domingo, 20 de setembro de 2026

2020: a amarelada do São Paulo que deu o título do Brasileirão ao Flamengo

Para o torcedor são-paulino, o Campeonato Brasileiro de 2020 terminou com uma sensação particularmente amarga, pois foi a história de uma equipe que, durante semanas, pareceu ter colocado a mão na taça e, em pouco mais de um mês, transformou uma vantagem confortável em um 4º lugar. O São Paulo de Fernando Diniz terminou o campeonato com 66 pontos - 18 vitórias, 12 empates e 8 derrotas - mas a estatística final não consegue traduzir a dimensão da oportunidade desperdiçada.

Foi um campeonato pós pandemia da covid, que aconteceu com estádios sem torcedor, um calendário totalmente fora do padrão frente às demais temporadas. A derrocada sãopaulina pode ser dividida em duas histórias. A primeira é a de um time que construiu uma liderança consistente e chegou ao fim de 2020 com uma vantagem que parecia praticamente suficiente para garantir o título. A segunda é a de um colapso iniciado justamente quando a equipe precisava administrar esta vantagem. O Flamengo, que terminou campeão com 71 pontos, foi o principal beneficiário, mas não foi o único concorrente, pois Internacional e Atlético Mineiro também passaram a disputar a liderança, enquanto Palmeiras e Grêmio permaneceram à espreita nas rodadas decisivas.

O ponto máximo da campanha são-paulina ocorreu na 26ª rodada. O Tricolor derrotou o Atlético Mineiro por 3 a 0 no Morumbi e chegou a 53 pontos, mantendo-se em 1º lugar. O Flamengo, naquela altura, tinha 45 pontos (portanto, 8 a menos) e ocupava a 3ª posição, atrás também do Atlético Mineiro. Esta foi justamente a maior vantagem do São Paulo sobre o Flamengo durante o campeonato, ao final da 26ª rodada. A tabela daquele momento registrava São Paulo em primeiro, Flamengo em terceiro e Atlético Mineiro em segundo, com 46 pontos.

Era uma posição especialmente confortável porque o São Paulo vinha de uma sequência impressionante, mas que rapidamente começou a mudar. Na 25ª rodada, mesmo perdendo o clássico paulista para o Corinthians por 1 a 0, permanecera na liderança, com 50 pontos, contra 46 do Atlético e 45 do Flamengo. Um revés que havia encerrado uma invencibilidade de 17 partidas no Brasileirão, mas que não parecia ainda representar uma ameaça real à campanha.

Ainda assim, na 27ª rodada a sensação de superioridade aumentou. O São Paulo venceu o Fluminense por 2 a 1 no Maracanã e foi a 56 pontos. O Flamengo tropeçou diante do Fortaleza, empatando por 0 a 0, e ficou com 49. A diferença para o time rubro-negro, portanto, era de 7 pontos (com o detalhe de que o Flamengo tinha um jogo a menos).

O problema é que a fotografia da 27ª rodada escondia uma transformação que já começava a ocorrer. O São Paulo havia encontrado sua melhor formação, com Luciano e Brenner na frente e Luan funcionando como sustentação defensiva. Brenner, especialmente, havia se tornado uma das grandes descobertas da temporada: depois de substituir Pablo, passou a formar com Luciano uma dupla extremamente produtiva.

Mas o mesmo sistema que funcionara muito bem passou a apresentar sinais de esgotamento. A saída com passes curtos desde a defesa, marca registrada do trabalho do técnico Fernando Diniz, começou a ser explorada de maneira sistemática pelos adversários. O São Paulo insistia em iniciar as jogadas desde o goleiro Tiago Volpi, mesmo quando pressionado, e os rivais passaram a colocar mais jogadores sobre a primeira linha de construção, fazendo uma marcação alta. O próprio Diniz reconhecia que os erros de saída vinham de decisões técnicas, posicionamento corporal e demora para acelerar a circulação.

A primeira grande rachadura apareceu na 28ª rodada, em 6 de janeiro de 2021. O São Paulo foi a Bragança Paulista e sofreu uma das derrotas mais simbólicas de toda a campanha: 4 a 2 para o Red Bull Bragantino. Pior que o resultado foi a maneira, pois o time sofreu quatro gols ainda no primeiro tempo, descrito pela mídia esportiva como “irreconhecível”, com uma defesa frágil e incapaz de responder à pressão. Até então, São Paulo e Grêmio tinham as melhores defesas do campeonato, com apenas 22 gols sofridos. Porém, naquela noite a estrutura defensiva sãopaulina simplesmente desmoronou.

Fernando Diniz assumiu a responsabilidade pela derrota e classificou aquela como uma das piores partidas de sua passagem pelo clube. Entretanto, a partida deixou uma marca ainda mais profunda por causa do conflito do técnico com Tchê Tchê. Durante o primeiro tempo, o treinador chamou o volante de “ingrato”, “perninha” e “mascaradinho”. Tchê Tchê respondeu, com uma áspera discussão entre os dois na beira do campo, próximo à lateral. Tchê Tchê acabaria sendo expulso no segundo tempo, e o episódio se transformou em uma crise de relacionamento dentro do elenco.

Para o torcedor, aquele momento condensava várias das críticas que vinham se acumulando contra Fernando Diniz. O treinador parecia incapaz de abandonar suas convicções quando o jogo exigia pragmatismo. A posse de bola continuava sendo tratada como um valor em si mesma, a saída curta continuava sendo executada mesmo sob forte pressão, e determinadas escolhas individuais pareciam blindadas. O caso mais evidente era Daniel Alves. O camisa 10 era, simultaneamente, o principal símbolo do projeto e um dos seus maiores problemas na reta final. Contratado como estrela, líder, e jogador capaz de decidir partidas, Daniel Alves atravessou uma longa sequência de atuações abaixo das expectativas. Em outubro, já havia 13 jogos sem marcar, e as críticas da torcida aumentavam. Ainda assim, Diniz raramente o retirava da equipe.

A crítica não era apenas sobre o desempenho de Daniel Alves, mas sobre a incapacidade de Diniz de fazer ajustes diante de uma queda individual. Em 20 de janeiro de 2021, em pleno Morumbi, em jogo válido pela 31ª rodada, o São Paulo foi goleado por 5 a 1 pelo Internacional. Ali, toda e estrutura do trabalho desmoronou em definitivo. Jornalistas argumentavam depois daquele jogo que manter Daniel Alves como titular, com poucas substituições ao longo dos jogos, era um dos erros de condução do treinador. A discussão sobre o camisa 10 se tornou, portanto, uma discussão sobre autoridade técnica: até que ponto o treinador conseguia colocar o melhor jogador do elenco no banco quando seu rendimento não correspondia?

Na 29ª rodada, o São Paulo já havia perdido em casa para o Santos por 1 a 0. Era um clássico contra um adversário que utilizava reservas por causa de seus compromissos pela Libertadores. Mesmo assim, o Tricolor foi incapaz de reagir ao gol de Jóbson, marcado logo no início do segundo tempo. A ficha do clube registra 68% de posse de bola e nove finalizações são-paulinas no primeiro tempo, mas o domínio territorial não se converteu em gol. Diniz reconheceu depois que o São Paulo havia feito um primeiro tempo “mais moroso” e com pouca intensidade. Para o torcedor, era um déjà-vu: muita bola, pouca contundência. A equipe continuava tentando controlar o jogo pela circulação, mas já não conseguia impor o ritmo que havia caracterizado sua melhor fase.

Na 30ª rodada, o São Paulo empatou por 1 a 1 com o Athletico Paranaense. O resultado não lhe tirou imediatamente a liderança, mas completou uma sequência devastadora: derrota para Bragantino, derrota para Santos e empate com Athlético. Em quatro jogos — Bragantino, Santos, Athletico e Internacional — o time faria apenas 1 ponto. A marca desta sequência foram os primeiros tempos ruins. O São Paulo foi para o intervalo perdendo em três desses quatro confrontos, e sofreu um gol logo no início do segundo tempo contra o Santos.

Foi então que veio o já citado jogo que simbolizou a perda do campeonato. Na 31ª rodada, em 20 de janeiro, o São Paulo recebeu o Internacional no Morumbi. O confronto era praticamente uma final antecipada. O tricolor paulista tinha 57 pontos e o Inter tinha 56 antes da rodada. O que se viu foi uma goleada histórica: São Paulo 1 x 5 Internacional, com três gols de Yuri Alberto. O resultado não apenas tirou a liderança do São Paulo como colocou o Inter na ponta, com 59 pontos contra 57 do rival.

A queda foi ainda maior porque, ao final daquela rodada, o Flamengo também avançou, estando em 3º lugar com 55 pontos, enquanto o Atlético Mineiro tinha 54. Ou seja, em uma única rodada o São Paulo passou de líder absoluto a 4º colocado na corrida real pelo título, ainda que permanecesse matematicamente muito vivo. Aquele 5 a 1 expôs problemas táticos, individuais e emocionais. O São Paulo já vinha cometendo erros na saída de bola, e a equipe tricolor também perdeu intensidade na pressão pós-perda, permitindo que o adversário atacasse espaços com velocidade. Yuri Alberto encontrou uma defesa desorganizada e explorou as falhas de posicionamento.

O desastre não ficou restrito ao campo. O clima interno se deteriorou. A crise com Tchê Tchê, a perda de confiança em alguns jogadores, e a pressão crescente sobre Diniz se somaram ao ambiente externo. Depois da goleada, torcedores chegaram a atacar o ônibus da delegação com pedras e bombas caseiras, ferindo Luciano. O episódio, absolutamente injustificável, ilustra o grau de ruptura emocional a que a campanha do São Paulo havia chegado.

O 32º jogo trouxe apenas mais frustração: 1 a 1 com o Coritiba no Morumbi. O São Paulo saiu na frente com Luciano, que vivia uma fase extraordinária, mas sofreu o empate de Sarrafiore. A equipe manteve 64% de posse e finalizou nove vezes no primeiro tempo, mas não conseguiu matar o jogo. O resultado deixou o São Paulo com 58 pontos, na vice-liderança, quatro atrás do Internacional.

Na 33ª rodada, a queda tornou-se ainda mais concreta. O São Paulo perdeu por 2 a 1 para o Atlético Goianiense em Goiânia. Com 58 pontos, permaneceu no G-4, mas já era apenas o quarto colocado: Internacional tinha 65, Flamengo 61 e Atlético Mineiro 60. Aquela derrota completava 7 jogos consecutivos sem vitória, e tornava insustentável a permanência de Diniz. Ele demorou a encontrar alternativas para um time que já havia sido decifrado. A insistência na saída curta, a dificuldade para mudar a estrutura durante os jogos, e a transformação de Daniel Alves em uma espécie de jogador intocável, todos eram sintomas de uma rigidez que contrastava com a necessidade de adaptação.

O segundo equívoco foi administrar mal a crise emocional. A explosão contra Tchê Tchê não pode ser tratada como causa isolada da queda, mas foi um marco da deterioração do ambiente. O problema não era apenas gritar com um jogador, era a impressão de que o treinador estava perdendo o controle justamente quando precisava transmitir estabilidade. Depois do episódio, o ambiente dos treinamentos ficou pesado e Diniz precisou se retratar com o elenco e com a família do jogador.

O terceiro ponto foi ele não conseguir renovar as soluções ofensivas e defensivas. Quando Luciano e Brenner funcionavam, o São Paulo parecia irresistível, mas quando um deles estava ausente ou marcado, a produção caía. Na reta final, Diniz passou a lançar jogadores que praticamente não haviam participado da temporada, como Santiago Tréllez e Gonzalo Carneiro, em tentativas desesperadas de mudar partidas. O movimento foi interpretado como sinal de que o treinador havia perdido alternativas previamente construídas.

Um quarto diagnóstico foi a manutenção de determinados jogadores em má forma. Daniel Alves era o principal caso, mas não o único. Tiago Volpi também passou a sofrer críticas, particularmente por falhas em momentos decisivos. A torcida passou a associar a crise a um núcleo de jogadores que, apesar do currículo ou da confiança do treinador, não entregava o mesmo nível da arrancada.

A diretoria também teve responsabilidade na turbulência. Raí, dirigente que sustentara a permanência de Fernando Diniz durante momentos anteriores de pressão, deixou o cargo no começo de 2021. Júlio Casares, recém-chegado à presidência, decidiu inicialmente manter o treinador, mas a sequência de resultados tornou a decisão insustentável. Depois do jogo contra o Atlético Goianiense, Diniz já chegava a sete jogos sem vencer.

Na 34ª rodada, realizada de forma atrasada, o São Paulo empatou por 1 a 1 com o Palmeiras. Era uma das últimas oportunidades matemáticas de reação. Luciano marcou de pênalti e o tricolor segurou a vitória até os acréscimos, mas Rony empatou aos 48 minutos, um resultado que eliminou definitivamente as chances de título do São Paulo. A imagem era perfeita para a campanha: o time esteve a quatro minutos de manter vivo o sonho e novamente deixou escapar. Mas o leite já estava derramado havia muito tempo!

A partir dali, o título já era uma disputa entre Flamengo e Internacional, com Atlético Mineiro ainda matematicamente próximo. Ao final da 34ª rodada, o Inter liderava com 66 pontos, Flamengo tinha 64, Atlético Mineiro 60 e São Paulo 59. Na 35ª rodada, já sob o interino Marcos Vizolli no lugar de Diniz, que havia sido demitido, o São Paulo empatou em 1 a 1 com o Ceará e continuou em quarto, com 59 pontos. O Flamengo chegou a 65 e o Internacional a 66.

Na 36ª, o São Paulo venceu o Grêmio por 2 a 1 em Porto Alegre. Foi a primeira vitória do time em 2021 e recolocou o tricolor na terceira posição, com 62 pontos, atrás dos já distantes Internacional, com 69 pontos, e Flamengo, com 68, que disputavam o título cabeça a cabeça naquelas rodadas finais.

Mas a posição durou apenas uma rodada. Na 37ª, o São Paulo perdeu por 1 a 0 para o Botafogo, já rebaixado. Reinaldo foi expulso, Luciano perdeu um pênalti, e Matheus Babi marcou o gol da vitória botafoguense. O tricolor caiu novamente para o 4º lugar, com 63 pontos, e passou a correr risco até de perder a vaga direta na Libertadores para o Fluminense.

Na última rodada, o São Paulo derrotou o Flamengo por 2 a 1 no Morumbi. Foi uma vitória irônica: o time que havia liderado por tantas rodadas venceu justamente o futuro campeão, mas já não podia recuperar o campeonato. Flamengo terminou com 71 pontos, Internacional com 70, Atlético Mineiro com 68, e São Paulo com 66 pontos. A sequência da classificação, portanto, resume a derrocada do São Paulo: 1º na 30ª rodada; 2º na 31ª e na 32ª; 4º na 33ª; 4º na 34ª e na 35ª; 3º na 36ª; 4º na 37ª; e 4º ao final. O São Paulo perdeu a liderança na 31ª rodada depois de ter permanecido no topo por um longo período.


Para o torcedor são-paulino, talvez seja essa a imagem que melhor explique o fracasso: o clube não perdeu apenas um campeonato, perdeu a capacidade de administrar uma vantagem que, em determinado momento, chegou a 8 pontos sobre o Flamengo. O time tinha futebol para ser campeão, tanto que chegou a abrir 7 pontos sobre o vice-líder a 11 rodadas do fim, mas não conseguiu transformar superioridade em controle. A grande tragédia esportiva do São Paulo em 2020 foi que a equipe não caiu de uma vez, ela foi se desfazendo aos poucos. O Flamengo aproveitou a oportunidade. O Internacional chegou a assumir a liderança e travou uma disputa praticamente ponto a ponto até a última rodada. O Atlético Mineiro permaneceu próximo até o fim.

É por isso que, olhando retrospectivamente pela ótica são-paulina, o Brasileirão de 2020 não é lembrado simplesmente como um campeonato perdido, é lembrado como o campeonato que esteve nas mãos do São Paulo e escapou por entre os dedos. No fim, restou uma das maiores ironias daquela campanha: o São Paulo terminou o campeonato com 66 pontos, apenas cinco abaixo do campeão Flamengo e quatro abaixo do Internacional.


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