sábado, 7 de março de 2026

O Flamengo Campeão Brasileiro de 2019


O Campeonato Brasileiro de 2019 começou carregando expectativas elevadas e uma sensação difusa de que algo importante estava por acontecer, ainda que poucos fossem capazes de identificar logo nas primeiras rodadas a dimensão histórica que aquela edição alcançaria. O torneio reunia um cenário relativamente clássico: o Palmeiras, bicampeão recente, surgia como principal referência de estabilidade; o Santos iniciava uma revolução estética sob o técnico argentino Jorge Sampaoli, e o Flamengo, apesar do elenco estrelado, ainda buscava identidade.


ELENCO:

Goleiros: Diego Alves e César
Laterais-direito: Rafinha e Rodinei
Zagueiros: Rodrigo Caio, Pablo Marí, Rhodolfo e Matheus Thuler
Laterais-esquerdo: Filipe Luís e Renê
Volantes: Willian Arão, Gérson e Piris da Motta
Meias: De Arrascaedta, Éverton Ribeiro, Diego Ribas e Vitinho
Pontas: Bruno Henrique e Orlando Berrío
Centroavantes: Gabigol, Reinier e Lincoln


Nas rodadas iniciais, o campeonato apresentou aquilo que tradicionalmente o caracteriza: equilíbrio. O Palmeiras assumiu cedo uma postura competitiva, pontuando de forma constante e alternando a liderança com Santos e São Paulo. O Santos, agressivo e intenso, encantava pelo volume ofensivo e chegou à ponta da tabela em mais de uma ocasião nas primeiras semanas. O Flamengo, então comandado por Abel Braga, oscilava. Vencia partidas importantes, mas deixava pontos pelo caminho e parecia incapaz de sustentar uma sequência longa de vitórias. Até aproximadamente a 8ª rodada, a liderança do campeonato trocou de mãos mais de uma vez, refletindo um torneio ainda aberto, indefinido e sujeito às contingências típicas do futebol brasileiro. No Flamengo, os principais ruídos surgiam pelas reclamações da torcida de que o técnico Abel não utilizava um quarteto ofensivo com De Arrascaeta, Everton Ribeiro, Bruno Henrique e Gabigol, que na visão do treinador não podiam jogar juntos, ou seu time perderia consistência defensiva.

A estabilidade momentânea do Palmeiras deu ao campeonato uma aparência de continuidade histórica. A equipe de Luiz Felipe Scolari liderou boa parte do primeiro terço da competição, sustentada por uma defesa sólida, pragmatismo tático e elenco experiente. O Santos seguia próximo, jogando de forma mais ousada, enquanto o Flamengo se mantinha no bloco superior da classificação sem, contudo, exercer real protagonismo. Era um Brasileirão que, até então, parecia caminhar dentro da normalidade dos pontos corridos vigente nos anos anteriores.

Tudo começou a mudar em junho, quando o Flamengo promoveu a ruptura que redefiniria o campeonato. A chegada do técnico português Jorge Jesus não representou apenas uma troca de treinador, mas uma transformação estrutural. Em poucas semanas, o time assimilou um modelo de jogo completamente distinto daquele que vinha sendo praticado no Brasil: pressão alta constante, defesa adiantada, intensidade sem concessões e uma clara hierarquia técnica. Os resultados iniciais ainda oscilaram, mas o desempenho já apontava para algo fora do padrão. O Flamengo passou a dominar seus adversários territorialmente, a criar chances em volume e a impor um ritmo que poucos conseguiam acompanhar.

Enquanto o Flamengo crescia, Palmeiras e Santos começaram a apresentar sinais de desgaste. O Palmeiras perdeu fluidez ofensiva e passou a encontrar dificuldades para propor o jogo. O Santos manteve competitividade, mas sofria com a limitação de elenco em uma maratona longa. A liderança ainda mudou de mãos em algumas rodadas nesse período de transição, mas o cenário começava a se inclinar de forma decisiva. A virada simbólica ocorreu quando o Flamengo assumiu a liderança por volta da 15ª rodada. A partir daquele momento, o campeonato passou a ter um dono inequívoco. Não houve mais alternâncias na ponta da tabela. O Flamengo não apenas liderou: distanciou-se. A equipe rubro-negra fechou o primeiro turno já em vantagem confortável, apresentando números ofensivos e defensivos muito superiores aos concorrentes diretos.

No segundo turno, a superioridade se tornou avassaladora. O Flamengo passou a vencer confrontos diretos com autoridade, ampliando a diferença rodada após rodada. O time controlava jogos com naturalidade, independentemente do contexto, do estádio ou do adversário. Gabigol consolidou-se como o principal artilheiro do campeonato, Bruno Henrique foi decisivo nos momentos-chave, Arrascaeta e Éverton Ribeiro deram sofisticação ao meio-campo, e Gérson, recuado por JJ para jogar como segundo homem do meio de campo, transformou-se no elo físico e técnico da equipe. Defensivamente, o conjunto funcionava com precisão, sustentando a ousadia ofensiva sem se expor de forma irresponsável.

O campeonato, que no início prometia disputa prolongada, transformou-se em um exercício de confirmação rodada após rodada. O Flamengo venceu mesmo quando não brilhava e, quando brilhava, atropelava. O título foi matematicamente assegurado com quatro rodadas de antecedência. Ao final das 38 rodadas, o Flamengo somou 90 pontos, com 28 vitórias, 6 empates e apenas 4 derrotas, além de um ataque histórico e um saldo de gols que simbolizava a sua supremacia.


Atrás do campeão, o Santos construiu uma campanha digna e respeitável. Durante boa parte do campeonato, foi o time que mais tempo conseguiu acompanhar o ritmo do Flamengo, especialmente no primeiro turno. Mesmo sem condições de disputar o título até o fim, manteve-se competitivo, assegurou o segundo lugar e confirmou vaga direta na Libertadores, sendo reconhecido pelo futebol propositivo e pela coragem tática. Já o Palmeiras, por sua vez, terminou na terceira colocação, um resultado que, embora sólido do ponto de vista classificatório, ficou aquém das expectativas criadas pelo investimento e pelo histórico recente. O time jamais conseguiu reagir de forma consistente após perder a liderança e, ao longo do segundo turno, limitou-se a administrar posição, sem ameaçar seriamente o domínio rubro-negro.

Assim, o Campeonato Brasileiro de 2019 se encerrou como um marco. Não foi apenas um título conquistado com números expressivos, mas a consolidação de um modelo de jogo, de uma ideia de futebol e de uma diferença estrutural que redefiniu o padrão competitivo do Campeonato Brasileiro. A história daquele campeonato não se resume às rodadas ou aos resultados isolados, mas à construção progressiva de uma hegemonia que, uma vez estabelecida, tornou-se inalcançável.


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