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terça-feira, 20 de maio de 2025

CASAS DO FLAMENGO


O Flamengo nasceu sem casa... Livro A NAÇÃO, pg. 22: "São muitas, no entanto, as razões da popularidade rubro-negra. Ainda segundo Mário Filho, uma vez, o capitão do time de futebol campeão de 1912, Alberto Borgeth, disse-lhe que ela viera dos treinos na praia do Russel. A Prefeitura mandara fazer no local um campo de futebol, com gramado, balizas e tudo mais, dando pela primeira vez uma ideia da importância que adquirira o futebol no cenário esportivo do começo do século XX. Era um campo mais para a garotada – como outros –, não era para um time da Primeira Divisão, como o Flamengo. Só que o Flamengo não tinha campo e era obrigado a treinar em praça pública. À tardinha, os jogadores saíam do número 22 da praia do Flamengo – um misto de garagem de remo e cabeça de porco –, onde mudavam de roupa, e vinham pela calçada, com as chuteiras rangendo no cimento, até chegarem ao campo do Russel. A garotada acompanhava o time, apontando o Píndaro, o Baena, o Gallo, o Borgeth, o Gustavinho. Para Alberto Borgeth, ali estava a explicação de tudo. Assim, a falta de um campo fez o Flamengo misturar-se ao povo, aproximar-se dele".

Sem casa própria, o Flamengo viveu 100 anos de futebol em muitas casas, fossem emprestadas, alugadas, cedidas pelo poder público. A história do Flamengo começou sem haver sequer campo para treinar, os jogadores treinavam em praça pública, na Praia do Russel. O primeiro campo foi a na Rua Paissandu, na região limítrofe entre os bairros do Flamengo e Laranjeiras. Depois foi o modesto campo da Gávea. Nenhuma delas, propriedade à altura do C.R. Flamengo. Vamos visitar cada uma destas casas.

Entretanto, sua casa foi o Maior de Todos os Palcos, o Estádio Mais Mítico do Brasil. A grandiosidade do vermelho e do preto, que já se solidificara como rocha, também estava lá, exposta para que aqueles corações românticos se embebedassem em tardes tranquilas de domingo no Maracanã. E o Flamengo não parava de dar demonstrações da grandeza que conquistara. A partida que decidiu o Campeonato Carioca de 1963, entre Flamengo e Fluminense, cujo empate por 0 a 0 deu o título ao time rubro-negro, representa, ainda nos dias de hoje, o recorde mundial histórico de público pagante em partidas entre clubes: 177 mil pessoas. A marca só foi batida, ambas às vezes também no Maracanã, pela final da Copa do Mundo de 1950, entre Brasil e Uruguai, com 185 mil espectadores, e pelo recorde histórico de público em jogos de futebol – 189 mil pagantes – na partida entre Brasil e Paraguai pelas Eliminatórias, em 1969.


Com um click nas imagens abaixo, acesse o respectivo link com o histórico de cada uma das histórias narradas sobre situações políticas e econômicas do futebol rubro-negro e brasileiro:












sexta-feira, 25 de abril de 2025

Quando a Gávea foi a Casa da Seleção da Holanda na Copa do Mundo de 2014


Complexo Esportivo da Gávea já é a casa oficial da Holanda, o Headquarter dos treinamentos da equipe durante a Copa do Mundo de 2014.

O primeiro treino no local foi na tarde da sexta-feira, 6 de junho de 2014.


A delegação holandesa, do treinador Louis Van Gaal:

Goleiros: • Cillessen • Krul • Vorm
Zagueiros: • Blind • Janmaat • Kongolo • Martins • Veltman • Verhaegh • Vlaar • De Vrij
Meias: • Clasie • Fer • De Guzman • De Jong • Sneijder • Wijnaldum
Atacantes: • Memphis Depay • Huntelaar • Kuyt • Lens • Van Persie • Robben

















  
Rotina Carioca da Seleção da Holanda em 2014:





terça-feira, 13 de agosto de 2024

Plano de Ação do Flamengo para o Estádio no Gasômetro


Íntegra de importante entrevista publicada no site Mundo Rubro-Negro, para servir de referência histórica aos planos de desenvolvimento e construção do Estádio do Flamengo:


Em julho de 2024, o presidente Rodolfo Landim nomeou Marcos Bodin como Vice-Presidente de Patrimônio do Flamengo para que ele se dedicasse ao projeto do estádio do Flamengo, sendo interlocutor das questões financeiras e auxiliando nas tratativas com as partes interessadas. O Mundo Rubro-Negro o entrevistou, de forma exclusiva, trazendo detalhes sobre a próxima fase do projeto.

Para entender melhor as etapas, é preciso saber que a Fase 1 já aconteceu, sendo o estudo de viabilidade técnica. Os passos seguintes foram apresentados ao Conselho Deliberativo, sendo divididos até a Fase 4.

FASE 1 - Estudo de viabilidade técnica contratado pelo Flamengo junto à consultoria Arena que embasou as negociações para convencer a Prefeitura do Rio a desapropriar o terreno do antigo Gasômetro ("Um novo distrito de entretenimento no Rio").

- Projeta que o Flamengo pode construir um estádio de 70 mil lugares no terreno, o mesmo número exigido como mínimo pelo edital de leilão do terreno, que prevê que a obra deve ser concluída em quatro anos e meio.

- Além de receber cerca de 35 jogos de futebol por ano, o estádio será uma plataforma de serviços e entretenimento que movimentará a região 365 dias por ano, atraindo visitantes diariamente, criando milhares de novos empregos e novas opções de serviços e lazer para os habitantes do entorno, criando um "Distritos de Entretenimento", onde o estádio atua como peça central na valorização urbana e social do entorno.

- Avaliação de que a construção do estádio impacta em 67 setores da economia, gerando 7,8 mil empregos e movimentando um PIB de R$ 367 milhões. Já a operação do estádio tem potencial de gerar 15 mil empregos e movimentar um PIB anual de R$ 573 milhões. Intenção de dinamizar o eixo do comércio e serviços de São Cristóvão alavancando o mercado imobiliário da região, como um eixo de expansão urbana e turística do Porto Maravilha em direção ao bairro, induzindo o crescimento e desenvolvimento imobiliário para a área de expansão e Operação Urbana Consorciada e dos imóveis adjacentes.

- Mobilização Urbana: o público a se deslocar para o estádio em dias de jogo com estimativa de que 24,5 mil torcedores usem transporte individual (carro, moto e táxis/veículos de aplicativo), 43,6 mil usem transporte público (metrô, trem, VLT, BRT e ônibus), e que quase 2 mil torcedores cheguem de bicicleta ou a pé. Previsão de obras de acesso à estação São Cristóvão e de obras na avenida Francisco Bicalho para interligar o estádio à estação Cidade Nova.

- Além do estádio com 70 mil lugares e 1.500 vagas de estacionamento, serão construídos no terreno do Gasômetro uma praça de eventos e um centro comercial.


PRÓXIMAS FASES:

Fase 2, fase atual: Elaboração do conceito de como será o estádio do Flamengo. A duração é de término em outubro de 2024.

Fase 3: Concorrência internacional para projeto arquitetônico do estádio do Flamengo.

Fase 4: Concorrência para construção do estádio do Flamengo.


Na entrevista com Marcos Bodin:

"A Fase 2 é entender exatamente como será o estádio. Que tipo de produtos serão colocados no estádio. O que você quer? Quero uma renda significativa. Então, preciso ter produtos VIPs, que agreguem serviço também".

Marcos Bodin afirmou que o maior interesse ao construir um estádio se dá pela vantagem, pelo ganho esportivo, que acontece com os jogadores se sentindo melhores dentro de casa do que fora. Pensando nos torcedores, escolheram o terreno para surtir exatamente esse efeito. Isso porque é a torcida que empurra o time e capacita o elenco a ir em busca das vitórias. Por isso, a fase é focada em discutir o que se pode fazer para produzir esse ambiente.

Por suas palavras: "O que vale no Flamengo é a torcida, então faremos o melhor espaço para a torcida. O terreno que foi escolhido é um terreno inclusivo. Tem uma acessibilidade muito boa para a população. É um terreno focado na torcida. A viabilidade do estádio está em alguns serviços e também na torcida. O que é o nosso setor principal, tem alguma forma dos jogadores se sentirem bem ali, ter algum ganho esportivo? É isso que está se desenhando na fase 2".

Ao ser questionado sobre as Fases 3 e 4, Bodin prefere focar na próxima fase e dá mais detalhes sobre os próximos passos do Flamengo. O vice de Patrimônio indica que o clube precisa se reunir com os órgãos de segurança para definir exatamente o que pode ser feito e viabilizar o conceito final do estádio: "Eu posso dar mais detalhes da fase 2. É o momento da gente convidar os órgãos competentes. Bombeiro, polícia, trânsito, e estudar em conjunto. O Flamengo tem interesse em fazer isso, sempre a quatro mãos, com os órgãos. E qualquer decisão do Flamengo vai passar pelo Conselho. A gestão passa pelo Conselho, a gestão trabalha e submete ao Conselho".

Um terço do estádio do Flamengo será popular! Já se sabe que o mínimo de capacidade, segundo o edital, é da construção do estádio do Flamengo para 70 mil pessoas. No entanto, essa capacidade pode ser maior, e a ideia é ter 80 mil lugares disponíveis. Perguntado sobre os setores populares, Marcos Bodin explica que pelo menos um terço das arquibancadas serão populares: "A premissa começa com o setor da torcida. O próprio Landim já falou de ter 15 mil de um lado, 9 mil do outro, o gol bem popular. 9 mil atrás do outro gol. Tudo focado na torcida do Flamengo. Se você fala de 70 a 80 mil, um terço do estádio, com certeza, é popular", garante.

A inauguração pode sair antes do estipulado, que foi no aniversário de 134 anos do clube, em novembro de 2029? Disse ele: "Eu te diria que a data de 2029 está muito boa. Antes, só se você tivesse um fluxo financeiro muito forte. 2029 estou mais confortável para te falar de data, não mexeria na data não".

As fases 3 e 4 são de concorrência arquitetônica e de construção, respectivamente. Bodin dá uma breve explicação, afirmando que basearão os passos dessas fases no que decidirem na fase anterior: "A Fase 3, claro que é muito interessante ter uma concorrência internacional de arquitetura, mas baseado na Fase 2. Aí você vai falar de custo, tem que ser bem definido, para não impactar em uma obra faraônica que você não tem capacidade de fazer".

Questionado sobre a preocupação de acabar tendo que arcar mais do que com os R$ 138 milhões do arremate do terreno por conta do imbróglio com a Caixa na Justiça, Bodin se limitou a dizer que o preço pago é justo, apontando a descontaminação do terreno como um custo adicional: "Eu acredito que o terreno está no preço justo. É um terreno que tem características negativas e positivas. A própria descontaminação desvaloriza o terreno. Acho que o custo vai ser a descontaminação. O terreno está em um preço justo, está bem na média que os terrenos estavam saindo na região. O ônus é a descontaminação".


quarta-feira, 31 de julho de 2024

Pareceres das Comissões Internas sobre compra de terreno para estádio do Flamengo

Segue a reprodução inregral de matéria publicada pelo site Mundo Rubro-Negro:

Foram feitas ressalvas nos pareceres das comissões em relação ao pedido de aprovação referente ao leilão para compra de terreno para a construção do estádio próprio do Flamengo. O processo foi votado em 29 de julho pelo Conselho Deliberativo do clube, sobre participação no leilão público previsto para 31 de julho de 2024.

Pareceres das Comissões de Finanças, Jurídica e de Marketing do Conselho Deliberativo e também do Conselho Fiscal sobre o pedido de aprovação da participação do presidente Rodolfo Landim, usando seu "prudente arbítrio" no leilão para arrematar o terreno do antigo Gasômetro, onde o Flamengo pretende construir seu estádio próprio.

As Comissões de Finanças e Jurídica fizeram pesadas ressalvas sobre os riscos da operação e deram pareceres que impõem novas condicionantes para o Conselho aprovar o pedido de Landim. Pelo estatuto, entretanto, os pareceres das comissões servem apenas para embasar a decisão dos conselheiros e suas recomendações não são vinculantes.

As comissões têm todos os seus membros nomeados pelo presidente do Conselho Deliberativo, Antônio Alcides, que esteve neste sábado (27 de julho) num ato de campanha do presidente do Conselho de Administração e pré-candidato à Presidência do Flamengo Luiz Eduardo Baptista, que reiterou seus questionamentos à operação proposta pela gestão Rodolfo Landim.

Embora a sessão tenha sido convocada há mais de uma semana, os quatro pareceres só foram concluídos e disponibilizados para consulta aos conselheiros na última sexta-feira (26). Em uma medida excepcional, a secretaria dos Conselhos funcionou em regime de plantão neste fim de semana ´para que os conselheiros interessados pudessem ler os documentos.

A seguir, estão detalhados os principais trechos de cada parecer:


COMISSÃO DE FINANÇAS
É o parecer mais duro. A comissão apontou problemas tanto na aquisição do terreno quanto nos compromissos que o Flamengo assume e se disse "impedida de um parecer concluso se observada a operação como um todo" nos termos propostos pela diretoria.

"Não foram disponibilizados à Comissão de Finanças quaisquer informações inerentes ao projeto, com custos e despesas, cronograma físico/financeiro e origem de recursos a serem aplicados no estádio. A Comissão de Finanças foi informada, verbalmente, que inexistem informações sólidas sobre os custos do empreendimento, sendo que ditos números estimados, sem apresentação de um estudo de massa do empreendimento, desprovidos de cálculo de área de construção, sem orçamento preliminar, cronograma físico e financeiro e planejamento orçamentário com origens e destinações de recursos para análise de viabilidade financeira e avaliação de risco do referido empreendimento. A Comissão de Finanças não foi informada sobre a existência de planejamento financeiro e disponibilização de caixa de curto, médio e longo prazo que possa atender a diretiva financeira de todo o empreendimento", diz o texto.

Além das preocupações de longo prazo, a Comissão ainda vê problemas na participação no leilão, que não consta do orçamento do clube para a temporada.

"O desembolso de no mínimo R$ 138 milhões para a compra do terreno será realizado no curtíssimo prazo reduzindo de forma significativa o caixa do Clube de Regatas do Flamengo. Não foi indicada à Comissão de Finanças solução para recomposição de um caixa mínimo. Como essa operação ainda não irá gerar receitas operacionais no curto prazo, o clube terá que conviver com maior alavancagem financeira. Esta comissão vê num cenário pessimista como risco de perda potencial em torno de R$ 246 milhões nesta etapa do processo até entrega do projeto executivo caso seja verificada inviabilidade técnica e/ou financeira na construção do estádio", diz o parecer.

Diante dessas ressalvas, o parecer condiciona a recomendação do voto favorável à aprovação de três prerrogativas que não fazem parte do pedido original da diretoria.

"A- Fica terminantemente proibido o Conselho Diretor de reivindicar a estruturação de uma SAF (Sociedade Anônima de Futebol) para obtenção de recursos destinados às obras do estádio e outras obrigações inerentes;

B- O Conselho Diretor não poderá, para atender possíveis negativas sazonalidades financeiras do projeto estádio, reduzir gastos e investimentos já orçados no plano estratégico trienal 2024-2026 para futebol e esportes olímpicos, e para os anos seguintes não reduzir em relação ao último ano estimado;

C- O Conselho Diretor não poderá antecipar recebíveis, fazer uso de crédito rotativo e conta garantida junto a instituições financeiras para suprir necessidades de caixa e/ou atender reestruturações orçamentárias inerentes ao referido projeto. A captação de financiamentos com instituições financeiras e outros instrumentos de dívida ficam limitados a 20% da receita líquida recorrente do ano fiscal anterior".

Caso o Conselho opte por transformar as recomendações da Comissão de Finanças em vinculantes, os futuros presidentes do Flamengo que tocarem a obra ficarão com opções de financiamento muito limitadas. A rigor, a própria venda de naming rights e cadeiras cativas, por se referirem a receitas que o estádio terá ao longo dos anos, poderiam ser enquadradas como “antecipação de recebíveis”.


CONSELHO FISCAL
Embora menos duro que o parecer da Comissão de Finanças, o parecer do Conselho Fiscal, órgão independente eleito, também expõe preocupações sobre os riscos econômicos e jurídicos da operação. E traz ao menos uma informação adicional preocupante em relação à aquisição do terreno.

Além de não ter um plano concreto para financiar a construção do estádio no futuro, a gestão Rodolfo Landim também não foi clara sobre qual será a origem dos ao menos R$ 138 milhões não orçados que serão investidos na compra do terreno.

"Em consulta feita ao presidente Rodolfo Landim a este respeito, pois este Conselho ainda não recebeu as demonstrações financeiras relativas ao segundo trimestre de 2024, o mesmo respondeu que “teremos os recursos necessários para este fim", diz o Conselho.

As demonstrações financeiras em questão serão publicadas na próxima quarta-feira, dia da participação no leilão e após a votação do Conselho. Em março, o Flamengo não tinha em caixa todo o dinheiro necessário para a participação no leilão. Desde então fechou contratos de longo prazo com Globo, Brax, Adidas, BRB e estendeu e ampliou o valor do contrato com a Pixbet. Mas usar dinheiro de qualquer um desses contratos poderia também ser enquadrado na antecipação de recebíveis colocada como restrição no parecer da Comissão de Finanças.

Apesar dessa ressalva, o Conselho Fiscal deu parecer de que o pedido de Landim para participar do leilão está "apto" a ir a votação no Conselho Deliberativo.


COMISSÃO JURÍDICA
O parecer da Comissão Jurídica apresenta quatro graves riscos jurídicos que, na opinião do órgão, podem encarecer a operação ou até anulá-la.

"A desapropriação por hasta pública não está prevista na legislação brasileira, sendo que é competência privativa da União legislar sobre desapropriação (artigo 22, inciso II da Constituição Federal);

Como é notório, o senhor prefeito anunciou aos quatro ventos que a desapropriação visava a construção de um estádio para o Flamengo, o que demonstra ofensa ao princípio da impessoalidade, caracterizando também, sob tal aspecto, o desvio de finalidade;

O terreno é foreiro à União Federal, em razão do que a aquisição será tão somente do seu domínio útil. Em consequência, na efetivação da venda será devido o laudêmio, não tendo o edital esclarecido a quem caberá o seu pagamento, sendo este ônus normalmente do vendedor. Sucede que a cláusula 11.8 do edital reza que o valor total devido ao expropriado, incluindo todas as verbas que teriam que ser pagas pelo município por força do processo expropriatório, é de responsabilidade do comprador;

O Flamengo estaria assumindo um compromisso de pagar um valor imprevisível que poderia ser muito superior àquele que considera justo e razoável. E isto só será resolvido após processo judicial, certamente longo".

O parecer conclui deixando a decisão sobre aprovar ou não a participação no leilão nas mãos dos conselheiros, mas colocando condições que terão que ser cumpridas por Landim para exercer seu "prudente arbítrio":

"Em vista de tudo que foi exposto, a Comissão, cumprindo sua competência funcional de bem esclarecer aos membros deste Conselho, considera que há riscos jurídicos e econômicos para o Flamengo na participação no leilão, entendendo todavia que, tratando-se de negócio de suma importância, o colegiado, fazendo uso de sua soberania, decida por próprio se deve ou não o clube participar do certame. Por outro lado, em relação ao pedido do ilustre presidente do Conselho Diretor, a comissão entende que a autorização seja dada desde que fique esclarecido que a mesma refere-se neste momento à participação no leilão para a arrematação do terreno em questão, sendo garantido pelo Conselho Diretor junto ao Conselho Deliberativo que não serão desrespeitados o planejamento orçamentário anual, o plano estratégico trienal, a responsabilidade fiscal e na gestão do orçamento previstos no estatuto do clube".


COMISSÃO DE MARKETING
É o único parecer 100% favorável à participação no leilão, que ela define como "oportunidade histórica para o clube de Regatas do Flamengo".

A Comissão aponta uma série de possibilidades de ativos de marketing que podem ser explorados para financiar a construção do estádio:

Naming rights
Cadeiras perpétuas (em limitadíssima quantidade e altíssimo valor)
Cadeiras cativas por tempo determinado
Sector rights temáticos
A&B rights (direitos de exclusividade na comercialização de alimentos e bebidas no estádio)
Payment rights (exclusividade de métodos de pagamentos)
Ativações adicionais para patrocinadores (aumento de valor de contratos)
Ativações digitais, conteúdo exclusivo, assinatura, blockchain, NFT










quarta-feira, 17 de julho de 2024

Novo Estádio: muita gente precisa que o Flamengo continue a jogar só no Maracanã


O Editorial do Jornal O Globo publicado no domingo, dia 30 de junho de 2024, foi uma daquelas raras oportunidades nas quais os interesses que andam sorrateiros pelos sub-solos do Rio de Janeiro emergem e dão as caras manifestando todas as reais intenções que costumam se camuflar por detrás das manipulações da informação jornalística. Claro e cristalino, só mostra o quanto a luta será longa par que o Flamengo consiga levantar um estádio no terreno do Gasômetro. Muitas barreiras burocráticas ainda serão inventadas, muitas mãos esperando propina por debaixo dos panos ainda serão agitadas antes de todas as licenças, sejam elas ambientais, de trânsito, de autorização celestial ou a que seja.

É por isso que há décadas, para sustentar interesses públicos e privados de apropriação de recursos levantados pela paixão rubro-negra, como já mostramos neste link, o Flamengo é o Rei das Maquetes. Por isto que levou 1 década inteira, como contamos neste outro link adiante, para que o Flamengo conseguisse a concessão de 20 anos do Maracanã, em casos envolvendo corrupção entorno do Engenhão e tentativas de privatizações que acabaram derrubadas. Só com muita luta! E agora terá que ser igual.

É fato que no fim de 2024, com eleição na cidade, com a passagem do pleito tudo evolui de forma muito mais lenta. Tão fato quanto a tentativa da Caixa Econômica Federal de superfaturamento na venda do terreno do Gasômetro para tentar se aproveitar da boa condição econômica do Flamengo, tentando lhe vender um terreno por um preço muito acima do metro quadrado médio de todas as áreas adjacentes ao terreno. O prefeito Eduardo Paes desapropriou o terreno, e assim o edital do Jornal O GLOBO fez seu discurso calhorda, com estas palavras reproduzidas abaixo na integra do que foi publicado no edital de 30/06/24:

"Soa como oportunismo eleitoral o empenho do prefeito do Rio, Eduardo Paes (PSD), pré-candidato à reeleição, para erguer o novo estádio do Flamengo no terreno que abrigou o antigo gasômetro, na região portuária. Um decreto do Executivo permitiu desapropriar o imóvel, abrindo caminho ao projeto rubro-negro.

O Flamengo pretende construir lá uma arena para 80 mil torcedores. O projeto não decolava por impasses na negociação com o fundo administrado pela Caixa para investir na revitalização da área. Em ano eleitoral, Paes decidiu agradar à maior torcida do Rio. Ele alega que o empreendimento não erguerá apenas o estádio, mas também espaço de entretenimento e centro de convenções. A bem-vinda recuperação da Zona Portuária não implica, porém, a construção de outro estádio no Rio.

A despeito de interesses clubísticos e eleitorais, a cidade não carece de novo estádio, ainda mais a apenas 3 quilômetros do Maracanã. Está bem servida com os que tem. Palco das Copas de 1950 e 2014, dos Jogos Pan-Americanos de 2007 e da Olimpíada de 2016, o Maracanã passou por uma reforma de mais de R$ 1 bilhão para se adaptar ao padrão Fifa. Hoje comporta 80 mil torcedores. O Nilton Santos (Engenhão), administrado pelo Botafogo, recebeu obras de R$ 52 milhões para se tornar um estádio olímpico para 45 mil pessoas. Há ainda São Januário, que, pelo plano do Vasco, deverá ser reformado.

Com mais um estádio, o maior impacto recairá sobre o Maracanã, um dos mais tradicionais do mundo. Propriedade do governo estadual, ele hoje é administrado por Flamengo e Fluminense em regime de concessão. O Flamengo tem dito que não o abandonará, mesmo com a nova casa. Mas é improvável que erga uma estrutura orçada em R$ 2 bilhões para jogar apenas de vez em quando. Dificilmente um único clube teria condições de manter o Maracanã sozinho.

Como mostrou reportagem do GLOBO, a manutenção do complexo é cara. Um dos principais desafios da concessão tem sido torná-la economicamente viável diante das limitações comerciais e do pagamento de outorga ao estado. O custo de uma partida absorve até 60% da bilheteria. Pelo contrato, Flamengo e Fluminense terão de desembolsar R$ 400 milhões em obras de recuperação do Maracanã e do Maracanãzinho, além de construir um novo museu. Hoje o modelo de concessão dificulta o uso para entretenimento.

Em vez de erguer um novo estádio, o melhor seria o governo rever as regras da concessão do Maracanã - que acaba de ser renovada por 20 anos -, a fim de corrigir os problemas e de torná-lo um bom negócio para os clubes. Seria péssimo para a cidade e para o país se o Maracanã se tornasse mais um elefante branco, como acontece com estádios construídos ou reformados para a Copa de 2014, que passam a maior parte do tempo às moscas. Um dos melhores e mais populares estádios do mundo não pode ser palco apenas de jogos ou shows eventuais. Com a queda no público, a conta da manutenção sobrará para o estado. Para todas as torcidas, portanto".

A imagem do editorial de O GLOBO


Não há nada a se acrescentar ao que foi dito pelo rubro-negro Ricardo Hinrichsen em sua conta de twitter: "Como previsto, os anticorpos começam a se movimentar. Onde vc lê 'a cidade não precisa de mais um estádio', leia 'tem muita gente que precisa, para seus interesses pessoais, que o Flamengo continue a jogar no Maracanã'". Perfeito!


Em paralelo a estes fatos, no dia seguinte ao editorial, em 1º de julho, Victor Travancas (do partido DEM), advogado e subsecretário do gabinete do governador Cláudio Castro (PL), havia anunciado a intenção de atravancar a posse do Flamengo ao terreno do Gasômetro através de uma ação judicial para impedir a desapropriação decretada pelo prefeito. O prefeito Eduardo Paes (PSD) desfiou-o a encontrar alguma irregularidade na ação, e disse que por tal fala o governador Cláudio Castro deveria exonerar Travancas. No dia seguinte, o subsecretário então recuou de sua intenção manifestada.

Em texto conjunto publicado junto a Luciano Bandeira, presidente da OAB, e Marcos Luiz, secretário-geral, Victor Travancas abordou uma reunião entre as partes na qual estes conheceram os detalhes sobre a revitalização da zona portuária, a que o teria levado a desistir de levar o caso até a Justiça.

Eis a integra da nota, publicada em 2 de julho, pela OAB do Rio de Janeiro: "O presidente da OAB/RJ, Luciano Bandeira, e o secretário-geral da OAB/RJ, Marcos Luiz Oliveira e Souza, se reuniram nesta terça-feira, 02/06, com o advogado Victor Travancas para apresentar o projeto do futuro Estádio do Flamengo – no terreno do Gasômetro – e os enormes benefícios que serão levados para a região, que atualmente está em completo abandono. Após o encontro, o advogado comprometeu-se a não judicializar a questão, o que atrasaria a revitalização da área e o consequente incremento econômico. A expectativa é que o Flamengo leve importantes projetos sociais para a região, favorecendo jovens e crianças em situação de vulnerabilidade social. A OAB/RJ está sempre comprometida em contribuir com ações que tragam desenvolvimento para o estado do Rio de Janeiro e levem melhorias para a vida da população, pautas também defendidas pelo projeto de construção do novo estádio do Clube de Regatas do Flamengo".


O editorial de O GLOBO também levou a uma resposta oficial do prefeito Eduardo Paes, que publicou artigo no próprio jornal dois dias depois da publicação do editorial, eis a íntegra do texto que saiu no jornal em 2 de julho sob o título "Novo estádio do Flamengo não prejudica o Maracanã":

"Na (pessoa) física, torço pelo Vasco, o que não é nenhum segredo. Na jurídica, sempre pelo Rio. Defender e apoiar o novo estádio do Flamengo é defender os interesses da cidade e dos cariocas, não poderia ser diferente.

O Flamengo é um clube de dimensões nacionais, tem a maior torcida do Brasil. O clube projeta o Rio no país e no mundo, movimentando nosso turismo e nossa economia. Estudos da Secretaria Municipal de Desenvolvimento Urbano e Econômico mostram que o Flamengo foi responsável por mais da metade dos R$ 3,96 bilhões de impacto econômico do futebol na cidade em 2023. Estudos preliminares apontam que, com o novo estádio, o clube, sozinho, poderia representar um impacto de R$ 3 bilhões.

Não se pode minimizar a importância da economia do futebol para o Rio. É por isso que, como o Flamengo, todos os clubes cariocas sempre receberam meu apoio sem distinção, independentemente de qualquer eleição. Ajudamos a transformar em realidade os centros de treinamento do Fluminense e do Vasco, como fazemos com o do Botafogo. Prorrogamos a concessão do Nilton Santos e viabilizamos recursos para a reforma de São Januário. Essas são apenas algumas das iniciativas tomadas, que não beneficiam só os quatro grandes. Também doamos as arquibancadas da Arena do Futuro para a Portuguesa e parte do Estádio Aquático Olímpico para o Bangu, como parte do legado olímpico.

Além do impacto na economia, a construção do novo estádio do Flamengo no terreno pretendido pelo clube, no Gasômetro, efetivaria mais um elemento-chave na revitalização da região portuária, essencial para o Rio. Para tanto, ele deve ser mais que um estádio: um complexo multifuncional que inclua espaço para eventos, lojas abertas para o público e áreas de convivência, alinhado ao desenvolvimento urbano sustentável da região.

O projeto também deve levar em conta o impacto na mobilidade urbana, uma prioridade de meus mandatos. Não à toa, construímos ali o Terminal Gentileza, que conecta a região e o Centro ao resto da cidade. O Flamengo já se mostrou comprometido em colaborar com melhorias viárias, reformulação dos passeios públicos e do sistema de transporte. O acesso deve ser facilitado pelo bairro de São Cristóvão, sem comprometer a Avenida Francisco Bicalho. Também pretendemos expandir o VLT até as estações Leopoldina e São Cristóvão, facilitando a conexão com trem e metrô.

Ao contrário do que alguns argumentam, o novo estádio não prejudica o Maracanã, que, é notório, tem sofrido com o excesso de jogos (até quatro vezes mais partidas que alguns dos principais estádios europeus), comprometendo até a qualidade do gramado. No ano passado, chegou a receber três jogos em três dias consecutivos, uma maratona que acelera o desgaste da estrutura. O Maracanã tem uma importante dimensão pública e jamais poderia pertencer a apenas um clube. É um patrimônio de todos os cariocas, de todos os brasileiros. Seu papel deve se assemelhar ao de Wembley, em Londres, que convive em equilíbrio com os múltiplos estádios de grandes clubes na cidade.

Fui eleito prefeito do Rio três vezes, sendo vascaíno e portelense. É subestimar a inteligência do carioca achar que o voto é movido por paixões clubísticas. Tratando-se de eleições, só há espaço para uma paixão, a paixão pelo Rio".



No dia 8 de julho foi publicado o edital para o leilão do terreno, a ser realizado em 31 de julho de 2024, com o lance mínimo estipulado em R$ 138 milhões.

Imediatamente a primeira a reclamar foi a Caixa Econômica Federal. Com um curiosidade: o Flamengo havia sinalizado à Caixa que estaria disposto a pagar R$ 250 milhões, mas a entidade argumentou que queria receber R$ 400 milhões. Quando o valor de lance mínimo foi anunciado, a Caixa protestou, dizendo que o terreno valia R$ 250 milhões.

O assunto estava deixando muita gente preocupada. E isto ficou claro por um movimento coordenado emergindo de São Paulo logo no dia seguinte à publicação do editar.


O Movimento do Corinthians contra o estádio do Flamengo

No dia seguinte à publicação do edital, em 9 de julho, um artigo no Portal UOL na Coluna de Juca Kfouri (jornalista torcedor do Corinthians), uma matéria no site independente "Meu Timão", e uma publicação no twitter feita pelo ex-presidente do Corinthians, Andrés Sanches, mostravam toda uma mobilização alvi-negra paulista para tentar barrar a aquisição do terreno.

Curiosamente, Andrés Sanches que era o presidente do Corinthians quando foi feito um movimento articulado com a Caixa Econômica Federal e o então Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, outro notório torcedor corinthiano, para a construção do estádio do clube em Itaquera.

Escreveu Andrés Sanches em sua conta no twitter: "Os funcionários do Flamengo na imprensa não comentam nada, o terreno vale 380 milhões e a prefeitura desapropriou por 135 milhões kkkkkk".

Já Juca Kfouri publicou no UOL cedeu o espaço em sua coluna para texto de Carlos Vainer, sob o título "É urgente o debate público sobre o estádio do Flamengo" o seguinte texto, reproduzido abaixo na integra:

"É necessário barrar o escândalo da desapropriação de grande área no centro da cidade para entregar a um empreendimento privado – o estádio do Flamengo.
É mais um passo do prefeito, e da coalizão que o apoia, para privatizar a cidade.
Além dos aspectos legais claramente expostos por Sonia Rabelo, há que levar ao debate público os nefastos impactos urbanísticos.
Caso concretizado o projeto, teremos mais um grande estádio de futebol na cidade, o quarto, que virá somar-se ao Maracanã, Nilton Santos e São Januário.
Este novo estádio será implantado a apenas quatro quilômetros do Maracanã, uma verdadeira insanidade em termos de distribuição de equipamentos públicos no espaço urbano. Tal proximidade implicará, de fato, na inviabilidade de eventos simultâneos nos dois espaços, em virtude de problemas de circulação.
Ademais, quando pensamos no uso efetivo de um estádio, nos damos conta de que estaremos reservando 90.000 m2 no coração da cidade para serem usados, no máximo, oito horas por semana (na hipótese, pouco provável, de haver dois jogos ou eventos por semana).
A isso o prefeito chama de “revitalização” do centro da cidade.
Outros usos, como residências, serviços vários, parques e jardins ofereceriam um uso muito mais intenso e coletivo desta enorme gleba no centro da cidade.
Se não bastasse, pela dimensão pretendida, teremos uma verdadeira barreira edificada, implantada no coração da cidade, com dramáticos impactos na mobilidade urbana… a menos que novos e custosos investimentos sejam feitos para reconfigurar a rede viária na região.
Como bem destaca Sonia Rabelo, onde está o plano urbanístico de que a implantação deste estádio seria a principal motivação?
Onde os estudos de impacto ambiental e vicinal?
Onde a justificativa para entregar a um empreendedor privado área de tal dimensão?
A área será entregue ao Clube de Regatas do Flamengo em ônus?
É bom lembrar também, que além do ônus da desapropriação, os custos de obras viárias e infraestrutura necessárias recairão sobre a prefeitura, isto é, sobre o fundo público, enquanto os benefícios, estes, serão privados.
Qual a necessidade disso?
Será que as escolas e postos de saúde, será que o saneamento público não deveriam ser prioridades para gastos da prefeitura?
Há que abrir o debate público e impedir que o prefeito se utilize da enorme simpatia popular pelo Flamengo seja utilizada para mais um esbulho ao patrimônio público e urbano do Rio de Janeiro".

* Carlos Vainer é economista, sociólogo, Doutor em Desenvolvimento Econômico e Social pela Université de Paris I – Panthéon/Sorbonne, Professor Emérito da Universidade Federal do Rio de Janeiro (2022), Professor Titular- Colaborador do Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano e Regional (PPUR/UFRJ).


A melhor reposta a este texto foi publicada por Fabrício Chicca em sua conta de twitter @mundonabola, integralmente reproduzida a seguir:

"Primeiro, vamos estabelecer em qual segmento vamos focar as discussões, começando pelas questões legais. No texto citado, o autor refere-se às questões legais expressas por Sônia Rabelo, jurista, no Diário do Rio. No primeiro parágrafo, ela não é capaz de expressar com a nitidez necessária quem é o proprietário do terreno, que não é a Caixa, um banco público, mas sim um fundo de investimento imobiliário fiscalizado pela CVM, cujo cotista é o FGTS, administrado pela CEF. Causa surpresa que a propriedade do terreno não seja explicitada no início do texto, bem como as obrigações de um fundo de investimento, para que se possa discutir conceitualmente o tema em questão.

A autora, de fato, e com propriedade, refere-se à Constituição, citando: “é a letra i do art. 5º do Decreto-lei 3365 que diz: ‘1. i) a abertura, conservação e melhoramento de vias ou logradouros públicos; a execução de planos de urbanização; o parcelamento do solo, com ou sem edificação, para sua melhor utilização econômica, higiênica ou estética; a construção ou ampliação de distritos industriais”. Contudo, no mesmo artigo 5º, no item “n”, lê-se que é considerado utilidade pública “a criação de estádios, aeródromos ou campos de pouso para aeronaves”. Algumas linhas abaixo, no § 1º, lê-se que a construção ou ampliação de distritos industriais inclui o loteamento das áreas necessárias à instalação de indústrias e atividades correlatas, bem como a revenda ou locação dos respectivos lotes a empresas previamente qualificadas. O texto indica que é factível e previsível que entidades privadas, desde que previamente cadastradas, sejam partes interessadas em desapropriações, no caso o exemplo refere-se a indústrias, mas mesmo assim, trata-se de governo desapropriando área privada para entidades privadas. A autora refere-se à Constituição como instrumento para prevenir que qualquer poder executivo exerça deliberadamente o direito constitucional à desapropriação sem que haja interesse público, justo, mas a Constituição menciona que estádios têm utilidade pública. O restante do texto, uma vez que a autora não acerta na questão da propriedade do terreno, torna a teoria das questões legais frágeis e pueris.

Em seguida, o professor emérito, título concedido a professores universitários aposentados com extensa contribuição nos seus campos de atuação, refere-se à quantidade de estádios na cidade do Rio de Janeiro, hoje três, e depois do estádio do Flamengo, quatro. Três estádios significam que dois clubes precisam dividir um estádio, fato raro no futebol moderno. Curiosamente, uma análise rápida e comparativa sugeriria que três estádios não são suficientes. Em São Paulo, cada clube da série A tem seu próprio estádio, além do Pacaembu recentemente privatizado, e de uma dezena de outros estádios relevantes na região metropolitana da cidade, como a Arena Barueri, o Anacleto Campanella, o Bruno José Daniel, o Estádio Primeiro de Maio, o Canindé, entre outros.

Uma comparação internacional talvez seja mais relevante. Na Grande Buenos Aires, há 10 estádios para 20 mil pessoas no distrito federal, 2 em Avellaneda, 1 em Banfield, 3 em La Plata, 1 em Lanús, 1 em Lomas de Zamora, 1 em Morón, 1 em Quilmes, 1 em Temperley, 1 em Vicente Lopez, 1 em Villa Maipú e 1 em Victoria. Portanto, são 24 estádios dentro da Grande Buenos Aires, uma cidade comparável em tamanho, não em geografia, com o Rio de Janeiro. Em Londres, há 12 estádios para mais de 20 mil pessoas (Wembley Stadium, Emirates Stadium, London Stadium, Stamford Bridge, White Hart Lane, Charlton Athletic, entre outros). Similar ao Rio de Janeiro, temos Lima, no Peru, cidade com muito menos tradição no futebol, com 4 estádios para mais de 20 mil pessoas.

Outra menção contestável refere-se à distância entre os estádios Maracanã e o novo estádio. A cidade do Rio de Janeiro é a cidade com maior dificuldade no Brasil para expansão imobiliária e tratar como insensatez a proximidade entre equipamentos apenas pela distribuição espacial é uma teoria que seria reprovada em qualquer banca de doutorado na Sorbonne ou na UFRJ. A desigualdade da abrangência do transporte público dita uma equação cujo resultado colocará equipamentos dessa magnitude em locais próximos, onde há acesso relativamente abrangente a transporte públicos e grandes vias de acesso, além disso, qualquer urbanista trata as regiões centrais das cidades como áreas ideais, de fácil chegada portanto democratizando o acesso. O posicionamento do equipamento de acordo com a disponibilidade de transporte público e acesso dos torcedores seria mais inteligente do que propor uma distribuição homogênea de equipamentos urbanos, cada um, por exemplo, a 10 km de distância uns dos outros. Como seria levar 70 mil torcedores a Guaratiba, ou mesmo na Barra? Citando Buenos Aires novamente, e considerando a geografia menos complexa da cidade, ao redor de La Bombonera há outros três estádios em menos de 4 km de distância,  são: o estádio do Huracan Tomás Adolfo Ducó, e em Avellaneda, Estudiantes (Libertadores) e Racing (Presidente Perón), estes distantes meros 200 metros um do outro. Hoje já não é possível realizar eventos de grande porte em São Januário e no Maracanã nos mesmos dias, por questões de circulação e segurança, mesmo que os estádios fossem a 10 km de distância, os eventos não ocorreriam simultaneamente. O mesmo ocorre com o Nilton Santos.

Em seguida, o autor refere-se a um problema legítimo: a pouca ativação em dias que não houver jogos. Nesse ponto, faltou aprofundar-se mais nas questões urbanas locais, no edital do leilão e nos planos do Fundo de Investimento para o terreno. A área, que permaneceu desocupada por 20 anos, contaminada, murada e abandonada, e conforme confirmamos com incorporadoras que operam no Rio de Janeiro, com pouco interesse do mercado imobiliário. Com essa perspectiva, há um plano para o terreno elaborado pelo fundo. Lembremos, o proprietário é um fundo de investimento, que foi criado para ser o braço privado na Parceria Público-Privada (PPP) que desenvolveria a região do Porto Maravilha, ou seja, atuaria para desenvolver a região como um fomentador e não um especulador que pode sentar no terreno e esperar a melhor hora de colocá-lo no mercado. A prefeitura é o P, ou a parte pública. Esse braço deveria desenvolver a região, fomentar o desenvolvimento imobiliário ora como investidor, ora como proprietário de terrenos e cepacs. O mercado nunca absorveu o potencial da região, e com isso, o terreno encalhou. Muito grande para um empreendimento comercial ou residencial (117 mil m² antes da desapropriação e 86 mil m² com a exclusão da área do terminal Gentileza), não havia como o terreno ser vendido pelo valor imaginado pelo Fundo.

Duas questões são relevantes: a primeira refere-se ao potencial construtivo originalmente pensado para o terreno, que comportaria torres de escritórios de 50 andares. O potencial construtivo para aquele terreno específico foi definido para que o terreno abrigasse torres de escritórios. Mas atualmente, o mercado do Rio de Janeiro tem uma vacância de 35% nos escritórios, de acordo com o relatório da JLL, empresa imobiliária que emite relatórios semestrais de mercado. Ou seja, não há mercado para escritórios, e possivelmente o terreno ficaria vazio por muitos anos. A segunda questão relevante foi o movimento do fundo para melhorar a sua perfomance financeira. Em 2022, quando o fundo estava em estado de iliquidez, o relatório do próprio fundo sugeria a venda dos ativos do fundo por valores menores do que aqueles pagos originalmente, demonstrando o quanto o terreno não tinha procura. Para tentar viabilizar a comercialização da área, uma consultoria foi contratada para apresentar um master plan e uma estratégia de venda dos ativos da área em questão. O documento, disponível no site do fundo, sugere o desmembramento do terreno em quatro partes: duas seriam destinadas a residências, e duas, de frente para a Francisco Bicalho, para edifícios de escritórios. Nós confirmamos que o fundo iria de fato desmembrar o terreno.

O autor brevemente toca nesse ponto, mas sem a profundidade necessária. Enquanto considero legítima a discussão sobre o que seria melhor para a cidade — um estádio ou edifícios comerciais e residenciais —, o texto falha em relatar que a parte dos edifícios comerciais não seria lançada nos próximos anos e a ativação da região seria comprometida. Ou seja, a discussão que deveria ser mais aprofundada seria: o que é melhor para a cidade, um estádio, potencialmente operacional em seis anos, ou edifícios residenciais, com ativação positiva, mas não excelente, já que se tratariam de condomínios murados, com entrada única e terrenos vazios por muitos anos para futuro desenvolvimento de escritórios? Além disso, edifícios de escritórios têm ativação limitada e, nos finais de semana teriam efeitos reduzidos. A possibilidade de um shopping é remota; ainda que todos os terrenos sejam vendidos para residenciais e todos estejam ocupados, a área de influência primária (isócrona de 5 minutos) seria muito fraca para os padrões atuais de shopping centers. Essa informação também foi confirmada por mim junto a empresas desenvolvedoras de shopping. O próprio terminal Gentileza ainda tem 90% de suas lojas vazias, com uma área locável relativamente pequena de 1770m2de área locável.

Por outro lado, a ativação que o estádio poderia provocar fora dos dias de jogos é significativa. A localização atrairá turistas e haverá um movimento constante no estádio, como hoje acontece na sede do clube. Além disso, um pouco mais de esmero por parte do autor o levaria ao item 4.2.6 do edital, que exige integração com o entorno, usos diversos ao redor do estádio, como lojas, museu, restaurantes, bares e serviços, públicos e privados. Além disso, o projeto deverá prever o desenvolvimento do uso do equipamento, privilegiando uma visão urbana de 24 horas de utilidade, durante todos os dias da semana. Para isso, o edital sugere iluminação, projeção, fachada ativa e priorização da mistura de diversas dimensões de Áreas Brutas Locáveis (ABL) com a finalidade de atração de negócios e consumidores. Além disso, o estádio deverá prever a integração com áreas verdes e espaços livres públicos, promovendo o bem-estar da comunidade local, combatendo ilhas de calor usando arborização, paredes verdes e jardins para retenção de enxurradas. Tudo isso exigido no edital.

Ainda voltando a parte legítima que não foi discutida pelo autor deveria ser entre um estádio, que será obrigado a realizar todas as demandas acima enumeradas, e parte dos terrenos vazios, esperando o momento correto de se tornarem edifícios de escritórios com ativação limitada e inexistente durante os finais de semana. A contribuição do autor seria mais válida se contemplasse a divergência acima.
Há ainda uma questão justa com relação ao impacto na mobilidade, e o impacto de vizinhança e ambiental. O impacto na mobilidade, portanto no trânsito, será avaliado quando o projeto for submetido à autoridade local – CET-Rio. Sem um projeto, não há como definir o impacto, imagina-se que seja alto, mas imaginação não é suficiente para determinar o êxito ou falha de um projeto, em universidades essa dedução seria questionada. É sabido que a CET-Rio é criteriosa em suas avaliações, e reputo o processo de aprovação desse projeto nesse órgão como o mais complexo. Também é sabido que caberá ao Flamengo apresentar um plano operacional, ou seja, qual será a estratégia para os dias de jogos, e a CET-Rio poderá exigir alteração do sistema viário. Os custos dessas mudanças não seriam da prefeitura, isso ficaria por conta do clube. O autor parece desconhecer o processo de aprovação de projetos nas empresas de engenharia de tráfego no Brasil. Recentemente, ao Atlético Mineiro foi exigida uma grande obra viária para a aprovação do seu estádio com custo de R$ 212,4 milhões; além disso recairam sobre o projeto: custos de aprovação Ambiental: R$ 95,3 milhões; Social: R$ 12,7 milhões; para uma obra interna de R$ 750 milhões. Belo Horizonte, com atualmente apenas dois clubes na primeira divisão, tem três estádios, o mesmo número que o Rio de Janeiro, com quatro clubes na primeira divisão.

O edital ainda obriga o clube a apresentar um plano de mobilidade que inclua o acesso às estações de transporte de massa e medidas para adaptação do novo polo gerador de viagens às conexões de vias urbanas existentes. Esse plano somaria na discussão acima entre estádio versus torres de escritórios. Essas exigências não seriam feitas a incorporadoras, comprometendo ainda mais a ativação. Além disso, o edital faz cobranças ao futuro vencedor que não seriam feitas a incorporadoras, como plano de desenvolvimento social com a participação das comunidades locais no desenvolvimento do seu projeto. Não se faz, normalmente, tais exigências às incorporadoras.

Não há dúvida nem discussão sobre a necessidade ou importância de escolas, postos de saúde, mas nenhum desses equipamentos seria entregue pelo fundo que detém o terreno. O que se sabe é que o futebol no Rio movimentou R$ 3,96 bilhões, com 50,9% do Flamengo. Com seu estádio próprio, com potencial de receita ainda maior, é plausível acreditar que a prefeitura arrecadará ainda mais e potencialmente poderá investir nos equipamentos necessários. No momento, a prefeitura não está empregando capital nesse processo de desapropriação, mas sim aumentando a arrecadação em alguns anos.

Finalmente, com relação ao lance mínimo de apenas R$ 138 milhões. Um laudo pericial foi entregue e aprovado. Minha experiência sugere que o valor está abaixo do que poderia ser, mas uma pequena nota, discreta no final do documento, nos lembra: o custo do terreno não considera a descontaminação do mesmo. Mesmo que não custe muito para fazê-lo, contaminação não combina com incorporador, que avesso ao risco, tende a diminuir o apetite por terrenos assim, diminuindo a liquidez e aumentando o risco. Lembremos, o caixa venderia o terreno em partes, receberia o pagamento em anos, talvez de forma parcelada, talvez com permutas, talvez o terreno encalhe. Na desapropriação o terreno será pago a vista, inteiro, vale a conta.

Outro ponto importante, igualmente negligenciado pelo autor foi o acordo feito entre a Prefeitura e o Fundo que, além de expandir o prazo e a área para o uso das cepacs, perdoou dívida de R$4.3 bilhões que o fundo tinha com a própria prefeitura. O fundo não pagou o Prêmio pela Opção de Compra (POC) no valor de R$4,3bilhões. O Fundo e o CCPar (atual denominação da Companhia de Desenvolvimento Urbano da Região do Porto) no dia Em 9 de agosto de 2023, firmaram um Instrumento Particular de Transação e Outras Avenças (“Acordo”) o que fez mudou o status do fundo de iliquidez para liquidez. Não dá para dizer que o Fundo, na relação entre ele e a prefeitura, está sendo prejudicado. Acredito que a prefeitura deve mais explicações com relação a esse "Acordo", mas o texto não se refere a isso, infelizmente, raso mais uma vez. Aí havia um ponto para ser explorado, esse não se relaciona com o estádio nem com o flamengo, mas com a cidade e os contribuintes. O autor não o fez. 

Considero alguns pontos legítimos no texto do autor, mas que foram negligenciados e pouco explorados, conferindo uma contribuição pobre ao debate".






segunda-feira, 15 de abril de 2024

A História Completa do Processo de Licitação do Maracanã




Uma luta de longo prazo, resultado de embates em campo de batalha que se arrastaram a partir de 2023 até a conclusão do processo.


O Passo a Passo de uma história com mais de uma década

1. Após a Copa das Confederações de 2013 foi formado o formado o Consórcio Maracanã com a cessão de licitação do estádio entregue à construtora ODEBRECHT, acionista principal com 90% do capital do consórcio.

2. De 2013 a 2015 o Engenhão é interditado, acusando-se problema estrutural no teto, em obra que havia sido feita pela mesma ODEBRECHT. Sem alternativas, os clubes do Rio são postos contra a parede na negociação de contratos para utilização do Maracanã.

3. Anos depois, os registros financeiro-contábeis referentes a 2013 do BOTAFOGO DE FUTEBOL E REGATAS indicaram o recebimento pelo clube de um suposto empréstimo feito pela ODEBRECHT poucos meses após a interdição do estádio, o qual estranhamente não passou por votação nos conselhos internos do clube, conforme exigia seu estatuto.

4. O FLAMENGO optou por fazer um acordo provisório com o Consórcio Maracanã do fim de 2013 ao fim de 2016, negando-se a assinar por 35 anos, como assinou o FLUMINENSE. O Consórcio Maracanã, sem um contrato de longo prazo com o Flamengo, acumulou prejuízos consecutivos, levando a Odebrecht a decidir passar seu contrato no estádio adiante.

5. O FLAMENGO rebelou-se durante o Campeonato Brasileiro de 2016 contra os preços abusivos cobrados para a utilização do Maracanã e utilizou estádios em Brasília, São Paulo (Pacaembu), Cuiabá, Natal, Florianópolis e Curiacica. Além de que sua diretoria assinou, no final daquele ano, um contrato de utilização por 3 anos do Estádio Luso-Brasileiro, na Ilha do Governador.

6. Em 2017, o governador do Rio de Janeiro que reformou e cedeu o Maracanã (Sérgio Cabral Filho) estava preso. Os executivos da Odebrecht, empresa que venceu o processo licitatório, estavam presos. Os fiscais das contas públicas que não contestaram a licitação, estavam presos. Quatro meses após a prisão do ex-governador, o Ministério Público Federal pediu e o Superior Tribunal de Justiça determinou a prisão de cinco dos sete conselheiros do Tribunal de Contas do Rio de Janeiro. Todos envolvidos nos desdobramentos da Operação Lava-Jato. Os conselheiros foram acusados de receberem propina da Odebrecht, segundo delação de executivos da empresa. 

7. Em 2017 o Governo do Estado do Rio de Janeiro faz intermediação para que a concessão do Consórcio Maracanã fosse repassada à empresa francesa LAGARDERE, com a qual a diretoria do FLAMENGO se negava veementemente a abrir qualquer tipo de negociação.

8. Em abril de 2017 é feita audiência pública sobre o Maracanã na Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (ALERJ). Em Maio de 2017, a LAGARDERE anuncia oficialmente a sua desistência de adquirir o Maracanã.



9. Em Abril de 2019 a concessão à ODEBRECHT foi anulada. Uma nova licitação temporária acabou vencida por Flamengo e Fluminense, cessão esta que foi renovada anualmente até 2024.

10. O Flamengo assumiu a gestão temporária porque era o único clube do Rio de Janeiro que detinha a Certidão Negativa de Débito junto aos órgãos públicos, obtida desde 2013, no início de seu processo de reestruturação financeira. Melhor economicamente do que seus rivais, também foi o único clube capaz de financiar com recursos próprios os investimentos mínimos necessários para manter o estádio operante.

11. Em Novembro de 2023 houve mais um "Chamamento Público" promovido pela Casa Civil do Estado do Rio de Janeiro, através de sua Secretaria de Planejamento e Gestão, aos interessadas em assumir, mais uma vez temporariamente, a Permissão Onerosa de Uso do Complexo Maracanã. No mesmo dia, Flamengo e Fluminense publicam uma Nota Oficial Conjunta afirmando que: a conduta adotada pelo CLUBE DE REGATAS VASCO DA GAMA demonstra que seu discurso durante os últimos meses tinha por objetivo, apenas, tumultuar a permissão de uso concedida ao Flamengo e ao Fluminense, de modo a coagir o Estado do Rio de Janeiro a adotar uma modelagem da concorrência voltada a seus próprios interesses e não ao interesse público. A postura do Vasco da Gama demonstra que não pretende um "Maracanã de todos", mas sim, um "Maracanã de ninguém".


O Novo Processo de Licitação do Maracanã:

- 7 de Dezembro de 2023: propostas entregues por 3 Consórcios, sendo estes o Consórcio Fla-Flu (parceria entre Flamengo e Fluminense), Consórcio Maracanã Para Todos (parceria entre o Vasco da Gama e a empresa WTorre, gestora do Estádio do Palmeiras), e Consórcio RNGD ARENA 360 (empresa administradora do Estádio Mané Garrincha, em Brasília). Em 19 de dezembro, a Comissão de Licitação do Governo do Estado habilitou os 3 concorrentes e abriu prazo para impugnações.

- Fevereiro de 2024: Governo do Estado do Rio rejeita todos os argumentos de todas as 6 impugnações apresentadas contra o processo - CONCLUSÃO DA FASE 1.

- 5 de Março de 2024: Abertura dos 3 Envelopes com as Propostas Técnicas dos classificados (equivale a 60% do peso da pontuação final da concorrência) e nova abertura de prazos para recursos. Para atender o mínimo de 70 partidas realizadas por ano: Consórcio Fla-Flu propôs 70 jogos de Flamengo e Fluminense como mandantes; Consórcio Maracanã Para Todos propôs jogos de Vasco (34 partidas), Santos (35 partidas) e Brusque (5 partidas); e Consórcio RNGD propôs 60 jogos como mandantes para qualquer clube que chegue a acordo com ele e ofereceu 10 datas para escolha da Federação de Futebol do Estado do Rio de Janeiro (FFERJ).

- 10 de Abril: divulgação das notas referentes às Propostas Técnicas, tendo o Consórcio Fla-Flu recebido 117 pontos, e o Consórcio Maracanã Para Todos recebido 81 pontos, entre outras coisas por considerar que a inclusão de partidas de Santos e Brusque feriam as condições do edital; o Consórcio RNGD recebeu 54 pontos, sem atender aos requisitos mínimos e, assim, sendo desclassificado da disputa, não seguindo à Fase 3 - CONCLUSÃO DA FASE 2.

- 18 de abril: Vasco/WTorre entram com recurso pedindo revisão de sua nota e desclassificação de Flamengo e Fluminense por uma suposta falta de descrições de detalhamentos exigidos na proposta do Consórcio Fla-Flu. Com a apresentação do recurso, a abertura dos envelopes financeiros foi remarcada de 25 de abril para 8 de maio.

- 6 de maio: apresentado o resultado do julgamento do recurso impetrado por Vasco/WTorre com a revisão da nota do Consórcio Maracanã Para Todos, que aumentou de 81 para 85 pontos, e com manutenção da nota do Consórcio Fla-Flu em 117 pontos.

- 8 de Maio de 2024: abertura dos Envelopes com as Propostas Financeiras dos classificados (equivale a 40% do peso da pontuação final da concorrência) e nova abertura de prazos para recursos. As propostas foram praticamente iguais, mas o Consórcio Fla-Flu também venceu a esta fase, tendo oferecido R$ 20.060.874,12 a serem pagos anualmente ao Governo do Estado do Rio de Janeiro, já o Consórcio Maracanã para Todos ofereceu R$ 20.000.777,28 por ano - CONCLUSÃO DA FASE 3.

- Dentro dos critérios de pontuação determinados: o 1º lugar ficou com o Consórcio Fla-Flu, que obteve um total de 120,2 pontos (117 x 60% + 125 x 40%) e o 2º lugar ficou com o Consórcio Maracanã para Todos, formado por 777, Vasco da Gama e WTorre, que obteve m total de 97 pontos (85 x 60% + 115 x 40%).

- 21 de maio - Publicação do Resultado da Licitação no Diário Oficial: o Consórcio Fla-Flu foi declarado oficialmente pelo Governo do Estado do Rio de Janeiro como o vencedor do Processo de Licitação do Maracanã, ficando responsável pela gestão do estádio por um prazo de 20 anos (2024-2044). A partir de então havia 5 dias úteis para a apresentação de recursos, e mais 5 dias úteis para a avaliação de eventuais recursos apresentados.

- 4 de junho de 2024 - Publicação do Resultado Final de Licitação no Diário Oficial, com o Consórcio Fla-Flu tendo sido oficialmente declarado como vencedor do Processo de Licitação - CONCLUSÃO DA FASE 4.




terça-feira, 15 de maio de 2018

Quanto custa para o Flamengo não ter seu Estádio Próprio


Complementando o assunto "Flamengo e Maracanã", compartilho a análise de Bruno De Laurentis publicada no site Mundo Rubro-Negro, que foi divulgada em 6 partes sob o título "O Preço do Maracanã", todas estas partes estão agregadas abaixo:

Nada sai barato no "New Maracanan" e É PÚBLICO E NOTÓRIO PARA TODO RUBRO-NEGRO QUE O FLAMENGO PRECISA DEFINIR SEU ESTÁDIO!!!

Dentre as opções possíveis, a que seria mais fácil: o Maracanã, o templo rubro-negro, preferido de 9 em cada 10 torcedores. No mundo ideal, nada ficaria entre o clube e “seu” estádio, pois é óbvio quem ocupou o estádio por 68 anos e tem como direito o usucapião que lhe foi usurpado pela gangue do ex-governador vascaíno em edital de cartas marcadas com os partícipes todos presos, desde os empreiteiros, passando por membros do Tribunal de Contas do Estado do Rio de Janeiro, até o próprio ex-Governador.

Alguns alegam que o Maracanã atual, o New Maracanan, tem custos altos demais para ficar na mão de um só clube. E é verdade se for da maneira atual. A reforma do estádio para a Copa de 2014, na verdade uma reconstrução, foi feita para uma Copa do Mundo e para atender seleções, torcidas mistas, com acabamentos caros e custo operacional gigantesco. Por exemplo, dizem os especialistas que o quadro de energia é mal setorizado, tal qual o ar-condicionado, que dificulta operar apenas uma parte do estádio em jogos de baixa demanda. Fora que um estádio tão grande, no mundo de hoje, demanda um número de seguranças privados gigantescos por partida, fora bilheteiros, organizadores e limpeza.

Outro problema é a falta de divisão física para 90%/10% de público, que representa 97% de todos os jogos da Série A do Campeonato Brasileiro (considerando que todos os clássicos cariocas sejam no estádio), muitos lugares acabam perdidos devido à demanda do GEPE (Grupamento Especial de Policiamento em Estádios), em média 8 mil lugares que não podem ser vendidos.

Para piorar, a Lei de Gratuidade do Rio de Janeiro obriga que 10% do total de ingressos emitidos para a partida sejam oferecidos para, principalmente, menores de idade e idosos (recentemente a lei foi revista e baixaram a idade mínima para idosos de 65 para 60 anos). Mas ao mesmo tempo que o clube não pode vender esses milhares de ingressos, precisa arcar com os custos por assento de todas as gratuidades, que incluem luz, água, segurança, emissão de tíquete de gratuidade, bilheteiro, limpeza e organizadores.

Ainda por cima há as cativas do estádio, aproximadamente 5 mil lugares, que não pagam ingresso e também demandam custo de operação por assento.

Vejamos:
– Maracanã tem hoje capacidade total de 78 mil lugares
– 10% são gratuidades, ou 7.800 lugares
– 10% são visitantes: mais 7.800 lugares que não necessariamente são vendidos
– 5 mil lugares são cativas, não há arrecadação
– GEPE isola até 8 mil lugares para separar visitantes no Setor Sul

Temos então um número de assentos de 28.600 lugares que não são vendidos aos seus torcedores na maioria das vezes, variando para mais ou menos dependendo do número de visitantes e tamanho do cordão de isolamento do GEPE. E isso representa em média 35% da capacidade total do estádio.

Então, num jogo de casa cheia, o Flamengo tem à sua disposição aproximadamente 50 mil lugares (dependendo do GEPE) para vender, mas paga o custo operacional de 78 mil assentos. E no modelo atual do estádio, não fica com lucro de consumos, como bares e estacionamento.

Uma conta dificílima de fechar, e não estamos nem considerando aqui o ALUGUEL do estádio, assunto que abordaremos ainda.

Um adendo interessante: as cadeiras usadas no estádio, da empresa Giroflex, com alto custo por unidade e aprovada em também estranha licitação, não existem mais para adquirir. Toda vez que uma cadeira quebra no estádio, um buraco surge no lugar, uma vez que a empresa italiana decretou falência há 3 anos. Nada sai barato no New Maracanan.

Levando em conta tudo que permeou o processo de “fechamento” do Engenhão, onde o Flamengo jogava desde outubro de 2010 e tinha assinado contrato até dezembro do mesmo ano. Todo um tempo em que jogando num estádio que não é seu, o clube viu-se impedido de jogar, total ou parcialmente, prejudicando o ritmo de público crescente que tinha desde a temporada 2006, que houvera passado de 40 mil pessoas por jogo consistentemente.

Mas tratando apenas do Maracanã:
– Em julho de 2013 o Flamengo assinou um contrato de 6 meses com o Maracanã
– Em janeiro de 2014 renovou o contrato por 3 temporadas, encerrando em 2016

“Este acordo foi feito de maneira muito bem pensada, levando-se em conta a força do Flamengo e seu enorme potencial de geração de receitas. Até o final do ano, vamos avaliar os resultados financeiros e técnicos obtidos com os jogos no Maracanã para decidir sobre um possível futuro contrato. Tenho certeza que a torcida está feliz” – disse Eduardo Bandeira de Mello.

Vale ressaltar que Fluminense, primeiro clube a acertar com o Consórcio Maracanã em 2013, assinou por 35 anos, que render-lhe-iam segurança a longo prazo. Mas isso não significou muita coisa, uma vez que o Consórcio ingressou em 2016 contra o Flu na justiça e conseguiu passar ao clube parte dos custos de operação e um valor mínimo de aluguel, pois o clube tricolor nada pagava e ficava apenas com a arrecadação dos setores atrás de cada gol. Como não tem muita assiduidade de público, os torcedores passaram a frequentar preferencialmente atrás dos gols, o que causava muito desconforto ao Consórcio.

Posteriormente, o Botafogo também assinou com o Consórcio por 2 anos, 2013 e 2014, e renovou por outros 33 anos a partir de 2015 tal qual o Fluminense. Isso representou para o Consórcio a segurança de ter os dois clubes exigidos por licitação sob contrato e o risco de ter sua licitação cassada anulado. O Flamengo deixou de ser um problema para a Odebrecht com a assinatura alvi-negra. E assim como os outros clubes, o Botafogo pegou pelo negócio um gordo dinheiro que até hoje, ao que se sabe, não devolveu. E enquanto era aliado do Consórcio proibindo o Flamengo de jogar no Engenhão – e asfixiando o Flamengo para jogar no Maracanã – sequer foi cobrado pelo empréstimo vencido. Vale aqui dizer que Flamengo pegou também valiosa quantia com o Consórcio, porém devolveu o empréstimo e à vista, com desconto de 5 milhões de reais.

É notório que o Flamengo precisa de um estádio para jogar. E não tê-lo sempre tornou o Rubro-Negro figurinha carimbada na mão de FERJ, Governo do Estado, Consórcio e suas empreiteiras, empresários do grupo de Cabral e outros asseclas. Estão atualmente enjaulados: Eike, Cabral, Membros do TCU, Marcelo Odebrecht e companhia. Mas o Flamengo também teve suas decisões que causaram os imbróglios que que vivemos recentemente, que nos deixaram nômades e que certamente impactaram na performance do clube no período.

Em 2013, assinado com o Maracanã, o clube viu a glória. Salvou-se do rebaixamento no estádio e terminou em 11º lugar, conquistando a sua terceira Copa do Brasil com casa cheia. De posse de 8 milhões de renda só com a partida final da Copa do Brasil no estádio (mas perdendo mais de 1 milhão com custos), o clube acreditou que o modelo de negócio estava aprovado e assinou por mais 3 temporadas, até 2016.

O problema é que em 2014 o estádio fechou em março e só voltou a receber jogos de clubes após a Copa. Ainda assim, recebeu finais de turno e a grande final do Estadual – que o Flamengo levou sobre o Vasco – e mais partidas de Brasileirão, Copa do Brasil e Libertadores. Na Libertadores, nos 3 jogos em casa, o clube teve renda média de 2,3 milhões de reais por partida. No total, em 26 partidas, a bilheteria bruta foi de 33 milhões de reais.

Em 2015, o Flamengo jogou regularmente no estádio, mas a fraca temporada impactou nos resultados e não tivemos a mesma expressividade, uma vez que batemos recordes de derrotas no Brasileiro, não chegamos nem à final do Estadual e tivemos campanha pífia nas Copas.

No início de 2016, o Maracanã fechou para ser preparado para as Olimpíadas. Ficou nas mãos do Comitê Rio 2016 que abriu o famoso buraco no meio do campo para a abertura, tão noticiado pela imprensa. O Flamengo ficou sem casa e precisou rodar o país, jogando fora de casa sem o mando e também fora de casa com mando de campo. E aí o Flamengo se superou, mesmo com um interino efetivado no cargo, redescobrindo que não importa onde jogue, carrega consigo uma massa rubro-negra nacional. E acabou definindo como sua “casa” o Estádio de Cariacica, que tão bem o recebeu ao longo do ano. Acabou perdendo o campeonato por um desequilíbrio de elenco no jogo mais importante, e na reta final foi superado até pelo vice-campeão quando retornou ao Maracanã para as quatro partidas finais com desempenho abaixo da média.

Vale ressaltar que diante da inércia do Comitê Rio 2016, que não finalizara a recomposição do estádio para devolvê-lo ao Consórcio Maracanã, que por sua vez não aceitava recebê-lo no estado em que estava, o Flamengo comprometeu-se a fazer a reforma do gramado e até acelerou a instalação de cadeiras, retirada de lixo e remanejamento de materiais. O clube gastou 2 milhões de reais aproximadamente para deixar o estádio apto para jogar a reta final do Campeonato Brasileiro que disputava cabeça-a-cabeça, pagando até mesmo a conta de luz atrasada – o estádio estava sem fornecimento.

Outro ponto importante aqui, é que o Flamengo tinha o Engenhão como carta na manga. Como jogou lá entre outubro de 2010 e março de 2013 com algum sucesso, o Flamengo contava com o estádio de 45 mil lugares no caso do Maracanã endurecer negociações como um trunfo. Mas o ex-presidente alvi-negro Carlos Eduardo Pereira, o CEP, endureceu com o Flamengo dizendo ser por causa do "caso Arão", do "caso Porta dos Fundos" e por causa da morte de um torcedor de organizada botafoguense no entorno do Engenhão. Mas no plano de fundo, recebeu as luvas já citadas no texto pelo contrato de 35 anos e durante o período em que endureceu com o Flamengo, curiosamente nunca foi cobrado pela empreiteira.

Esta sucessão de agentes contra o Flamengo deixou o clube sem saída. Mais uma vez, Flamengo era o trem pagador do Estado, reformando patrimônio público e privado alheio com altos custos, nunca ressarcidos. E é por isso que é tão difícil que permitam-nos ter nosso estádio.

Em 2017, o Flamengo ficou sem contrato com o Maracanã, e passou a fechar seus jogos individualmente. A partir daí o calvário do clube, já penoso, passou a ser insuportável. Fechou um pacote de 3 jogos para a primeira fase da Libertadores, onde recolheu com sucesso três boas vitórias em casa, renda bruta de 8 milhões de reais, porém deixou entre 40 e 50% do total para trás com perdas significativas.

Dessa vez, além dos altos custos operacionais e de infra-estrutura do estádio, o clube tinha altíssimo aluguel a pagar. Esse altíssimo novo preço tornou inviável que clube jogasse no Maracanã suas partidas de Campeonato Estadual e jogos iniciais de Copas.

O Consórcio, asfixiado pelo descumprimento do contrato com o Estado do Rio em que constava na operação a construção de edifícios garagens, torre comercial e outros empreendimentos no Complexo Esportivo, viu que sua conta não fecharia e sinalizou que desejava encerrar o contrato devolvendo o Complexo.

O Governo do Estado do Rio, que quebrado não consegue sequer pagar seus servidores e acionara até o Governo Federal para salvar suas contas, não quer receber o Complexo Esportivo de volta que demanda 55 milhões de reais anuais de manutenção.

Ao mesmo tempo, diz o Governo que contratou a FGV para criar um novo edital para o Complexo do Maracanã, desta vez permitindo que um clube opere o Consórcio. O Flamengo diz ter acordo com CSM e GL Events para entrar na concorrência totalmente estruturado. Mas o que temos de real é que o Edital nunca veio a público e que o Governo do Estado teme que a devolução imediata do Complexo ao Rio venha acompanhado de uma ação indenizatória de custos milionários cobrando quem rompeu o contrato de licitação primeiro. Quem o fez foi o Governo do Estado do Rio de Janeiro, ao impedir a demolição do Museu do Índio, do Parque Aquático Julio DeLamare, da Escola Pública Friedenreich (escola pública de melhor IDEB municipal) por pressão popular, tornando a operação do Complexo deficitária. Ao mesmo tempo, a Odebrecht teme romper unilateralmente o contrato e ser acionada judicialmente pelo Governo do Estado. E fica o jogo de empurra-empurra entre todos.

Então no meio desta disputa, o Flamengo, sem contrato com o Consórcio, passou a ser o maior prejudicado. Coube a ele custear a precificação da operação do Complexo, chegando a pagar 750 mil reais de aluguel por jogo. Fazendo um cálculo simplista, se nosso clube jogasse 40 partidas no estádio por ano, deixaria no caixa do Consórcio 54% do total anual de manutenção do Complexo. O resto o Consórcio arrecadaria com shows, eventos e jogos dos outros clubes, assim, fechando seu ano fiscal sem prejuízos colossais. O prejuízo agora era único do Flamengo, coagido e sem opções.

E isso não poderia continuar assim, então o clube, que já estudava desde 2016 um estádio pequeno para alugar e chamar de seu provisoriamente, viu o “sucesso” do Botafogo com a Arena Botafogo no Estádio da Ilha do Governador, e em fevereiro de 2017 deu início à construção de seu próprio estádio provisório na Sede da Portuguesa, mas dessa vez com piso pavimentado, transposição de canal pluvial que ameaçava o terreno, Praça de Alimentação com Contêineres, arquibancadas de melhor qualidade e personalização do Estádio.

Inaugurado com atraso, chamado de Ilha do Urubu, o estádio iniciou bem, apesar da precificação alta e com muita reclamação da torcida e do acesso ruim via Linha Vermelha, que é conhecida por eventos diários de violência urbana. Porém em pouco tempo a precificação mostrou-se incorreta, uma vez que todos os fatos acima elencados tornou a Ilha um praça de desportos que tinha dificuldade de lotação, apesar de oferecer apenas 18 mil ingressos aos rubro-negros (fora o setor visitante com 2 mil lugares).

Causou estranheza o custo de operação do estádio mostrando-se semelhante ao do Maracanã, que é quase 4 vezes maior em público total, tamanho, estrutura... e quando o impacto inicial passou, acumularam-se jogos com prejuízo, com públicos entre 5 e 8 mil pessoas. O maior exemplo foi Vinicius Junior, já vendido para a Europa, fazendo seus primeiros gols todos no Setor Sul, com seus tentos viajando pelo mundo com arquibancada fechada, sem torcedores, prejudicando a imagem do clube de maior torcida do mundo.

Ainda assim, o clube teve rendimento técnico ótimo na Ilha, com altíssimo aproveitamento. Proximidade da torcida do gramado pressionou muito os adversários, apesar da acústica ruim por não haver cobertura e ser conhecido por fortes ventos. Foi nele, no Estádio dos Ventos Uivantes, que aconteceu o primeiro gol da história de goleiro com bola rolando, do rubro-negro Ubirajara. Jogamos contra Palestino e Chapecoense lá pela Sul- Americana nas fases 16 avos e oitavas de final, e também contra o Santos nas quartas da Copa do Brasil.

No Brasileiro, ótimo aproveitamento também. A sexta colocação na tabela passou pelo rendimento péssimo fora de casa, ao contrário do excelente rendimento como visitante de 2016. A Ilha foi ótima nesse aspecto técnico.

Com a troca de presidente do Botafogo e uma nova reaproximação entre os clubes, o Flamengo pensou no início de 2018 que finalmente abandonaria o Maracanã e seus preços exorbitantes, uma vez que teria a Ilha do Urubu para jogar partidas de baixa demanda como as de fases classificatórias de estadual e contra clubes de menor expressão ao longo do Brasileirão e das fases menos agudas das Copas. O Flamengo pensou até mesmo em jogar a Libertadores na Ilha do Urubu. Curiosamente, tudo deu errado. De novo.

Na Libertadores, mudou ESTE ano o regulamento que agora PROÍBE que clubes joguem com arquibancadas provisórias em competições sul-americanas. A proibição inclui Libertadores, Sul-Americana e Recopa. Além disso, o Flamengo pegou dois jogos de punição e multa de 1 milhão de reais pelos eventos da final da Copa Sul-Americana no Maracanã de 2017.

E para piorar, com uma forte chuva, as torres de iluminação do estádio Ilha do Urubu do lado Oeste caíram, uma sobre o gramado ao lado da arquibancada Sul e outra para fora ao lado da Norte. Parte da pavimentação cedeu com o encharcamento do terreno em dois pontos e o clube fechou o estádio para que fossem feitas perícias contratadas com o intuito de repassar todo esse prejuízo para o responsável pelas falhas, seja a empresa projetista, a que executou a obra ou a fornecedora de material.

Com todo o tempo que perícias e ações judiciais demandam, era confortável dizer que a Ilha não voltaria em pouco tempo. Lembro que à época, disse que não seriam menos de 3 meses. E errei, pois o Flamengo estima que será apenas depois da Copa do Mundo. Bem mais que os 3 meses previstos.

Sem dúvida, uma ação rubro-negra pesou na balança de toda essa disputa: o Terreno de Manguinhos. A opção de compra foi uma importante ferramenta para que as outras partes cedessem mais em negociações, uma vez que comprado o Terreno, não haveria como voltar atrás, e seria muito difícil tirar do Flamengo o direito de lá construir seu estádio. O clube teve o dinheiro e a opção de compra, e não se enganem que isso não tenha pesado nessa nova postura dos agentes Estado/RJ e Consórcio Maracanã.

Tenha certeza de que por isso houve a reaproximação com o Consórcio Maracanã. Treino aberto sem cobrança de aluguel, jogos com aluguel de 250 mil reais contra América, Internacional... Jogo da Libertadores contra Emelec no estádio. Curiosamente a reaproximação deu-se após o Consórcio cassar a liminar judicial do Flamengo obtida há pouco tempo que determinou piso e teto para valor do aluguel. Consórcio estava liberado para cobrar os aluguéis exorbitantes, mas curiosamente as partes entenderam-se e estão praticando o valor de 250 mil reais nestes últimos jogos, que afastou a princípio a necessidade de jogar no Engenhão – que tinha aluguel não muito diferente.

Sabemos também que cresce um movimento no clube de fazer acordo com o Consórcio, que agora sinaliza até negociar participação nos bares e retirar parte das cadeiras da arquibancada Norte Superior para aumentar o número de ingressos à venda. Além disso, o pacote seria para 20 jogos e com prazo de 3 ou 4 anos. Como o prazo excederia o mandato do atual presidente, o contrato seria levado à votação no Conselho Deliberativo do clube. Como informou Gaby Moreira, repórter ESPN, há um novo agente no negócio e essa empresa assumiria parte do aluguel e dos gastos operacionais em troca da exclusividade de exploração nos chamados “ativos de marketing” do estádio que são, em resumo, publicidade nas áreas não exploradas pela TV, como corredores, telão e nos túneis que levam o público até as arquibancadas. Mas aí entra a Ilha do Urubu de novo. O que fazer com ela?

Em 2018 já teria os tais 20 jogos. A Ilha do Urubu, lá fechada, demandando custo para reforma de pavimentação, gramado, torres e envelopamento das arquibancadas provisórias, o que fazer? O Flamengo paga um aluguel mensal de 300 mil reais mensais à Portuguesa da Ilha do Governador. Até o fim do ano, seria dinheiro no lixo. Cresce nos bastidores um movimento que, em caso de acordo com Maracanã, adiante-se o encerramento do contrato da Ilha do Governador. Se o clube mandar um jogo na Ilha do Governador em um mês, o custo do aluguel será de 300 mil reais, o que surrealmente seria maior que o aluguel de um jogo no Maracanã. No caso de dois jogos, sairia 150 mil cada jogo, enquanto no Maracanã custaria 250 mil cada jogo e você poderia arrecadar mais no total e ter mais gente no estádio. Além disso, o Maracanã com o time em boa fase permite a melhor precificação, enquanto na Ilha os ingressos baixos não pagam o custo de operação e causam prejuízo maior. No Maracanã o Flamengo perdeu apenas um jogo desde 2015, desempenho técnico quase tão bom quanto o da Ilha do Urubu.

Com todos os pontos elencados, o que você faria? Ainda mais com o furo da repórter da ESPN que talvez o clube nem mesmo precise mais arcar com alguns custos do Maracanã? Bem, como também adiantou o site Mundo Rrubro-Negro, em furo de reportagem, a atualização do Decreto de Cessão da Gávea que resolveu o impasse dos “fins comerciais”, incluiu a assinatura de uma carta de intenções que permitiriam ao clube trabalhar pelo Estádio da Gávea. Ano passado o prefeito Crivella também acenou ser favorável à medida, assinando carta de intenções semelhante. Pela primeira vez desde o meio da década passada, o Flamengo tem os poderes municipal e estadual a seu lado (aparentemente, pois em ano eleitoral nem tudo pode ser levado a ferro e fogo) para levantar seu estádio na Gávea. Acústico, como quer o prefeito, ou boutique, como preferem diretoria e Governo do Estado.

Todos esses movimentos não são em vão. Em 2013, conforme coluna de Renato Maurício Prado, e em 2015, conforme Ancelmo Góes, Odebrecht e Pezão sinalizaram positivamente para a construção de um estádio pequeno para o Flamengo, até mesmo com parceria da empreiteira. Para a empreiteira é a melhor solução, pois um pequeno estádio na Gávea inviabilizaria o clube de mandar jogos de grande apelo fora do Maracanã. Quando o clube acena com a construção de um estádio no terreno de Manguinhos, desenterram projeto de alça de ligação entre Ponte e Avenida Brasil, esquecido há uma década. Tudo sempre será feito para que o Flamengo não tenha um estádio à altura de seu porte, porque ele é o trem pagador do Rio de Janeiro.

Quando o poder público e privado acenam positivamente para o Flamengo na Gávea com estádio de 20 mil pessoas, eles sabem que perderão apenas os jogos de estadual contra pequenos (pouco lucrativos) e talvez no máximo uma dúzia de jogos ao longo da temporada contra equipes que não causam nenhuma comoção na torcida. Os jogos grandes, o grande público continuaria no Maracanã.

Então não estranhem o movimento. Talvez até nessa articulação recente de reaproximação com o Consórcio Maracanã já estejam engatilhando o estádio. São muitos fatos acontecendo concomitantemente entre os mesmos agentes de sempre, que costumam dividir o tabuleiro mas nem sempre em lados opostos.

Circula também que o Flamengo pensa e avalia desmontar a Ilha do Urubu e levar a estrutura provisória para a Gávea, mantendo a mesma estrutura. Nesse caso, deixaria de pagar o aluguel mensal à Portuguesa e teria menor custo por jogo. Um bom histórico em seus primeiros jogos em sua sede desarmaria a vizinhança/Amaleblon e provaria que o clube pode ter seu estádio em sua sede com estrutura definitiva. O metrô está lá para ajudar. O estacionamento do combalido Jockey Club espera ansioso por essa receita.

Todas as partes tem boas cartas. Infelizmente o clube é o que joga com o blefe. Blefa quando pressiona dizendo que não assina com A ou B. Blefa quando diz que vai comprar um terreno. Blefa quando alega poder manter o Maracanã inteiro sozinho como ele é hoje. Apenas jogando com inteligência poderá resolver seu problema histórico de não ter um estádio operacional para chamar de seu. Que não erremos a mão. Nosso futuro depende disso.


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