sexta-feira, 2 de outubro de 2026

O Manto Sagrado: a Camisa do Flamengo


A expressão "Manto Sagrado" foi criação, no futebol ligada, relacionada especificamente à camisa do Flamengo. A origem mais documentada remonta a 1954, quando o jornalista e cartunista rubro-negro Otelo Caçador, que escrevia no Jornal dos Sports, aproveitou o enorme sucesso do filme "O Manto Sagrado" (The Robe), lançado nos cinemas em 1953, para fazer uma associação bem-humorada entre a túnica de Cristo retratada no filme e a camisa rubro-negra do Clube de Regatas do Flamengo.

Foi em 28 de abril de 1954 que ele utilizou pela primeira vez, de forma registrada, "O Manto Sagrado" para se referir à camisa do Flamengo. O termo imediatamente caiu no gosto popular da massa rubro-negra!

A expressão ganhou força nos anos seguintes, especialmente por meio do rádio: em 1955, o programa "A Voz do Flamengo", da Emissora Continental, passou a ter Celso Garcia entre seus participantes, e ele repetia que vestir a camisa do Flamengo era vestir "o Manto Sagrado do esporte". A partir destes fatos, o termo foi sendo incorporado gradualmente por toda a torcida e pela imprensa. Há registros frequentes no Jornal dos Sports a partir do fim dos anos 1960.

A Evolução da Camisa Rubro-Negra no tempo:





A adoção da camisa branca pelo Flamengo como uniforme alternativo oficial ocorreu em 1938. A iniciativa partiu do então técnico, o húngaro Dori Kruschner. A ideia tinha uma razão bastante prática: Kruschner percebeu que o tradicional uniforme rubro-negro oferecia pouca visibilidade em partidas noturnas e também criava confusão contra adversários que usavam vermelho e preto.

Há, porém, uma curiosidade importante: o branco apareceu em campo antes de 1938: levantamento histórico do site FlaEstatística identifica como o primeiro registro de uma camisa inteiramente branca o jogo de 20 de julho de 1919, em Flamengo 8 x 0 Mangueira, justamente porque o adversário também era rubro-negro e havia necessidade de diferenciação. Esse uniforme branco voltou a ser usado em algumas ocasiões em 1920 e em 1923, mas era uma solução circunstancial, não ainda um segundo uniforme institucionalizado.

Depois de oficializado como uniforme alternativo, o primeiro jogo do Flamengo com camisa branca aconteceu em 9 de janeiro de 1938, no Estádio das Laranjeiras, campo do Fluminense, contra o América, numa vitória flamenguista por 3 a 2, em partida ainda válida ainda pela reta final do Campeonato Carioca de 1937.




O Flamengo passou a utilizar um terceiro uniforme propriamente dito em 1995, no ano de seu centenário. O primeiro modelo foi justamente o famoso "Papagaio de Vintém", uma releitura da camisa que o time de futebol havia usado em 1912, antes da adoção definitiva do rubro-negro listrado. A estreia aconteceu em 27 de janeiro de 1995, no jogo amistoso Flamengo 1 x 1 Seleção do Uruguai, no Estádio Serra Dourada, em Goiânia. Foi uma partida especialmente simbólica porque marcou também a estreia do atacante Romário pelo Flamengo. Ele vestiu a camisa Papagaio de Vintém com o número 100 nas costas.

O terceiro uniforme, no entanto, ficou estigmatizado que dava azar. Aí está uma das histórias mais interessantes: o "Papagaio de Vintém" original, de 1912, carregava uma fama de azar muito anterior à camisa de 1995. Segundo a tradição histórica do clube, o zagueiro Píndaro de Carvalho, integrante daquele primeiro time, teria atribuído à camisa parte da responsabilidade pelos fracassos do Flamengo em decisões daquele período. O clube acabou abandonando o modelo e adotando a camisa "Cobra Coral" em 1914 — e, ironicamente, conquistou naquele ano o seu primeiro Campeonato Carioca, acabando com a maré de azar.

Quando foi ressuscitado o "Papagaio de Vintém" em 1995, a superstição ganhou um reforço quase perfeito: o Flamengo usou a camisa nove vezes e não ganhou nenhuma! Foram quatro empates e cinco derrotas. A estreia foi o 1 x 1 com o Uruguai, depois vieram derrotas para Atlético Mineiro, Grêmio, Santos e São Paulo.

Foi essa combinação que criou a chamada “maldição da terceira camisa”: uma superstição que não nasceu exatamente em 1995, mas que foi reavivada pela sequência de resultados ruins do primeiro terceiro uniforme. Anos depois, cada nova terceira camisa que estreava com derrota alimentava a história.

A camisa toda preta de 1999 parecia ter exorcizado a maldição. Foi utilizada 2 vezes e com 2 vitórias. Estreou em 21 de julho de 1999, no Maracanã, na festa de entrega das faixas do Campeonato Carioca, e o Flamengo venceu o Grêmio por 1 a 0. Voltou a ser usada em 20 de janeiro de 2000, contra o Fluminense, e novamente terminou em 1 a 0, garantindo ao Flamengo o Troféu São Sebastião.

Porém, em 2001, uma camisa toda vermelha ressuscitou o azar. Foi usada no Torneio Rio-São Paulo daquele ano, e foi a mais problemática de toda. Quatro duelos contra paulistas, e quatro derrotas: Santos 3 × 0 Flamengo; Flamengo 3 × 4 Corinthians; Flamengo 0 × 1 Palmeiras; e Flamengo 0 × 2 São Paulo. Depois, ainda houve 0 × 0 com o Vasco no Carioca daquele ano. Foi justamente esta sequência que consolidou a percepção de que o terceiro uniforme “não funcionava” para o Flamengo, fazendo a ideia ser temporariamente aposentada.

Mas as forças econômicas do marketing e da publicidade venceram, e a partir de 2008 o uniforme alternativo voltou. Em 2008, a camisa vermelho na parte superior e preto na inferior, teve vida curtíssima, foi utilizada uma única vez, em 29 de março, num 0 × 0 contra o Madureira, pelo Campeonato Carioca. A maldição parecia mantida...

Em 2010, uma camisa azul e amarela em alusão às cores originais utilizadas pelo remo do Flamengo apenas em 1895. Foi utilizada só duas vezes: Vitória 1 × 1 Flamengo no Barradão em 15/05/2010, e Corinthians 1 × 0 Flamengo no Pacaembu em 08/08/2010. A camisa preta de 2011 reforçou a maldição, usada em 3 jogos e com 3 derrotas: pela Copa Sul-Americana, em 19/10/2011 num Flamengo 0 x 4 Universidad de Chile, no Engenhão, e em 26/10/2011 em Universidad de Chile 1 x 0 Flamengo, em Santiago, no Chile; depois, pelo Campeonato Carioca, em 29/02/2012, numa derrota por 1 x 2 para o Boavista no Engenhão. Abandonar o tradicional parecia estar custando bastante caro!

O terceiro uniforme de 2013 foi particularmente importante porque quebrou a sequência imediatamente anterior. Na estreia, em 16 de outubro de 2013, o Flamengo venceu o Bahia por 2 a 1, no Maracanã. Depois empatou com Cruzeiro, Bangu e novamente Bahia. Assim, terminou com 1 vitória e 3 empates, invicto, mas com um desempenho que ainda não era bom.

A camisa de 2014 começou mal — uma derrota por 1 a 0 para o Grêmio — mas finalmente foi a que produziu o resultado que a imprensa passou a tratar como o "fim da maldição": Flamengo 3 x 0 Chapecoense, em 2 de novembro daquele ano. Mas a que realmente acabou com o trauma foi a nova "Papagaio de Vintém" utilizada na temporada 2015/16. Ela entrou em campo 7 vezes, com 4 vitórias.

Em 2022, por exemplo, o terceiro uniforme em listas diagonais exorcisou de vez qualquer maldição. Fez sua estreia numa goleada por 5 a 0 aplicada sobre o Athlético Paranaense, no Maracanã. A curiosidade é que esta camisa doi apresentada para ser a camisa principlal, mas foi ereprovada pelo Conselho Deliberativo. Posteriormente foi reapresentada como terceiro unidorme, e nestas condições foi aprovada.

Apesar de exorcisada a maldição, o desempenho histórico com terceiro uniforme conserva números de aproveitamento bem abaixo das demais camisas, a tradicional ribro-negra e a branca.










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