quinta-feira, 28 de julho de 2022

Maiores Jogos da História do Flamengo: 25/01/61 - Flamengo 2 x 0 Cerro




Jogos Inesquecíveis: 25/01/1961 - Flamengo 2 x 0 Cerro

A vitória que deu ao Flamengo o título de Campeão do Octogonal Sul-Americano de Verão de 1961. Uma final épica! Mesmo placar e mesmo estádio de onde 20 anos depois o Flamengo se consagraria campeão da Taça Libertadores da América!

"Logo no início do ano (de 1961) conquistou um minicampeonato sul-americano, o Octogonal de Verão, que reuniu Flamengo, Vasco, Corinthians e São Paulo, pelo Brasil, Boca Juniors e River Plate, pela Argentina, e Nacional e Cerro, como representantes do Uruguai. Todos jogaram contra todos, em sistema de pontos corridos. A conquista não foi impedida nem por uma goleada de 4 a 0 sofrida para o Boca, dentro de La Bombonera. O time rubro-negro enfrentou o River Plate no estádio Monumental de Nuñez, o Boca Juniors, em La Bombonera, e o Nacional e o Cerro, no estádio Centenário, em Montevidéu. Foi uma belíssima conquista, uma das mais bonitas da história do Flamengo". (A NAÇÃO, pg. 82)





Ficha Técnica
25/01/1961 - Flamengo 2 x 0 Cerro
Local: Estádio Centenário, Montevidéu (Público: 43.238 pagantes)
Gols: Gérson (3'1T) e (44'2T)
Fla: Ari (Fernando), Bolero, Joubert, Nelinho e Jordan; Carlinhos e Gérson; Othon (Manoelzinho), Moacir, Henrique Frade e Babá.
Téc: Fleitas Solich
Cerro: Pedro González Acuña, Wilfredo Brum, Júlio Dalmao (Waldemar González), Rubén Soria e Ángel Rodríguez; Oscar Vilariño e Ruben Coccinello; Jorge López, Luis Suárez, Miguel De Brito (Luis Casaña) e Alvez.
Téc: Roberto Porta





A História do Jogo

Esta partida é, sem dúvida, o primeiro jogo histórico contra rivais da América do Sul antes de 1981, ano no qual o clube conquistou pela primeira vez a Copa Libertadores da América. Um jogo com todos os elementos de conflito tradicionais do futebol sul-americano sempre enfrentados por clubes brasileiros. Sobretudo na época em que não havia câmeras de televisão para registrar as barbaridades às quais os times brasileiros se deparavam ao ir jogar nos países de língua hispânica do subcontinente.

Em 1961 foi realizado um Octogonal de caráter amistoso reunindo grandes clubes do futebol sul-americano. Os argentinos e uruguaios se recusaram a atuar no Brasil, então todos os confrontos contra estrangeiros foram jogados em Buenos Aires ou em Montevidéu. O torneio reuniu oito tradicionais clubes das quatro maiores cidades da América do Sul: Rio de Janeiro, São Paulo, Buenos Aires e Montevidéu. O modelo de disputa era o mesmo dos primórdios do Torneio Rio-São Paulo: pontos corridos em turno único.

Os representantes brasileiros foram Flamengo, Vasco, Corinthians e São Paulo. Do lado argentino, as duas camisas mais populares e mais tradicionais do país: River Plate e Boca Juniors, que tinham terminado, respectivamente, como 3º e 5º colocados no Campeonato Argentino de 1960. Do lado uruguaio, os representantes eram o Cerro e o Nacional, respectivamente 2º e 3º colocados no Campeonato Uruguaio de 1960. Os critérios de participação eram, portanto, associados à popularidade e não ao desempenho técnico nos respectivos campeonatos locais. Só faltou a participação do Peñarol, campeão uruguaio e campeão da 1ª edição da Taça Libertadores da América no ano anterior, 1960, que não aceitou disputar a competição.

Nas seis primeiras rodadas, o Flamengo jogou duas vezes no Rio de Janeiro, com vitória sobre o São Paulo e derrota para o Vasco, uma vez em São Paulo, onde venceu ao Corinthians, duas vezes em Buenos Aires, onde venceu ao River Plate e foi goleado pelo Boca Juniors, e uma vez em Montevidéu, onde venceu ao Nacional. Já vinha, portanto, fazendo uma bela campanha como visitante, sem se intimidar com as animosidades locais. Chegou então à última rodada para disputar sua segunda partida na capital uruguaia estando empatado na primeira colocação com o Boca Juniors. E enquanto o time rubro-negro ia ao Uruguai jogar como visitante, o Boca enfrentava ao São Paulo como mandante em La Bombonera. As duas partidas começaram no mesmo horário, e na Argentina o tricolor paulista venceu, facilitando assim a vida rubro-negra. Entretanto, se o Cerro, que era o vice-campeão uruguaio, tivesse vencido aquela partida, era ele quem se sagrava campeão do octogonal.

Fazia 17 graus no Estádio Centenario quando o Flamengo entrou em campo naquela noite de quarta-feira em Montevidéu. O time rubro-negro jogava desfalcado de seu principal jogador, estando Dida suspenso e impossibilitado de disputar aquela partida, sendo substituído na função que fazia em campo por Gérson, que foi escalado pelo técnico paraguaio Fleitas Solich mais adiantado, como ponta de lança.

Se o ar estava frio no estádio, o time rubro-negro tratou logo de esquentar o jogo, e já com poucos minutos de bola rolando nem deu nem tempo para os uruguaios respirarem, marcando o primeiro gol da partida. Quando o árbitro argentino Ángel Coerezza apitou autorizando o início de partida, a saída de bola foi do Cerro. A bola foi recuada e após algumas trocas de passe na intermediária defensiva, ela foi lançada ao ataque. Jordan interceptou pelo lado esquerdo, e desta vez foi o Flamengo quem foi a frente, mas o lançamento de Gérson a Babá foi cortado, passando a posse pela segunda vez aos uruguaios. Foi a vez do Cerro ir a frente, com Brum pela direita que cruzou para dentro da área. De Brito e Coccinello subiram contra Nelinho, fazendo carga, em falta assinalada pela arbitragem. Foi a vez então do time rubro-negro ir pela segunda vez a frente. Um lançamento longo chegou a Henrique, que dominou e recuou para Moacir; ele enfiou para Othon, que acabou derrubado por Dalmao. Falta de longa distância, frontal, que Gérson ajeitou para cobrar. O relógio marcava tão só dois minutos de bola rolando e o "Canhota" correu para bola e encheu o pé, num chute fortíssimo, de uma violência incrível, maravilhosamente arrematado. A bola fez uma curva ligeira pelo efeito da batida, e entrou no canto direito de um incrédulo González Acuña, que saltou e não alcançou. Silêncio no estádio lotado: Flamengo 1 a 0!

O time rubro-negro demonstrava uma clara superioridade tática e técnica, diante da jovem e aguerrida equipe alvi-celeste. Mais bem postado em campo, o time quase fez o segundo gol aos oito minutos, quando Othon e Henrique trocaram passes na área e o centroavante rubro-negro pegou firme na bola, que explodiu na trave do atordoado González Acuña. A bola volta no rebote para o zagueiro Nelinho, em ótima posição para ampliar, mas a falta de vocação ofensiva do zagueiro rubro-negro fica clara, desperdiçando a oportunidade e mandando para fora.

Nos primeiros quinze minutos, exibindo um futebol superior, com passes rápidos e precisos, o Flamengo dominava por completo ao Cerro. A partir de então, passado o susto, os uruguaios equilibraram seu meio de campo, e a partida passou a estar mais equilibrada. Luis Suárez teve uma boa oportunidade, cortada por Nelinho. Os rubro-negros passaram a esperar defensivamente e tentar explorar contra-ataques. Mas aos vinte e seis minutos foi o Flamengo quem quase marcou de novo. Gérson recebeu lançamento, dominou no peito, ajeitou na coxa e soltou um petardo de fora da área no ângulo, que González Acuña maravilhosamente conseguiu mandar de tapa a escanteio.

Nos minutos finais do primeiro tempo, o Cerro pressionou, empurrado pelos gritos que vinham da arquibancada, chegava repetidamente à área, mas não conseguiu criar oportunidades claras de gol, diante de uma defesa rubro-negra muito bem postada e cortando tudo que se aproximava. O relógio corria e a dificuldade em conseguir criar deixava o time uruguaio mais nervoso em campo, passando a apelar subsequentemente às faltas para parar aos avanços rubro-negros. Até que no estouro do cronômetro o árbitro argentino expulsa o defensor Ángel Rodríguez de campo.

Na volta do intervalo, o sistema de som do estádio anunciou que o primeiro tempo também havia terminado em Buenos Aires, e que o São Paulo vencia por ampla vantagem ao Boca Juniors. Assim, se o Cerro vencesse, era o campeão do torneio. O modesto time do país, que havia surpreendido a todos ao chegar à final do Campeonato Uruguaio de 1960, quebrando a bipolaridade Peñarol-Nacional e vivendo o ápice de sua história, cresceu em campo, inflamado pela paixão nacionalista dos gritos dos uruguaios que lotavam o estádio, em amplíssima maioria torcedores ou de Nacional ou de Peñarol.

Para surpresa do time rubro-negro, no entanto, o Cerro voltou a campo para o segundo tempo com onze jogadores, e com Ángel Rodríguez preparado para seguir na partida. Houve reclamação, mas o juiz Ángel Coerezza ignorou, fez-se de desentendido, respondendo que não havia dado cartão vermelho algum, e mandando que o Flamengo reiniciasse o jogo.

E o jogo no segundo tempo mudou. O árbitro passou a apontar faltas a favor do Cerro em cada disputa de bola. O time rubro-negro então fechou ainda mais sua linha defensiva e seus jogadores alertavam uns aos outros que deveriam evitar ao máximo qualquer choque dentro de sua área, para evitar motivos para o juiz apontar um pênalti. Por longos minutos, o domínio do jogo foi todo alvi-celeste, com os rubro-negros se limitando a defender. Mas chances reais, que tivessem efetivamente levado perigo, foram poucas. O Flamengo suportava a pressão e as bolas levantadas constantemente na área pelo Cerro.

A melhor oportunidade de gol uruguaia aconteceu aos dezesseis minutos do segundo tempo, quando uma bola foi cruzada à área e Suárez conseguiu superar a marcação rubro-negra, metendo a cabeça em direção ao gol, para excelente defesa de Ari, e com Alvez pronto para completar para dentro da rede. Seis minutos depois, o goleiro rubro-negro pediu substituição, tendo que deixar o campo para a entrada de Fernando.

Com a necessidade de vencer e o tempo passando, o Cerro foi se desarrumando nas tentativas cada vez mais ansiosas de tentar ir ao ataque para marcar gols, e o Flamengo se aproveitou, especialmente nos dez minutos finais, para voltar a criar boas oportunidades de marcar. Aos trinta e oito minutos, uma bola foi alçada na área para o pequenino ponta-esquerda rubro-negro Babá, que mete a cabeça na bola, que bate no goleiro González Acuña e sobra para o próprio Babá empurrá-la imediatamente para dentro do gol. O árbitro, no entanto, assinala falta, afirmando que houve carga sobre o arqueiro, ainda que os dois se tocaram somente após o camisa 1 já ter soltado a bola. Foi intensa a reclamação dos jogadores rubro-negros, sem nenhum sucesso em levar Coerezza a rever a sua decisão. A sete minutos do fim, era praticamente a primeira oportunidade mais clara de gol do time rubro-negro no segundo tempo.

Aos quarenta e quatro minutos e meio, o centroavante Henrique se movimentou e recebeu o passe pelo lado direito de ataque, cruzando para a área. González Acuña pulou sozinho sobre a bola, defendendo mal e voltando a soltá-la, Babá e Gérson entraram na corrida pela pequena área e foi Gérson quem empurrou para dentro do gol: Mengão 2 a 0! Campeão!

A partir da festa rubro-negro, o estádio foi tomado pela fúria da desilusão uruguaia pela derrota, invasões de campo e uma chuva de garrafas jogadas para dentro da cancha de jogo, uma das quais veio a acertar a cabeça de um dos jogadores do próprio Cerro. Após uma longa interrupção, a ordem foi reestabelecida, e três minutos de acréscimos a partir do reinício foram assinalados, ainda foram jogados. Mas mais nada mudou, a vitória do Flamengo estava mais do que consolidada!

Destacou o Jornal O Globo em sua edição no dia seguinte: "no Octogonal o Flamengo andou geralmente esquecido nos cálculos para a conquista do título, embora inicialmente ganhasse dos dois clubes paulistas. (...) Enganaram-se redondamente todos os profetas e a melhor hipótese acabou sendo a que não entrara nos cálculos: derrota do Boca, clara, como positiva a vitória do Flamengo. Resultado: campeões os rubro-negros". Uma final épica! Uma vitória eloquente, pelo mesmo placar e no mesmo estádio onde vinte anos depois o Flamengo se consagraria campeão da Taça Libertadores da América!






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