segunda-feira, 14 de setembro de 2026

2009: a amarelada do Palmeiras que deu o título do Brasileirão ao Flamengo

Para o torcedor palmeirense, o Campeonato Brasileiro de 2009 permanece como uma das mais dolorosas oportunidades de título desperdiçadas na história do clube. Não se tratou simplesmente de terminar em 5º lugar, o trauma nasceu da sensação de que a taça esteve nas mãos do Palmeiras durante boa parte da competição e foi sendo perdida aos poucos, em uma combinação de queda técnica, lesões, problemas internos, perda de confiança e uma arrancada extraordinária do Flamengo. O Palmeiras terminou o campeonato com 62 pontos, exatamente a mesma pontuação do Cruzeiro, 4º colocado, mas ficou em quinto e fora da Libertadores pelo número de vitórias. O Flamengo foi campeão com 67, seguido por Internacional e São Paulo, ambos com 65.

A história daquela campanha teve bastante turbulências já antes da chegada ao clube de Muricy Ramalho. Depois de uma passagem turbulenta do técnico Vanderlei Luxemburgo, demitido ainda na7ª rodada, o ex-jogador alvi-verde Jorginho (o chamado "Jorginho Cantinflas") assumiu interinamente e produziu uma transformação imediata. O Palmeiras venceu Avaí, Náutico, Flamengo e Santo André em sequência, derrotou o Corinthians por 3 a 0 e se alçou à vice-liderança. Jorginho criou forte identificação com o grupo e com a arquibancada. Anos depois, ele próprio contou que a torcida começou a gritar seu nome e que havia construído uma relação muito boa com os jogadores. A diretoria, porém, já havia decidido contratar Muricy Ramalho, Tri-campeão brasileiro pelo São Paulo nas três edições anteriores de 2006-2007-2008. Era o técnico mais badalado do cenário brasileiro naquele momento, uma esperança enorme de título para seus torcedores.

A troca funcionou inicialmente. Muricy estreou com vitória sobre o Fluminense e, em seguida, o Palmeiras venceu ao Sport Recife, assumindo a liderança e passando a ser visto como o grande favorito ao título. Ao final do primeiro turno, o cenário era extraordinariamente favorável: o Palmeiras tinha 40 pontos (10 de vantagem sobre o Flamengo, então 10º colocado). A maior vantagem do Palmeiras sobre o Flamengo, que viria a se consagrar como o grande campeão daquela edição, foi de 11 pontos, alcançada em duas ocasiões, ao final da 21ª e da 23ª rodadas. Na 21ª, o Palmeiras tinha 44 pontos e liderava, e o Flamengo era o 10º colocado, com 33. Na 23ª, o Palmeiras continuava líder, com 44 pontos, enquanto o Flamengo aparecia em 11º, também com 33.


É justamente aí que a narrativa palmeirense começa a mudar. O time que parecia caminhar para um título relativamente tranquilo passou a apresentar sinais de desgaste. No segundo turno, a sequência foi particularmente cruel: empate em casa com o Avaí, derrota para o Náutico, derrota para o Flamengo e derrota para o Santo André. Em quatro partidas, apenas um ponto. O Palmeiras terminaria aquele Brasileiro com 17 vitórias, 11 empates e 10 derrotas, mas o dado mais revelador está no contraste entre os dois turnos, com a equipe tendo obtido aproveitamento de 64,9% nos 19 jogos iniciais e somente 45,8% no returno até a 35ª rodada.

A derrota para o Náutico, por 3 a 0, já representava uma advertência. Mas o jogo que, retrospectivamente, simboliza a mudança de atmosfera foi Palmeiras 0 x 2 Flamengo, em 18 de outubro, no Parque Antárctica, pela 30ª rodada. Ao final daquele fim de semana, o Palmeiras ainda era o líder, com 54 pontos, enquanto o Flamengo chegava a 48 e assumia a 5ª posição. A distância havia caído para apenas 6 pontos, com Atlético Mineiro, Internacional e São Paulo também estando próximos, com 50, 49 e 49 pontos, respectivamente.

A partida teve um peso que ultrapassou a classificação: o Flamengo vinha de uma longa invencibilidade e já apresentava o melhor desempenho do returno. O Palmeiras, ao contrário, carregava três jogos sem vitória. No Palestra Itália, Dejan Petkovic foi decisivo, marcando aos 23 minutos do primeiro tempo, em uma jogada individual, e voltando a marcar aos 16 do segundo tempo, em gol olímpico. O Palmeiras teve poucas respostas. Diego Souza e Cleiton Xavier, fundamentais na construção da campanha até ali, foram pouco efetivos diante da marcação flamenguista. Uma maiúscula vitória rubro-negra em terras paulistanas.

A fotografia mais cruel daquela tarde veio aos 41 minutos do segundo tempo. O árbitro marcou pênalti a favor do Palmeiras. Vágner Love, então um dos principais símbolos ofensivos da equipe, isolou a cobrança. A torcida rubro-negra passou a provocar o atacante, e parte dos palmeirenses começou a abandonar o estádio antes do fim, entre vaias ao time e críticas a Muricy Ramalho.

Do ponto de vista palmeirense, aquele jogo expôs duas equipes em direções opostas. O Palmeiras ainda tinha qualidade individual, mas começava a demonstrar dificuldade para produzir futebol quando precisava controlar a partida. O Flamengo, comandado pelo técnico Andrade, apresentava organização defensiva, intensidade no meio-campo, e jogadores capazes de decidir individualmente. Petkovic foi o protagonista, mas Adriano, Zé Roberto e o sistema de marcação deram sustentação à arrancada. Ao jornais no dia seguinte mencionavam uma vitória no Parque Antárctica que "abriu a disputa do título".

Ao contrário do que poderia sugerir a impressão imediata de que o Flamengo já havia assumido o controle, a classificação depois daquela rodada ainda favorecia amplamente o Palmeiras. O alvi-verde continuava em 1º lugar, com 54 pontos, seis à frente do Flamengo. O problema foi o que aconteceu imediatamente depois: derrota por 2 a 0 para o Santo André, três dias depois. Era a terceira derrota consecutiva do Palmeiras, algo que não havia acontecido durante toda aquela campanha. A torcida passou a gritar "Jorginho" nas arquibancadas, em claro sinal de rejeição ao trabalho de Muricy.

A escolha de Santo André como adversário torna o episódio ainda mais doloroso. O clube do ABC acabaria rebaixado. O Palmeiras perdeu para Náutico, Santo André e Fluminense, três equipes que lutavam contra o rebaixamento, e empatou com o Sport Recife, que também acabaria rebaixado. Uma amarelada de grandes proporções!

Havia, além da queda coletiva, problemas objetivos de elenco. Cleiton Xavier, Pierre e Maurício Ramos sofreram lesões em momentos importantes. Cleiton se machucou justamente na derrota para o Santo André e ficou fora por cerca de um mês. Pierre estava afastado desde setembro, enquanto Maurício Ramos também se recuperava. O Palmeiras chegou a admitir que os três eram peças importantes, mas a reposição não estava à altura.

A consequência foi particularmente importante para Diego Souza. Cleiton Xavier era seu principal parceiro na criação e, sem ele, o meia-atacante perdeu rendimento. Nos cinco jogos sem Cleiton Xavier, o Palmeiras somou apenas cinco pontos. Muricy também reconhecia que as lesões de Cleiton, Pierre e Maurício Ramos haviam complicado sua equipe.

É na avaliação de Muricy que aparece uma das grandes controvérsias daquele Palmeiras: Jorginho, embora fosse amigo do treinador e reconhecesse seu currículo, afirmou posteriormente que Muricy demorou a compreender as características daquele elenco. Na avaliação dele, o técnico tentou reproduzir no Palmeiras conceitos que haviam funcionado no São Paulo, onde tinha jogadores moldados à sua filosofia. A crítica não era simplesmente ao esquema 3-5-2, que Muricy utilizava com frequência, mas à tentativa de fazer os jogadores se adaptarem ao treinador, em vez de adaptar o modelo às características disponíveis.

Essa crítica encontra algum respaldo na observação dos jogos. O Palmeiras alternava 4-4-2 e 3-5-2 e, em determinadas partidas, recuava excessivamente depois de abrir vantagem. Contra o Cruzeiro, por exemplo, Muricy reorganizou a equipe em 3-5-2 após perceber problemas defensivos e, depois da expulsão do lateral colombiano Pablo Armero, o Palmeiras praticamente passou a jogar com duas linhas de quatro, recuando Vágner Love, Cleiton Xavier e Diego Souza para funções defensivas. A estratégia funcionava para proteger resultados, mas também expunha a dificuldade do time em controlar o jogo com a bola.

É importante, entretanto, não transformar Muricy no único culpado. O jornalista Erich Beting, escrevendo no auge da crise, sustentou uma interpretação diferente: a queda tinha menos relação com o treinador do que parecia e mais com as características do próprio elenco e com o contexto que se deteriorou. A leitura é importante porque impede uma explicação retrospectiva simplista. Muricy não recebeu um time invencível e o transformou em fracasso, recebeu uma equipe que dependia bastante de alguns jogadores e perdeu peças fundamentais no momento decisivo.

O então presidente palmeirense Luiz Gonzaga Belluzzo reconheceria depois que houve erros na condução do futebol, refletindo que alguma coisa havia sido feita de maneira equivocada para que o título não viesse. Entre os diagnósticos estava a decisão de não fazer mudanças radicais no elenco, apostando na manutenção da base para preservar o entrosamento. O problema é que, quando as peças principais começaram a se machucar ou perder rendimento, a profundidade do grupo mostrou-se insuficiente.

A turbulência ganhou dimensão política e emocional. Belluzzo já havia entrado em conflito com o árbitro Carlos Eugênio Simon e acabou suspenso pelo STJD. A equipe, portanto, atravessava uma crise esportiva ao mesmo tempo em que o clube enfrentava turbulências institucionais. Em novembro, a Folha de São Paulo descrevia o Palmeiras como um clube "sem comando", pressionado pela queda de rendimento de Muricy e pela situação política do presidente.

A derrota para o Fluminense, pela 34ª rodada, finalmente tirou o Palmeiras da liderança. O jogo no Maracanã terminou 1 a 0, com gol de Fred, e ainda ficou marcado pela anulação de um gol de Obina que o Palmeiras reclamou que tinha sido legítimo. O São Paulo empatara com o Grêmio na abertura da rodada e havia assumido provisoriamente a liderança com 59 pontos. Quando o Palmeiras perdeu, ficou com 58. O Flamengo venceu o Atlético Mineiro por 3 a 1 e chegou a 57. Assim, depois de 17 rodadas consecutivas na liderança, o Palmeiras caiu para o 2º lugar, faltando apenas quatro rodadas para o fim do torneio.

Capa do Caderno de Esportes do Jornal O GLOBO, 21/09/2009

A partir daí, a queda de posições tornou-se quase uma contagem regressiva para o Palmeiras. Na 34ª rodada terminou em 2º lugar, com 58 pontos, atrás do São Paulo, com 59. Na 35ª rodada caiu para o 3º lugar, depois do empate em 2 a 2 com o Sport Recife e das vitórias de São Paulo e Flamengo (São Paulo 62, Flamengo 60, Palmeiras 59). Na 36ª rodada, caiu para 4º lugar, após uma derrota por 2 a 0 para o Grêmio, enquanto o líder São Paulo chegou a 62 (Flamengo tinha 61 e Internacional tinha 59).

O jogo contra o Grêmio foi talvez o retrato mais dramático do colapso emocional alvi-verde. O Palmeiras precisava vencer para continuar sonhando e acabou perdendo por 2 a 0. Mas a derrota esportiva ficou em segundo plano diante do episódio que ocorreu no intervalo: Obina e Maurício trocaram agressões no caminho para os vestiários e foram expulsos. O Palmeiras disputou todo o segundo tempo com nove jogadores. A diretoria decidiu afastar definitivamente os dois, considerando o episódio uma afronta à história do clube.

O episódio sintetizou uma temporada em que a pressão havia transbordado do campo para dentro do próprio grupo. Vágner Love também passou a ser alvo de torcedores e, já em dezembro, foi agredido por integrantes de uma torcida organizada em uma agência bancária próxima ao Palestra Itália. O atacante havia se tornado um dos rostos da frustração de uma torcida que, poucas semanas antes, acreditava estar caminhando para o título.

Mesmo assim, a história ainda produziu uma última reviravolta. Na 37ª rodada, o Palmeiras derrotou o Atlético Mineiro por 3 a 1 no Palestra Itália, em uma grande atuação de Diego Souza, Deyvid Sacconi, Vágner Love e do goleiro Marcos. O Flamengo venceu o Corinthians por 2 a 0 e chegou a 64 pontos. Internacional e Palmeiras foram a 62, São Paulo também ficou com 62 após perder para o Goiás. Assim, na rodada final, o Flamengo liderava com 64, seguido por Internacional, Palmeiras e São Paulo, todos com 62.

A disputa pelo título, portanto, chegou às últimas rodadas concentrada principalmente em Flamengo, Internacional e São Paulo, enquanto o Palmeiras ainda mantinha uma possibilidade matemática, mas já havia perdido o protagonismo que possuíra durante quase todo o campeonato. O Flamengo precisava apenas vencer ao Grêmio (venceu por 2 a 1 no Maracanã e chegou aos 67 pontos), Internacional e São Paulo terminaram com 65, e o Palmeiras, derrotado pelo Botafogo por 2 a 1, caiu para o quinto lugar, com 62.

O contraste final é brutal. O Palmeiras havia sido líder por 17 rodadas, chegou a abrir 11 pontos sobre o Flamengo e ainda estava na liderança a oito rodadas do fim. Depois do empate com o Avaí, das derrotas para Náutico, Flamengo e Santo André, e da sucessão de lesões e turbulências, começou uma queda que culminou na perda da ponta para o São Paulo na 34ª rodada. Em cinco rodadas, passou de líder a 4º colocado.

É por tudo isso, que 2009 não pode ser resumido como "o Flamengo tirou o título do Palmeiras", o time palmeirense entregou progressivamente a vantagem que construíra, enquanto o Flamengo descobriu, no momento exato, a estabilidade que faltara ao rival. O time de Andrade perdeu apenas uma vez em seus últimos 17 jogos e terminou campeão. O Palmeiras, que tinha sido o grande favorito, não conseguiu sustentar a própria campanha quando o campeonato entrou na fase decisiva.

A ironia histórica é ainda maior porque Muricy Ramalho conhecia exatamente o roteiro. Um ano antes, comandando o São Paulo, havia sido campeão depois de superar uma enorme desvantagem e assumir a liderança nas rodadas finais. Em 2009, o mesmo treinador esteve do outro lado da história: liderou por 17 rodadas, viu a vantagem evaporar e terminou em quinto. Para o Palmeiras, aquela temporada ficou como uma das mais emblemáticas demonstrações de que, em um campeonato de pontos corridos, não basta construir uma vantagem enorme.  E talvez seja justamente essa a lembrança que mais persiste entre os palmeirenses: em 2009, o Palmeiras não perdeu um campeonato que nunca teve, perdeu um campeonato que durante semanas parecia já lhe pertencer.

Dejan Petkovic e Adriano, o Imperador



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