quinta-feira, 23 de julho de 2026

Livro "Dez vezes Flamengo": como os primeiros campeonatos cariocas começaram a construir a identidade do clube de Maior Torcida do Brasil

 A história costuma reservar aos grandes vencedores um curioso paradoxo: quanto maior se torna um clube, mais o imaginário coletivo concentra sua atenção nos momentos de maior repercussão, relegando a segundo plano as décadas em que sua identidade foi construída. No caso do Flamengo, a memória popular costuma começar nos Anos Zico, atravessar a geração de Júnior, Leandro e Adílio, alcançar os títulos continentais e desembocar na era contemporânea. Entretanto, muito antes do Maracanã, da televisão e das multidões nacionais, um conjunto de conquistas moldou o DNA rubro-negro.

É justamente esse período que o autor Emmanuel do Valle resgata em "Dez Vezes Flamengo: As Histórias dos Primeiros Títulos Cariocas Rubro-Negros". Pesquisador reconhecido pelo admirável trabalho desenvolvido no blog Flamengo Alternativo, ele dedica mais de duzentas páginas à reconstrução dos dez campeonatos estaduais conquistados entre 1914 e 1944, período em que o futebol brasileiro ainda viveu do amadorismo, uma transição para o profissionalismo, e as profundas transformações sociais da primeira metade do século XX no Rio de Janeiro, então capital federal, e no Brasil. O lançamento da obra é um mergulho na origem da grandeza rubro-negra, enfatizando personagens, bastidores e episódios pouco conhecidos da era Pré-Maracanã (estádio concluído em 1950). Justamente 10 antes do Maracanã: dez taças, dez hitórias.

O mérito do livro está em mostrar que aqueles títulos não representam apenas uma sequência estatística. Cada campeonato corresponde a uma etapa da consolidação institucional do Flamengo, acompanhando mudanças no próprio futebol carioca, na organização das competições, e na evolução administrativa do clube.

A primeira conquista, em 1914, possui valor fundador: o Flamengo ainda era um jovem participante do futebol, modalidade oficialmente incorporada apenas dois anos antes pelo clube. Naquele ambiente de clubes aristocráticos na conjuntura política do então Distrito Federal, o Rubro-Negro começava a afirmar sua personalidade. O ano foi marcado pela adoção do uniforme conhecido como "cobra-coral", pelas primeiras excursões e por uma crescente organização do futebol brasileiro, em meio ao contexto da Primeira Guerra Mundial. O campeonato representou muito mais do que uma taça: foi a confirmação de que o Flamengo poderia disputar protagonismo em um cenário até então dominado por rivais tradicionais.

Em 1915 veio o bicampeonato invicto. A conquista consolidou a força técnica da equipe e coincidiu com outro marco institucional: a inauguração do campo da Rua Paissandu, primeira casa efetiva do futebol rubro-negro. A campanha demonstrava maturidade competitiva e transformava uma promessa em realidade esportiva, criando uma cultura vencedora que passaria a caracterizar o clube nas décadas seguintes.

Após alguns anos de alternância de campeões, o Flamengo voltou ao topo em 1920. A década de 1920 marcaria uma fase de enorme crescimento do futebol carioca, tanto em popularidade quanto em qualidade técnica. O título inaugurou um novo ciclo, confirmando que a equipe conseguia se renovar mesmo diante de um ambiente competitivo cada vez mais equilibrado.

O campeonato de 1921 reforçou essa capacidade. Mudanças no regulamento ampliaram o número de participantes e modificaram a estrutura da competição, exigindo adaptação dos clubes. O Flamengo respondeu mantendo alto nível técnico e conquistando mais um campeonato, consolidando-se definitivamente entre as principais forças da cidade.

Talvez nenhuma equipe simbolize melhor o amadurecimento daquele período do que a campeã de 1925. Emmanuel do Valle destaca um elenco repleto de jogadores convocados para seleções cariocas e brasileiras, capaz de liderar o campeonato praticamente de ponta a ponta. Era um Flamengo que já exercia protagonismo esportivo e ajudava a redefinir o equilíbrio de forças do futebol do Rio de Janeiro, num momento em que o amadorismo começava a revelar seus limites estruturais.

Dois anos depois, em 1927, veio o quarto título da década. O feito encerrava uma fase extraordinária: quatro campeonatos em oito temporadas. Mais do que números, esse período sedimentou uma identidade baseada em competitividade permanente e na capacidade de formar grandes equipes, ainda que o clube enfrentasse limitações financeiras comuns ao futebol da época.

O contraste torna o título de 1939 ainda mais significativo. Depois de doze anos sem conquistar o Campeonato Carioca, o Flamengo reencontrou o caminho das vitórias justamente quando passava por uma profunda modernização administrativa. Sob a presidência de José Bastos Padilha, o clube tinha investido na profissionalização da gestão, ampliava sua estrutura patrimonial, desenvolvia a futura sede da Gávea, e absorvia influências táticas inovadoras trazidas pelo técnico húngaro Dori Kurschner. A conquista simbolizou o encerramento do maior jejum estadual da história rubro-negra e o início de uma nova etapa institucional.

Os campeonatos de 1942, 1943 e 1944 formam um capítulo especial. Em plena Segunda Guerra Mundial, enquanto o mundo vivia um dos períodos mais dramáticos de sua história, o Flamengo construiu seu primeiro tricampeonato carioca. A equipe reunia nomes históricos como Domingos da Guia e Zizinho, combinando qualidade técnica, disciplina tática e enorme competitividade. Em 1942, o título ainda precisou de confirmação definitiva por disputas judiciais envolvendo o regulamento. Nos anos seguintes, o clube confirmou sua superioridade, estabelecendo um padrão de excelência que influenciaria gerações futuras.

O grande diferencial do trabalho de Emmanuel do Valle consiste justamente em retirar esses campeonatos do simples registro cronológico. Em vez de apresentar apenas resultados, escalações ou estatísticas, o autor reconstrói o ambiente histórico em que cada temporada foi disputada. Política, urbanização do Rio de Janeiro, evolução das regras do futebol, mudanças sociais e trajetórias individuais aparecem entrelaçadas às campanhas rubro-negras, permitindo compreender como o Flamengo cresceu simultaneamente ao desenvolvimento do próprio esporte no Brasil.

Esse método aproxima a obra da moderna historiografia esportiva. O futebol deixa de ser apenas entretenimento para tornar-se documento cultural. Os campeonatos estaduais passam a refletir transformações da sociedade brasileira, revelando como clubes, torcedores, dirigentes e atletas participaram da construção de uma identidade coletiva que ultrapassou os limites do campo.

Também merece destaque a extensa pesquisa documental. O trabalho dialoga com jornais da época, revistas esportivas, fotografias, documentos oficiais e outras fontes primárias, permitindo corrigir interpretações cristalizadas ao longo das décadas e recuperar episódios praticamente esquecidos. Para o leitor interessado na história do Flamengo, o livro oferece uma narrativa rica em detalhes sem perder a fluidez característica de uma boa reportagem histórica.

Mais importante ainda, "Dez Vezes Flamengo" ajuda a compreender que a grandeza do clube não surgiu de maneira espontânea. Ela foi construída lentamente, campeonato após campeonato, geração após geração. Antes dos grandes ídolos televisionados, existiram pioneiros que consolidaram valores como competitividade, capacidade de renovação, ambição esportiva e identificação popular.

Ao revisitar os títulos de 1914, 1915, 1920, 1921, 1925, 1927, 1939, 1942, 1943 e 1944, Emmanuel do Valle demonstra que a história rubro-negra não começa muito antes dos tempos modernos. Ela nasce na coragem daqueles primeiros elencos, na evolução institucional do clube e na construção de uma cultura vencedora que atravessaria todo o século XX. O resultado é uma obra que interessa não apenas ao torcedor do Flamengo, mas a qualquer leitor que compreenda o futebol como parte fundamental da memória social brasileira.






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