quarta-feira, 14 de julho de 2021

Hall da Fama do C.R. Flamengo: VEVÉ


VEVÉ: típico driblador arisco, mas mortal

Carreira: 1939 Remo (PA); 1939-41 Galícia (BA); 1941-1948 Flamengo

O ponteiro rápido e driblador, aquele cujo futebol é tão habilidoso e abusado que suas fintas beiram a galhofa, é um perene favorito de torcedores em todos os cantos do planeta. No Flamengo, com longa folha corrida de prestígio ao futebol ofensivo e técnico, não seria diferente. Ponta-esquerda arisco e driblador, atuou pelo Flamengo de 1941 até 1948. É considerado um dos mais ofensivos pontas da história do Flamengo. Magro e baixo, ele era rápido nos deslocamentos, o que lhe permitia driblar com facilidade todos os marcadores que apareciam pelo caminho. Mesmo possuindo um chute fraco, finalizava com precisão. Essas características o fizeram ser considerado um dos jogadores mais queridos pela torcida do Flamengo em todos os tempos.

Pelo Flamengo, ele fez 210 jogos e marcou 92 gols.


Abaixo, estão combinados os textos de Emmanuel do Valle no site "Flamengo Alternativo" e de Rafael Oliveira no site "Heróis do Mengão":

Vevé, o Everaldo Paes de Lima, nasceu em Belém do Pará. Há uma certa divergência quanto ao ano de nascimento correto de Vevé. A maioria das fontes apontam para a data de 14 de março de 1918, mas o obituário do craque escrito por Geraldo Romualdo da Silva para o Jornal dos Sports cita uma suposta entrevista do jogador na qual ele afirmava ter nascido em 1917.

Ele começou a jogar bola nos campinhos da Travessa Quintino Bocaiúva, na capital paraense, e logo foi levado para o Remo, onde chegou ao time principal com apenas 18 anos, sagrando-se campeão do estado já em 1936.

Em 1939, jogando pela Seleção do Pará, teve boa atuação contra o escrete baiano, sendo prontamente contratado pelo Galícia, uma das forças do futebol soteropolitano da época. O time da colônia espanhola de Salvador – que em breve levantaria um então inédito tri-campeonato estadual – era forte a ponto de derrotar o Vasco num amistoso disputado na Boa Terra em março de 1941. O resultado foi destaque na imprensa carioca e fez crescer os olhos dos clubes da cidade sobre o excelente ponteiro baixinho e de bigode fino. Vevé esteve perto de ir para o próprio cruzmaltino, mas as negociações não andaram. Foi levado então ao Botafogo, mas seu tamanho não lhe deu muito crédito. Depois de consagrar-se Campeão Baiano de 1941, seu sucesso chamou a atenção do Flamengo, que lhe contratou no mesmo ano.

Vevé pegou um "ita" em Salvador (famosa linha de transporte marítimo que partia do Norte e Nordeste com destino ao Rio de Janeiro, então capital federal), desembarcando outra vez no Rio em 20 de maio de 1941. Seguiu direto para a Gávea, treinou e foi aprovado. Mas demorou quase um mês para entrar de vez no time: o Galícia pediu uma quantia significativa por seu passe, e o Fla teve trabalho para negociar, até poder enfim escalar o ponteiro na partida contra o Canto do Rio, pela sétima rodada do Campeonato Carioca, no dia 15 de junho nas Laranjeiras.

Substituindo o lendário Jarbas, o "Flecha Negra", dono da ponta-esquerda do Fla desde sua chegada ao clube em 1933 e então lesionado, Vevé exibiu seu cartão de visitas logo aos cinco minutos de jogo. Um drible espetacular no zagueiro Degas e um chute forte e alto, fuzilando o experiente goleiro Wálter Goulart (ex-Flamengo e Seleção Brasileira da Copa do Mundo de 1938) e estufando as redes do time niteroiense. Acabou mantido na equipe pelo resto do campeonato, que infelizmente não terminou bem para os rubro-negros. Depois de liderar a maior parte da competição, o time perdeu o gás na reta final e viu o Fluminense levantar a taça no famoso "Fla-Flu das bolas na Lagoa". Mas pôde levantar a cabeça em vista do punhado generoso de jovens talentos que possuía.

Naquela temporada de 1941, o Flamengo começara aos poucos a renovar seu elenco. Juntamente com Vevé, chegaram outros nomes que se consagrariam no tri-campeonato carioca que viria nos anos seguintes e que se eternizariam como gigantes na história do clube. Do Paraná, chegou o lateral-direito Biguá. De Minas Gerais, o médio-esquerdo Jayme de Almeida. Do futebol uruguaio, chegou o centroavante gaúcho Pirilo. Além deles, também chegaram jogadores que participaram da campanha do tri, mas não chegaram a se firmar como titulares, caso do zagueiro gaúcho Barradas e do meia-esquerda baiano Nandinho. Sem falar em pratas da casa, como Zizinho, que disputara sua primeira campanha no time de cima no ano anterior.

Assim como naquele tempo cada jogador tinha uma posição bem marcada, naquele time cada um tinha um conjunto de talentos que delineavam não só um estilo de jogo como também uma personalidade. Domingos da Guia tinha a frieza e a elegância. Biguá era todo raça e pulmão. Jayme era o símbolo do dinamismo e da lealdade. Ziizinho era a técnica e a clarividência. Pirilo, a valentia e o faro de gol. Vevé, naturalmente, também tinha sua tradução: era o homem do cruzamento preciso, milimétrico, mas sobretudo do drible malicioso, da finta seca que desnorteava os adversários, escondendo deles a bola como um adulto brinca de iludir uma criança.

Certa feita, o Vasco trouxe do futebol pernambucano um defensor chamado Luís Zago, conhecido como duro e intimidador, com o objetivo de parar Vevé. Até que veio o primeiro confronto. No começo do segundo tempo, o ponteiro rubro-negro recebeu lançamento de Perácio no bico da área e esperou a chegada do beque. Zago se apresentou e levou o primeiro drible. Quando olhou, já tenha levado o segundo. E o terceiro. Tentou esboçar alguma reação e levou o quarto. Depois o quinto. Quando enfim levou o sexto, só lhe restou cair estatelado no chão. Assim, Vevé só precisou dar alguns passos com a bola dominada e encher o pé para estufar as redes. E Zago foi prontamente descartado pelo Vasco.

Outra característica de Vevé eram seus espetaculares chutes de sem-pulo, muitos deles parando do lado de dentro das redes. A habilidade de escorar de primeira, com força e precisão, uma bola alta, vinda da direita (especialmente em escanteios cobrados por Valido) ficou registrada na memória até mesmo do jornalista Armando Nogueira, cronista pouco simpático ao Flamengo, ainda que também nortista. Quando do falecimento do jogador, Armando relembrou em sua coluna no Jornal do Brasil que a jogada foi tornada tão marcante pelo ponta que, tempos depois de já ter parado de jogar, um gol de sem-pulo feito por qualquer atleta passou a ser chamado de "gol de Vevé".

A habilidade fora do comum com a bola – fosse para chutar com força ou driblar com sutileza, para iniciar ou concluir uma jogada – foi exemplarmente demonstrada em vermelho e preto ao longo da temporada de 1942. O ponteiro terminou a competição como o vice-artilheiro rubro-negro, autor de 18 gols (número inferior apenas aos 22 de Pirilo). Alguns decisivos, como os dois na vitória por 2 a 0 diante do São Cristóvão (quarto colocado naquele ano, é bom lembrar) em Figueira de Melo e aquele que deu a vitória dramática de virada, no último minuto, ao Fla diante do America em Campos Sales por 4 a 3. Mas não apenas balançando as redes: Vevé brilhou também nas assistências.

O tento marcado por Pirilo na vitória por 1 a 0 sobre o Fluminense na Gávea, pela última rodada do segundo turno, que colocou de vez o Fla na briga pelo título, teve sua jogada iniciada em Vevé, rabiscando por duas vezes o zagueiro Norival e limpando a jogada para o meia Nandinho cruzar para a cabeçada do centroavante gaúcho. Em outro jogo crucial, novamente contra o São Cristóvão, agora pela penúltima rodada do terceiro turno, em São Januário, o Fla passava por apuros: o time cadete jogava melhor e em vários momentos poderia abrir o placar. Mas quem o fez foram os rubro-negros, em cobrança de falta lateral que Vevé colocou na cabeça de Valido, abrindo o caminho para a vitória por 4 a 0.

Aclamado como o melhor ponta-esquerda do campeonato, Vevé foi chamado para a Seleção Carioca, que disputaria no fim do ano o Campeonato Brasileiro de Seleções. O título ficou com São Paulo, após decisão em quatro partidas épicas. Mas os paulistas já haviam tido a oportunidade de se impressionar com o talento do jogador rubro-negro ao vê-lo em ação no Pacaembu em duas ocasiões naquele ano. A primeira no troféu Quinela de Ouro, em março, quando ele marcou os dois gols na vitória por 2 a 1 diante do São Paulo. E a segunda em outubro, logo após a conquista do título carioca, quando o Fla excursionou por lá, vencendo ao Palmeiras campeão estadual por 2 a 1 (novamente dois gols de Vevé) e o Corinthians por 4 a 2 (com mais um tento do ponteiro), além de empatar com o São Paulo em 3 a 3.

Na virada daquele ano, além de ver, também era possível ouvir Vevé. O ponteiro, juntamente com Pirilo e o meia-esquerda Nandinho, foi um dos três cantores do samba "Coisas do Destino", composto pelo mestre Wilson Baptista, rubro-negro honorário, e lançado no Carnaval de 1943. O refrão dizia: "Ai, ai, são coisas do destino / Sou rubro-negro, meu patrão é vascaíno / Ai, ai, este emprego eu vou perder / Mas deixar de ser Flamengo, não, não pode ser". Na vez de Vevé cantar como solista, o "mestre de cerimônias" da canção conclamava: "Centra, Vevé!". E o ponteiro entoava: "Lá no meu quarto / Tem escudo e tem retrato / De vários campeonatos / Sou Flamengo pra chuchu". E continuava: "Ainda me lembro / Gazeteava a escola / Só pra ver o bate-bola / Na Rua do Paissandu". A canção fez muito sucesso, tendo grande execução nas rádios da época.

No título de 1943, Vevé ficou de fora de apenas três partidas, mas foi menos assíduo como goleador: anotou 9 tentos, metade da marca do campeonato anterior (que teve um turno a mais). No entanto, foram gols marcantes. O pequeno paraense balançou as redes nos dois clássicos contra o Botafogo, fazendo o terceiro nos 4 a 1 do primeiro turno em General Severiano e uma sensacional tripleta nos 4 a 2 do returno na Gávea – dentre os grandes, os alvi-negros foram os rivais que mais sofreram gols do ponteiro em sua carreira. E também abriu o placar e o caminho para a saborosa goleada histórica de 6 a 2 sobre o Vasco, que deixou encaminhada a conquista, sacramentada uma semana depois, diante do Bangu.

No fim do ano, Vevé ainda brilharia na revanche contra os paulistas em mais uma decisão do Campeonato Brasileiro de Seleções. Numa melhor de cinco partidas, a equipe bandeirante venceu as duas primeiras no Pacaembu (3 a 1 e 3 a 2), mas o antigo Distrito Federal (que compreendia a cidade do Rio de Janeiro) daria o troco em São Januário com dois placares elásticos: 3 a 0 e um acachapante 6 a 1, com o ponteiro marcando o segundo gol. No quinto e último jogo, em 30 de dezembro, Vevé abriria o placar e o caminho para o título na vitória por 2 a 1.

Arisco em campo, Vevé também personificava a malandragem fora das quatro linhas. Desde sua chegada ao Flamengo, já fazia parte da chamada "turma do bagaço", grupo de boêmios jogadores do clube (como Biguá e o goleiro Jurandir) que eram frequentadores eméritos dos cabarés da antiga Lapa. Por volta de 1944, ano do lance que ajudaria a imortalizá-lo na galeria de heróis rubro-negros, seus problemas com a bebida já começavam a preocupar. Conta Mario Filho que o técnico Flávio Costa – duro e disciplinador, mas que não dispensava o talento – revolvia diversas vezes a cama do ponteiro na concentração à procura de eventuais garrafas que o jogador escondia sob o colchão.

Além do problema com o alcoolismo, as persistentes dores nos joelhos (é de se indagar se o primeiro caso colaborou para o segundo) prejudicaram sua presença em campo na temporada do tri-campeonato e, mais tarde, provocariam seu corte da Seleção Carioca no Campeonato Brasileiro de Seleções. Embora ainda dono da posição, Vevé atuaria apenas em metade dos 18 jogos da equipe no Campeonato Carioca, levando a um surpreendente ressurgimento do veterano Jarbas, que entrou em campo nas outras nove partidas, marcando os mesmos quatro gols que o paraense. Mas Vevé ainda retornaria na reta final, justo na hora em que um Flamengo desacreditado arrancava para mais um título.

Na foto do time perfilado antes da partida decisiva contra o Vasco, Vevé aparece com o joelho esquerdo enfaixado. Sentia ainda as dores que o tiraram de boa parte do campeonato. Era um dos problemas do Flamengo naquele dia. Valido suava com uma febre de 40 graus. Bria estava às voltas com um lumbago (dor lombar). E Pirilo sofria com uma orquite (inflamação nos testículos). Sem falar em Perácio, ausente por ter sido convocado pela Força Expedicionária Brasileira (FEB) para servir na Itália em tempos de Segunda Guerra Mundial.

O Flamemgo precisava superar um time cruzmaltino mais inteiro e mais cotado, mesmo jogando na Gávea. O empate levaria a decisão do título a uma melhor de três, para a qual os rubro-negros talvez não tivessem mais pernas, ainda que viessem em ascensão dentro do campeonato. Mas nada disso foi necessário.

O gol do título, marcado por Valido aos 41 minutos do segundo tempo entrou para a história do clube e do futebol carioca. Simbolizou mais uma conquista heróica, de superação e calando todas as críticas feitas ao longo da competição. E teve participação decisiva de Vevé. Foi o ponteiro quem sofreu a falta do vascaíno Djalma pelo lado direito da defesa adversária, perto da área. Foi ele quem alçou a primeira bola à área, rebatida pela defesa. E foi ele quem, quase do mesmo lugar, fez outro levantamento, na medida para o cabeceio do autor do gol do tri-campeonato rubro-negro.

Foi Tricampeão Carioca em 1942/43/44 sendo um dos artilheiros do time durante toda a campanha com um total de 31 gols. Seu alto rendimento lhe rendeu a convocação para disputar o Campeonato Sul-Americano de 1945 com a Seleção Brasileira, em janeiro daquele ano, no Chile. Atuaria apenas na estreia, contra a Colômbia, entrando durante a partida no lugar do ponteiro-esquerdo Jorginho, do América – que havia conquistado a titularidade na Seleção Carioca no Brasileiro de Seleções do ano anterior, justamente após o corte de Vevé.

Em 11 de julho daquele ano, deitou-se na mesa de cirurgia para uma operação de extração dos meniscos. Não voltaria, no entanto, a ser o mesmo jogador. A velocidade nos piques e a agilidade no drible ficariam bastante prejudicadas. Ainda conseguiria se manter como titular do Flamengo pelas temporadas de 1946 (com maior constância, mas em atuações irregulares que aborreceram a torcida) e 1947 (já participando bem menos), mas no ano seguinte faria apenas oito das 20 partidas do time no Carioca. Naquela competição, Vevé entraria em campo pelo time rubro-negro pela última vez em 21 de novembro, vencendo o Fla-Flu do returno por 2 a 1. Curiosamente, seu sucessor na posição seria um conterrâneo seu, Esquerdinha.

Por causa de uma contusão crônica em seu joelho esquerdo, Vevé encerrou sua carreira de forma prematura, em 1948. Após a aposentadoria forçada, Vevé acabou se tornando um homem triste, fato agravado por uma paixão não correspondida. Trabalhou por um tempo com corretagem de imóveis, mas não teve muito sucesso. Orgulhoso, recusava-se a receber qualquer tipo de ajuda. Definhando lentamente, faleceu de cirrose hepática aos 46 anos, em 26 de julho de 1964. O clube cobriu todas as despesas com o funeral de um de seus ídolos.

Os rubro-negros mais antigos, que viram Vevé jogar, também sempre lhe fizeram justiça: em 1982, a revista Placar promoveu uma votação entre jornalistas, torcedores anônimos e famosos e ex-dirigentes e jogadores para eleger o time ideal do Flamengo de todos os tempos – até ali, obviamente. Vevé foi o mais escolhido na ponta-esquerda com certa folga. E ainda hoje permanece entre os magos rubro-negros do drible.



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