quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

O que foi o "Escândalo das Papeletas Amarelas"

O Escândalo das Papeletas Amarelas foi um caso de corrupção e "caixa dois" que estourou no Flamengo em dezembro de 1986. Ele nasceu de uma investigação interna do Conselho Fiscal do Flamengo que encontrou uma série de desvios de verba na gestão do então presidente George Helal. O cenário político do clube à época era marcado por duas correntes políticas dissidentes da Frente Ampla pelo Flamengo, de um lado estava o grupo político de Márcio Braga, Eduardo Motta e Dunshee de Abranches, e do outro o grupo de George Helal, Joel Tepet e Josef Berensztein. Neste conflito político interno no clube surgiram evidências de desvios, que eram feitos em notas fiscais de cor amarela, que batizaram o episódio de picaretagem como "Escândalo das Papeletas Amarelas".

O Conselho Fiscal, em investigação interna, conseguiu rastrear a verba desaparecida referente às "notas fiscais frias" e a encontraram em depósitos na conta particular de Léo Rabello, que na época era dirigente do clube, e posteriormente ficou rico (ou ainda mais rico) como empresário de jogadores. A imprensa esportiva costuma batizá-lo como "o primeiro brasileiro a enxergar potencial econômico no mercado de transferências", ele é dono da carteirinha 001 de Agente Fifa no Brasil. 

Eis abaixo a transcrição de matéria da Revista Placar de 13/10/1986, texto de Marcelo Rezende:
"O escândalo causado pela denúncia de corrupção na administração do presidente George Helal, do Flamengo, ainda nem começou. Ainda este mês, e certamente em novembro próximo, serão revelados desfalques, malversação de verba, dinheiro usado ilicitamente, num volume que, feitas as contas sem maiores rigores, alcançará facilmente os 4 milhões de cruzados - quantia igual, por exemplo, à que foi paga pelo passe do atacante Kita.
A primeira condenação de Helal - e dos vice-presidentes Joel Tepet, de Finanças, e Léo Rabelo, de Esportes Amadores - ocorreu entre a segunda-feira, 29 de setembro, e a madrugada seguinte. O Conselho Deliberativo queria saber como tinham sido gastos os 300.000 cruzados, uma das contas rejeitadas peo Conselho Fiscal, e exige que Helal devolva até o dia 11 o dinheiro usado indevidamente.
"LEGÍTIMA DEFESA" - A primeira versão foi de suborno a juízes do quadro da Federação do Rio de Janeiro, como "legítima defesa nas finais do Campeonato Carioca", segundo explicaram o próprio Helal e o representante do clube na Federação, Michel Assef.
Mais duas versões surgiram: a do vice-presidente Léo Rabelo, que depositou os 300.000 cruzados em sua conta particular no Banco do Brasil e no Banco Bamerindus, e uma outra de Helal. Rabelo garantiu que o dinheiro fora usado para pagamentos a atletas amadores e profissionais, como se esses simplesmente não dessem recibos de seus ganhos. Helal, que numa reunião com dirigentes do Flamengo reafirmou que o dinheiro fora entregue ao Diretor de Árbitros da Federação, Paulo Antunes, resolveu dar um ponto final ao caso: "Os 300.000 cruzados foram distribuídos como doping positivo para incentivar os clubes pequenos contra nossos rivais". É uma saída esperta. Como subornador de árbitros, Helal seria incurso no artigo 288 do Código Brasileiro Disciplinar de Futebol e estaria eliminado do esporte. Como aplicador de doping positivo, passaria para o 289 e sua pena seria de suspensão de 90 a 360 dias.
No clube, todos pensaram que tal solução teria sido encontrada pelo advogado Clóvis Sahione, que defende Helal e também, em outros processos, o general Newton Cruz, na morte do jornalista Alexandre Baumgarten, o ex-ministro Abi-Ackel no caso das pedras, e o cirurgião Hosmany Ramos.
"EU SEGURO OS PEQUENOS" - Mas este era um engano: a saída de Helal fora ditada por telefone pelo presidente da Federação de Futebol do Rio, Eduardo Vianna. Forte cabo eleitoral no norte fluminense, Viana não morre de amores por Helal, mas tem compromisso político com Michel Assef, candidato a deputado estadual, e Márcio Braga, que tenta a reeleição a federal - ambos preocupados com uma possível inclusão de seus nomes no caso.
Michel Assef dificilmente escapará de ser repreendido pelo Conselho Deliberativo do Flamengo. Ele assinou uma "papeleta amarela" (assim é tratado o recibo sem comprovante fiscal fartamente usado no clube), alegando ter perdido a passagem Nova York-Rio numa excursão do time em 1985. Assef teria comprado um novo bilhete, mas não entregou o recibo e sequer deu baixa no antigo. Terá de devolver cerca de 2.000 dólares (aos cofres do Flamengo).
"NOVO ROMBO À VISTA" - A crise explodirá ainda mais: há um rombo de 27.000 dólares de uma excursão à Arábia, novas papeletas amarelas e até mesmo 20.000 dólares de gorjeta - sem se dizer a quem - na venda do goleiro Fillol ao Atlético de Madrid, além de outros gastos absurdos.
Na próxima segunda-feira, dia 13, serão avaliadas vendas fraudulentas, já concluídas em inquérito, de 2.192 títulos patrimoniais, prejuízo estimado em 2 milhões de cruzados. Neste caso pede-se a expulsão do ex-secretário geral do clube e assessor direto de Helal, Paulo César Pereira dos Santos, e a advertência do vice Joel Tepet, o que levaria à impugnação de sua candidatura à presidência do Flamengo nas eleições de dezembro".


EM QUE DEU O CASO DAS PAPELETAS AMARELAS?

O "Escândalo das Papeletas Amarelas" não levou a nenhuma punição, pois nada foi efetivamente comprovado além de um esquema de "Caixa Dois" equivalente ao usado por partidos políticos. Parte pequena das verbas desviadas foi devolvida aos cofres do Flamengo. Internamente, o caso provocou o afastamento de Joel Tepet, Léo Rabello e Paulo César Pereira dos Santos da política do Flamengo. O grupo político de George Helal perdeu a eleição de dezembro de 1986, vencida por Márcio Braga, mas conseguiu voltar à Presidência com Gilberto Cardoso Filho na gestão seguinte (com Helal e Berensztein como seus diretores). Michel Assef só voltou à política do clube em 1995, no grupo político de Kléber Leite, que venceu a eleição de dezembro de 94.

O que se pôde ser rastreado identificou que as verbas por trás das notas frias se destinaram em parte para pagar intermediários em transações de jogadores para a Europa e o Oriente Médio, e em parte escoou como pagamentos de suborno dentro da FERJ - segundo os então dirigentes do Flamengo como "mala branca" para incentivo a clubes pequenos, segundo seus adversários como mecanismo de compra de árbitros (nunca apareceu o nome específico de nenhum árbitro nem uma suspeita específica por alguma partida disputada na época). Fato é que o principal envolvido na maracutaia, Léo Rabello, ao ser afastado da política do Flamengo, passou a trabalhar como funcionário da FERJ até vir a ser o Agente FIFA 001 no Brasil. Muito provavelmente uma parte dos recursos tenha ido parar na própria conta bancaria dos envolvidos.

Ao final, Ministério Público e Polícia Federal abriram investigação, mas nenhuma prova de ligações ilícitas foi obtida.

MANIPULAÇÃO DE RESULTADOS NO FUTEBOL DO BRASIL E DO MUNDO

Suspeitas sobre manipulação de arbitragem são quase tão antigas quanto o futebol, e não são exclusividade do Brasil. Na Itália, o escândalo de manipulação de resultados das loterias esportivas teve no carrasco do Brasil em 82, Paolo Rossi, como seu principal personagem já no início da década de 1980, e custou o título e um rebaixamento à Série B para a Juventus em 2006, e na França custou a cassação do título do Olimpique Marseille em 1993.

No Rio de Janeiro, envolvendo a mesma FERJ, houve um grande escândalo em 1993, quando os árbitros Cláudio Vinícius Cerdeira e Cláudio Garcia denunciaram que numa reunião em 03/12/1993 o diretor de arbitragem Wágner Canazaro ressaltou para 70 árbitros da FERJ que eles deveriam atender à "Regra 18" (o livro de regras do futebol tem 17 regras), fazendo alusão indireta e implícita a uma "regra que atende aos interesses da federação". Flamengo, Fluminense e Botafogo ameaçaram desfiliar-se da FERJ, mas a FIFA interviu, ameaçando remover os três clubes de seu quadro, e os "rebeldes" recuaram.

Os problemas se arrastaram até o Campeonato Carioca de 1998, edição na qual Flamengo, Fluminense e Botafogo abandonaram o campeonato no meio do segundo turno, tendo o Vasco sido o campeão (neste ano houve o inédito "WO Duplo" quando Flamengo e Fluminense não compareceram para jogar no Maracanã).

Outro escândalo estourou em 2005, o que ficou batizado de "Máfia do Apito", quando várias partidas do Campeonato Brasileiro daquele ano foram anuladas pelo comprovado envolvimento do árbitro que atuou nelas, Edílson Pereira de Carvalho, com a manipulação de resultados em favor próprio no mercado de apostas clandestinas. A reviravolta prejudicou o Internacional, então líder do campeonato, e beneficiou ao Corinthians, que acabou campeão.

Mais um escândalo de grandes proporções em 2008, quando a Federação Paulista levantou suspeita sobre o São Paulo às vésperas do jogo contra o Goiás, que valia o título do Brasileiro para o clube paulista, o terceiro consecutivo. O motivo foi a identificação do envio de ingressos para o árbitro Wágner Tardelli (filiado à FERJ) para que ele e a família fossem assistir gratuitamente ao show da cantora Madonna no Morumbi. Tardelli acabou substituído por Jailson de Freitas às vésperas do jogo, e o São Paulo, confirmando as expectativas, foi o campeão naquele dia.

Ainda que as suspeitas sobre manipulação de arbitragem sejam quase tão antigas quanto o futebol, e ainda assim ele sobrevive como esporte mais popular do planeta, é inquestionavelmente importante que todo e qualquer caso de manipulação seja reprimido e os envolvidos severamente penalizados. É fundamental se preservar a desportividade para se garantir o nível de confiança e preservar os ganhos que movem o esporte que se tornou uma economia fortíssima.


Veja também: Caso Héverton: a verdade que nunca apareceu


2 comentários:

  1. É muito raro o Flamengo fazer algo corretamente...

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  2. É muito raro um clube de futebol no Brasil ter uma estrutura institucional e democrática capaz de fazer um escândalo emergir de uma investigação interna... Tem gente que vê o copo meio cheio, tem gente que vê ele meio vazio...

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