. Outros também tiveram craques de altíssimo padrão. Não foi só o rubro-negro que muita libra já pesou. Os títulos, as glórias, os heróis, os craques, todos não são nem maiores nem menores do que aqueles de outros grandes clubes de futebol. A diferença se faz pela multidão. Por uma alma própria. A grandeza desse vermelho e desse preto só ele tem. Ela não é imitável. Ela não é fabricável. Ela não é fruto de um ou outro que tenha decidido inventar um mito ou que decidiu criar uma história. Ela é escrita pela multidão. O 12º jogador deste Time dos Sonhos certamente se faria presente para cantar e empurrar.

A mística das arquibancadas uniria poesias de todos os tempos e das mais distintas gerações: “Flamengo, tua glória é lutar. Eu teria um desgosto profundo se faltasse o Flamengo no mundo. É o meu maior prazer vê-lo brilhar. Quando o Mengo perde eu não quero almoçar, eu não quero jantar. Eu sempre te amarei, onde estiver, estarei. Quero cantar ao mundo inteiro a alegria de ser rubro-negro. Flamengo até morrer eu sou, com muito orgulho, com muito amor”.

Grandes clubes há vários; diferenciado, há apenas um. O espírito em sincronia de uma multidão dá a estas cores a dimensão diferenciada que ela tem. O povo, rico ou pobre, preto ou branco, religioso ou ateu, carioca ou não, dá vida própria a estas cores. Dá-lhe alma. Dá-lhe espírito. Como afirmou Ruy Castro em sua obra O vermelho e o negro, “O Flamengo é o cimento que dá coesão nacional, do Oiapoque ao Chuí”. Suas cores materializam e encarnam a máxima de Nélson Rodrigues de que o futebol, e só ele, faz com que um sujeito perca qualquer sentimento de sua própria identidade e torne-se também multidão. Todos nascem flamenguistas, porque todos vêm ao mundo inseridos na massa, depois é que alguns degeneram.