quarta-feira, 13 de julho de 2022

Maiores Jogos da História do Flamengo: 17/03/82 - Flamengo 3 x 2 Internacional




Jogos Inesquecíveis: 17/03/1982 - Flamengo 3 x 2 Internacional

Há jogos memoráveis na história que, por não terem sido decisivos, de reta final, acabam esquecidos em meio a campanhas vitoriosas. Em 1982, o Flamengo foi campeão brasileiro pela segunda vez em sua história, em geralmente só são exaltados os três jogos da final contra o Grêmio, na qual o título foi sacramentado. Quando muito é relembrada a atuação de gala de Zico na semi-final contra o Guarani. Ou quem sabe o confronto de quartas de final contra o Santos. Mas houve uma virada memorável em Porto Alegre sobre o Internacional, que ficou meio esquecida na história, mas que foi crucial para que o Flamengo avançasse ao mata-mata.

O sorteio havia colocado o time rubro-negro num grupo da morte, jogando contra Atlético Mineiro, Corinthians e Internacional, numa chave na qual apenas dois clubes avançavam às oitavas de final. O Flamengo avançou (obviamente, afinal foi o campeão) mas terminou em segundo lugar, e se não houvesse virado sensacionalmente sobre os colorados no Beira-Rio, teria grandes chances de haver sido eliminado. E se fosse, o time então campeão carioca, da Libertadores e do Mundial, não teria sido campeão brasileiro, unificando todas as conquistas possíveis de serem conquistadas naquele momento. Um jogo mágico, marcado eternamente na história do Flamengo.



Ficha Técnica
17/03/1982 - Flamengo 3 x 2 Internacional
Local: Estádio Beira-Rio, Porto Alegre (Público: 41.518 pagantes)
Gols: Zico (23'1T), Mauro Pastor (39'1T), Geraldão (18'2T), Reinaldo Potiguar (29'2T) e Vítor (41'2T)
Fla: Raul, Leandro, Marinho, Mozer e Júnior; Andrade (Vítor), Adílio e Zico; Tita, Anselmo (Reinaldo Potiguar) e Lico.
Téc: Paulo César Carpegiani
Inter: Gilmar Rinaldi, Edevaldo, Mauro Pastor, André Luiz e Rodrigues Neto; Mauro Galvão, Ademir e Rubén Paz; Sílvio (Valdomiro), Geraldão (Sapuca) e Silvinho.
Téc: Cláudio Duarte



A História do Jogo

O Flamengo viajava a Porto Alegre para jogar no Beira-Rio, pela Segunda Fase do Campeonato Brasileiro, em situação delicada na tabela. O time havia caído num grupo da morte, contra Atlético Mineiro, Corinthians e Internacional, numa chave em que só dois avançavam à fase mata-mata e seguiam vivos na luta pelo título.

Para se ter uma referência do nível de dificuldade imposto pelo sorteio, nos outros sete grupos daquela 2ª Fase, o Vasco tinha como adversários a América (do Rio), Operário de Campo Grande (do Mato Grosso do Sul), e Internacional de Santa Maria (do Rio Grande do Sul); o Grêmio a Guarani, Náutico e Grêmio Maringá; o Santos a Bangu, Inter de Limeira e São Paulo do Rio Grande do Sul; o Botafogo a São José (de São Paulo), Londrina e Treze (e o time botafoguense conseguiu ser eliminado); o São Paulo a Ponte Preta, Ceará e Atlético Paranaense; o grupo de Fluminense e Cruzeiro tinha a Moto Clube e Anapolina; e o outro grupo tinha Bahia, Sport Recife, Paysandu e XV de Jaú. O grupo rubro-negro era, de longe, o mais difícil.

Na 1ª Rodada, o Inter recebeu ao Atlético e o Corinthians ao Flamengo, tendo ambos os jogos terminado 1 a 1. Tudo igual na largada. Na 2ª rodada, o Flamengo bateu ao Galo no Maracanã, e o Corinthians venceu como visitante em Porto Alegre. Na terceira, o alvi-negro paulista venceu novamente fora de casa, desta vez ao Atlético em Belo Horizonte, enquanto o time rubro-negro empatou em casa com o Inter. Assim, na metade da caminhada, o líder Corinthians tinha 5 pontos, o Flamengo tinha 4, o Inter 2 e o Atlético 1.

Na 4ª rodada, os corinthianos venceram em casa, mantendo a ponta, e o Flamengo perdeu por 3 a 1 para o Galo no Mineirão. A briga pela segunda vaga estava assim embolada: rubro-negros com 4 pontos, mineiros com 3 e gaúchos com 2. E foi nestas condições que o time rubro-negro viajou a Porto Alegre. Um empate até que não seria ruim, manteria o time vivo. Uma derrota, seria uma enorme ameaça de eliminação. Era jogo decisivo!

O time rubro-negro entraria desfalcado de seu centroavante titular, Nunes. Para suprir sua ausência, o técnico Paulo César Carpegiani tinha duas opções no elenco, o jovem Anselmo, cria da base rubro-negra, e Reinaldo Potiguar, contratado na temporada anterior junto ao Náutico. A opção do treinador foi de começar a partida com o primeiro. No último treino antes da viagem ao Rio Grande do Sul, Andrade sentiu dores no joelho e se tornou dúvida, mas viajou com a delegação.

A semana na Gávea foi agitada por causa da convocação da Seleção Brasileira para um amistoso contra a Alemanha Ocidental no Maracanã. A seleção canarinho se preparava para jogar dali a alguns meses a Copa do Mundo na Espanha. O técnico Telê Santana optou por convocar ao jovem Vítor, reserva de Andrade no time rubro-negro, e por não levar nem ao próprio Andrade nem a Tita, que eram dados como favoritos pelos analistas para estarem entre os convocados. A diretoria rubro-negro ficou irada com a situação. às páginas do Jornal dos Sports na véspera do jogo, o vice-presidente administrativo do Flamengo mostrava-se revoltado com o que para ele era uma ação premeditada: "Não poderia mesmo ser de outro jeito. Já está mais do que provada a intenção do Departamento de Futebol da CBF em prejudicar o Flamengo. Esta convocação do Vítor vem reforçar minha teoria. Assim fica muito difícil se conseguir alguma coisa. Temos que lutar contra os adversários e contra a CBF". Mais calmo estava o técnico Carpegiani, na visão dele: "A Seleção Brasileira não vai de maneira alguma modificar meu pensamento. Para mim, o Andrade está melhor e será o cabeça de área contra o Inter, a não ser que seja vetado pelo Departamento Médico".

Naquela noite de quarta-feira, o Internacional entrou em campo com seu uniforme número dois, com camisas brancas, calções vermelhos e meias brancas, enquanto o Flamengo entrou com seu fardamento rubro-negro tradicional. Esperava-se um duelo a ser travado no meio de campo, sobretudo pelas habilidades dos dois camisas 10, Zico e o uruguaio Rubén Paz.

Com a obrigação de vencer para se manter vivo na competição, o time colorado iniciou a partida fazendo pressão na saída de bola rubro-negra, e explorando bastante a subida de seus laterais, Edevaldo pela direita, e o veterano, e ex-rubro-negro, Rodrigues Neto pela esquerda. O Flamengo não encontrava espaço para se movimentar nos vinte primeiros minutos. Logo no início, o jogo mal tinha começado quando o ponta-direita Sílvio recebeu passe de Edevaldo e invadiu a área, foi ao fundo e cruzou, encontrando o centroavante Geraldão, que chutou de primeira, mandando por cima do gol, mas levando algum perigo. Alguns minutos depois foi Rodrigues Neto quem chegou ao fundo e cruzou para Geraldão, que novamente mandou pela linha de fundo.

A partir dos vinte minutos, o Flamengo acertou a sua marcação e se tranquilizou na partida. E foi justamente quando conseguiu seu gol. Eram vinte e três minutos quando Júnior lançou a Adílio na entrada da área colorada, o camisa 8 ajeitou no peito e, quando todos esperavam que fosse chutar ao gol, lançou Zico dentro da área, que mandou a gol a queima roupa, a bola bateu em Gilmar e subiu verticalmente, com o Galinho subindo e testando para o gol vazio: Flamengo 1 a 0.

O Inter saiu para o jogo, pois para ele era vencer ou ser eliminado, e com isso deu espaços na defesa, com a partida ficando mais aberta. Geraldão ainda perdeu uma grande oportunidade dentro da área, após Andrade errar na saída de bola, chutando mais uma vez para fora. Na reta final da primeira etapa, seria Raul quem falharia, e os colorados empatariam.

O ponta-esquerda Silvinho foi buscar jogo pela direita, cortando e cruzando para a área, a bola passou por Geraldão e pela defesa rubro-negra, chegando ao zagueiro Mauro Pastor, que se aventurava no ataque. Ele dominou errado com o pé direito e a bola subiu, mas ele conseguiu tocar de cabeça, fraco, no canto esquerdo. A bola atravessou de mansinho pela área, Raul não teve tempo de reação e não conseguiu fazer a defesa, com ela entrando junto à trave: 1 a 1.

No intervalo, Carpegiani foi forçado a mudar o time. Andrade pediu para sair, incomodado com as dores no joelho, e o técnico lançou Vítor no seu lugar. Apesar da mudança, o Inter seguia dominando e deixando o time rubro-negro acuado. Aos oito minutos, Edevaldo foi ao fundo e cruzou para Ademir dentro da área, que dominou e chutou, obrigando Raul a fazer uma difícil defesa, impedindo a virada. Aos treze, Mauro Galvão e Rubén Paz tabelaram e a bola chegou a Geraldão na área, que tocou por cima de Raul. A bola ia entrando quando Júnior tirou de bicicleta na pequena área, impedindo que ela cruzasse a linha e entrasse na meta. Era pressão total dos colorados!

Aos dezoito minutos saiu a virada. Ademir tocou para Edevaldo e ele cruzou do meio da intermediária, colocando a bola na cabeça de Geraldão no meio dos zagueiros rubro-negros, ele testou com precisão e desviou de Raul: Inter 2 a 1. Virada no Beira-Rio. Pelo domínio em campo, parecia questão de tempo, e de fato aconteceu.

O Internacional achou que a vitória estava sacramentada e diminuiu o ritmo. Do outro lado, tentando renovar o gás de seu time, Carpegiani trocou Anselmo por Reinaldo. E funcionou. Pois onze minutos após sofrer a virada, aos vinte e nove minutos, nome boa trama ofensiva do time rubro-negro, Leandro partiu da intermediária pelo meio e passou em velocidade a Adílio, que acionou a Lico na ponta esquerda. Ele avançou, fechou para o meio e tocou para Adílio, que ao invés de chutar preferiu passar para Zico, que estava de costas para o gol colorado, ele deu um toque e biquinho de chuteira e fez a bola chegar a Reinaldo, que estava sozinho dentro da área pela ponta oposta da pequena área. O centroavante potiguar pegou um forte chute de primeiro e mandou direto para dentro do gol: 2 a 2. O jogo estava empatado de novo. E o Inter novamente precisava partir para cima, porque só a vitória lhe interessava.

Foram três chances claras quase seguidas do Internacional para voltar a desempatar. Aos trinta e um, com Valdomiro recebendo lançamento nas costas de Júnior e batendo para fora. Aos trinta e cinco, com Sapuca, que havia entrado no lugar de Geraldão, recebendo na grande área e sendo desarmado por Leandro na hora do arremate. E aos trinta e oito, com o uruguaio Rubén Paz recebendo livre na área e chutando forte, para uma grande defesa de Raul.

Convocado para a Seleção Brasileira na véspera do confronto, o personagem daquela agitada semana, Vítor, saiu do banco de reservas e quis o destino que garantisse a vitória rubro-negra aos 42 minutos do 2º Tempo. Ele, em entrevista após o jogo, lembrou das palavras de Carpegiani no intervalo quando lhe avisou que ele entraria em campo: "Nós precisamos hoje, mais do que nunca, da tua determinação e do teu chute de fora da área".

A jogada começou com o próprio Vítor no meio de campo, recebendo passe de Adílio. Ele acionou a Zico, que passou na ponta esquerda para o ponta-direita Tita, que havia invertido de lado para tentar surpreender à defesa colorada. Ele recebeu no bico da grande área, levantou a cabeça e viu Vítor sozinho sobre a linha da grande área, bem no meio. O camisa 7 passou para ele, que dominou com a perna direita, levantou a cabeça, e chutou forte e cruzado com a perna esquerda, fora do alcance de Gilmar. Revirada rubro-negra em Porto Alegre: Flamengo 3 a 2!

A ducha de água fria acabou com as chances matemáticas do Internacional na competição. No outro jogo da 5ª rodada, o Corinthians bateu ao Galo por 2 x 1 na capital paulista, e com este resultado, e esta vitória rubro-negra, o Flamengo estava matematicamente classificado para as oitavas de final, dando continuidade à empreitada que lhe levaria ao seu segundo título nacional. Uma vitória gigante e magnífica!





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