domingo, 29 de janeiro de 2023

Maiores Jogos da História do Flamengo: 22/10/44 - Flamengo 6 x 1 Fluminense

 


Jogos Inesquecíveis: 22/10/1944 - Flamengo 6 x 1 Fluminense

A capa do Jornal dos Sports na manhã de 22 de outubro de 1944 trazia em destaque na primeira página: "O Clássico das Multidões", para logo abaixo acrescentar: "lutarão os tricolores pela sua última chance, enquanto os rubro-negros defenderão a igualdade na tabela com o Vasco". Era a reta final do histórico Campeonato Carioca de 1944, no qual havia muita coisa em jogo.

O Flamengo era bi-campeão carioca de 1942 e 1943, e seguia em sua luta pelo tri-campeonato, feito histórico que o somente o Fluminense havia conseguido no Campeonato Carioca até então, três vezes tri-campeão do Rio, em 1906-1908-1909, 1917-1918-1919, e em 1936-1937-1938. Naqueles tempos o campeonato de 1907 ainda era considerado "sem campeão", tendo só muitas décadas depois um tribunal decidido dividi-lo entre Botafogo e Fluminense, logo considerava-se o tricolor como tri-campeão nas três primeiras edições da história do torneio de futebol do Rio de Janeiro. A série do final dos Anos 1910 foi interrompida pelo Flamengo, campeão em 1920, assim como a dos Anos 1930 também foi interrompida pelo mesmo Flamengo, campeão em 1939. Por isso, o Fla-Flu era considerado o grande clássico do Rio.

O time das Laranjeiras era comandado pelo técnico uruguaio Athuel Velásquez, e tinha seu principal jogador na linha de frente, o argentino Guido Baztarrica. E era em torno que giraram as polêmicas de última hora para aquele clássico. O meia-direita não estava em suas melhores condições físicas, não entraria em campo, mas segundo noticiaria a imprensa no dia seguinte, os jogadores tricolores pediram ao treinador que fosse forçada a presença dele em campo. Não funcionou! Não teria sido esta a razão para a goleada imponente e histórica, mas gerou crise na sede da Rua Álvaro Chaves. Afinal, do lado rubro-negro entrou em campo o argentino Agustin Valido, que havia se aposentado ao fim da temporada anterior, mas que convencido por Flávio Costa, treinador rubro-negro, voltava a entrar em campo vestindo a camisa rubro-negro após 19 meses sem atuar.

O fato relevante é que o Fluminense após a humilhante goleada sofrida, ainda estava fora da luta pelo título. Dali a uma semana, Flamengo e Vasco entrariam em campo na Gávea para definir quem seria o campeão da temporada de 1944.



Ficha Técnica
22/10/1944 - Flamengo 6 x 1 Fluminense
Local: Estádio da Gávea (Público: 15.085 espectadores)
Gols: Magnones (15'1T), Tião (18'1T), Modesto Bria (30'1T), Jayme de Almeida (41'1T), Zizinho (19'2T), e Pirilo (21'2T) e (34'2T)
Fla: Jurandir, Newton Canegal e Quirino; Biguá, Modesto Bria e Jayme de Almeida; Agustin Valido, Zizinho, Silvio Pirilo, Tião e Vevé.
Téc: Flávio Costa
Flu: Batatais, Norival e Morales; Raul Rodriguez, Jambo e Bigode; Pedro Amorim, Guido Baztarrica, Magnones, Nandinho e Pirombá.
Téc: Athuel Velásquez

A"Turma Flamenga"


A História do Jogo

Mais do que todas as circunstâncias históricas que cercavam aquela reta final do Carioca de 44, um fator a mais chamava a atenção de todos: a volta do argentino Valido ao campo de futebol. Agustin Valido havia anunciado a sua aposentadoria do futebol ao fim da temporada de 1943, com o Flamengo bi-campeão de futebol da cidade. Seguiria erradicado no Rio de Janeiro, e passaria a se dedicar integralmente à gráfica de sua propriedade que havia fundado com o dinheiro que a carreira de jogador de futebol lhe permitiu acumular. Estes eram seus planos.

No entanto, em outubro de 1944 o time de futebol do Flamengo enfrentava problemas na reta final do campeonato. A principal dificuldade já se arrastava ao longo do ano, que era recompor a perda do ponta de lança Perácio, que tinha sido convocado para lutar como soldado nos campos de batalha da Segunda Guerra Mundial junto ao exército brasileiro. Quem vinha segurando as pontas na posição era o jovem Zizinho, que despontara no time principal na temporada de 1940, mas sobre quem ainda havia dúvidas se estava preparado para carregar o meio de campo. Ele deu, provou isto ao longo do certame e o Flamengo vinha lutando cabeça a cabeça com o Vasco para ver quem seria o campeão.

Mas o treinador Flávio Costa tinha mais problemas. O veterano zagueiro argentino Sabino Coletta enfrentava sequenciais problemas de condicionamento físico desde que havia chegado ao clube, contratado no início da temporada junto ao Independiente para suprir a saída de Domingos da Guia, que tinha sido contratado pelo Corinthians e rumado para São Paulo. No meio de campo, o paraguaio Modesto Bria também sentia incômodos causados por uma furunculose, e no ataque o centroavante Pirilo vinha entrando em campo administrando as dores de uma inflamação no púbis. O time seguia no sacrifício na reta final. Tanto que assim o Jornal dos Sports fez menção à preparação para o clássico: "a cidade acompanhava a trajetória de um Flamengo não convincentemente envergado para o título, por ora o rubro-negro ainda não respondeu a uma 'prova dos nove' de capacidade". Todos esperavam que o Fla-Flu fosse o grande teste.

Foi então que o então jogador de futebol aposentado e agora empreendedor Valido foi à Gávea disputar uma pelada com os operários da sua gráfica, partida que foi assistida por Flávio Costa. Sua atuação encheu os olhos do treinador, mesmo sendo um jogo entre amadores. Ele convida Valido a voltar a treinar e a se juntar ao time durante a reta final do Campeonato Carioca. O argentino aceita o convite, após ficar 1 ano e 7 meses sem jogar futebol profissionalmente, ele retorna aos gramados. Treina junto com a equipe para recuperar o recondicionamento físico, e é justamente no Fla-Flu da penúltima rodada que o treinador entende que ele já tem condições de entrar entre os onze titulares. Logo em um clássico contra o Fluminense!

E o que aconteceu na tarde de 22 de outubro na Gávea, o Jornal "Diário da Noite" assim descreveu: "travou-se um Fla-Flu irreconhecível, em que não houve aquele espírito de luta que celebrizou o clássico das multidões, não houve rivalidade, não houve emoção, houve sim, o que não se supunha possível um Fla-Flu, a chuva de 'goals' que desabou sobre um dos adversários".

E foi o Fluminense quem saiu na frente, ironicamente. Após uma tabela entre Nandinho e Magnones que a defesa rubro-negra assistiu sem dar combate, a bola sobrou para este último no meio da área, livre, que bateu firme na bola para deixar ao goleiro Jurandir também sem reação. Gol tricolor! 1 a 0!

Durou apenas três minutos a vantagem tricolor. O Flamengo se aproveitou da superioridade que demonstrou desde que a partida se iniciou para encontrar o caminho da rede, e obter o empate. Gol de Tião! Após jogara de Zizinho e Pirilo pela direita, a bola é alçada para dentro da área e o ponta de lança Tião aparece para pegar de sem pulo, um chute com muita força, que deixa tudo igual no marcador. Era tão só o 18º minuto de bola rolando, e o placar já apontava 1 a 1.

Mas não tardou ao Flamengo para pular na frente. Justos treze minutos após o primeiro gol, foi convertido o segundo. O gol saiu numa cobrança de escanteio, alçada para a área por Vevé. O paraguaio Modesto Brio é quem aproveita, também de sem pulo, para marcar o segundo tento e colocar o vermelho e o preto em vantagem.

Antes ainda do intervalo, a primeira polêmica. Pirilo adentra com perigo à área tricolor. A defesa dá o combate, a bola fica viva na área, e então o zagueiro Morales entrando solando a bola, de cima para baixo. O juiz da partida assinala pênalti! O time tricolor parte todo em protesto. A nação do rádio avalia que quando muito, deveria ter sido assinalada uma jogada perigosa, pela solada na bola, com uma cobrança em dois toques dentro da área, mas jamais uma penalidade. Mas o árbitro aponta à marca da cal. O meia-esquerda Jayme vai para a cobrança e bate com precisão: 3 a 1! E foi assim que terminou o primeiro tempo de jogo.

A polêmica maior da tarde, que gerou muitas reclamações do lado tricolor se deu no início da segunda etapa, quando Biguá se chocou com Bigode e o árbitro assinalou uma penalidade a favor do Fluminense. A transmissão de rádio enfaticamente afirma ter sido um pênalti de compensação frente à reclamação que cercou o marcado na etapa inicial, havia sido um choque absolutamente normal, no qual nada deveria ter sido marcado. O centro-médio Jambo foi para cobrança. Quando ele se dirigia à bola, o juiz apitou, ainda que muitos dizem não ter escutado este apito, alertando que Jurandir estava fora de posição. Jambo seguiu sua caminhada ao ritmo desde que ouviu o primeiro apito do juiz. A bola foi para dentro do gol e o árbitro interrompeu a corrida para a comemoração que diminuiria a vantagem para 3 a 2 indicando que havia desautorizado a cobrança. Na repetição, o segundo chute de Jambo foi para fora. Indignação tricolor, e o placar seguia 3 a 1 favorável ao time rubro-negro. Durante a semana, a confusão levou a federação a afastar ao árbitro Durval Caldeira.

A pá de cal sobre os tricolores foi colocada aos 19 minutos do 2º tempo, pelos pés de Zizinho, que converteu o quarto gol rubro-negro. O jornal "Diário da Noite" colocaria em sua crônica: não resta mais qualquer dúvida, Zizinho é hoje o grande craque em atividade no Brasil, o maior. O gol sai após uma cobrança de escanteio cobrado por Agustin Valido. A bola passa pela disputa entre Pirilo e Morales e sobra para Zizinho, que aparece absolutamente desmarcado dentro da área para, com tranquilidade, deslocar o goleiro e assinalar o 4 a 1.

No quinto gol, o meia-direita uruguaio Raul Rodriguez perde a bola para Pirilo, que avança e toca na saída do goleiro para fazer mais um: 5 a 1! Por si só já era um resultado epopeico! O zagueiro Rodriguez, indignado e alegando ter sofrido falta de Silvio Pirilo, parte agressivamente em direção ao árbitro, a quem esteve a ponto de agredir fisicamente. Mas mesmo a agressão verbal já foi suficiente: cartão vermelho. O Fluminense jogaria os minutos finais com um jogador a menos em campo.

Aos 35 minutos saiu o sexto! Jogada de troca de passes entre Pirilo e Tião, e é este quem atira forte em direção ao gol. A bola vence ao arqueiro Batatais, mas acerta a trave. Caprichosamente, a bola retorna para o meio da área e encontra a cabeça de Pirilo, o grande nome da tarde, que escora para dentro de uma baliza vazia, praticamente desprotegida. A dez minutos do fim: 6 a 1! E poderia ter sido ainda mais, mas claramente se diminuiu a intensidade em campo, esperando única e exclusivamente o apito final. Goleada fabulosa!

A prova definitiva de aquela vitória não havia sido um mero acaso aconteceria nove meses depois, em jogo válido pelo Torneio Municipal de 1945, em partida disputada no dia 10 de junho no Estádio de São Januário. O Flamengo voltou a se impor de forma contundente num Fla-Flu, goleando então por 7 a 0, em tarde de quatro gols marcados por Pirilo, dois por Tião, e um por Adílson.

As páginas do Jornal dos Sports do dia seguinte aquela goleada por 6 a 1 resumiram tudo sobre aquele momento: "o campeonato da cidade venceu, domingo, sua penúltima rodada, proporcionando como acontecimento supremo a sensacional vitória do Flamengo sobre o Fluminrnse, o que cortou definitivamente as possibilidades dos tricolores e dos botafoguenses na luta pelo título máximo. O bicampeão da cidade está agora com o caminho desimpedido para enfrentar domingo que vem ao Vasco, no match decisivo da temporada". Uma semana depois, Valido marcaria de cabeça, e o tri-campeonato seria consumado, o primeiro da história rubro-negra.



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